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Posts de julho 2006

Auto-ajuda sim, por que não?

27 de julho de 2006 0


Sou partidária da idéia que todo livro é de auto-ajuda. Até mesmo os ruins, que nos ajudam a saber que tipo de livro evitar. Pois acabei ontem a leitura de A Árvore do Ioga, que estava rolando em casa fazia mais de quatro anos. Comprei por indicação de um amigo que nunca deve ter feito um asana na vida e a quem muito respeito intelectualmente. Se ele estava lendo, ora, não devia ser de todo ruim.

Na época, não consegui passar da décima página. Faltou a sintonia. Agora, praticando ioga há seis meses (já quase consigo encostar o joelho na testa!), saí à cata do livro em casa. Momento sinceridade: é preciso estar fazendo ou ter feito ioga para compreender bem o texto. Não é de admirar, portanto, que há quatro anos ele não tenha me dito nada. Momento alerta: se você vê a ioga só como um esporte e um meio de entrar em forma, provavelmente vai mudar de idéia. E de professor.

De leitura simples e sem um dos recursos típicos de livros de auto-ajuda (a repetição ad nauseam da mesma tese com novas construções frasais), A Árvore do Ioga é uma compilação de palestras e discussões desenvolvidas entre o mestre de ioga B.K.S. Iyengar e o organizador do livro, Daniel Rivers-Moore.

Postado por Cássia Zanon

Listar ou não listar?

25 de julho de 2006 0

Divulgação
As pessoas se dividem entre as que fazem listas e as que não fazem listas. As normais, que se incluem no primeiro grupo, já podem comemorar a volta do seu mais importante vade-mécum. Saiu no Brasil uma nova edição de O Livro das Listas, de David Wallechinsky e Amy Wallace, que havia sido lançado no Brasil nos anos 70 e que agora ganha uma edição revista e ampliada. O livro, publicado originalmente nos EUA em 1975 e que já atraiu nessas três décadas mais de 8 milhões de curiosos compradores pelo mundo, é a obra de referência máxima para quem se interessa pela cultura inútil (e o que seria uma cultura útil?).

Duvida? Então vai lá e confere curiosidades maravilhosas como as cinco pessoas que morreram jogando cartas (entre elas o humorista americano Buster Keaton, que sofreu um derrame enquanto jogava pôquer), as 18 crianças que podem ter vivido com animais selvagens (como o Menino-Gazela de Saharan) e os 16 objetos incomuns roubados (como a mandíbula e diversos dentes de Santo Antônio que foram levados de uma basílica em Pádua, na Itália).

Postado por Márcio Pinheiro

What´s rappening

25 de julho de 2006 0

Benjamin Zephaniah/Mark Rusher, divulgação
Quem leu a central de livros do Segundo Caderno de hoje (pra quem não sabe, toda terça-feira publicamos duas páginas com recentes lançamentos, relançamentos, sessões de autógrafos, entrevistas com autores e notícias do mundo literário) deve ter reparado no artigo sobre uma das atrações da Flip deste ano. A Flip, também para quem não sabe, é um festival literário que se realiza todos os anos na cidade histórica de Parati, no Rio de Janeiro, que teve sua proclamação a vila ainda em 1667 e é uma das cidades brasileiras com o maior conjunto de edifícios e construções do período preservadas. Pense nisso como uma feira do Livro de Porto Alegre numa cidade muito antiga todinha composta de edifícios em padrão colonial e você vai ter uma boa idéia.

Mas eu falava que no segundo caderno de hoje abordamos a vinda ao Brasil para a Flip do poeta rastafári, performer, dj de reggae, drmaturgo, músico e com um pezinho no cinema Benjamin Zephaniah (o sujeito dos dreads aí do lado). Ele vem para o lançamento no Brasil de seu Gangsta Rap, uma incomum relato sobre a comunidade artísticas do rap na nascente cena hip-hop de Londres.

