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Ai, lê o Selassiê, aí

21 de junho de 2006 4

Manja Realismo Fantástico? Aquele rótulo sob o qual a crítica agrupou uma série de escritores latino-americanos nos anos 80, com obras em que o místico, o mágico, o absurdo conviviam com o real num universo em que se satirizava e ao mesmo tempo se denunciava a condição política e social da América Latina, principalmente por meio de nativos e coronéis. Incluiu na época nomes como García Márquez, Manuel Scorza e até mesmo os brasileiros Murilo Rubião e Moacyr Scliar. Depois de se tornar uma febre, o estilo decaiu.

Ser deus às custas dos outros até eu.../Divulgação

O interessante é que saiu faz pouco pela Companhia das Letras uma das mais surpreendentes peças do Realismo Fantástico – a não ser, é claro, por alguns senões: o livro não é de ficção, o autor é polonês e o potentado descrito na história não é um coronel latino, e sim um ditador etíope. O Imperador, (200 páginas, R$ 34,50), do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski (tem uns acentos numas consoantes que eu não vou conseguir fazer, desculpem) não é um romance de fantasia, e sim um minucioso trabalho de reportagem e coleta de depoimentos cujo resultado mais parece saído da mente delirante de García Márquez.

O livro contém uma série de entrevistas realizadas em 1974 com ex-funcionários da administração de Ras Tafari Makonnen na Etiópia, ou melhor, do imperador Hailé Selassié I, sujeito que governou o país por 44 anos com a intenção declarada de fundar ali a Jerusalém negra (O Sião, para ser mais preciso), a terra prometida para onde os negros de todo o mundo convergissem a fim de fundar seu estado livre. Por si só um empreendimento hercúleo, mas Selassié ainda queria mais: apresentou-se como a concretização de uma profecia feita na década de 1930 pelo ideólogo do rastafarianismo, Marcus Garvey, a de que a hora do povo negro chegaria quando um rei fosse coroado na África. Selassié coroou-se em cerimônia faustosa, autonomeando-se um deus vivo descido à Terra – e até hoje esse fato é proclamado como verdade por um ramo do rastafarianismo predominante na Jamaica – dos quais o reggueiro Bob Marley foi apenas o adepto mais famoso.

O que impressiona e dá ao livro o tom de fábula absurda nos bastidores do poder são as descrições do cotidiano na corte do bom regente. Por meio de depoimentos em primeira pessoa, asséclas do palácio contam como Selassié assentava seu poder na habilidade que tinha de deixar seus ministros sempre incertos quanto à opinião que o Imperador tinha deles. Numa corte em que o Imperador se considerava deus, e portanto acreditava que os súditos e as riquezas do país existiam só para ele, surgiram ocupações ostentatórias do poder real, como o “colocador de almofadas”, um sujeito com a atribuição de simplesmente colocar uma almofada entre o solo e o trono (apesar de suas pretensões divinas, Selassié era baixinho e seus pés ficavam balançando quando ele sentava no trono imponente). Havia outro tipo cuja função era ser o cuco do Imperador: ficar parado à frente do rei até que ele se desse conta de que o horário de audiências havia se encerrado. Havia o “ministro da bolsa”, encarregado de estar ao lado do rei com uma bolsa de dinheiro para ceder às províncias em audiência. E havia palácios em cada uma das províncias prontos para receber o rei em viagem. Havia mesmo um palácio mantido com empregados e mantimentos no meio do deserto, e ao qual Selassié só foi uma vez em 44 anos. O imperador viajava apenas com semanas de antecedência de planejamento e aviso aos seus governadores – para que eles tivessem tempo de mascarar a pobreza em que vivia a maior parte da população para não ofender os olhos divinos do soberano.

Grande peça do jornalismo literário, O Imperador é um retrato da megalomania gastadora de um rei que, não por acaso, legou ao fim de seu governo um dos países mais pobres do planeta.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (4)

  • Caroline Chang diz: 25 de junho de 2006

    Também do Kapucinski, tem “Ébano – Minha vida na África” (Cia. das Letras) – se não me engano lançado antes no Brasil do que “Imperador” -, no qual ele, que foi por anos correspondente na África pós-descolonização, conta suas experiências em vários países. De contrair malária, delirar e ser curado por algum remédio milagroso dos nativos até ficar perdido em meio ao deserto com areia em todos os buracos do corpo e sem água, passando por cobertura de N golpes e eventos políticos do continente.

  • marcio diz: 22 de fevereiro de 2010

    Engraçado!!! Um europeu “branco” falando e questionando o PRIMEIRO REI NEGRO COROADO NA AFRICA, mas não cita as duas invasões mal sucedidas dos italianos na africa; a queda de Mussolini na Etiópia; os interesses do vaticano( PAPA PIO XII- o mais sanguinário da história) e não comenta o q era a Etiopia antes de Selassie, que construiu escolas, museus, criou uma linha aerea que até hoje existe, criou a união dos povos africanos e sua esposa que fundou creches, hospitais isto voces não falam…SEUS FASCISTAS EUROPEUS…

    Márcio, sou nascido no interior do Rio Grande do Sul e já fui anarquista, mas não fascista, portanto, apesar de aprovar teu comentário, retruco que fascista europeu é quem tu quiser que seja, menos eu.

    Carlos André

  • Marcio diz: 22 de fevereiro de 2010

    E outra é tudo ficção pois o autor não cita nomes!!! Vai enganar outro!!! Vai questionar o vaticano q sempre explorou a America Latina,arrancando as nossa riquesas e matando nossos parente(indios e negros)!!!

    O autor cita no início que só conseguiu falar com os funcionários palacianos de Selassié protegendo suas identidades. Por isso, quem quiser duvidar da autenticidade dos relatos, tem razões para isso.

    Carlos André

  • Mundo Livro » Blog Archive » Serviu a Kapuscinki diz: 6 de março de 2010

    [...] sobre a luta de 1969 entre Honduras e El Salvador e duas inacreditáveis partidas de futebol, e O Imperador (Companhia das Letras, 2005), um estudo sobre Haile Selassié, um clássico tirano africano do [...]

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