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Camilo, Josué e a cidade

19 de julho de 2006 0

Cinema Castelo, na Av. Azenha, em 1977. Foto: Antônio Carlos Mafalda, ZH

Conheci Porto Alegre antes mesmo de conhecê-la. Josué Guimarães (1921 – 1986) me apresentou a cidade através do livro Camilo Mortágua (1980). Quando li o romance pela primeira vez, morava ainda no Interior. Portanto, as referências que aparecem na narrativa eram, pra mim, nada mais do que referências, mas pude através delas imaginar como era a cidade onde transcorria a trama. Anos mais tarde, quando eu já estava morando aqui, reli o livro (mais de uma vez, diga-se de passagem). Da última vez, eu já conhecia muito bem a Capital (ou parte dela, pelo menos), e pude visualizar os passos de Camilo.

O prédio da Faculdade de Direito da UFRGS, a Santa Casa, a Igreja da Conceição, o Parque Farroupilha, o Pronto-Socorro, deixaram de ser apenas referências. Afinal, agora são lugares familiares, sei bem onde ficam. A história de Porto Alegre se entrelaça com a trajetória da personagem. A cidade é mais do um simples pano de fundo. Ao mostrar a ascensão e queda de Camilo Mortágua, Josué Guimarães retrata também as mudanças ocorridas na capital gaúcha nos quase 70 anos narrados.

Tudo começa no início de abril de 1964, logo após o Golpe Militar, quando o protagonista, alheio a tudo o que está acontecendo no país, resolve assistir ao filme Cleópatra, a rainha de César, no Cine Castelo (que, quando eu me mudei para cá, ainda ficava ali na Azenha, lembra? Olha a foto que ilustra este post). Para sua surpresa, o que aparece na tela é nada do que ele esperava. O que o velho Camilo vê é a história da sua vida, desde a sua infância, no início do século XX, até a sua morte, em abril de 1964. O fato da narrativa não derivar de sua memória dá a ele a chance de descobrir detalhes fundamentais do seu passado, coisas que até então desconhecia. E quem lê o livro, pode acompanhar, não apenas a derrocada da família Mortágua, como também, as mudanças nos hábitos e costumes, a evolução da moda e, claro, a expansão da cidade de Porto Alegre.

O fato de agora morar na mesma cidade em que vivia o protoganista permitiu que eu fizesse uma outra leitura do livro. Não invalidou a primeira, nada disso. Mas que teve outro gostinho, lá isso teve, sim. Afinal, quando circulo pela avenida Independência não consigo deixar de pensar onde será que ficava o antigo casarão dos Mortágua, só sei que era ali perto da Santo Antônio. E na Cidade Baixa, onde será que Mocinha morava quando jovem? Só sei que era perto da Travessa dos Venezianos. E em qual dos edifícios da Borges de Medeiros ela foi morar depois? E é claro, Camilo viveu seus últimos dias numa pensão que ficava aqui pertinho da redação do jornal, ali na Azenha, quase em frente ao antigo Cine Castelo…

Texto de Priscilla Ferreira

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