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Testemunha das hordas

Torcedor desesperado durante a final da copa europeia de 1985, entre Juventus e Liverpool,
em Heysel, na Bélgica, episódio narrado em Entre os Vândalos, de Bill Buford

Este post não deixa de ser uma curiosa junção de retalhos desimportantes da biografia deste que vos escreve, e não que vocês tenham realmente interesse nisso, mas se quiserem continuar lendo, tudo bem, senão, pulem direto ali para o título em letra maior e de cor marrom logo abaixo da imagem de capa do livro e podem continuar direto do ponto em que começa o texto de Luiz Zini Pires sobre a reportagem Entre os Vândalos, escrita pelo americano Bill Buford, uma radiografia ímpar do fenômeno do hooliganismo na Inglaterra dos anos 1980. O livro foi publicado em 1992 no Brasil, pela Companhia das Letras. Fui tomar conhecimento dele em 1994, quando ainda não era jornalista de ZH – para falar a verdade, não era sequer jornalista, estava na metade da faculdade, vivendo um ano de intensas descobertas em vários campos da vida e da profissão, mas isso não vem ao caso. Só fui comprar o livro anos mais tarde, e sua leitura provocou um impacto que  permaneceu comigo até hoje, pelo exemplo de peça jornalística que Entre os Vândalos é (jornalistas, vocês sabem, se consideram intelectuais porque leem livros-reportagem ou obras sobre o próprio jornalismo).

Buford, é melhor deixar claro, não é o baterista do Yes, aquele é o Bill Brufford (faço essa observação porque na época em que comprei o livro e o estava lendo, fui interpelado com a pergunta de se aquele era o “cara do Yes” por quatro dos meus amigos, mas vai ver o problema é com os meus amigos, não com vocês). Ele na época vivia em Londres há mais de uma década, embora fosse americano de nascimento. Para escrever o livro, passou a ir regularmente aos estádios ingleses com grupos de torcedores hooligans (destaque para a turma do Manchester United) e relatar o que viu. Buford é também autor de Calor, livro que foi publicado aqui no Brasil pela mesma Companhia e que alterna sua experiência como aprendiz de cozinha no Babbo, um restaurante chique de Nova York, e o perfil do dono desse restaurante, Mario Batali, destaque da gastronomia nova-iorquina. Buford, como se vê, é um jornalista adepto da imersão e da vivência do tema que está pesquisando (nem sempre com os melhores resultados, claro; em Calor ele narra humilhações, ferimentos, queimaduras e a exaustão física resultante do trabalho pesado em uma cozinha de alta gastronomia; em Entre os Vândalos conta como, viajando com os torcedores do Manchester a Turim, acabou levando uma linda sova no lombo quando a polícia encurralou os hooligans ingleses após o jogo e desceu o cacete).

Mas voltando à junção de fios passados: o que me fez saber do livro em 1994 – e que me levaria a comprá-lo mais tarde, lá por 2000, acho – foi um texto publicado em 6 de novembro de 1994 na Zero Hora (Um domingo, eu não sabia o dia exato, mas me lembrava de que havia sido um domingo. Na época eu era estagiário ganhando supermal na assessoria de imprensa da Febem e ia filar rango na casa da tia da minha então namorada, mais tarde esposa e mais tarde nada, e era na casa dessa tia que eu lia jornais). Esses dias, ao passar por uma livraria, vi que a Companhia está relançando Entre os Vândalos em formato bolso (não deixa de ser interessante notar que naquele primeiro ano do Real a edição em tamanho normal custava R$ 15,50. Hoje, a de bolso custa R$ 24). Aproveitando a oportunidade (o “gancho” como diríamos), fui ao banco de dados de Zero Hora para desencavar aquele primeiro artigo lá de 1994 que me despertou o interesse pelo livro – ele é assinado, e isso eu não me lembrava, pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna Bola Dividida de ZH e do blog de mesmo nome (daquele tempo pra cá o ZIni já editou Mundo, Caderno Donna, a página 3, o Caderno Cultura e agora está de volta aos esportes). Consultei o Zini e ele me permitiu republicar aqui seu texto de 15 anos atrás. Aproveitem:

Uma viagem com os hooligans
Luiz Zini Pires

Uma inevitável pergunta persegue o norte-americano Bill Buford, 40 anos, jornalista e escritor, a cada entrevista: “você ainda frequenta estádios de futebol?” Buford sempre responde seca e rapidamente, sem qualquer cacoete visível, com um preciso e definitivo “não”. É natural. Para escrever o excelente Entre os Vândalos: a Multidão e a Sedução da Violência, da Companhia das Letras, Buford passou 10 anos, quase toda a década de 80, vivendo, bebendo e viajando com a mais alucinada e temida elite do “hooliganismo” inglês. Foi tempo suficiente. O resultado desta experiência é espantoso. Tem sabor de goleada para o leitor, de título inédito para o escritor, de derrota para os desordeiros.

O livro não tem a chatice de alguns tratados sociológicos, nem o mofo de certos escritos acadêmicos, nem mesmo o superficialismo de determinados artigos. Bufford recheou seu livro com histórias reais dos vândalos e de suas gangues. garantiu a descrição da violência não somente por parte de suas vítimas. Mas também por quem inventa essa violência. A leitura flui então como num romance. Só que os personagens não são fictícios. Os parentes das vítimas ainda buscam consolo para explicar mortes de gente tão jovem, tão cheia de vida.

INIMIGOS: Os vândalos, os temíveis e terríveis hooligans são um legítimo produto made in England, tipo exportação. Quando saem da Inglaterra então arrastam junto um nacionalismo barato e doentio. Vivem dopados de raiva, lotados de repulsa, tomados de fúria. Hoje são tratados como inimigos dentro e fora de casa. São a escória dos torcedores ingleses, uma vergonha para a mais fiel, mais barulhenta e mais festiva torcida do mundo.

Antes, durante e depois de atacarem as pessoas, preferencialmente negros, indianos e árabes, os hooligans depredam trens, quebram carros, arrasam bares e dão aos centros urbanos uma maquiagem típica de Bagdá depois das bombas. Não satisfeito em ser um espectador privilegiado da ação dos vândalos nem de ouvir as suas mais estranhas e terríveis histórias, o norte-americano Bill Buford foi viver com eles, ser um deles, mas não agiu como eles.

Não usou cassetete, nem correntes ou facas Stanley, o bem-equipado uniforme dos desordeiros bons de briga. Mas bebeu cerveja e vodka com os torcedores do Manchester United. Agitou com os skinheads do Chelsea e percorreu o sul do Tâmisa, o rio que banha Londres, com os ensandecidos fãs do Milwall, sequiosos por um combate contra as hordas do Tottenham Hotspur. Seguiu o rastro da torcida do Arsenal após uma derrota em Highbury, seu estádio.

