Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de setembro 2006

Ofícios e Oficinas

29 de setembro de 2006 0

Essa é pra quem sente em si o calor pulsante (epa) da inspiração poética e quer dar vazão a seus impulsos (opa) criadores. O poeta Fabrício Carpinejar está aceitando inscrições até a próxima segunda-feira para uma oficina de criação semestre a ser realizada no próximo trimestre.
 
O curso, que oferece 10 vagas, será realizado no espaço Tessituras (Avenida Pirapó, 33 – Petrópolis, em Porto Alegre), às segundas-feiras, das 9h às 11h. As matrículas podem ser feitas pelos (51) 3061-1684 ou (51) 9969-9106 ou pelo email bernardete@tessituras.com.br
 
Carpinejar, vocês já podem ter ouvido falar, é uma das novas vozes da poesia rio-grandense recente com maior ressonância fora dos limites do Estado. Ele foi um dos indicados para o patronato da Feira do Livro, e mais sobre o trabalho e a trajetória do cara pode ser encontrado num dos posts sobre indicados a Patrono, publicado faz pouco tempo aqui neste blogue mesmo.

Postado por Carlos André Moreira

Aviso aos Navegantes

29 de setembro de 2006 0

Sabe aqueles textos da literatura de língua portuguesa dos quais sempre falam, falam e falam, em jornais, nas aulas do colégio, em ensaios variados mas que você nunca leu?

Bueno, com a arca de maravilhas que é a internet, para quem sabe procurar isso não é mais desculpa. Um bom exemplo é a Biblioteca Virtual de Literatura, com o texto integral e gratuito de uma série de obras da literatura portuguesa do século 19 e início do 20 (só estão ali obras de domínio público, aquelas cujos autores já morreram há mais de 70 anos).

Ok, nem TODOS os livros publicados nesse período são clássicos incontestáveis, admitamos, mas eles foram importantes par consolidar uma prática de literatura brasileira num país ainda por fazer, como diria o Nelson Rodrigues. Um exemplo eloqüente disso é José de Alencar, cujas obras torturaram a idade escolar de muita gente – a minha inclusive. Passados os anos, à medida que fui me dedicando mais ao estudo diletante da literatura e suas nuances, fui percebendo que, em seu conjunto, a obra de Alencar é fantástica apenas por ter existido – e eu prometo esmiuçar um pouco mais isso em outro post, mais adiante – apesar do ranço romântico e derramado para quem lê com olhos de hoje.

Mas voltando à biblioteca virtual: ali, é possível ter acesso ao texto, gratuitamente, de obras que não se encontram em livrarias ou que não costumam estar todas juntas, sistematizadas. Peguemos um exemplo banal, Álvares de Azevedo, por exemplo. Ali, estão não apenas o texto integral de Lira dos Vinte Anos, Noite na Taverna, da peça teatral Macário e da obra poética – tudo isso junto você só encontraria na obra completa publicada pela Nova Aguilar, um calhamaço com 849 páginas que hoje está praticamente esgotado.

Se convenceu, papudo? Então o endereço é http://www.biblio.com.br. Boa navegação.

Postado por Carlos André Moreira

Moringadas

28 de setembro de 2006 0

Sim, se você viu a reapresentação recente da Casa das Sete Mulheres você ainda deve lembrar daquele comandante imperial que tocava o horror em praticamente todas as batalhas contra os revolucionários farroupilhas, o %22Moringue%22 – responsável na série pelas mortes, dentre outros, do Corte Real vivido por Murilo Rosa e do italiano Rossetti vivido por Dalton Vigh. Pois o tal Moringue existiu de fato, e, embora a série tenha sido precisa na caracterização de sua habilidade militar, pecou na escalação do elenco.

O Moringue na história era interpretado por um ator que aparentava ser mais velho que o próprio Bento Gonçalves, quando o Moringue real, ou antes o militar Francisco Pedro de Abreu, tinha  uma característica que tornava ainda mais surpreendente seus triunfos militares em campo: era muito jovem, tinha 25 anos quando a Revolução estourou e uns 30, 31 naquela etapa da minissérie em que foi retratado – era mais novo que o próprio Netto, ele também um comandante jovem.

