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Calvino e a linguagem

28 de outubro de 2006 0

Como prometido na página 2 do Caderno de Cultura deste sábado, vão abaixo outros trechos da entrevista com o italiano Pierino Bonifazio, crítico e tradutor italiano que vem a Porto Alegre agora durante a Feira para falar no dia 1º de novembro, às 19h, na Sala O Retrato do Centro Cultural Erico Verissimo, sobre Ítalo Calvino, a linguagem e a literatura. A pergunta seguinte foi suscitada por um comentário de Bonifazio sobre o crescente empobrecimento da linguagem cotidiana – que Calvino contrapunha à linguagem literária.

Cultura – A formação dos escritores se dá nessa língua empobrecida do cotidiano. Não seria uma função do próprio autor assimilar isso? E como ele pode transcender essa %22língua de uso comum%22 quando ele foi formado nela?
Bonifazio –
Calvino defendia que o escritor deveria descrever de uma maneira concreta e precisa. Ele mesmo dizia que não gostava da maneira como falava, porque no idioma falado é fácil cair no superficial. Por isso, ele escrevia. E dizia que gostava disso justamente porque podia sentar e retrabalhar e corrigir tantas vezes até que chegasse ao ponto de perfeição, o mais próximo da linguagem que pode ser literatura. Na linguagem falada, isso é difícil, porque ela é prioritariamente entendimento, e, se alguém falar literariamente, soará estranho aos outros. Mas nos livros e na escritura ele diz que deveríamos procurar sempre a palavra certa, o termo preciso.

Cultura – O que leva de volta à conferência sobre a Exatidão [uma das propostas reunidas por Calvino no livro Seis Propostas para o Próximo Milênio], que o senhor profere na Feira, e que é algo que o próprio Calvino já exercitava no livro Palomar.
Bonifazio
– Bravíssimo. Palomar na primeira leitura parece chato, tedioso, mas se você lê, relê e relê de novo, descobre que ele está oferecendo um filme interpretado literariamente. Por exemplo, quando Palomar vê uma mulher sem a parte de cima do biquíni e fica sem saber o que fazer. O exame do que se passa na cabeça desse cara, que passa e depois não sabe se volta, para não dar a impressão de que está querendo espiar a mulher… Se você lê lentamente algumas vezes esse trecho, vê-se o quanto é possível escrever bem sobre um evento banal. Para mim, o encanto dos contos de Palomar está nesses momentos em que o Calvino apresenta o raciocínio do personagem.

Cultura – Calvino é um autor italiano muito estudado no Brasil. O senhor, com a experiência de quem viveu aqui, sente que há algo que diferencia as leituras do escritor feitas aqui das leituras feitas na Itália, por pessoas que partilham com Calvino determinadas circunstâncias culturais que aqui inexistem?
Bonifazio –
Acho que não tem muita diferença. O problema está acho na falsa simplicidade da maneira como ele escrevia – isso nos ensaios, claro. Na Itália ou aqui, Calvino é conhecido mais pelos romances que escreveu, nos quais não há uma exposição constante ou clara do pensamento do autor. Nos ensaios, ele vai direto ao ponto, explica diretamente o que quer dizer, não tem a arquitetura do romance para mediar o conteúdo. Na Itália foi publicada uma edição da obra completa de Calvino. Os romances e contos estão reunidos em três volumes, totalizando umas cinco mil páginas. Há um volume de cartas e três de ensaios, que não circulam muito, e que foi exatamente onde ele tentou apontar os pontos cruciais de seu pensamento. Só especialistas lêem os ensaios.

Postado por Carlos André Moreira

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