GENERAIS: Buford fez ainda o perfil dos generais em comando da turba. Descobriu alguns ladrões em potencial. Contou os confrontos com a polícia. Deu nomes e datas. Somou feridos e mortos. Desmascarou um dos braços ingleses do National Front, o partido nazista do Reino Unido. Mostrou ainda como as gangues se movimentam antes dos jogos e ficou no meio da explosão, mas sempre estratigicamente distante dos terríveis retalhadores do Manchester United que, amparados em pequenas facas Stanley, fazem a linha de frente do Cockney Reds, uma das torcidas organizadas do time.

Bill Buford foi descobrir a maioria dos seus vândalos na decadente classe trabalhadora do Reino Unido. Viu e apontou uma geração entediada, desiludida, desempregada, oca e sem perspectivas. Uma geração que bebe e se droga mais do que o normal. Gente de excessos que ainda não tem 30 anos e que usa e abusa da violência para disparar uma energia má armazenada em corações de pedra. Sem nenhuma preocupação em medir a textura do seu alvo. Pedra, lata ou carne. Às vezes esta diferença simplesmente não existe. Tanto faz.

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Serviu a Kapuscinki

Ryzard Kapuscinski - Foto de Andrzej Rybczynski, AP

No caderno Cultura de hoje publicamos um texto do The Guardian sobre a recém lançada biografia do jornalista polonês Ryszard Kapuscinsk – tem uns acentos em consoantes poloneses que não posso fazer neste teclado brasileiro. O livro, que saiu esta semana na Polônia e tem 600 páginas, é assinado pelo jornalista polonês Artur Domoslawski. Desmistificar um biografado não é novidade no ramo das biografias, principalmente iluminando os aspectos menos luminosos da vida pessoal do retratado. O que acontece nesta em particular é que Domoslawski lança algumas dúvidas sobre aquilo que tornava Kapuscinski um mito: sua vida profissional. Ele diz que Kapuscinski com frequência se afastava das regras estritas do “jornalismo anglo-saxão” e se deixava levar pela tentação de ajustar os fatos da história que acompanhava ao seu texto. A informação provocou protestos indignados de admiradores do autor e críticas ácidas de seus detratores, que também eram em bom número.

Como prometemos nas páginas do jornal, vai abaixo um texto escrito pelo jornalista Luiz Zini Pires, titular da coluna e do blog Bola Dividida, ex-editor do Caderno Cultura e leitor atento da obra de Kapuscinski – o que permite um olhar complementar à matéria que está no jornal. E ainda adicionei links para alguns dos livros do autor que já havíamos comentado aqui no Mundo Livro. Divirtam-se:

Viagens de um Polonês
Luiz Zini Pires

Ryszard Kapuscinski é um nome difícil de pronunciar. O polonês é língua árida. O sobrenome, mesmo inóspito, é fácil de guardar porque é único.
Seus livros, entre eles, A Guerra do Futebol (Companhia das Letras, 2008), sobre a luta de 1969 entre Honduras e El Salvador e duas inacreditáveis partidas de futebol, e O Imperador (Companhia das Letras, 2005), um estudo sobre Haile Selassié, um clássico tirano africano do século 20, permanecem na memória. Guardam espaço em qualquer boa, média, ótima biblioteca. Se você quiser um, fique com os dois. Eles completam o autor em coragem, porque a morte passou ao seu lado, chamou e ele não embarcou, bons textos e histórias extraordinárias.
Kapuscinski foi correspondente estrangeiro na América mais pobre, na África paupérrima. Ele mesmo, apertado, fazia as contas na ponta do lápis todas os meses. Não tinha o mesmo dinheiro dos bem nutridos norte-americanos ou dos conterrâneos de uma Europa mais rica. Se movimentava com certa dificuldade - embora tenha melhorado de vida nos anos 1980 depois que começou a ser publicado em inglês e alemão. Os jornais e agência de notícias da sua Polônia natal não costumavam ser pródigas em salários, especialmente depois que a Cortina de Ferra a enclausurou, fazendo do país um satélite comunista.
Kapuscinski foi repórter, bom, excelente, um dos melhores, mas deixou seu texto avançar, sair das laudas do jornal, ocupar o livro de 300 páginas. Kapuscinski fez da reportagem pura arte literária. É um dos seus grandes representantes, é referência, bússola. Seu talento se mede nas suas histórias. Se ele não é 100% fiel, qual o correspondente em terra estranha pode ser?
Por certo não seguiu a realidade como ela é, nem contou o que viu exatamente como viu em determinados momentos. Quem se importa? Eu não. Seus textos, depois da denúncia de que nem tudo que ele disse é verdade, não perderam um só centavo do seu bilionário valor.
Seu velho mundo, do ensurdecedor tique taque, tique taque, das máquinas de escrever a  morosidade do telex, era mais do texto, menos da imagem. Hoje, as câmaras estão acopladas nos capacetes do Mariners e na alça de mira dos canhões. Quando elas não pegam, o satélite mostra. Kapuscinski é de outro tempo. Nasceu num mundo imenso, de lugares distantes e inexpugnáveis, não conectados. Ganhou, com o seu talento, textoe repito (coragem) licença poética para criar em cima da verdade (verdade?), o que não diminui sua história em nada.
Vou agora mesmo reler um pedaço de A Guerra do Futebol.

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Mônica Leal fala sobre sua gestão

Mônica Leal em Caxias, em março deste ano. Foto: Daniela Xu

Como parte de nosso extenso dossiê sobre os rumos da Cultura no Estado, vamos publicar agora outro aspecto do debate. No Caderno Cultura deste sábado, vocês poderam ler o balanço que a própria secretária Mônica Leal fez de seu período à frente da Secretaria Estadual da Cultura. Por questões de espaço no jornal, a entrevista, concedida por e-mail ao colega Daniel Feix, editor do Segundo Caderno, crítico de cinema e um dos titulares do blog Cine Clube, precisou ser editada. Como prometido nas páginas do caderno, vai abaixo a íntegra da entrevista, na qual a secretária, que já anunciou sua exoneração do cargo em abril para concorrer à Assembleia Legislativa, avalia sua passagem pela Sedac:

Zero Hora – Como a senhora avalia sua passagem pela Sedac? Considera que foi boa? Pôde fazer o que queria fazer ou há algo que gostaria de ter feito que não conseguiu?
Mônica Leal –
Creio que não foi apenas passagem, pois ficará a marca indelével do choque de gestão que implementei na secretaria. O resultado obtido foi o fortalecimento da pasta através do saneamento de suas finanças, em especial a Lei de Incentivo à Cultura (LIC-RS). Os investimentos culturais não acontecem se o caixa estiver deficitário, como o encontrei. Implementei medidas saneadoras e deixei a Sedac em condições de incrementar políticas culturais, com encaminhamentos imprescindíveis como o concurso público que mudará o quadro defasado de funcionários que temos hoje, já que só houve um concurso em 1991; como o projeto de lei Pró-Cultura, que modifica, e muito, o sistema LIC e implementa o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), democratizando e socializando os investimentos culturais; como o sistema automatizado na LIC, com mecanismos de controle ágeis e eficientes; como toda a tramitação para essa concretização, que requer processos complexos, dependentes de outros órgãos, secretarias e até de outros poderes. Ficaram muitas coisas a fazer _ algumas ações não foram possíveis de concretizar, mas tenho tranquilidade em afirmar que tudo o que estava ao nosso alcance, a partir dos nossos parcos recursos, tanto humanos como financeiros, foi feito.