Isso já o tornaria uma raridade entre os lançamentos e traduções recentes que aportam no Brasil, mesmo na chamada %22vertente pop%22 da literatura, na qual sujeitos dos 18 aos 40 saturam os sentidos e as referências de seus leitores com citações de músicas, programas de tevê, filmes antigos e até jingles de propaganda. Mesmo nesse ramo que ganhou impulso após o sucesso de Nick Hornby, a maioria dos escritores envereda por nostálgicas considerações e reflexões sobre o rock – testemunhos do rap são raros.

Zaphaniah nasceu na Grã-Bretanha, mas passou a juventude pulando de lá para a Jamaica e de lá de volta. Ele se denomia poeta oral, pelo seu ofício de improvisador e rimador do rap, mas também escreveu para crianças, para teatro e atua como ativista político e apresentador de tv e rádio. Ah, sim,a figura também é vegetariano e mestre Kung Fu (esse é o legítimo Kung Gu fighter da música aquela dos anos 70). Em 2003, foi oferecida a ele a Ordem do Império Britânico, uma comenda de algum prestígio na terra da Rainha, mas que ele recusou. Quem estiver a fim de saber mais sobre o rasta, pode visitar seu site oficial www.benjaminzephaniah.com
 

Postado por Carlos André Moreira

Ums linhas a esmo

24 de julho de 2006 3

Animal agonizante, novela de Philip Roth/divulgação
Foi uma revolução improvisada de início, a revolução dos anos 60; a vanguarda universitária era minúscula, metade de um por cento, talvez um e meio por cento, mas isso não importava, porque a facção vibrante da sociedade logo foi atrás dela. A cultura é sempre conduzida por sua ponta mais estreita, e no caso das garotas desse campus a liderança era o grupo das Escrachadas de Janie, as pioneiras de uma mudança sexual completamente espontânea. Vinte anos antes, no tempo em que eu era estudante, os campi eram perfeitamente administrados. As normas dos dormitórios. A supervisão inquestionável. A autoridade emanava de uma fonte kafkiana distante – %22a administração%22 –, e a linguagem da administração parecia saída de santo Agostinho. A gente tentava driblar todo esse controle, mas até mais ou menos 1964 praticamente todo mundo que era vigiado respeitava a lei, eram todos membros honrados daquele grupo que Hawthorne denominava %22os que gostam de limites%22. Então ocorreu a explosão contida por tanto tempo, o ataque irreverente aos padrões de normalidade e ao consenso cultural do pós-guerra. Tudo que era inadmistrável irrompeu de súbito, e a transformação irreversível da juventude teve início. (página 48)

 

De O Animal Agonizante, mais recente novela de Philip Roth lançada no Brasil – embora não seja a mais recente publicada por ele nos EUA. Aqui, Roth retoma um de seus personagens menos conhecidos, um professor universitário que transita entre o cínico e o deslumbrado, e disseca com sua habitual prosa clínica sua perdição enquanto se torna obcecado por uma aluna décadas mais nova. Prosa satírica, carregada de um humor que revela o ridículo naquilo que o homem vê costuma ver de mais sagrado e intocável, como o sexo, a família, as instituições.

Postado por Carlos André Moreira

Sabine e Griffin

24 de julho de 2006 1

Agenda de Sabine, segundo livro da série/Divulgação
O primeiro e o segundo livros me cativaram justamente por esse jogo esperto de fazer o leitor sentir-se um pesquisador ou um bisbilhoteiro, dependendo de como o sujeito encara a questão. É como realizar a arqueologia de uma história de amor e ao mesmo tempo sentir-se um penetra indiscreto lendo a correspondência que alguém deixou na gaveta aberta (lembrem-se que o primeiro desses livros saiu no Brasil em 1995, quando não havia blogs, a internet comercial como a conhecemos hoje ou os milhares de reality shows que, espalhados pela grade de programação da tevê, fizeram desse sentimento indiscreto uma coisa banal, já que tem tanta gente expondo sua intimidade hoje que isso não parece mais novidade).

