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Trump é bom ou ruim para a economia brasileira?

06 de fevereiro de 2017 0

Mundo dos Negócios convidou o sócio e diretor de Gestão de Renda Variável e Distribuição da Quantitas Gestão de Recursos, Wagner Faccini Salaverry para responder a uma questão muito importante para o Brasil: como as medidas econômicas anunciadas pelo recém empossado presidente americano, Donald Trump vão afetar os brasileiros?

Donald Trump

Donald Trump

Abaixo, o texto do especialista:

“A recente eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA tem gerado tensão e preocupação no exterior e no Brasil, por conta das manifestações contrárias raivosas de setores à esquerda do universo político e também do elevado ruído na mídia, que tem exacerbado visões negativas para o novo presidente da maior economia do mundo.

Com uma postura conservadora e combativa aos opositores e adversários, Trump fez uma campanha destinada a atender às demandas de emprego e renda dos eleitores da classe média norte-americana dos estados menos ricos daquela nação – os chamados “red necks”. Para tanto, definiu as bases de sua política econômica em dois pilares principais:

1) COMPRE de americanos (Buy America)

2) CONTRATE americanos (Hire America)

Redução de impostos para empresas e consumidores, adição de tributos para importações, desregulamentação de alguns setores e mudanças em acordos comerciais também são itens da agenda econômica de Trump.

Já na primeira semana de governo Trump retirou os EUA da Parceria Transpacífico (acordo que ainda não havia sido aprovado pelo Congresso), afirmando também que revisará o NAFTA, acordo econômico feito entre EUA, México e Canadá em 1994 e que fortaleceu muito o comércio entre esses países (junto com a China, os maiores parceiros comerciais dos EUA).

Também deu ordem para a construção de um muro na fronteira com o México, e prometeu ser duro contra imigrantes ilegais e aqueles que se envolveram em crimes, deportando-os.

Radical, nacionalista, isolacionista, voltado para os interesses de curto prazo dos norte-americanos que votaram nele, Donald Trump será um presidente que provavelmente alterará – em maior ou menor grau – a forma como os EUA se relacionam com o mundo.

Fica a pergunta: quais as consequências da gestão Trump para o Brasil?

Antes de tudo, vamos avaliar as relações comerciais entre os dois países.

Atualmente o maior parceiro comercial brasileiro, com um volume comercial de US$ 47,3 bilhões com nosso país em 2016, os EUA perderam sua longa condição de líder no comércio bilateral com o Brasil para a China (US$ 58,5 bilhões) a partir de outubro de 2009.
Já para os EUA o Brasil é apenas o 14º país em corrente de comércio (importações + exportações), com cerca de 1,5% do comércio exterior norte-americano – China, Canadá e México representam cerca de 45% do total, e negociam isoladamente cerca de 10 vezes mais que o Brasil.

Maior economia do mundo, os EUA compram do Brasil principalmente produtos básicos como petróleo, café, celulose, produtos siderúrgicos básicos (tarugos e placas), granito, ouro, álcool, carne, suco, madeira, couro e tabaco, mas também produtos com grande peso tecnológico, como aviões, máquinas, veículos e peças. Sua pauta de exportações para o Brasil não é muito diferente em perfil, com grande presença de produtos básicos como diesel e gasolina, carvão mineral, diversos tipos de químicos e petroquímicos, adubos e trigo. Ao mesmo tempo, parcela importante das exportações norte-americanas está relacionada a medicamentos e peças de automóveis e aviões, com grande conteúdo de tecnologia e complementariedade com indústrias brasileiras (relação de fornecimento na cadeia produtiva).

Mas, o que podemos concluir disso tudo?

De forma resumida, que nosso comércio bilateral com os EUA envolve principalmente produtos básicos, com baixo grau de tecnologia, tanto nas importações quanto nas exportações. Boa parte dos itens tecnológicos que o Brasil importa por não produzir internamente, como produtos de telefonia e comunicação, até tem relação com os EUA por terem sido concebidos e pesquisados lá, mas sua manufatura é feita na China ou em países asiáticos, de onde importamos quase tudo.

Assim, nosso entendimento é que o Brasil tende a ser pouco afetado por medidas diretas de Trump, por conta de alguns fatores:

1- Além de pouco representativo no comércio internacional dos EUA (14ª posição), os EUA apresentaram superávit comercial de US$ 4 bilhões com o Brasil em 2016, o que deve retirar nosso país do foco de medidas imediatas de Trump;

2- O Brasil não participa de qualquer acordo comercial em que os EUA estejam presentes, de forma que qualquer medida relacionada a este tópico (saída do TPP e mudanças no NAFTA) não afetará diretamente nosso país;

3- A maior parte da pauta de exportações brasileiras tem perfil semelhante ao das exportações norte-americanas para cá, sendo formada por produtos que dificilmente serão taxados, por serem insumos para a produção de outros produtos nos EUA (petróleo, celulose, couro e tabaco) por terem difícil ou inexistente substituição local (café, granito, carne e madeira), ou por participarem de uma cadeia de fornecimento em que empresas norte-americanas exportam com superávit para o Brasil (máquinas, veículos, peças e aviões).

