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É nóis no Jabuti – 3

17 de julho de 2006 0

Histórias da humana condição/Divulgação
Hora de falar um pouco de dois gaúchos veteranos que estão entre os finalistas do Jabuti este ano – por coincidência, dois ex-colunistas do lendário Pasquim dos anos 60 e de sua não tão unânime encarnação recente, o Pasquim21. Fausto Wolff e Luis Fernando Verissimo concorrem na categoria Contos/Crônicas. Aqui um parêntese: muitos escritores simplesmente abominam que o maior prêmio literário do país trate como uma coisa só o conto e a crônica, por um critério que só pode ser explicado como o da brevidade dos textos, já que a crônica é um registro pessoal, íntimo, mezzo factual e mezzo simbolista de uma determinada circunstância, enquanto o conto narra uma história breve, seca, um arco que se desenvolve e sob o qual muitas vezes há uma segunda história, contada naquilo que o autor não diz mas mostra ou deixa subentendido – teóricos da literatura chamam isso de Subtexto.

Ok, adiante. Fausto Wolff tem 66 anos, mora há quatro décadas no Rio e você pode ler um pouco mais sobre ele na capa do Segundo Caderno de hoje, porque o sujeito virou personagem de um curta desenhado pelo ilustrador Allan Sieber. Passional, amante do trago, corajoso, autor de textos de humor cínico e de opiniões forte e sem concessões, Wolff foi indicado pelo que pode muito bem ser sua Magna Opus: A Milésima Segunda Noite, uma coletânea de 1002 textos numerados, sem um fio condutor e de extensões variáveis que, por meio da ficção, do microconto, da crônica, do esquete, do poema à moda dos epigramas gregos, faz o que o autor chama de %22história da estupidez humana%22.

O texto passeia por um liquidificador variado de referências que vão das óbvias (o título, por exemplo) às sutis, como Hamlet, Kierkegaard, Ibsen, Nelson Rodrigues e outros. Vai abaixo uma provinha

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É preciso ter um coração de pedra para assistir a qualquer capítulo de qualquer tragédia transformada em novela pela TV Globo e não rir.

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Vocês já notaram que sempre que alguém que amamos morre, cai uma folha de árvore, passa uma nuvem, um passarinho começa a cantar triste, o cadarço do sapato desamarra, anoitece de repente, começa a chover ou a parar de chover? São sinais que precisamos decifrar.

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Dizia o vegetariano para o amigo que comia um bife:
– Isso faz mal à saúde. Por que é que você come carne?
– Por que sou carnívoro. Se fosse herbívoro, seria vegetariano. Dá um bife para um cavalo e vê se ele come. Dá capim para um tigre e vê se ele come.
– Mas o homem é um ser racional que precisa cuidar da sua saúde. Você é um mamífero, de modo que teu argumento não vale. Pergunto de novo: por que
é que você come carne?
– Porque gosto e, além disso, Hitler e Mussolini eram vegetarianos.

Postado por Carlos André Moreira

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