Embora ambos não se conheçam, Sabine antevia esboços e trabalhos que Griffin nunca havia mostrado a ninguém. Começa aí a intensa correspondência. No segundo livro, uma pergunta começa a cutucar o leitor: se esses dois se gostam, porque diabos não vão se conhecer, afinal? Pois é o que faz Sabine: viaja a Londres, apenas para não encontrar Griffin lá. Mesmo sabendo que ela vai visitá-lo, Griffin, apavorado, resolve iniciar uma longa viagem ao redor do mundo até as ilhas de onde ela vem (o absurdo desse tipo de situação faz nascer na cabeça de quem está lendo a suspeita de que talvez um deles não exista, não passando dos delírios de outro – embora não haja pistas o bastante para dizer qual deles seria o %22inexistente%22). Nesse ínterim, prosseguem as cartas entre ambos, nas quais são citados outros personagens que dão cor à narrativa. No terceiro e último livro, surgem cartas assindas por um terceiro sujeito, Victor Frolatti, um misterioso %22jornalista científico%22 que faz contato com os dois apaixonados.

A trilogia é composta de Griffin & Sabine – Uma Correspondência Extraordinária, Agenda de Sabine e O Caminho do Meio. Ele teve também, como a Lúcia lembra em seu comentário, o livro A mulher do Veneziano lançado aqui no Brasil, na esteira do grande sucesso da trilogia de Sabine e Griffin – mas esse eu confesso que não li, Lúcia. O fecho excessivamente sentimental que Bantock encontrou para sua história não me agradou muito – e depois de três livros a grande sacada que eram as cartas parecia estar esgotada. Como na época não trabalhava como setorista de livros no jornal, acabei não precisando correr atrás dos demais livros dele por dever profissional e deixei por isso. Não sei de mais livros dele no Brasil, a propósito, mas um pouco do trabalho do cara pode ser encontrado (em inglês) no site oficial de Bantock: http://www.nickbantock.com

Postado por Carlos André Moreira

Respondendo...

24 de julho de 2006 0

Nick Bantock/www.nickbantock.com
Aproveito para responder por aqui mesmo à pergunta que a nossa leitora Lúcia Padilha Mesquita deixou nos seus amáveis comentários. Ela me pergunta se eu já li ou se já ouvi falar dos livros do Nick Bantock, inglês que escreveu e ilustrou a série Griffin e Sabine, uma história contada por meio de cartas trocadas entre os dois personagens principais – com algumas outras pessoas aqui e ali participando da correspondência.

Lúcia, confesso que do Bantock só li mesmo a trilogia de Sabine e Griffin – pra quem não ouviu falar: nos anos 90, quando os três livros foram editados aqui no Brasil pela Marco Zero, ele provocou um certo rebuliço, mais ou menos como hoje provocam os livros de Nick Hornby ou as Desventuras em Série – não que os livros de Bartock tenham qualquer coisa a ver com esses que eu citei, só falei para dar uma idéia da sensação que o livro causou, não do livro em si..

O livro me pareceu uma das experiências mais originais em termos de literatura que já havia visto, e não tanto no âmbito literário, mas na construção do livro, o livro mesmo como obra, e não apenas sua história. A trilogia Griffin & Sabine mostra uma troca de cartas entre um artista gráfico criador de cartões postais (Griffin Moss), residente em Londres, e uma outra artista, residente nas Ilhas Sicmon, no Pacífico (Sabine Strohem), que trabalha na criação de selos. Embora ambos não se conheçam pessoalmente, logo fica claro que eles têm uma série de interessem em comum, gostos, mesmo concepções da arte e de seu papel no mundo muito semelhantes. E é também inevitável que a certa altura da correspondência ambos estejam apaixonados, só restando agora o mistério sobre em que momento vão se encontrar – ou não.