Há de se considerar que alguns efeitos indiretos das medidas de Trump poderão afetar o Brasil, dentre os quais destacamos:

1- Caso a China e outros países que tem os EUA como grande mercado para suas exportações sejam afetados por medidas protecionistas de Trump, há risco de que as economias destes países sejam afetadas, o que poderia afetar a demanda por importações de produtos brasileiros –- se a economia chinesa desacelerar por conta de Trump, é possível que as importações de soja, minério de ferro e petróleo (cerca de 70% do total comprado pelos chineses) diminuam, afetando nosso principal parceiro comercial;

2- De acordo com economistas, muitas das medidas sinalizadas por Trump (protecionismo, redução de impostos e estímulo à produção local) têm o potencial de aumentar a inflação, elevar investimentos em ativos físicos e acentuar o déficit fiscal nos EUA, o que tende a provocar não só aumento dos juros pelo Banco Central norte-americano (FED) como também fortalecer o dólar perante outras moedas (retorno de capitais aos EUA e maior aversão aos emergentes afetados). Se isso ocorrer, o Brasil terá dificuldades, tanto pelo efeito do aumento do dólar pressionando a inflação, quanto na necessidade de aumentar juros para reter capital estrangeiro no país.

3- O Brasil poderá se beneficiar de um possível processo de revisão e criação de novos acordos comerciais. O desinteresse ou inabilidade dos governos petistas em inserir o Brasil em acordos comerciais relevantes, que envolvam os EUA ou blocos econômicos da Europa ou Ásia (em contrapartida ao desprezível Mercosul) gerou consequências graves para o país. Isto poderá ser resolvido, caso uma nova rodada de mudanças ou revisões permita que o Brasil se insira, tomando o espaço dos EUA no fornecimento de produtos do agronegócio (onde ambos são relevantes), ou que ao menos ofereçam condições de desenvolvimento e disputa pela indústria nacional.

Antes de concluirmos, cabe uma última indagação: é possível identificar empresas brasileiras potencialmente beneficiadas ou afetadas pelas políticas de Donald Trump?

Embraer, JBS, Petrobras, Braskem, Gerdau, Fibria, Suzano, Iochpe, Weg, Tupy, Fras-Le e Valid são exemplos de companhias abertas negociadas na Bovespa que tem volume representativo de negócios nos EUA e na região do Nafta. É difícil afirmar com maior precisão se alguma destas empresas tende a se beneficiar ou prejudicar com alguma medida do novo presidente norte-americano, dado que não se sabe que medidas serão implantadas pelo novo governo, tampouco a capacidade destas companhias e suas cadeias de negócios se adaptarem a novos cenários de demanda, competição e tributação. De qualquer forma, aquelas que possuem unidades produtivas nos EUA tendem a ser favorecidas pelas políticas do Buy America e Hire America – casos mais evidentes, são os de Embraer, Gerdau e JBS, em que não apenas há fábricas nos EUA, como este figura como o primeiro ou segundo mercado para seus produtos.

O fenômeno Trump na economia será complexo e indiscutivelmente gerará discussão. Tem boas chances de afetar diversas cadeias de negócios já consolidadas e também os preços e a oferta de muitos produtos nos EUA e em países que comercializam com a maior economia do mundo. O Brasil não será dos mais afetados diretamente, pelas razões já expostas, mas certamente sofrerá – em maior ou menor grau – aos efeitos indiretos no câmbio e nos juros. Estes efeitos poderão ser minimizados se tivermos feito o dever de casa e promovido a agenda de reformas já sinalizada pelo Governo, o que permitirá queda mais consistente do déficit fiscal e da inflação, e por consequência dos juros, bem como uma recuperação da atividade econômica que fortaleça nossa moeda, tornando-nos mais fortes para enfrentar os diferentes impactos e efeitos possíveis do presidente que quer “Fazer a América grande novamente – Make America great again”.

Wagner Faccini Salaverry é sócio e diretor de Gestão de Renda Variável e Distribuição da Quantitas Gestão de Recursos. Tem experiência de mais de 15 anos no mercado financeiro e de capitais. Iniciou sua carreira na Geração Futuro, tornando-se sócio e diretor do Geração Futuro Banco de Investimentos, da Geração Futuro Corretora de Valores e da Geração Administração de Recursos. Administrador de carteiras e analista de investimentos autorizado pela CVM e certificado pela Anbima. Graduado em administração de empresas com área de concentração em finanças pela UFRGS.

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