Pois é a história desse Moringue real, Francisco Pedro de Abreu, também chamado Chico Pedro, que o historiador Sérgio da Costa Franco se propõe a resgatar em no livro As %22Califórnias%22 do Chico Pedro (Evangraf, 90 páginas, R$ 15), que ele autografa às 18h de hoje, na Livraria Erico Verissimo (Jerônimo Coelho, 377), em Porto Alegre.

O livro, conciso mas bem documentado e escrito na prosa elegante de Costa Franco, é um estudo biográfico sobre o %22Moringue%22,´responsável por algumas das mais duras derrotas do exército Farroupilha, entre elas a de Canabarro no combate de Porongos, episódio que até hoje divide a historiografia rio-grandense pela suspeita de que o general farrapo teria negociado com o próprio Moringue o massacre dos lanceiros negros que se encontravam no local

O livro segue a trajetória do Moringue desde ainda muito jovem até suas incursões em território uruguaio para combater as forças partidárias do ditador argentino Rosas, as chamadas %22califórnias%22 do título, campanhas nas quais o Moringue fez nome não apenas no Estado mas em boa parte dos territórios platinos vizinhos. Vale o comparecimento, pessoal.

Postado por Carlos André Moreira

Tradução e tradição

26 de setembro de 2006 0

Para quem se interessa por tradução literária como atividade e profissão, fica a dica. Amanhã, dia 27, das 14h às 17h, vai ser realizada na PURCRS uma aula aberta com entrada franca da tradutora Dr. Beatriz Viégas-Faria.

Professora da própria PUCRS, Beatriz vai falar sobre Aspectos Teóricos da Tradução Literária: os elementos do próprio texto (léxico, sintaxe, semântica, pragmática) que devem ser harmonizados durante o esforço de tradução com elementos à parte do texto em si mesmo, mas a ele relativos, como a história da obra literária e objetivo da tradução, com os elementos autorais (estilo e época do texto original); e as referências e inferências (socioculturais, intertextuais).

A aula será realizada na na sala 316 do prédio 8, da PUC, a sede do Letras. Pra quem está na Ipiranga vindo daqui da Azenha, do centro, fica no lado direito.

Postado por Carlos André Moreira

As variações Bernhard

25 de setembro de 2006 0

O Nàufrago, de Bernhard, retrata Glenn Gould/Divulgação
Em maio de 1996, a editora Companhia das Letras lançava a primeira tradução no Brasil de um romance devastador, literalmente capaz de abalar pra sempre a visão de mundo do leitor, literalmente capaz de transformar o leitor num leitor diferente: o romance O Náufrago, do austríaco Thomas Bernhard. De lá pra cá, a Companhia lançou outros dois volumes da obra de Bernhard, Extinção e Origem, e O Náufrago permanecia esgotado. Nos últimos dois anos, doze leitores deixaram mensagens no site da editora implorando por uma reedição do livro. E então a editora reeditou O Náufrago, há uns três meses.

O Náufrago conta a história de um trio de amigos musicistas que estudaram juntos em Viena na juventude. Dois deles não deram em nada como pianistas. Um deles, o narrador do livro. O outro, Wertheimer, o náufrago do nome, propriamente dito. O terceiro, responsável pelo fracasso dos demais ao esmagá-los com sua genialidade, diante da qual o virtuosismo de ambos é inútil, é o canadense Glenn Gould, considerado um dos últimos gênios musicais do século 20 e intérprete definitivo das Variações Goldberg, um conjunto de 32 peças curtas escritas por Bach.

Qualquer trecho de O Náufrago merece citação, por exemplo este, da página 120 da edição de 1996:
Seja a pessoa quem for, ela é única, vivo dizendo a mim mesmo, o que me salva. Wertheimer jamais foi capaz de levar em conta essa âncora salvadora, ou seja, contemplar a si próprio como alguém único: para tanto lhe faltavam todos os requisitos. Todo homem é um ser humano único e, contemplado em sua individualidade, ele é com efeito a maior obra de arte de todos os tempos – sempre pensei assim, sempre pude fazê-lo, pensei. Wertheimer não teve essa possibilidade, por isso sempre quis ser Glenn Gould ou, como disse, Gustav Mahler, Mozart e companhia, pensei. Isso o mergulhou desde cedo, e de forma constante, na infelicidade. Não precisamos ser gênios pra sermos únicos e reconhecer o que somos, pensei.

Postado por Rodrigo Breunig

Citação sem compromisso

25 de setembro de 2006 0

– Se se lessem os 15 livros mais vendidos na lista do New York Times, se morreria envenenado.
Paulo Francis, em texto publicado em agosto de 1996, numa Zero Hora Dominical.

