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Nelson Wedekin homenageia Valdir Alves, o Didi

06 de agosto de 2014 2

A imprensa catarinense perdeu recentemente o jornalista Valdir Alves, o “Didi”, figura querida, profissional leal e autêntico que brilhou na imprensa na segunda metade do século passado. Ele recebeu homenagens dos colegas e de vários líderes do antigo MDB e do PMDB. O ex-senador Nelson Wdedekin envia um belo texto, intitulado “Abençoado Camarada”, que o blog transcreve como preito de admiração e saudade a Valdir Alves. Leia:

“O meu amigo de fé, irmão camarada Valdir Alves, o Didi, cometeu a indelicadeza de nos deixar, assim sem mais. Nada em Didi havia para perdoar. Alma boa, amigo leal, coração doente – que o levou – porém aberto e generoso, no qual não existia lugar para ressentimento ou malquerença.

Didi foi jornalista e militante comunista. Nem mesmo a humilhante derrocada da antiga União Soviética abalou a fé, o compromisso, senão com o socialismo, ao menos com o ideal de justiça, paz, igualdade e democracia.

O fato de militar na esquerda jamais impediu Didi de olhar o outro – de outra classe social, de outro credo político – com absoluto respeito. Jamais fez concessão ao oportunismo, à subserviência, ao preconceito de classe.

Era adepto da “realpolitik”, realista e pragmático. A correlação de forças não permite as Diretas-Já? Ora, demos um passo avante com Tancredo, no Colégio Eleitoral. O MDB/PMDB abriga muita gente da oligarquia e da direita? Pois não. Em compensação todos os democratas estão no partido. Para derrubar a ditadura é preciso engolir certos sapos? Pois que venham os sapos. E por aí vai.

Valdir Alves defendia o avanço, sempre, mesmo que fosse pequeno o espaço a conquistar. Recuo? Pode ser, na perspectiva de retomar logo o caminho e o objetivo, como tantas vezes se faz na vida e na arte da guerra. Didi tinha – como os comunistas em geral – perfeita noção do que era tático e do que era estratégico.

Didi tinha muitos amigos. Era fácil gostar dele, sempre otimista, bem humorado, afável. Não me lembro de tê-lo visto levantar a voz. Mantinha a calma e a serenidade mesmo nos momentos mais críticos. Só conheço um episódio em que ele perdeu a estribeira. No velho e bom Bar Reçaka (que pertencia a outro comunista, o saudoso Ugo Dickluber) ele flagrou um personagem muito conhecido na cidade – de quem não declino o nome porque já é falecido – falando mal de mim. Didi, que conhecia bem a história, lembrou o sujeito que eu lhe havia prestado ao menos dois favores consideráveis. O dito cujo insistiu nas diatribes. Didi – embora mais baixo e mais fraco do que o seu interlocutor – desceu-lhe a mão.

Os seus últimos anos foram difíceis. Na metade dos anos 90 ele descobriu, depois de um grande susto, ser portador de uma cardiopatia grave. Nem por isso abriu mão do cigarro, que ele fumava com indisfarçável prazer. Na bebida, mudou do uísque para o vinho, “ por recomendação médica”, como gostava de dizer com o olhar maroto.

Não estou certo se ele descobriu o mar e a navegação antes ou depois do susto. Mas ele transbordava de emoção ao falar de suas aventuras no veleiro, a singrar enseadas, baías e o mar aberto, sol na cabeça, vento no rosto, o respingo das águas no corpo, o balanço das ondas, a sensação de plenitude. Didi era assim. Velejar não era recomendável para um coração fraco, mas ele gostava de viver com intensidade.

Há cinco ou seis anos ele fez uma terapia de células-tronco no coração combalido. Para ele, o tratamento tinha dado certo. Não sei se ele acreditava mesmo nisso, ou só queria acreditar, ele que amava a vida. De fato ele viveu mais cinco ou seis anos até o desenlace.

Nunca ouvi de Valdir Alves uma palavra de queixa a respeito da saúde precária. Preferia falar dos prazeres simples da vida, de livros, textos e autores e, claro, das coisas da política. O seu otimismo se expressava em um dos seus dizeres prediletos: “ No fim tudo dá certo. E se não deu certo ainda é porque ainda não chegou no fim”.

