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Como transformar uma empresa estabelecida em 'inovador serial'

29 de maio de 2016 0

Por Maximiliano Carlomagno*

Emergiu, recentemente, um mito no campo da gestão da inovação. De que a inovação é exclusividade das startups pois a produtividade da inovação depende da forma como são gerenciados os projetos inovadores. As grandes empresas são indutores decisivos dos avanços tecnológicos e de negócios. Mas, para transformar uma empresa estabelecida em inovador serial, é necessário mais do que um conjunto de novas técnicas de gestão de projetos.

Imagem Pixabay

Imagem Pixabay

Os últimos anos foram pródigos em disseminar uma nova abordagem e ferramentas para suportar o desenvolvimento de novas ideias e a gestão de projetos inovadores. Se você leu sobre design thinking, lean startup ou business model canvas já sabe que, para atingirem bons resultados, os projetos inovadores precisam ser gerenciados de forma distinta das atividades rotineiras.

Uma série de teorias se consolidaram nesse sentido. Como disse o professor Bob Sutton, de Stanford, o trabalho rotineiro precisa ser previsível, evitar erros e garantir eficiência. Já a inovação lida com a incerteza, erros e variabilidade. A solução passa por aplicar métodos ágeis, que usem da experimentação como forma de gerar conhecimento onde não existe. Você deve buscar insights no campo, entrevistando, observando e imergindo no contexto de seus usuários, como defende Tom Kelley da IDEO. Depois disso, deve identificar as incertezas e ir validando suas hipóteses, claro, como defendeu Eric Eies. Seu projeto inovador terá melhores chances ao tratar todo o modelo de negócio como fonte de oportunidades, como destacou Osterwalder.

E isso funciona? Sem dúvida.

É suficiente para transformar sua empresa em inovador serial? Não.

 

A mecânica de gestão de projetos inovadores envolve uma das dimensões que impactam a produtividade da inovação. Ou seja, aquilo que faz sair mais inovação a cada esforço colocado. A inovação é um fenômeno organizacional dependente de outros elementos que formam um sistema necessário para faze-la acontecer. Dominar o processo e as ferramentas de gestão de projetos é uma das partes desse sistema.

O OCTÓGONO DA INOVAÇÃO

Octógono da Inovação - Innoscience

Octógono da Inovação – Innoscience

A Innoscience consolidou esses elementos numa teoria robusta e aplicada. Denominamos de Octógono da Inovação o conjunto de elementos que compõe esse sistema. Compreender as teorias, pesquisadores e suas prescrições para essas dimensões pode ser decisivo para obter ou não resultados da inovação.

O primeiro passo é ter uma estratégia clara de negócios que permita posicionar o papel da inovação para direcionar que tipo de inovações priorizar. Os melhores inovadores, como defendem Hamel e Markides, pesquisadores da London Business School, são aqueles que estabelecem plataformas para focar a empresa na busca por inovações.

A inovação é uma mentalidade mais do que qualquer outra coisa. Como enfatiza o professor Bill Aulet, com quem tive a oportunidade de estudar na Sloan School do MIT, a cultura come a estratégia no almoço. Inovação requer uma visão distinta dos gestores sobre semear o futuro hoje, mesmo quando isso não lhes beneficia diretamente. Sem a mentalidade adequada, o dia a dia e a operação liquidam a inovação.

O adubo dessa semeadura são as lideranças da empresa que alocam o recurso mais escasso de seus times: a atenção gerencial. Um dos grandes gargalos da inovação é o modelo de time de projeto part-time, onde ninguém é totalmente dedicado. Quanto mais radical é a inovação em relação ao modelo de negócio existente, mais autonomia e separação o time deve ter em relação a estrutura vigente para ter chances de prosperar. O professor Christensen, de Harvard, fez essa prescrição quando estudou a inovação disruptiva no setor de disk drives. Não há como disputar medalha em Olimpíadas treinando 3h, terças e quintas feiras, contra alguém que treina 8h, diariamente. Não há como criar algo realmente novo na sobra de tempo.

Falando em times, sem as pessoas adequadas, cumprindo os diferentes papéis de idealizador, refinador, experimentador e executor, a inovação não acontece. A nossa teoria das competências individuais para inovar evidencia que gerar novas ideias é a parte fácil da inovação. Sem execução, a inovação vira alucinação. Para tanto, é decisivo identificar as competências do seu time e capacita-lo com as ferramentas adequadas para inovar.

No entanto, o dia a dia tira esse sistema de giro mesmo quando ele foi adequadamente estruturado. É nesse momento que a governança dessa estrutura é mais necessária. Não importa se você tem ou não um ‘ministério da inovação’, o importante é ter as atividades e responsáveis claros e estabelecidos.

Imagem Pixabay

Imagem Pixabay

Time dedicado, estrutura separada, execução e capacitação demandam recursos para sua realização. A forma como as empresas avaliam as oportunidades de inovação e alocam funding precisa condizer com o nível de incerteza, imprevisibilidade e agilidade dos projetos inovadores. Juntar inovação e operação no processo de priorização de oportunidades reduz a chance dos projetos inovadores como atesta a professora Rita McGrath, de Columbia.

O mais interessante é que os recursos financeiros e de conhecimento não estão todos dentro de sua empresa assim como muitas de suas ideias poderão ser melhor monetizadas por outras organizações. Colaborar com universidade, clientes, fornecedores, startups e institutos de pesquisa para aproveitar seus relacionamentos é a melhor forma de se manter sensível às oportunidades e de transformar essas oportunidades em resultado, praticando a ideia do professor Henry Chesbrough de inovação aberta.

Se você já tem clientes, produtos e faturamento, não desanime. Isso é tudo que um empreendedor gostaria de ter. Manter e crescer o seu negócio exigirá que você aborde a inovação de forma estratégica e gerenciada, abrangendo todo sistema que compõe a inovação.

Para tanto será importante ir além do design thinking e lean startup e configurar adequadamente os 8 elementos do Octogono da inovação. Contar com as melhores teorias aumenta a chance de você ter os melhores resultados. Ou prepara-se para ser suplantado por uma startup.

Maximiliano Selistre Carlomagno, colaborador do Mundo dos Negócios na área de inovação, dá dicas e conta o que há de novo sobre o tema nas empresas no Brasil e no exterior. Sócio fundador da Innoscience, Consultoria em Gestão da Inovação, é autor do livro Gestão da Inovação na Prática e do e-book A Prática da Inovação. É mentor Endeavor e presidente do Comitê de Inovação da Amcham.

 

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