E hoje? Bem, pouco mais de 10 anos depois, a coisa não parece ter mudado muito. Entre os 15 mais vendidos da lista publicada esta semana pelo mesmo jornal, há livros como The Book of Fate, de Brad Meltzer, um romancista medíocre que encontrou seu caminho renovando a abordagem adulta das histórias em quadrinhos de super-heróis. Dois de seus livros foram publicados no Brasil, e seguem a fórmula de criação de um best-seller do início ao fim, com roteiro esquemático, correria desenfreada, personagens que nada mais são do que tipos sem alma ou vida. É o segundo. Na 10ª posição, está The Afghan, do veterano Fredercik Forsyth, mais bem sucedido em seus romances de ação e espionagem – quem não leu com deleite O Dia do Chacal?

Mas de um modo geral, o quadro não mudou muito.

Postado por Carlos André Moreira

Me acorde quando setembro acabar

18 de setembro de 2006 0

Capa do livro The Zero, de Jess Walker /Divulgação

Capítulo Um
Eles explodiram no céu, cada pássaro da criação, raivosos e agitados, despertos pelo mesmo pensamento primário, irrompendo em um emplumado chuvisco branco, ansioso e cheio de graça, descendo em círculos cada vez mais estreitos em direção ao solo, mergulhando o bastante para que se pudesse tocar, e depois perto o bastante para se ver que não era uma revoada de pássaros no fim das contas – era papel. Pedaços queimados de papel. Todos os pequenos pássaros eram papel. Vibrando e girando e aumentando, pedaços maiores em queda e folhas frenéticas, algumas fumegando, com cantos chamuscados que se ampliavam em contato com o ar até não haver nada além de uma fina borda preta… E então se foram, um buraco e nada além da memória débil da fumaça. Atrás da revoada ardente veio um grande berro, e um lamento que, num borbulhante desenrolar negro virou o mundo do avesso, pássaros se chocando contra um céu opaco e naquele momento tudo o que não era fumaça era papel. E foi lindo.
– Brian? Está tudo bem aí
?

Pra quem achou que já tinha visto de tudo relacionado ao 11 de Setembro, desde livros como 102 minutos, o já citado Plano de Ataque ou Windows on the World até filmes como Vôo 93 ou Torres Gêmeas, traduzi numa versão apressada o texto acima, que vem a ser o primeiro parágrafo do primeiro capítulo de The Zero, livro de Jess Walker que se tornou este ano o primeiro romance cômico de alguma qualidade publicado nos Estados Unidos a refletir sobre o 11 de setembro – numa prova de que os traumas começam a cicatrizar ainda demoradamente. 

Na história, o policial Brian Remy acorda certo dia em seu quarto e descobre que deu um tiro na própria cabeça. À medida que a fumaça das recordações vai se dissipando, Remy acorda para uma vida surreal que lhe completamente estranha, em uma cidade traumatizada por um ataque terrorista, governada por um prefeito maquiavélico conhecido como %22The Boss%22 e namorando uma mulher de quem ele não se lembra. E ele agora tem uma nova missão: rastrear essa trilha de recortes e fragmentos de papel dos quais fala o primeiro parágrafo, a serviço de um misterioso Departamento de Documentação. Ao contrário do que se poderia esperar, o humor satírico e devastador do livro não desagradou os americanos (os críticos, pelo menos, o saudaram como uma obra ao mesmo tempo hilária, comovente e profundamente humana).

Quem se virar bem no inglês pode ler o primeiro capítulo intero na páginas do jornal Usa Today, neste endereço.

Ainda não há previsão de lançamento do livro aqui no Brasil.

Postado por Carlos André Moreira

A caixa-preta do 11 de Setembro

16 de setembro de 2006 0

O jornalista Ivan Sant'Anna. Foto: Divulgação, Objetiva

Quem leu a ZH Dominical deste fim-de-semana deve ter passado os olhos pela entrevista feita por este que vos escreve com o escritor Ivan Sant’Anna, autor do best-seller Caixa-Preta, a história de três grandes acidentes aéreos do Brasil. O sujeito, que é ele próprio piloto comercial, acabou de lançar Plano de Ataque: a história dos vôos de 11 de setembro (Objetiva, 280 páginas), um trabalho de organização cronológica e minuciosa dos vôos que abateram as Torres Gêmeas de Nova York e atingiram uma das alas do Pentágono, no maior atentado terrorista realizado contra os Estados Unidos em seu próprio solo (curiosamente o título é o mesmo do livro que o jornalista Bob Woodward, um dos autores das reportagens sobre o escândalo Watergate, escreveu sobre os planos de George W. Bush para a invasão do Iraque).

