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E já que eu estava falando nisso...

17 de julho de 2006 0

Fausto Wolff em frente ao Grande Hotel, em PoA/Ricardo Duarte
E já que eu falei do etílico Fausto Wolff, a quem certa feita o Millôr ou talvez o Ziraldo, não me lembro bem, chamou de O único aventureiro de verdade que eu já conheci na vida, estico um pouco a referência justamente por o autor não ser tão conhecido quanto merece. Recupero aqui um trecho da entrevista que o Márcio Pinheiro, meu colega de redação e co-autor deste blogue, fez com ele quando o livro saiu – a entrevista foi publicada na íntegra no Caderno de Cultura de Zero Hora no dia 16 de julho de 2005. Aqui embaixo, o autor disserta um pouco sobre o que o levou a escrever o anárquico e fragmentário livro de mil e duas histórias. Quem quiser acompanhar mais do trabalho dele pode visitar o site do cara na internet, http://www.olobo.net/.

Cultura – Como surgiram as histórias?
Wolff –
Três anos atrás escrevi uma historinha de cinco linhas. Gostei e escrevi outra. Aí escrevi mais oito e publiquei numa página inteira no Pasquim. De vez em quando fazia outra. Um dia disse a minha mulher: sou capaz de fazer mil e uma histórias, pois as mil e uma originais não chegam a 900. Ela duvidou, e eu as escrevi.

Cultura – Existe alguma linha que conduza as 1002 histórias?
Wolff
– Desestruturado literária e filosoficamente, carregava um inacabado edifício sem saber o que fazer com ele. Sentia-me como esses corredores de maratona que quando estão a alguns metros da chegada perdem a direção. Chamavam-me à esquerda, à direita, à frente, para trás e eu só sabia permanecer no mesmo lugar como um João Teimoso. Foi nessa época que voltei a reler este belo escritor que é Freud e principalmente sua interpretação dos sonhos. E isso deveu-se ao fato de – com muito esforço e calma – eu estar transitando bem dentro do sonho. Via filmes inteiros de olhos fechados e interferia na ação, plenamente consciente do meu estado de sonho. Escrevia
livros inteiros com pontos, vírgulas, aspas e travessões, cortando personagens impostos pelo sonho e substituindo-os por outros de escolha consciente. Mais ou menos neste mesmo período, minha mulher, a psicanalista Mônica Tolipan, estava terminando seu livro sobre crianças autistas e na qual ela especulava a possibilidade das mães entrarem num processo de hipnose durante o parto envolvendo nessa hipnose o bebê. Os autistas, porém, não saíam do estado hipnótico e permaneciam, com a mãe, apenas um indivíduo.

Cultura – O que tem isso a ver com o modo como se deve ler seu livro?
Wolff –
Calma. Ainda nesta ocasião, absolutamente por acaso, caiu nas minhas mãos um livro que eu já lera, o excelente Ensaio sobre a origem do pensamento, do grande filósofo dinamarquês Jurij Moskvitin, falecido há menos de um mês. Ainda por acaso, abri-o na página 60 onde ele diz, entre outras coisas: “Sem memória não há civilização. Se não temos a capacidade de manter impressões dentro de nós, não há antroposfera… Mas a antroposfera
não consiste apenas na combinação de vários elementos para que possamos sustentar a realidade. A antroposfera é algo ‘mais’ e este ‘mais’ consiste na nossa habilidade de construir pontes entre os vários abismos, entre elementos e eventos do mundo exterior através da imaginação. Deste modo, o cérebro via imaginação, vai criando pedaços que faltam na realidade e revelando um
quebra-cabeças.” Diz Jurij ainda, e é isso que basicamente me interessa, pois aproxima Platão de Aristóteles: “Para Platão, o ato humano, via imaginação, de preencher lacunas, é um ato de memória; uma memória que, ainda de acordo com ele, está conectada a prévias existências.

Postado por Carlos André Moreira

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