ZH – Sua gestão conviveu com um corte de gastos muito grande, e com, inclusive, uma redução no número de pessoas trabalhando pela cultura, sobretudo diretores acumulando a direção de mais de uma instituição. Qual o impacto disso na implementação de uma política cultural pública no Estado?
Mônica –
A redução no custeio a partir de corte de gastos integrou um projeto maior, de política de governo, que todas as secretarias tiveram que aderir. A Cultura é a que detém o menor orçamento. Isso somado ao fato de termos poucos funcionários nos levou a preencher funções técnicas com os cargos destinados às chefias, os chamados Cargos em Comissão, razão pela qual alguns diretores de departamentos acumularam acumularam também a direção de instituições vinculadas aos mesmos. Dá para se ter uma ideia do quão árdua foi essa redução. Nesta gestão começamos, antes de tudo, com investimentos na infra-estrutura da pasta e de suas instituições vinculadas. Não se faz política cultural sem ter uma infra-estrutura consistente e uma estrutura sólida.

ZH – Que tipo de política cultural pública a senhora considera ideal para um Estado como o Rio Grande do Sul?
Mônica -
Uma política cultural acessível às diversas camadas sociais e aos diversos segmentos culturais. Isso inclui o fortalecimento da identidade através do resgate e da proteção do patrimônio cultural, fomentos às atividades culturais, estruturação e manutenção constante de equipamentos, pesquisa e difusão cultural e incentivo às manifestações culturais populares. Nesta gestão conseguimos desenvolver atividades nesta linha como o projeto Viver e Inspirar Cultura, realizado na Casa de Cultura Mario Quintana, que proporciona atividades gratuitas, e os Programas Estruturantes, constituído por atividades de teatro, fotografia e leitura que a Sedac leva a todas as regiões do Estado, além da parceria para a realização das aulas de balê para deficientes visuais, o incentivo à música gaúcha e aos novos talentos em oportunidades como o Verão Sociocultural e os shows da Expointer.

ZH - Quando a senhora assumiu, afirmou que a LIC-RS precisava de um choque de gestão para poder seguir em funcionamento. Por favor, explique que tipo de operação foi realizado.
Mônica -
Ao assumirmos a Sedac, a LIC apresentava um passivo de R$ 14 milhões (recursos a serem recebidos para a realização dos projetos e que formavam uma espécie de fila, atrasando a aprovação de novos projetos). E este era só um dos pontos de descontrole do sistema. A CAGE (Contadoria e Auditoria Geral do Estado) recomendou a suspensão do mecanismo por no mínimo oito meses. Nenhum projeto poderia ser aprovado nesse período. Foi então que a coordenação da LIC fez uma análise detalhada de cada projeto contemplado e que tinha algo a receber neste montante. Foram detectadas ações que ainda não haviam sido realizadas, outras que já haviam sido realizadas _ prescindindo os recursos da lei _ e também produtores em situação de inadimplência junto ao Setor de Tomada de Contas. Conforme tudo foi sendo regularizado e os recursos, liberados, depois de muita dedicação, em 12 de dezembro de 2007, conseguimos zerar o passivo. E garantimos que este problema não voltará, porque a aprovação de projetos pelo Conselho Estadual da Cultura, agora, está limitada à autorização mensal concedida pela Sedac, que planeja a liberação gradual para não ultrapassar o valor anual de renúncia fiscal.

ZH - Como se chegou a esta situação?
Mônica -
Aprovando, anualmente, a concessão de até R$ 80 milhões, quando a verba anual de renúncia de ICMS permitida pela lei era tão somente de R$ 28 milhões. Além disso, havia problemas de inércia administrativa: inexistia análise das prestações de contas que, em sua maioria, eram regularmente entregues após a execução dos projetos culturais. O estoque de projetos aumentava a cada mês a ponto de não haver demanda de pessoal e equipamentos para proceder as análises. Só foi possível retomar o funcionamento da LIC, depois da suspensão de oito meses, porque o então presidente do Tribunal de Contas, Sandro Pires, concedeu-nos um voto de confiança ao tomar conhecimento do nosso planejamento estratégico para sanar a lei. Apresentamos relatórios mensais ao presidente e ao então representante do Ministério Público Especial junto ao TCE, Cezar Miola.

ZH - A senhora considera que organizar as finanças da cultura foi o seu foco principal à frente da Sedac?
Mônica -
Não foquei o saneamento das finanças. Quis atender os anseios da comunidade cultural de acordo com a política do governo legitimamente eleito. Mas, da forma como encontrei a Sedac, não teria como cumprir sequer com a rotina administrativa se não arrumasse as contas. Já no primeiro mês efetuamos consertos e reparos urgentes e imprescindíveis para que algumas instituições pudessem manter as suas atividades. Posso dizer que no primeiro e segundo ano tivemos essas tarefas – arrumar, sanear, regulamentar. No terceiro ano já houve espaço e recursos para investimentos culturais. Entretanto, ocorreu a denúncia e a descoberta de uma fraude, ainda no primeiro semestre (as assinaturas de três secretários foram falsificadas buscando a liberação de recursos em falsas cartas de habilitação). Ora, eu que pauto minha conduta pela lei, tive que novamente focar em três ações urgentes: a primeira foi formalizar a denúncia ao MP e solicitar a sua atuação no sentido de apurar os fatos e os seus responsáveis. A segunda foi adotar medidas administrativas internas para coibir novas falsificações e solicitar auditoria da CAGE, que se instalou junto à Sedac por mais de três meses. E a terceira, mais demorada, foi a avaliação da atual legislação e suas normativas, diagnosticando os mecanismos passíveis de falhas. Essa avaliação redundou na necessidade de alteração da lei. Criou-se um grupo técnico de trabalho, multidisciplinar, para elaboração de um projeto de lei que mantivesse as potencialidades da legislação original, mas que alterasse os pontos nevrálgicos. O resultado foi surpreendente: o grupo propôs um Sistema Unificado de Financiamento Cultural, no qual parte dos recursos obtidos na LIC passassem a capitalizar o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), viabilizando assim o financiamento de projetos que não possuem viés comercial. O PL-294 foi protocolado na Assembléia Legislativa em dezembro de 2008. Infelizmente interesses advindos do sectarismo político mobilizaram-se no sentido de que a lei não fosse votada. Participei de discussões, aceitei algumas alterações por meio de emendas e, mesmo assim, continuo aguardando a votação. Não por mim, já que estou saindo, mas por toda a comunidade cultural, seja o autor ou o espectador, que está sendo profundamente prejudicada com a demora na implementação.