Há mais ou menos um mês ele me enviou um e-mail meio queixoso. Ele acompanhou de perto, em função de textos que lhe mandei, uma mudança dos conceitos que defendi ao logo da minha vida pública. Quando se milita no partido, quando se pertence a uma corrente política, de certo modo fica-se compelido nos limites de uma visão de mundo, de um determinado conjunto de valores e princípios. Mas hoje em dia, cidadão comum, não tenho nenhuma razão para achar que o Chile de Pinochet era uma ditadura e ao mesmo tempo silenciar sobre a ditadura cubana dos Castro. Não se pode alcançar fins justos através de meios injustos. Não se pode aspirar a justiça e a igualdade silenciando as vozes discordantes. Não há sobrevivência digna – nem mesmo se as necessidades fundamentais do homem estão atendidas – sem a vigência plena das liberdades e sem respeitar os direitos humanos.

Líderes revolucionários como Lênin, Fidel, Guevara em nada me comovem hoje em dia: prefiro Gandhi, Luther King, Mandela, artífices da paz. A proporção de pessoas de bom caráter e de boa índole é a mesma entre empresários e trabalhadores, entre homens e mulheres, entre gaúchos e catarinenses. Os governos – todos – têm uma irresistível compulsão para a mentira. Se derem o circo para o governo cuidar, o anão vai crescer – com a licença de Delfim Netto. “A gente acha que a esquerda é de um jeito, a direita de outro, e o centro, de outro mais. No governo, a gente aprende que a natureza humana é uma só” (Ricardo Kotcho, jornalista, lulista e petista).

No e-mail, Didi dizia que gostava mais dos meus pronunciamentos no tempo que eu era político. Mas não me fazia uma cobrança dura. Eram, segundo ele, observações de um “velho bolchevique”, que em nada comprometia a nossa amizade. Que estava com vontade de tomar um vinho comigo para botar a conversa em dia. Disse também que eu parecia um “menchevique ranzinza”.

Na minha resposta, indaguei de que parte do meu “novo discurso” ele não gostava, uma vez que ele não mencionava nenhuma em particular. Concordei com ele: sim, estava ficando cada vez mais ranzinza. Mas a pecha de menchevique eu não aceitava, pela razão singela de que não sabia mais o que era isso. Estava de pleno e efusivo acordo quanto ao papo e o vinho. Ele me respondeu com palavras muito amáveis e calorosas, não citou de que ponto em especial ele discordava, e reiterou o convite para o encontro.

Porém, o meu abençoado irmão e amigo resolveu se mandar em má hora – para a partida, não existe hora boa. Não pude chegar a tempo para o velório. Choro a morte do fraterno camarada. Vou sentir a falta da voz calma e pausada, do humor esperto, da ironia fina, da paixão e humanidade que ele irradiava. Foi uma pena ter partido tão cedo, antes mesmo de tomar o bom vinho, do papo combinado. Certamente iríamos rir dos outros e de nós mesmos, apresentaríamos soluções definitivas para a pátria amada, e celebraríamos a vida, recontando as bênçãos com que ela nos agraciou, na aventura comum.

Tudo bem, Didi. Soube que deixaste a vida de forma serena, quase sem sentir. Consta que voaste como um passarinho. Gosto de pensar que, na dimensão insabida, singras os mares da eternidade, com o coração agora batendo valente e forte, cabelos ao vento, olhando o pôr do sol e a estrela da manhã.

Nelson Wedekin.”

Comentários

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Comentários (2)

  • James Siewerdt diz: 7 de agosto de 2014

    Ao Wedekin. Em tempo de desprazer e de decepções mil com a maioria dos políticos e totalidade dos partidos, agora sinto orgulho de ter te acompanhado na jornada de 90. Lembro do pouso do helicóptero no velho campo do Imperial, aqui em Pouso Redondo. Não obtivemos êxito, mas nem por isso mudamos. A razão de estar me manifestando, é porque me acho emocionado por encontrar alguém com pensamento bem próximo do meu. Militei tempos no PDT, e ainda hoje me sinto brizolista, talvez porque nada, no aspecto moral, manchou o nome de Brizola. Que bom te encontrar na plenitude intelectual. Parabéns pelo texto, onde demonstras ser amigo leal.

  • Luiz Carlos Verdieri diz: 9 de agosto de 2014

    Saudades dos velhos tempos de luta, meu amigo e camarada Nelson Wedekin. Brilhante o seu post sobre o nosso saudoso velho de guerra Didi Alves, num espaço mais que democrático de um outro grande amigo Moacir Pereira.
    Obrigado meus amigos
    Um forte abraço
    Verdieri