
Atualmente, os grandes romances policiais de autores contemporâneos têm equilibrado o rigor de uma trama de crime com solução plausível e ao mesmo tempo original com o investimento em uma psicologia dos personagens. Seus detetives têm caráter menos monolítico, hesitações mais humanas, um universo interior mais bem construído – e muitos deles, ao mesmo tempo, abdicam do simples trabalho dedutivo em nome de uma caraterística que tangencia o mediúnico.
É o caso, por exemplo, do detetive Adamsberg, protagonista de O Homem dos Círculos Azuis (Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 35) livro da autora francesa Fred Vargas recentemente lançado. É o primeiro livro com o detetive, que já foi protagonista por aqui de O Homem pelo Avesso e Fuja Logo e Demore para Voltar.
Adamsberg é um francês franzino, de baixa estatura, pele escura e uma lentidão exasperante. Como se refletissem o temperamento de seu protagonista, os livros que Vargas escreve são estranhos, lentos, escritos em um ritmo pesado, no qual submergimos como afogados. Adamsberg é excêntrico, cheio de manias, com problemas de trato social e tem dificuldade de seguir uma única linha de raciocínio, prefere deixar que os pensamentos se decantem em sua cabeça e uma hora a solução sobe à superfície, no meio de uma extrema clareza. Ele também diz ter a capacidade de ver a crueldade supurando no rosto das pessoas – o elemento sobrenatural a que eu me referi agora há pouco.
Os coadjuvantes de Adamsberg são também excêntricos, como seu auxiliar, um policial que cuida de cinco filhos e discute com eles à noite, entre um copo e outro, os casos que está analisando. Refletindo essa estranheza que acomete até o autor dos crimes, neste O Homem dos Círculos Azuis uma série de círculos em giz azul começa a aparecer nas ruas do 6eme. Arondissement, em Paris, sempre contendo em seu interior algum objeto único e estranho jogado no chão, como uma bolsa, isqueiros, latas de refrigerantes e outras coisas que o cara acha pela rua. Até que um dia, uma mulher morta aparece dentro de um dos círculos. Em O Homem do Avesso, as mortes em uma aldeia montanhesa remetem à ação de um lobisomem.
Esse flerte com o bizarro talvez seja uma característica dos autores policiais franceses, como Vargas e Jean-Christophe Gange, autor de Rios Vermelhos, o livro que deu origem ao filme com Jean Reno e Vincent Cassel.
O problema é que Vargas parece o tipo de escritora que confunde dar a um personagem certa profundidade com %22inventar uma mania estranha%22 para algum personagem. Em O Homem dos Círculos Azuis há uma oceanógrafa que, quando em terra, se dedica a seguir pessoas aleatoriamente. Há o auxiliar já citado. Em O Homem do Avesso há uma jovem que se acalma lendo um catálogo de ferramentas para serviços pesados. Como se pinçar uma característica bizarra e destacá-la fosse o suficiente para criar tipos com densidade interior. O próprio Adamsberg se aparenta nesse sentido com o Maigret de Georges Simenon, um detetive que não tem o maior apreço pelo trabalho de campo, que vive no mundo da lua e que, a certa altura, juntando elementos que num primeiro momento só fazem sentido para ele, resolve seus casos. Mas Maigret envelhece em seus livros com uma profundidade que a série de Vargas ainda não conseguiu impôr a seu protagonista.
Postado por Carlos André Moreira
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