ZH - A senhora considera que faltou dinheiro para implementar projetos ou prefere não lamentar a escassez de recursos com que teve de trabalhar?
Mônica -
O problema da falta de recursos nas pastas de Cultura não é só do Rio Grande do Sul, mas da maioria dos Estados do Brasil. Mesmo assim, sempre obtive o apoio do governo para buscar parcerias e obtive êxito em sua maioria, porém, se tivéssemos mais recursos, poderia ter investido em ações culturais. Mas não sou o tipo da pessoa que fica se lamentando. Podemos dizer que a Sedac efetivou parcerias e incentivou inúmeros projetos _ pela LIC. As instituições não ficaram paradas por falta de orçamento, pois as direções usaram de muita criatividade e contaram com o apoio das associações de amigos, que são muito comprometidas e atuantes. Frente ao quadro que encontramos de problemas físicos nas nossas casas, busquei patrocínios para a Cinemateca Paulo Amorim, para a Casa de Cultura Mario Quintana, para o Museu Júlio de Castilhos, para o Margs e o Museu de Comunicação, este com nossa contrapartida considerável advinda do Programa Monumenta (do governo federal, em parceria com a prefeitura de Porto Alegre). Com isso esses equipamentos culturais puderam continuar de portas abertas, manter suas atividades, desenvolver suas programações e receber projetos e propostas da comunidade cultural.

ZH – Por que, na sua opinião, o Rio Grande do Sul não consegue solucionar impasses fundamentais da área cultural como a finalização do Multipalco, a construção do Teatro da Ospa e a construção do novo Cais do Porto? Não me refiro especificamente à atuação da secretaria, mas ao próprio status quo da cultura no Estado, que transcende o poder público: o que faz com que esse tipo de projeto, mesmo sendo importante para o Estado, capaz de ser propulsor de um crescimento na produção cultural, não consiga superar detalhes para ser efetivamente realizado?
Mônica –
Por mais que sejamos um Estado com histórico e tradição de bons níveis de educação e cultura, parece que guardamos isso como um troféu, mas não percebemos que para mantê-los temos que mirar em direção ao futuro e não só colecionar glórias já conquistadas. Creio que falta um pouco de visão desenvolvimentista para abarcar o potencial cultural que temos, que cresce junto com a população e que precisa ser acolhido em programas e espaços. E isso está ligado também ao turismo, à cidadania, à auto-estima. Os projetos citados são o reflexo dessa necessidade que a sociedade aponta e que é condizente com esse potencial que falei. A Sedac está atenta e acompanha os andamentos de todos esses processos, que por uma questão financeira dependem de recursos de leis de renúncia fiscal, de patrocínios e da luta constante de seus administradores. Em 2009, todos esses projetos deram passos adiante: o teatro da Ospa recebeu a licença prévia da prefeitura da Capital, o Multipalco concluiu etapas com ênfase na Concha Acústica e, em relação ao Cais, o projeto que estabelece regime urbanístico para a área foi aprovado pela maioria do plenário da Câmara Municipal de Porto Alegre, em dezembro. Este último projeto, a meu ver, sofreu muito, desde a sua origem, em 1995, com o confronto e a disputa política decorrentes dos diferentes mandatos dos executivos das três esferas: municipal, estadual e federal. Considero o que ocorreu lastimável, pois a população é que perde com isso. Em 2010, creio que se continuará avançando, mesmo frente às dificuldades financeiras do Estado e os excessos de burocracia, que não podem ser superiores à mobilização da sociedade e dos gestores públicos envolvidos.

ZH – Por seus problemas na prestação de contas, o Multipalco foi o projeto que mais exigiu a sua atenção nesta gestão? Como a presidente da fundação que mantém o Theatro São Pedro, Eva Spher, a senhora também se considera decepcionada com o atraso nas obras?
Mônica -
O Multipalco é um projeto muito importante para a cultura do Rio Grande do Sul. É ousado e monumental e isso obviamente atinge um custo que supera a realidade tanto da secretaria quanto da Fundação TSP, daí a necessidade de aportes financeiros originados de formas diversas. Além de recursos orçamentários, foram necessários recursos da LIC-RS e da Lei Rouanet. A decepção de Dona Eva decorre possivelmente do fato de ela desconhecer que a LIC possui regulamentos que balizam a possibilidade de liberação de recursos. O Multipalco foi, sim, beneficiado pela LIC em parte da obra – enquanto tramitou em condições de regularidade no sistema. Ao assumir a Sedac, constatei irregularidades no projeto, o que me impediu de liberar novos aportes de recursos. Busquei todas as medidas preventivas possíveis no intuito de solucionar a questão, tendo em vista a importância desse equipamento para o nosso Estado, mas realmente não houve forma de sanar as irregularidades cometidas. Felizmente o Multipalco continuou com outros patrocínios diretos, advindos de importantes e reconhecidos parceiros e no tempo certo estará funcionando em sua plenitude, mesmo sem o aporte de incentivo fiscal estadual.

ZH – Diante da realidade financeira do Estado, instituições e projetos que ainda precisam se afirmar, como o Museu de Arte Contemporânea e mesmo o pólo de cinema há bastante tempo sonhado pela classe cinematográfica, podem ser de fato implementados?
Mônica -
A luta por um espaço mais adequado para o MAC (que está provisoriamente sediado na Casa de Cultura Mario Quintana) é uma preocupação da Sedac. O museu foi contemplado no projeto do novo Cais do Porto, que já está na prefeitura para os devidos encaminhamentos. A secretaria teve representação ativa na comissão executiva do projeto, garantido o espaço para a instalação do MAC. Com o espaço assegurado e superadas as tramitações administrativas, o MAC terá a sua sede e melhores condições de funcionamento. Quanto ao pólo do cinema gaúcho, houve avanços na questão, com um convênio interinstitucional já firmado. Invariavelmente, projetos da área de cinema, em especial a produção, envolvem, além de recursos financeiros substanciais, questões de tecnologia e mão de obra qualificada. Os aportes maiores decorrem de incentivos e subsídios federais, mas estamos atentos e abertos à discussão. A direção do Instituto Estadual do Cinema participa ativamente da divulgação, do apoio, da discussão e da pesquisa na área cinematográfica.

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O Estado perde por não investir

Luciano Alabarse em imagem de fevereiro de 2009. Foto: Carlos Edler

Continuamos com nossas postagens especiais sobre a atual situação da Cultura do Estado, desta vez com uma entrevista concedida por e-mail pelo coordenador do Porto Alegre em Cena e figura de destaque no teatro da Capital, Luciano Alabarse, diretor de, entre outros projetos, Hamlet e Antígona.