O livro surge em um momento, cinco anos após os ataques, em que já se tem uma distância tempo confortável para que os primeiros olhares de reflexão desapaixonada sejam dirigidos ao acontecimento que moldou este nascente século 21. Em um momento em que pipocam livros e filmes sobre o assundo, o brasileiro Ivan Sant’Anna dá sua contribuição com um livro-reportagem que é um dos mais bem-sucedidos até agora em transformar o 11 de Setembro em narrativa. Fruto de uma pesquisa de três anos em acervos digitalizados, documentários, sites e coleções de jornais americanos, Plano de Ataque é, como o nome sugere, a radiografia minuciosa do plano elaborado pela Al-Qaeda para usar aviões como arma de ataque terrorista contra os Estados Unidos. Sant’Anna apresenta, em uma narrativa escrita com hábil uso de recursos literários, as biografias dos principais terroristas, a preparação a que se submeteram em escolas de vôo dos EUA, a evolução do plano da Al-Qaeda, os antecedentes da idéia, esboçada 10 anos antes. Por telefone, Sant’Anna concedeu a entrevista cuja íntegra vai abaixo:

Zero Hora — Após o sucesso do livro Caixa-Preta, o senhor já tinha a idéia de voltar ao tema da aviação?
Ivan Sant’Anna —
Nunca escreveria o Caixa-Preta 2, porque não encontraria histórias tão interessantes quanto as que já havia contado. Mas veio o 11 de Setembro e mudou tudo o que havia acontecido antes na história da aviação comercial.

ZH — Seu livro aborda o plano e as biografias dos atacantes. De onde saíram essas informações?
Sant’Anna —
As informações sobre os 19 atacantes, por exemplo. Comecei pelo 9/11 Comission Report. Depois peguei os interrogatórios de Khaled Sheik Mohamed, participante do complô, que está sendo ouvido há quatro anos. Ele é a maior fonte de informações sobre a Al-Qaeda.

ZH — Como foi seu processo de pesquisa para esse livro?
Sant’Anna —
Eu escrevi ao todo 17 mil páginas, posteriormente enxugadas nessas 270 do livro publicado. Eu comecei a escrever o livro dois anos depois do 11 de setembro. Minha idéia era pesquisar em Washington, na Biblioteca do Congresso, ou em Nova York, na biblioteca da Quinta Avenida, onde eu já havia escrito um livro, o Mercadores da Noite. Só que agora com a internet a biblioteca parece muito mais lenta para pesquisa do que você entrar no site dos jornais. Mas o que me fez escrever o livro daqui de casa foi a publicação do relatório do Congresso norte-americano, o 9/11 Comission Report, que é espetacular. Embora seja um documento oficial, ele já começa como se fosse um livro, pelo vôo 11. Tem ali as narrativas das Torres, dos vôos, tem 600 páginas com indicativos para depoimentos, centenas de documentos. Mas sendo um odcumento oficial ele é apenas a história de um dos lados da questão. Os atacantes, as vítimas, também precisariam ter seu ponto de vista. O jornal Pittsburgh Post-Gazette fez a matéria mais bem feita sobre o 11 de de setembro até hoje, e eu cheguei a ela após muita pesquisa, ouvi falar sobre esse texto em um dos 15 documentários que eu gravei ou comprei sobre o tema. O Post-Gazette destacou 12 jornalistas para investigar o 11 de setembro. A CNN tem uma câmera na sala da redação que fica 24 horas por dia filmando a rotina da emissora. E eu consegui os melhores momentos da fita desse 11 de setembro, uma tarde em que a redação estava modorrenta, a notícia do dia era uma prévia para a eleição de prefeito de Nova York. O Boston Globe fez uma matéria com a biografia dos 2.973 mortos. Eu li todas, algumas eliminava de saída, por não ter informações o suficiente. Algumas eram fascinantes, como a de uma faxineira porto-riquenha no primeiro dia de trabalho, com dois filhos, morta no Windows on the World, o restaurante do topo. Mas eu não tinha informações sobre o que ela fez na véspera, ou antes de ir pra torre. E eu queria focar em personagens que eu pudesse fazer uma linha, senão fica um livro picado, muito enciclopédia. Eu queria uma narrativa que fosse como de ficção, embora o fato fosse real.