Romances epistolares não chegam a ser uma novidade – Relações Perigosas, por exemplo, escrito por Choderlos de Laclos, ou Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, que são ambos do século 18. já eram romances compostos de cartas – e foi justamente essa antigüidade que, durante um tempo, deixou o gênero com cheiro de mofo. A grande sacada de Bartock ao contar a história de Sabine e Griffin foi que o livro é um romance epistolar composto REALMENTE das cartas que lhe dão forma: cartões postais selados, páginas de cartas, páginas de agendas (algumas das cartas são manuscritas) dentro de envelopes afixados nas páginas – que o leitor precisa abrir para ter acesso ao conteúdo (uma idéia maravilhosa, mas absolutamente trágica para quem é desastrado e pode acabar perdendo as cartas pelo caminho). Há também anotações, bilhetes, notas manuscritas nas bordas dos cartões. 

Postado por Carlos André Moreira

Pra quem ficou curioso

20 de julho de 2006 1

Camilo Mortágua em nova edição/divulgação
Vale completar dizendo que, para lembrar os 20 anos da morte de Josué Guimarães, gaúcho que além de escritor foi jornalista e político, a sua editora, a L&PM, está republicando o romance em nova edição (436 páginas, R$ 45).

Vai abaixo um trechinho de Camilo Mortágua:

Seu Camilo sentia uma estranha vontade de caminhar; apesar do joelho que ainda estava dolorido, passava agora pelo calçadão de areia da Redenção, pela avenida João Pessoa, o parque ensolarado, os pássaros voando em bando, carros a passarem em alta velocidade, crianças que iam para o colégio, grandes nuvens que desenhavam formas estranhas no céu azul translúcido. Caminhava mais para dentro do calçadão. Temia que algum velho conhecido o identificasse, não queria que ninguém o visse assim, naquelas roupas surradas. Passou pela Faculdade de Direito, onde passara bons anos de sua vida, as recordações se atropelavam, estugou o passo, precisava vencer o passado que não lhe interessava mais. Passou pela frente do velho casarão da Santa Casa de Misericórdia, pelas casas iguais do quarteirão, pela Igreja da Conceição, os velhos portões de ferro trabalhado, os gradis cheios de arabescos, cruzou a Rua Santo Antônio e foi quando diminuiu o passo para espreitar de longe, sem perigo, o seu velho casarão senhorial, a casa do velho e austero Quirino Borba Mortágua, onde haviam nascido todos os seus irmãos e seus filhos.%22

Postado por Priscilla Ferreira

Camilo, Josué e a cidade

19 de julho de 2006 0

Cinema Castelo, na Av. Azenha, em 1977. Foto: Antônio Carlos Mafalda, ZH

Conheci Porto Alegre antes mesmo de conhecê-la. Josué Guimarães (1921 – 1986) me apresentou a cidade através do livro Camilo Mortágua (1980). Quando li o romance pela primeira vez, morava ainda no Interior. Portanto, as referências que aparecem na narrativa eram, pra mim, nada mais do que referências, mas pude através delas imaginar como era a cidade onde transcorria a trama. Anos mais tarde, quando eu já estava morando aqui, reli o livro (mais de uma vez, diga-se de passagem). Da última vez, eu já conhecia muito bem a Capital (ou parte dela, pelo menos), e pude visualizar os passos de Camilo.

O prédio da Faculdade de Direito da UFRGS, a Santa Casa, a Igreja da Conceição, o Parque Farroupilha, o Pronto-Socorro, deixaram de ser apenas referências. Afinal, agora são lugares familiares, sei bem onde ficam. A história de Porto Alegre se entrelaça com a trajetória da personagem. A cidade é mais do um simples pano de fundo. Ao mostrar a ascensão e queda de Camilo Mortágua, Josué Guimarães retrata também as mudanças ocorridas na capital gaúcha nos quase 70 anos narrados.

Tudo começa no início de abril de 1964, logo após o Golpe Militar, quando o protagonista, alheio a tudo o que está acontecendo no país, resolve assistir ao filme Cleópatra, a rainha de César, no Cine Castelo (que, quando eu me mudei para cá, ainda ficava ali na Azenha, lembra? Olha a foto que ilustra este post). Para sua surpresa, o que aparece na tela é nada do que ele esperava. O que o velho Camilo vê é a história da sua vida, desde a sua infância, no início do século XX, até a sua morte, em abril de 1964. O fato da narrativa não derivar de sua memória dá a ele a chance de descobrir detalhes fundamentais do seu passado, coisas que até então desconhecia. E quem lê o livro, pode acompanhar, não apenas a derrocada da família Mortágua, como também, as mudanças nos hábitos e costumes, a evolução da moda e, claro, a expansão da cidade de Porto Alegre.