Zero Hora - Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Luciano Alabarse -
Me parece que é uma característica dos tempos brasileiros, essa aproximação entre Estado e patrocínio através da renúncia fiscal, inclusive em relação a grandes eventos realizados pelo poder público. Todos sabemos que o orçamento da pasta é pequeno, o menor de todos. Então, para que grandes eventos aconteçam, esse foi um caminho encontrado. Como todo o caminho, essa relação precisa ser devidamente pavimentada, através do equilíbrio e da oportunidade de aperfeiçoamento. Que uma pasta que lida com cruciais dificuldades financeiras tente essas parcerias não me parece o problema. Problema, pra mim, é quando se cancelam projetos e benefícios sob a alegação de falta de verbas.

ZH - Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Alabarse -
Historicamente, não houve no país uma situação muito diferente da atual, talvez agravada com as sucessivas crises econômicas mundiais. O Rio Grande do Sul, há muito, vem perdendo espaço e importância dentro do panorama brasileiro, não só na área cultural. Essa idéia separatista, que nos acompanha há muito, contribui para nosso isolamento - não só geográfico. Trabalho, na parte que me toca, por um Rio Grande mais cosmopolita, menos aferrado às glórias do passado, mais dinâmico em relação às demandas do presente, menos burocrático, menos estagnado - porque, para que haja mudança, é preciso não só ter um diagnóstico realista, mas uma atitude propositiva que mude esse quadro.É muito triste ver que agimos como se nosso Estado estivesse muito bem, quando a dificuldade de produzir e mostrar a produção cultural é cada vez mais afuniladora e dificultada. Pessoas sem perfil para os cargos de liderança na área, sem dúvida, também contribuem para o agravamento desse quadro.

ZH - Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural - não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Alabarse -
Há tantos problemas e de tantas ordens que o descaso com a cultura encontra nessas dificuldades a sua legítima defesa. É um verdadeiro absurdo, porque não adianta nada termos ruas asfaltadas, esgotos e obras de infra-estrutura, programas sociais essenciais, sem que se legitime a essência e o direito do nosso público à fruição da arte e da cultura. Fica tudo muito pobre, muito lamentável sem um Estado culturalmente importante.Há uma crise generalizada de lideranças políticas nessa área, há que reconhecer isso, e chamar os políticos a uma compreensão mais exata sobre a importância da cultura na vida cotidiana do cidadão.

ZH - A crise na Cultura, mais do que política ou financeira, é de ideias?
Alabarse -
Boas idéias, sem dúvida, amenizam qualquer agrura econômica. Mas não é bom romantizar esse aspecto. Cultura pode e é uma atividade econômica extraordinária. Hollywood não nos deixa mentir. Então, é preciso compreender que a cultura precisa de verbas, de inteligência, de políticas públicas ativas. O Governo deve, sim, tratar a cultura com mais respaldo e inversão econômica. Do contrário, daqui há pouco, os artistas serão responsabilizados pela falta de investimentos. Mais dinheiro com boas idéias - eis o que poderíamos pleitear aqui.

ZH - O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Alabarse -
Não tenho paciência com gente apocalíptica, arautos da desgraça e do chororô. Então, é preciso fortalecer a idéia de que, ao não investir mais e melhor na Cultura, quem sai perdendo é o próprio Estado. A cultura é um poderoso agente turístico. Um calendário de eventos realmente significativos, apoiados sem migalhas, é o que fortaleceria e traria vigor e turistas ao Estado, o que nos revelaria ao mundo. Os artistas, os produtores culturais fazem sua parte, alguns realmente de forma expressiva, outros nem tanto. Mas que nossos políticos deveriam ter a inteligência de apostar na vida cultural e no calendário desses eventos significativos, isso é o que é urgente reivindicar. Não esmola, não quinze minutos de atenção, mas uma postura de inteligência pública a serviço de um segmento que, em outras paragens, se revela fonte segura de retorno - emocial, espiritual e econômico.

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O Estado da Cultura

Uma das grandes dúvidas que assaltam não apenas a mim, mas provavelmente a qualquer um de vocês interessados em Cultura é como a cada troca de governo o discurso oficial para a Cultura continua sendo o da falta de verbas – há uma abordagem econômica para praticamente todas as áreas de governo, e para a da produção e fomento à Cultura e à memória a única coisa que temos é o apertar dos cintos?

Como já escrevemos aqui na quinta-feira, hoje estamos entrando com vigor nesse debate, apresentando neste espaço opiniões e textos sobre os casos mais recentes envolvendo a gestão estadual da Cultura – hoje, como prometemos nas páginas da matéria que já aborda o assunto no Caderno Cultura, vamos publicar duas entrevistas sobre os rumos da Cultura e a íntegra da avaliação feita pela própria secretária sobre sua gestão. Continuaremos ao longo do fim de semana incluindo opiniões e depoimentos de figuras de relevo na cultura do Estado e que já atuaram à frente de instituições fundamentais do setor. A primeira, já que abrimos falando da cultura como economia, será com o economista e professor de Economia da Cultura Leandro Valiati, que fala sobre a Cultura como área de gestão do Estado:

Zero Hora – Grandes eventos da área cultural do Estado, como o Fronteiras do Pensamento e mesmo a Feira do Livro são resultado da iniciativa privada, mesmo que financiados por leis de incentivo. O Estado abandonou seu papel de fomentador direto em benefício da isenção fiscal?
Leandro Valiati —
Em parte sim. O conceito de financiamento à cultura a partir de renúncia fiscal assume que existem menores custos de transação no fato dos recursos partirem da iniciativa privada diretamente ao realizador cultural, com posterior desconto do imposto devido pelo financiador. Antecipa-se recursos com uma agilidade muito maior do que um projeto tramitando nas instâncias públicas e ainda nos casos em que há contrapartidas das empresas, se acrescentam recursos privados. Contudo, o problema principal da forma como esse tipo de mecanismo é utilizado em escala nacional e aqui no estado é que os governos têm confundido um instrumento de política cultural (LIC, Rouanet) com apolítica cultural.
A política cultural tem que responder a um programa, um pacto da socidedade em formar seus valores e objetivos com relação aos bens culturais que deseja e para a execução disso é preciso que o Estado possua poder instrumental sobre esse produto. No formato atual das leis, que assumem importância majoritária no orçamento do segmento, o Estado perde poder de atuação que é tranferido às empresas que decidem para quem, quando e onde serão produzidos os referidos bens culturais. Reforço que as leis de incentivo são um instrumento importante, mas jamais podem substituir investimentos diretos do Estado, que devem amparar particularmente aquelas atividades culturais que não tem um poder de atração aos investimentos de impresas privada, seja pelo baixo poder de marketing ou mesmo pela dificuldade em se aproximar de investidores. Lembramos sempre que o recurso privado investido nos sistemas de leis de incentivo, descontando as contrapartidas quando existem, é recurso público muitas vezes utilizado em total consonância com os objetivos das empresas privadas. Mas isso é permitido pelo sistema, pelo que as empresas apenas fazem seu papel dentro do que é legal e permitido. Logo, o ajuste deve ser dar a partir de uma reavalização do sistema como um todo.