ZH — Uma influência de seu trabalho como roteirista?
Sant’Anna —
Sim, claro. Eu começo com o ataque e daí avanço e recuo a partir do 11 de setembro, para o livro não começar morno. É um truque de roteirista. A cena de abertura é o Mohammed Atta chegando na Torre Norte. A Torre Norte é muito bem documentada por causas das gravações dos telefonemas feitos pelas comissárias do vôo, sendo que a gravação de uma delas, Betty Ong, eu forneço no livro um dos sites em que se pode ouvir esse registro. Ela narrando o que está acontecendo e o burocrata chateando: “qual o número de sua poltrona, qual o número do avião”, e a mulher lá, desesperada. Foi uma série de informações que eu fui obtendo e separando. Quando achei que sabia todo o panorama geral, resolvi fazer a cronologia fina: escrevi um livro enfadonho de ler, mas que para mim foi fundamental, piquei minuto a minuto as informações que eu tinha, da vida dos terroristas, vidas dos passageiros, uma cronologia que, no 11 de setembro, começa com o Mohammed Atta despertando.

ZH — Como alguns dos atacantes, sem experiência em pilotagem de aviões de grande porte, aprenderam apenas com aulas particulares?
Sant’Anna —
Até aí na Faculdade de Ciências Aeronáuticas da PUC já fiz palestras e me perguntaram: “Como esses caras aprenderam em tão pouco tempo?”. Sou piloto e posso dizer que o aluno de pilotagem não voa muito porque o vôo é caro, uns R$ 300, R$ 400 por hora. Mas, como eles eram financiados pela Al-Qaeda, voaram muito. Cumpriram em meses a seqüência que eu levei anos para fazer: piloto privado, piloto comercial, vôo por instrumentos e aí passaram para o simulador de 747, que não fiz.

ZH — Um dos grandes críticos da reação americana ao 11 de setembro, o documentarista Michael Moore, defende no ensaio Sete perguntas para Mr. Bush, incluído no livro Cara, cadê meu país?, que seria muito difícil para leigos realizarem os atentados, que a habilidade para pilotar os aviões não poderia ter sido obtida apenas em cursos particulares. Como o senhor avalia essa afirmação?
Sant’Anna —
Eu particularmente não gosto do trabalho do Michael Moore, ele parte de uma tese para fazer o texto, sem argumento nenhum, e aí aproveita o que encaixa e joga fora o que não serve. No meu livro eu procurei fazer a tese só depois de ter as informações. Você vai ver: os aviões acertaram as torres, isso é um fato. Os pilotos foram mortos antes do choque, isso também é um fato sabido pelas comunicações dos passageiros e comissários com famílias e torre de controle. No vôo 93 (o que caiu na Pensilvânia sem atingir nenhum alvo) a morte do piloto está gravada. Uma coisa é certa: os aviões não tinham pilotos, estavam sendo guiados pelos terroristas. Cada um dos vôos gerou uma história maluca diferente: disseram que não caiu avião nenhum no Pentágono. Como não? Tem cem provas de que o avião bateu. Recuperaram mais de cinco mil peças do avião do prédio, fragmentos de corpos dos passageiros. Ele fez uma curva enorme descendente em espiral para atingir o edifício, e isso foi acompanhado pela torre do aeroporto nacional Reagan, pela torre do aeroporto Dulles, pela FAA, está tudo muito documentado, e aí aparece um cara na internet e diz: %22não, foi um míssil%22.

ZH – Quais dos personagens cujas histórias o senhor recupera no livro mais o impressionaram?
Sant’Anna —
Com certeza o Ziad Jarrah (terrorista que assumiu o manche do vôo 93, que caiu sem atingir alvo algum). Ele era de família secular, estudou em colégio católico, as irmãs dele usavam blusas sem manga, biquínis. O próprio Ziad bebia cerveja, andava de moto, foi o único que, durante os cursos, se deu bem com os instrutores americanos. Ele agia como se fosse realmente seguir carreira na aviação.