O fato de agora morar na mesma cidade em que vivia o protoganista permitiu que eu fizesse uma outra leitura do livro. Não invalidou a primeira, nada disso. Mas que teve outro gostinho, lá isso teve, sim. Afinal, quando circulo pela avenida Independência não consigo deixar de pensar onde será que ficava o antigo casarão dos Mortágua, só sei que era ali perto da Santo Antônio. E na Cidade Baixa, onde será que Mocinha morava quando jovem? Só sei que era perto da Travessa dos Venezianos. E em qual dos edifícios da Borges de Medeiros ela foi morar depois? E é claro, Camilo viveu seus últimos dias numa pensão que ficava aqui pertinho da redação do jornal, ali na Azenha, quase em frente ao antigo Cine Castelo…

Texto de Priscilla Ferreira

E já que eu estava falando nisso...

17 de julho de 2006 0

Fausto Wolff em frente ao Grande Hotel, em PoA/Ricardo Duarte
E já que eu falei do etílico Fausto Wolff, a quem certa feita o Millôr ou talvez o Ziraldo, não me lembro bem, chamou de O único aventureiro de verdade que eu já conheci na vida, estico um pouco a referência justamente por o autor não ser tão conhecido quanto merece. Recupero aqui um trecho da entrevista que o Márcio Pinheiro, meu colega de redação e co-autor deste blogue, fez com ele quando o livro saiu – a entrevista foi publicada na íntegra no Caderno de Cultura de Zero Hora no dia 16 de julho de 2005. Aqui embaixo, o autor disserta um pouco sobre o que o levou a escrever o anárquico e fragmentário livro de mil e duas histórias. Quem quiser acompanhar mais do trabalho dele pode visitar o site do cara na internet, http://www.olobo.net/.

Cultura – Como surgiram as histórias?
Wolff –
Três anos atrás escrevi uma historinha de cinco linhas. Gostei e escrevi outra. Aí escrevi mais oito e publiquei numa página inteira no Pasquim. De vez em quando fazia outra. Um dia disse a minha mulher: sou capaz de fazer mil e uma histórias, pois as mil e uma originais não chegam a 900. Ela duvidou, e eu as escrevi.

Cultura – Existe alguma linha que conduza as 1002 histórias?
Wolff
– Desestruturado literária e filosoficamente, carregava um inacabado edifício sem saber o que fazer com ele. Sentia-me como esses corredores de maratona que quando estão a alguns metros da chegada perdem a direção. Chamavam-me à esquerda, à direita, à frente, para trás e eu só sabia permanecer no mesmo lugar como um João Teimoso. Foi nessa época que voltei a reler este belo escritor que é Freud e principalmente sua interpretação dos sonhos. E isso deveu-se ao fato de – com muito esforço e calma – eu estar transitando bem dentro do sonho. Via filmes inteiros de olhos fechados e interferia na ação, plenamente consciente do meu estado de sonho. Escrevia
livros inteiros com pontos, vírgulas, aspas e travessões, cortando personagens impostos pelo sonho e substituindo-os por outros de escolha consciente. Mais ou menos neste mesmo período, minha mulher, a psicanalista Mônica Tolipan, estava terminando seu livro sobre crianças autistas e na qual ela especulava a possibilidade das mães entrarem num processo de hipnose durante o parto envolvendo nessa hipnose o bebê. Os autistas, porém, não saíam do estado hipnótico e permaneciam, com a mãe, apenas um indivíduo.

