Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

A caixa-preta do 11 de Setembro

16 de setembro de 2006 0

O jornalista Ivan Sant'Anna. Foto: Divulgação, Objetiva

Quem leu a ZH Dominical deste fim-de-semana deve ter passado os olhos pela entrevista feita por este que vos escreve com o escritor Ivan Sant’Anna, autor do best-seller Caixa-Preta, a história de três grandes acidentes aéreos do Brasil. O sujeito, que é ele próprio piloto comercial, acabou de lançar Plano de Ataque: a história dos vôos de 11 de setembro (Objetiva, 280 páginas), um trabalho de organização cronológica e minuciosa dos vôos que abateram as Torres Gêmeas de Nova York e atingiram uma das alas do Pentágono, no maior atentado terrorista realizado contra os Estados Unidos em seu próprio solo (curiosamente o título é o mesmo do livro que o jornalista Bob Woodward, um dos autores das reportagens sobre o escândalo Watergate, escreveu sobre os planos de George W. Bush para a invasão do Iraque).

O livro surge em um momento, cinco anos após os ataques, em que já se tem uma distância tempo confortável para que os primeiros olhares de reflexão desapaixonada sejam dirigidos ao acontecimento que moldou este nascente século 21. Em um momento em que pipocam livros e filmes sobre o assundo, o brasileiro Ivan Sant’Anna dá sua contribuição com um livro-reportagem que é um dos mais bem-sucedidos até agora em transformar o 11 de Setembro em narrativa. Fruto de uma pesquisa de três anos em acervos digitalizados, documentários, sites e coleções de jornais americanos, Plano de Ataque é, como o nome sugere, a radiografia minuciosa do plano elaborado pela Al-Qaeda para usar aviões como arma de ataque terrorista contra os Estados Unidos. Sant’Anna apresenta, em uma narrativa escrita com hábil uso de recursos literários, as biografias dos principais terroristas, a preparação a que se submeteram em escolas de vôo dos EUA, a evolução do plano da Al-Qaeda, os antecedentes da idéia, esboçada 10 anos antes. Por telefone, Sant’Anna concedeu a entrevista cuja íntegra vai abaixo:

Zero Hora — Após o sucesso do livro Caixa-Preta, o senhor já tinha a idéia de voltar ao tema da aviação?
Ivan Sant’Anna —
Nunca escreveria o Caixa-Preta 2, porque não encontraria histórias tão interessantes quanto as que já havia contado. Mas veio o 11 de Setembro e mudou tudo o que havia acontecido antes na história da aviação comercial.

ZH — Seu livro aborda o plano e as biografias dos atacantes. De onde saíram essas informações?
Sant’Anna —
As informações sobre os 19 atacantes, por exemplo. Comecei pelo 9/11 Comission Report. Depois peguei os interrogatórios de Khaled Sheik Mohamed, participante do complô, que está sendo ouvido há quatro anos. Ele é a maior fonte de informações sobre a Al-Qaeda.

ZH — Como foi seu processo de pesquisa para esse livro?
Sant’Anna —
Eu escrevi ao todo 17 mil páginas, posteriormente enxugadas nessas 270 do livro publicado. Eu comecei a escrever o livro dois anos depois do 11 de setembro. Minha idéia era pesquisar em Washington, na Biblioteca do Congresso, ou em Nova York, na biblioteca da Quinta Avenida, onde eu já havia escrito um livro, o Mercadores da Noite. Só que agora com a internet a biblioteca parece muito mais lenta para pesquisa do que você entrar no site dos jornais. Mas o que me fez escrever o livro daqui de casa foi a publicação do relatório do Congresso norte-americano, o 9/11 Comission Report, que é espetacular. Embora seja um documento oficial, ele já começa como se fosse um livro, pelo vôo 11. Tem ali as narrativas das Torres, dos vôos, tem 600 páginas com indicativos para depoimentos, centenas de documentos. Mas sendo um odcumento oficial ele é apenas a história de um dos lados da questão. Os atacantes, as vítimas, também precisariam ter seu ponto de vista. O jornal Pittsburgh Post-Gazette fez a matéria mais bem feita sobre o 11 de de setembro até hoje, e eu cheguei a ela após muita pesquisa, ouvi falar sobre esse texto em um dos 15 documentários que eu gravei ou comprei sobre o tema. O Post-Gazette destacou 12 jornalistas para investigar o 11 de setembro. A CNN tem uma câmera na sala da redação que fica 24 horas por dia filmando a rotina da emissora. E eu consegui os melhores momentos da fita desse 11 de setembro, uma tarde em que a redação estava modorrenta, a notícia do dia era uma prévia para a eleição de prefeito de Nova York. O Boston Globe fez uma matéria com a biografia dos 2.973 mortos. Eu li todas, algumas eliminava de saída, por não ter informações o suficiente. Algumas eram fascinantes, como a de uma faxineira porto-riquenha no primeiro dia de trabalho, com dois filhos, morta no Windows on the World, o restaurante do topo. Mas eu não tinha informações sobre o que ela fez na véspera, ou antes de ir pra torre. E eu queria focar em personagens que eu pudesse fazer uma linha, senão fica um livro picado, muito enciclopédia. Eu queria uma narrativa que fosse como de ficção, embora o fato fosse real.