ZH — Muito se falou sobre a escolha do 11 de setembro ser simbólica, porque a data em inglês lembra o número de emergência americano 911. Seu livro afasta essa hipótese.
Sant’Anna -
Sim, porque havia algumas premissas. A primeira era pegar vôos com pouca lotação. As férias americanas começam dia 4 de julho e terminam na primeira segunda-feira de setembro. Depois da volta ao trabalho, reabre o Congresso, as pessoas voltam de viagem, e a lotação dos vôos cai 60%. Eles precisavam pegar vôos sincronizados. E surpreende ainda o fato de que os terroristas não eram um grupo coeso, cada equipe operava por si, e o Mohamed Atta e o Ziad Jarrah, por exemplo, comandantes de duas delas, não gostavam um do outro. Tinha tudo para dar errado, mas não deu.

ZH – Está em cartaz o filme Vôo 93, de Paul Greengrass, que conta a trajetória de um dos aviões. O senhor o assistiu? E o que achou?
Sant’Anna
– Ele é angustiante, o que é bom. Mas há alguns problemas. Primeiro, ele estava em produção já antes da caixa-preta do avião ser liberada judicialmente. Então ele especula em coisas que não sabia, havia apenas relatos verbais de parentes que ouviram a gravação. Uma coisa que eu achei estranha é que ele não identifica ninguém. Há muitas cenas da Torre de controle no filme, ele as usa para contar dos outros atentados. Se fosse um roteiro meu, eu usaria também os parentes que receberam telefonemas e que estavam vendo os outros ataques.

Autógrafos

14 de setembro de 2006 0

Para quem  tem o propósito de prestigiar os autores daqui: o livreiro, ex-trabalhador rural, ex-militante comunista e ex-juiz-vogal do Trabalho Nilo Pacheco de Quadros autografa hoje às 19h no Memorial do Rio Grande do Sul, na Praça da Alfândega, o livro de memórias Pombo-correio (Editoa Alcance, 150 páginas).

Entremeando suas próprias memórias com análises e resumos históricos de temas como o sindicalismo, os partidos políticos e o cooperativismo no Estado, Nilo Quadros monta um painel de sua vida e de seu tempo, desde 1925, quando nasceu, até os dias de hoje.

Postado por Carlos André Moreira

Fim de Fest...

13 de setembro de 2006 0

Joachim Fest, biógrafo de Hitler./Divulgação
Foi divulgada ontem a morte do escritor e historiador alemão Joachim Fest, aos 79 anos. Para quem acompanha os bons livros que pintam na praça, o nome é bastante familiar. Pra quem não, continue lendo, por favor.

Fest foi o autor daquela que é considerada a mais importante, bem documentada e reveladora biografia do líder nazista Adolph Hitler. Hitler, a obra, foi relançada recentemente pela Nova Fronteira, em dois magníficos e bem editados volumes. O primeiro cobre o período do nascimento de Hitler até sua ascensão ao poder na Alemanha, em 1933, com elementos que documentam a formação intelectual do jovem Adolph, e a formação de seu anti-semitismo, responsável mais tarde pelos campos de extermínio na Polônioa e na Alemanha. O segundo volume vai de onde o outro parou, em 1933, até 1945, quando a Alemanha nazista se esfrangalhou e Hitler se matou com um tiro na cabeça no bunker em que comandava seu Estado-Maior. Outros livros de Fest considerados fundamentais são Speer, volume de memórias do arquiteto nazista Albert Speer, escrito em parceria com o próprio, e No Bunker de Hitler, que serviu em parte como fonte para o recente longa-metragem A Queda, estrelado por Bruno Ganz (o anjo desertor de Asas do Desejo) no papel do ditador.

Fest morreu em Kroenberg, cidade em que residia, de causa não revelada. Ele havia recentemente concluído a autobiografia Eu Não: Lembranças de Infância e Juventude, na qual relata sua vida durante o nazismo. Seu pai era um professor dissidente do regime nazista – o que lhe custou o emprego. Na obra, a ser lançada na semana que vem na Alemanha, Fest relembra a reação do pai quando ele se apresentou como voluntário às forças armadas em 1944 a fim de evitar ser recrutado para a SS. O pai,teria lhe dito que ninguém deveria participar voluuntariamente da guerra nazista, nem mesmo para evitar a SS. Fest, ainda assim, foi para o conflito, foi capturado durante a guerra e ficou num campo de prisioneiros americano.

Postado por Carlos André Moreira