ZH - Em sua opinião, como o Estado chegou na atual situação na área da Cultura, sem dinheiro para investimentos, sem programa definido e com seus aparelhos culturais estagnados?
Valiati –
Bem, é sabido que nos últimos anos a situação financeira do estado era muito difícil, pelo que passamos por um inevitável ajuste recente. Naturalmente, setores com menor apelo (e não menos importância) em termos de gerações de multiplicadores de emprego e renda, sofreram mais com o ajuste de contas. A questão passa por uma lógica maior: se é sabido que a cultura gera emprego e renda qualificados, inserção social e uma sociedade mais madura, crítica e com poder de reação, por que é deixada de lado em momentos de crise, tal qual a “era das trevas” do governo Collor? Para mim, a explicação passa por três pontos: a) falta de estudos e estatísticas que explicitem os retornos quantitativos do investimento à cultura que concedam poder de barganha à pasta diante de outras (agricultura, indústria, etc); b) um desequilíbrio no sistema de financiamento, que legou a decisão às empresas financiadoras que orientam suas ações a partir de seu plano de marketing; c) por fim, uma certa passividade da secretaria de estado ao propor ações inovadores (parcerias públicos privadas, OSCIPS, pactos sociais pela diversidade e fortalecimento de ações culturais no estado).

ZH – Houve críticas dos produtores e agentes culturais nos últimos governos a uma ausência de política na área cultural - não há sequer uma reunião com o setor em período eleitoral, ao contrário de outras áreas. Por que parece tão difícil para os governos recentes elaborar essa política? A cultura perdeu mesmo importância no planejamento de governo?
Valiati –
Sim, em boa parte pelas questões que coloco acima e soma-se a isso mais um elemento: cultura não é assistência social. É uma área que pode ter retornos econômicos diretos se bem conduzida pelo poder público, explorando as vantagens comparativas culturais do Rio Grande de Sul que são muitas. E o saldo disso é, para além do emprego, renda e tributos gerados, saldos de valor cultural que são ainda que de mais difícil mensuração são facilmente perceptíveis, tais como autoestima e formação de capital humano.

ZH – O que, em sua opinião, deveria ser feito para que o estado recupere seu papel de fomentador? Ou esse papel não será assumido tão cedo?
Valiati –
Deve-se repensar a política cultural como um todo. Ou seja, considerar cada instrumento a partir de seu objeto. Leis de incentivo para mercados incompletos e iniciativa privada sem recursos públicos para os mercados completos. Quando os governos entenderem que cultura tem um lado de mercado completo (shows populares, filmes”blockbusters” ou “globobusters”, atividades que se autofinanciam com a venda de ingressos) e outro lado de mercado não completo (ópera, artes visuais, etc) trará mais eficiência ao uso de recursos públicos escassos. E não é questão de gosto, mas sim de maximizar a eficiência do recurso público a partir do que a sociedade demanda como bem cultural e a partir de bens de mérito ( que a sociedade muitas vezes não demanda, mas são relevantes). Tenho todos os discos do Caetano Veloso, mas enquanto o sistema permitir que recursos públicos sejam aportados a shows desse quilate, o que sobra para a Banda de Pífanos de Caruaru? O atual sistema trata como iguais os desiguais, gerando graves distorções. Assim, para que o Estado recupere seu papel de fomentador é preciso inovações que tratem do sistema como um todo e não um acúmulo de instrumentos sobre uma estrutura já corroída (vales-cultura, novos aportes à LIC, etc). E isso passa por dois elementos cruciais: maximizar a eficiência dos recursos públicos existentes (através de estudos de impacto e de efetividade que fornecem instrumentos aos gestores, reestruturação de leis de incentivo) e de uma nova relação com o setor privado (OSCIPS, parcerias públicos privadas).

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Vamos trocar umas ideias?

Não deixem de visitar o seu blog literário favorito neste fim de semana. Vamos transformar o Mundo Livro em um grande fórum para discutir as políticas da Secretaria Estadual da Cultura e a estagnação do atual cenário cultural – cujos sinais mais recentes foram a demissão de Voltaire Schilling da direção do Memorial do Rio Grande do Sul e o fechamento da Sala Norberto Lubisco, espaço cinematográfico na Casa de Cultura Mario Quintana que levava o nome de um dos principais fotógrafos do cinema gaúcho. A Norberto Lubisco foi fechada no início do ano. Dos funcionários do cinema da CCMQ, antes em número de 10, três foram demitidos, reduzindo o número para sete. Mesmo o perfil peculiar da sala, que abriu com a proposta de se tornar um espaço para filmes de arte em Porto Alegre, já havia sido desvirtuado há tempos, como provam os  últimos filmes exibidos na Norberto Lubisco: Código de Conduta e Um Namorado para Minha Esposa, na semana que se encerrou em 20 de dezembro.

O fechamento rendeu diversas manifestações na internet – um e-mail assinado pelo poeta e radialista Marcelo Noah foi amplamente retransmitido na última semana de fevereiro (você pode ler o texto completo neste post do blog O Dilúvio) e o próprio filho de Lubisco, Ricardo, criou, em seu blog Uma Dose de Cinema, um espaço para protestar contra o fechamento – que, indiretamente, extingue uma bela homenagem da comunidade cultural a um nome fundamental de sua história.

Os dois episódios geraram uma ampla discussão sobre qual deve ser o papel de uma secretaria de cultura no nosso cenário cultural – e muitos protestos contra a atuação da atual administração. Para refletir um tanto sobre isso, teremos, a partir deste sábado e avançando ao longo da próxima semana, uma série de postagens especiais sobre os rumos da Cultura no Estado, entrevistas, textos opinativos e depoimentos de figuras relevantes de nossa cultura sobre a atual situação da Cultura. Acompanhem e contribuam para o debate – na caixa de comentários ou pelo e-mail do editor deste blog: carlos.moreira@zerohora.com.br.

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Literatura psicodélica

Para o senso comum, o universo corporativo costuma evocar associações imediatas com tecnocratas embrulhados em ternos importados, tricotando relatórios com cifras, envoltos por um ambiente estéril onde imperam a sordidez e falta absoluta de humanidade. E ficaria assim, se o escritor Ricardo Lísias não atravessasse as portas dos espigões de aço e concreto desse mundo e revelasse um improvável conteúdo lisérgico do qual ele é composto em seu O Livro dos Mandarins (Alfaguara, 344 páginas, R$ 44,90).

Absolutamente sedutora, a trip alucinógena proposta por Lísias chega a lembrar, em estilo e espírito, o clássico sessentista O Teste do Ácido do Refresco Elétrico, de Tom Wolfe. Sua gestão, no entanto, é mais recente e pode ser conferida (depois de ler O Livro…, para não estragar a surpresa) no segundo número da edição brasileira da revista literária Granta, de 2008, com o tema Longe Daqui (a propósito, o quarto volume da revista, com o tema Família, já está nas livrarias também). No conto Concentração, o escritor paulistano começa a trabalhar os elementos do universo que mais tarde irão compôr seu catatau.