ZH — Uma influência de seu trabalho como roteirista?
Sant’Anna —
Sim, claro. Eu começo com o ataque e daí avanço e recuo a partir do 11 de setembro, para o livro não começar morno. É um truque de roteirista. A cena de abertura é o Mohammed Atta chegando na Torre Norte. A Torre Norte é muito bem documentada por causas das gravações dos telefonemas feitos pelas comissárias do vôo, sendo que a gravação de uma delas, Betty Ong, eu forneço no livro um dos sites em que se pode ouvir esse registro. Ela narrando o que está acontecendo e o burocrata chateando: “qual o número de sua poltrona, qual o número do avião”, e a mulher lá, desesperada. Foi uma série de informações que eu fui obtendo e separando. Quando achei que sabia todo o panorama geral, resolvi fazer a cronologia fina: escrevi um livro enfadonho de ler, mas que para mim foi fundamental, piquei minuto a minuto as informações que eu tinha, da vida dos terroristas, vidas dos passageiros, uma cronologia que, no 11 de setembro, começa com o Mohammed Atta despertando.

ZH — Como alguns dos atacantes, sem experiência em pilotagem de aviões de grande porte, aprenderam apenas com aulas particulares?
Sant’Anna —
Até aí na Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUC já fiz palestras e me perguntaram: “Como esses caras aprenderam em tão pouco tempo?”. Sou piloto e posso dizer que o aluno de pilotagem não voa muito porque o vôo é caro, uns R$ 300, R$ 400 por hora. Mas, como eles eram financiados pela Al-Qaeda, voaram muito. Cumpriram em meses a seqüência que eu levei anos para fazer: piloto privado, piloto comercial, vôo por instrumentos e aí passaram para o simulador de 747, que não fiz.

ZH — Um dos grandes críticos da reação americana ao 11 de setembro, o documentarista Michael Moore, defende no ensaio Sete perguntas para Mr. Bush, incluído no livro Cara, cadê meu país?, que seria muito difícil para leigos realizarem os atentados, que a habilidade para pilotar os aviões não poderia ter sido obtida apenas em cursos particulares. Como o senhor avalia essa afirmação?
Sant’Anna —
Eu particularmente não gosto do trabalho do Michael Moore, ele parte de uma tese para fazer o texto, sem argumento nenhum, e aí aproveita o que encaixa e joga fora o que não serve. No meu livro eu procurei fazer a tese só depois de ter as informações. Você vai ver: os aviões acertaram as torres, isso é um fato. Os pilotos foram mortos antes do choque, isso também é um fato sabido pelas comunicações dos passageiros e comissários com famílias e torre de controle. No vôo 93 (o que caiu na Pensilvânia sem atingir nenhum alvo) a morte do piloto está gravada. Uma coisa é certa: os aviões não tinham pilotos, estavam sendo guiados pelos terroristas. Cada um dos vôos gerou uma história maluca diferente: disseram que não caiu avião nenhum no Pentágono. Como não? Tem cem provas de que o avião bateu. Recuperaram mais de cinco mil peças do avião do prédio, fragmentos de corpos dos passageiros. Ele fez uma curva enorme descendente em espiral para atingir o edifício, e isso foi acompanhado pela torre do aeroporto nacional Reagan, pela torre do aeroporto Dulles, pela FAA, está tudo muito documentado, e aí aparece um cara na internet e diz: %22não, foi um míssil%22.

ZH – Quais dos personagens cujas histórias o senhor recupera no livro mais o impressionaram?
Sant’Anna —
Com certeza o Ziad Jarrah (terrorista que assumiu o manche do vôo 93, que caiu sem atingir alvo algum). Ele era de família secular, estudou em colégio católico, as irmãs dele usavam blusas sem manga, biquínis. O próprio Ziad bebia cerveja, andava de moto, foi o único que, durante os cursos, se deu bem com os instrutores americanos. Ele agia como se fosse realmente seguir carreira na aviação.

ZH — Muito se falou sobre a escolha do 11 de setembro ser simbólica, porque a data em inglês lembra o número de emergência americano 911. Seu livro afasta essa hipótese.
Sant’Anna -
Sim, porque havia algumas premissas. A primeira era pegar vôos com pouca lotação. As férias americanas começam dia 4 de julho e terminam na primeira segunda-feira de setembro. Depois da volta ao trabalho, reabre o Congresso, as pessoas voltam de viagem, e a lotação dos vôos cai 60%. Eles precisavam pegar vôos sincronizados. E surpreende ainda o fato de que os terroristas não eram um grupo coeso, cada equipe operava por si, e o Mohamed Atta e o Ziad Jarrah, por exemplo, comandantes de duas delas, não gostavam um do outro. Tinha tudo para dar errado, mas não deu.

ZH – Está em cartaz o filme Vôo 93, de Paul Greengrass, que conta a trajetória de um dos aviões. O senhor o assistiu? E o que achou?
Sant’Anna
– Ele é angustiante, o que é bom. Mas há alguns problemas. Primeiro, ele estava em produção já antes da caixa-preta do avião ser liberada judicialmente. Então ele especula em coisas que não sabia, havia apenas relatos verbais de parentes que ouviram a gravação. Uma coisa que eu achei estranha é que ele não identifica ninguém. Há muitas cenas da Torre de controle no filme, ele as usa para contar dos outros atentados. Se fosse um roteiro meu, eu usaria também os parentes que receberam telefonemas e que estavam vendo os outros ataques.

Envie seu Comentário