Cultura – O que tem isso a ver com o modo como se deve ler seu livro?
Wolff –
Calma. Ainda nesta ocasião, absolutamente por acaso, caiu nas minhas mãos um livro que eu já lera, o excelente Ensaio sobre a origem do pensamento, do grande filósofo dinamarquês Jurij Moskvitin, falecido há menos de um mês. Ainda por acaso, abri-o na página 60 onde ele diz, entre outras coisas: “Sem memória não há civilização. Se não temos a capacidade de manter impressões dentro de nós, não há antroposfera… Mas a antroposfera
não consiste apenas na combinação de vários elementos para que possamos sustentar a realidade. A antroposfera é algo ‘mais’ e este ‘mais’ consiste na nossa habilidade de construir pontes entre os vários abismos, entre elementos e eventos do mundo exterior através da imaginação. Deste modo, o cérebro via imaginação, vai criando pedaços que faltam na realidade e revelando um
quebra-cabeças.” Diz Jurij ainda, e é isso que basicamente me interessa, pois aproxima Platão de Aristóteles: “Para Platão, o ato humano, via imaginação, de preencher lacunas, é um ato de memória; uma memória que, ainda de acordo com ele, está conectada a prévias existências.

Postado por Carlos André Moreira

É nóis no Jabuti – 3

17 de julho de 2006 0

Histórias da humana condição/Divulgação
Hora de falar um pouco de dois gaúchos veteranos que estão entre os finalistas do Jabuti este ano – por coincidência, dois ex-colunistas do lendário Pasquim dos anos 60 e de sua não tão unânime encarnação recente, o Pasquim21. Fausto Wolff e Luis Fernando Verissimo concorrem na categoria Contos/Crônicas. Aqui um parêntese: muitos escritores simplesmente abominam que o maior prêmio literário do país trate como uma coisa só o conto e a crônica, por um critério que só pode ser explicado como o da brevidade dos textos, já que a crônica é um registro pessoal, íntimo, mezzo factual e mezzo simbolista de uma determinada circunstância, enquanto o conto narra uma história breve, seca, um arco que se desenvolve e sob o qual muitas vezes há uma segunda história, contada naquilo que o autor não diz mas mostra ou deixa subentendido – teóricos da literatura chamam isso de Subtexto.

Ok, adiante. Fausto Wolff tem 66 anos, mora há quatro décadas no Rio e você pode ler um pouco mais sobre ele na capa do Segundo Caderno de hoje, porque o sujeito virou personagem de um curta desenhado pelo ilustrador Allan Sieber. Passional, amante do trago, corajoso, autor de textos de humor cínico e de opiniões forte e sem concessões, Wolff foi indicado pelo que pode muito bem ser sua Magna Opus: A Milésima Segunda Noite, uma coletânea de 1002 textos numerados, sem um fio condutor e de extensões variáveis que, por meio da ficção, do microconto, da crônica, do esquete, do poema à moda dos epigramas gregos, faz o que o autor chama de %22história da estupidez humana%22.

O texto passeia por um liquidificador variado de referências que vão das óbvias (o título, por exemplo) às sutis, como Hamlet, Kierkegaard, Ibsen, Nelson Rodrigues e outros. Vai abaixo uma provinha

386
É preciso ter um coração de pedra para assistir a qualquer capítulo de qualquer tragédia transformada em novela pela TV Globo e não rir.

506
Vocês já notaram que sempre que alguém que amamos morre, cai uma folha de árvore, passa uma nuvem, um passarinho começa a cantar triste, o cadarço do sapato desamarra, anoitece de repente, começa a chover ou a parar de chover? São sinais que precisamos decifrar.

261
Dizia o vegetariano para o amigo que comia um bife:
– Isso faz mal à saúde. Por que é que você come carne?
– Por que sou carnívoro. Se fosse herbívoro, seria vegetariano. Dá um bife para um cavalo e vê se ele come. Dá capim para um tigre e vê se ele come.
– Mas o homem é um ser racional que precisa cuidar da sua saúde. Você é um mamífero, de modo que teu argumento não vale. Pergunto de novo: por que
é que você come carne?
– Porque gosto e, além disso, Hitler e Mussolini eram vegetarianos.

Postado por Carlos André Moreira