É nela que são testadas, por exemplo, a atmosfera de devaneio constante, as sub tramas que servem senão para dar cor e instigar o leitor (sem nada a acrescentar de fato, mas imprescindíveis dentro da proposta de Lísias, e quanto a isso ele não deixa alternativa), o fio condutor que balança livre ao sabor das obsessões dos personagens derivados de Damião _ tudo, enfim, funcionando como uma espécie de laboratório para o que viria depois a ser a ambiciosa escalada de Paulo.

Executivo do alto escalão de um banco, ele está totalmente convicto de que irá para a China, dentro do audacioso projeto que está selecionando funcionários do mundo inteiro. Uma vez lá, irá tratar de uma misteriosa dor que movimenta-se em suas costas (e o impede, entre outras coisas, de ter calafrios, sob o risco de colocá-lo prostrado), terminará seu futuro livro (previamente intitulado O Livro dos Mandarins) e percorrerá os mesmo lugares que seu guru e ídolo, Fernando Henrique Cardoso, percorreu durante sua viagem pelo país do Grande Timoneiro como presidente do Brasil.

Entre seus coadjuvantes (termo apropriadíssimo, é bom ressaltar) estão outros Paulos, algumas Paulas e estrangeiros como Paul e Paulson. A repetição _ de nomes, acontecimentos e idiossincrasias durante todo o livro _ é uma das chaves para entender o pico induzido por Lísias, como ele próprio esclarece:
_ Os nomes repetidos significam identidades repetidas, comportamentos banalizados, pessoas massificadas. São vozes que se repetem dentro de um mesmo grupo. Infelizmente, o comportamento massificado me parece determinante hoje em dia, para muitos grupos sociais, se não todos…

Uma crítica, portanto, que não fica restrita às salas de paredes brancas entrecortadas por vidraças encapsulando sujeitos de ternos bem cortados. Ela vai pra fora e se espalha por outros espaços e personas, que aos poucos vão aderindo à loucura de Paulo a medida que se envolvem nos projetos de uma insuspeita consultoria _ que oferece, entre outros serviços, massagens feitas por gueixas.

– E esse mundo é assim mesmo! Muitas vezes ouvi a conversa de um executivo que dizia mil maravilhas para uns quatro ou cinco subordinados boquiabertos. Era uma loucura, uma quimera qualquer. Mas todos acreditavam – relata Lísias.

Como numa boa viagem de LSD…

Abaixo, um trecho de Concentração e, a seguir, um de O Livro dos Mandarins

Naquela noite, no hotel, Damião fez a barba desesperadamente. Um enorme peso carregava sua pernas para cima e para baixo dentro do quarto e, de meia em meia hora, ele corria ao banheiro para se olhar no espelho. Então, desmaiou. Antes de cair, ele se equilibrou por quatro vezes. Apenas na quinta, deixou de se escorar na parede ou nos móveis e viu que ficava melhor no chão. Aos poucos, a pressão na parte de baixo da nuca tornou-se muito forte e Damião perdeu os sentidos. Passava da meia-noite e o pouco movimento que havia no corredor era o dos últimos hóspedes entrando nos quartos. Depois da uma e meia da manhã, porém, os gruops de piqueteiros ainda se reuniam para combinar o protesto do dia seguinte. Às três e meia da manhã, apenas um ou outro mendigo, junto com os vultos que falavam sozinhos contra o governo de Fernando de La Rua, moviam-se no centro de Buenos Aires.

A propósito, e a bem da verdade, esse será um dos primeiros conselhos que o Paulo vai escrever no seu livro para futuros executivos: compreenda que você cuida do conteúdo dos memorandos enquanto a secretária acerta margens, parágrafos e tudo que se refira à formatação final. As coisas que não exigem raciocínio. Quem não sabe manejar com precisão esses recursos não está preparada, sobretudo as mulheres, para o cargo de secretária. E se for discreta e calada, melhor. A Paula, por esses critérios, é uma funcionária praticamente perfeita.
Ela se limita a ouvir, passar tudo para o computador e perguntar apenas o que é, de fato, fundamental. Quase sempre, durante o expediente, a Paula está de boca fechada. E o Paulo só fala com ela quando precisa muito. De resto, no departamento dele as instruções vão por e-mail. Além de evitar falatório, o procedimento faz com que tudo fique registrado.
Tenha uma cópia de tudo, estará no livro para futuros executivos.

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Quatro mineiros

Estátuas dos quatro mineiros na Praça Liberdade, em BH: Sentados, Sabino (à direita) e Lara Resende.
Em pé, Paulo Mendes Campos (com o livro na mão) e Hélio Pellegrino. Imagem do fotógrafo Marcelo Lisa

O fato de sermos amigos não impedia que fôssemos implacáveis no julgamento da produção literária de cada um. Quando dei uma novela de quarenta páginas para que o Hélio lesse, ele o fez diante de mim com a maior atenção, durante horas; a única reação que teve, ao terminar, atirando a novela em cima da mesa, foi dizer:
– Quá…
Um julgamento desses era de jogar os originais no lixo, o que todos nós fizemos mais de uma vez. Ninguém se ofendia: dava o troco na primeira oportunidade. E cada um tinha a sua vez.
Numa delas, o Otto, por exemplo, ao entrar em minha casa para jantar comigo, possuído de incontida inspiração, foi direto para a máquina de escrever, disparou a redigir um texto. Intrigado, resolvi ver por cima do seu ombro de que se tratava – ele parou um pouco, aguardando minha opinião. Que não se fez esperar.
– Desse mato não sai coelho, não…
Depois de hesitar um segundo, arrancou o papel da máquina, amassou e jogou na cesta, se erguendo:
– Como é, vamos jantar?
Aprendemos a conviver assim de maneira desabrida e espontânea. E acredito que esse rigor crítico nos foi extremamente valioso: impediu que a gente escrevesse muita bobagem.
Ou não impediu…

Com o tempo, abrandamos um pouco a intransigência, que total, com um pouco de tolerância, que era nenhuma. Não admitíamos orelha elogiosa em livro, foto na capa ou na vitrine, qualquer espécie de estrelismo ou apelação. Um livro tinha de ser, no mínimo, obra literária definitiva.
Um trabalho como este, breve e despretensioso (com S) passeio pelo meu mundo de lembranças, seria considerado por nós um mau passo, capaz de me atirar para sempre na vala comum da subliteratura.
Encontramos Carlos Drummond de Andrade numa livraria – e Carlos era ídolo, sabíamos seus poemas de cor – quando ele vinha de lançar o livro
Viola de Bolso: poesia de circunstância, poeminhas de álbum de moça, coisa sempre de interesse para complementar a obra principal. Quando nos perguntou o que havíamos achado, um de nós respondeu:
– Uma leviandade do poeta.
Augusto Frederico Schmidt foi outro que se deu mal com a nossa presunção. Um dia nos leu um novo poema e como, depois de lido, ninguém dissesse nada, perguntou:
– Vocês acham que estou decadente?
– Achamos – Paulo respondeu por nós.
E Schmidt, conformado:
– Obrigado pela franqueza.
Não sei se presunção era bem a palavra: éramos rebeldes, inconformados, contra a ordem constituída e tudo que representasse instituição, fosse a direção do Colégio, o Governo, a Cúria Metropolitana.

O trecho acima, retirado da coletãnea de crônicas O Tabuleiro de Damas, é um exemplo da prosa límpida e ao mesmo tempo elegante de Fernando Sabino, contando episódios de sua longa e afetuosa amizade com outros três escritores, mineiros como ele – ele diz nesse mesmo texto que essa questão era circunstancial: “a singularidade talvez não esteja na nossa presumível ‘mineirice’, mas no fato de sermos amigos de convivência diária durante mais de cinquenta anos”. Os demais integrantes do quarteto eram Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino, todos citados pelo prenome no texto acima.

Sabino, com certeza, foi o mais popular dos quatro, o de mais ampla aceitação por parte de várias camadas de leitores, e, tristemente, pode ser o único que sobrevive como autor lido nos dias de hoje (e não como leitura, uma vez que todos os quatro eram excelentes e saborosos textos). Mesmo assim, não sei se hoje Sabino é lido pela turma mais nova como foi pela minha geração na época em que eu estava no colégio – uma circunstância que fiz questão de representar quando escrevi minha novela Tudo o que Fizemos, fazendo um dos personagens ler em uma cena O Encontro Marcado. Sabino foi parte importante da minha formação como leitor, bem como O Grande Mentecapto, A inglesa Deslumbrada, Cidade Vazia, Faca de Dois Gumes, textos que formaram leitores no sentido mais amplo do termo, escritos que permitem ao leitor gostar de ler, encontrar aquele elemento que é essencial na leitura de qualquer coisa, por mais desculpas que se dê para o ato de ler: o prazer.

Como eu disse, não tenho certeza se Sabino ainda é lido como deveria, e por isso estava devendo fazia horas a divulgação aqui com vocês do site A Falta que ele Faz, que o jornalista Rafael Rodrigues criou no ano passado para homenagear a memória de Sabino. O que me faz pensar… Há uns dois anos, saiu Um Cigano Fazendeiro do Ar, de Marco Antônio de Carvalho, alentada e ótima biografia de Rubem Braga, na qual Sabino é figura de amplo espectro pela amizade que nutriu com o biografado (ambos foram sócios na Editora do Autor, por exemplo.. Sabino também é personagem de destaque no livro Clarice, a biografia de Clarice Lispector escrita pelo americano Benjamin Moser, e em O Santo Sujo, a biografia de Jayme Ovalle escrita por Humberto Werneck. Mas me pergunto se alguém já abraçou a causa de fazer a biografia do próprio Sabino, titã da crônica e figura atuante do cenário cultural nacional, prova é sua presença nas três obras citadas anteriormente. Dependendo de como fosse escrito e pesquisado, estava aí um livro que eu teria muita curiosidade de ler.

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Apoio ao Não Gosto de Plágio

Vocês já leram aqui e em um bom número de blogs na internet na última semana a notícia sobre o processo que está sendo movido pela editora Landmark contra a tradutora e blogueira Denise Bottmann, titular do Não Gosto de Plágio, e Raquel Salaberry, do Jane Austen em Português, por haverem apontado um alto número de semelhanças entre a tradução de dois livros publicados pela editora e traduções antigas de Jane Austen para o português – uma dessas traduções, a de Persuasão assinada por um dos sócios da editora, Fábio Cyrino, coincide com outra tradução mais antiga, portuguesa, de Isabel Sequeira, até em erros de intepretação. A editora pediu, em sua inicial, a retirada do blog de Denise do ar antes do julgamento do mérito evocando um princípio que, de acordo com advogados que conheço, é pouco aplicado no Direito nacional: o do “direito ao esquecimento”. Para mim, que sou leigo no assunto, parece censura (uma coisa é pedir que se tire do ar os posts sobre a questão em disputa ou exigir direito de resposta - algo que Denise ofereceu desde o início, ressalte-se. Calar o blog todo parece censura judicial — e sim, quando falo isso, me refiro a qualquer caso do gênero, se algum espertinho vier perguntar)

O caso continua gerando muita repercussão na internet, uma das mais significativas é justamente um abaixo-assinado que está circulando em apoio à cruzada de Denise contra as traduções surrupiadas. Os quatro primeiros nomes que figuram na lista de assinaturas (cujo número está por volta de 1.070, quando fui olhar) são de figuras respeitabilíssimas da tradução e do meio editorial brasileiro: Heloisa Jahn (editora e tradutora, entre outros, de Jorge Luís Borges e de Onde Vivem os Monstros, de Maurice Sendak), Jorio Dauster (tradutor de Philip Roth e de J.D. Salinger, entre centenas de outros), Ivo Barroso (um dos principais tradutores da poesia de Shakespeare, famoso pela versão que deu a sonetos do Bardo inglês) e Ivone C. Benedetti (autora de Immaculada, publicado pela Martins Fontes, e tradutora de Montaigne, Voltaire, Ricoeur, Merleau-Ponty e Althusser).

Um elenco de peso, como vemos, que entra na discussão mais do que relevante sobre a garantia dos leitores da idoneidade do serviço prestado pelas editoras e dos livros que elas colocam no mercado. O endereço do abaixo assinado está no endereço: http://www.petitiononline.com/Bottmann/petition.html

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Pecados da Acumulação

A lógica da acumulação é o que rege a relação do ouvinte contemporâneo com a música – já ouvimos bastante frases como essa, já até proferimos bastante frases como essa: o sujeito enche seu HD de discos e músicas que ele só ouve uma vez, se ouve, e passa adiante, parece haver uma febril ansiedade de acumulação, aquisição, posse de conhecimento em superfície mas não em profundidade.

Sim, sim, talvez na música isso fique mais claro, mas nós, leitores, não temos lá muita moral para falar disso – nenhuma, na verdade, afinal, o que se pode dizer quando um leitor, já que está passando mesmo pela Zona Sul, aproveita para dar uma olhada pela Fnac do Barra, que ele nunca vai por ser fora de mão, e já que está olhando mesmo, o sujeito depara com a edição nacional de Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar, do Lobo Antunes, que não tem nem leu mas estava curioso para ter e ler, e ao lado, bem ao lado na mesinha da livraria, está um exemplar de As Brasas, do Sandor Márai, que ele leu emprestado uma vez e amou e pensou que queria ter pra si, e já que é um sujeito de poucos gastos e ainda tem um resíduo do seu salário o cara vai lá e compra os dois, o que não leu e o que já leu mas está doido para ler de novo mesmo tendo em casa uma boa dezena de livros que ele está louco para ler mas sequer abriu ainda?

Sim, sim, perspicazes leitores. O sujeito acima sou eu. Mas pensando bem, se você é um leitor perspicaz, esse sujeito também é você.

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