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Posts de dezembro 2006

Um trecho a esmo

14 de dezembro de 2006 1

Capa de 47 Contos/DivulgaçãoCapurro desabotoou lentamente, sem se virar, seu impermeável, tirou uma nota do bolso da calça e passou-a para o outro. Viu outra vez o sorriso do garçom e adivinhou ao redor do sorriso sua cara ordinária de macaco, os olhos pequenos voltados para as têmporas, seu cinismo distraído. Esperou até não notar mais os passos do outro indo para o hotel, depois inclinou a cabeça, os pés firmes na terra elástica e na relva onde ela estivera, embalado por aquela lembrança: o corpo da garota e seus movimentos na tarde remota, protegido de si mesmo e de seu passado por uma agora imorredoura atmosfera de crença e esperança sem destino, respirando no ar quente onde tudo estava esquecido.

Trecho de A Longa História, conto incluído no volume 47 contos de Juan Carlos Onetti, que chega agora às livrarias, com tradução de Josely Vianna Baptista. Diferente de outros livros da ótima série da companhia dedicada a contos, que já publicou autores como Rubem Fonseca, Truman Capote, Scott Fitzgerald e Primo Levi, este volume não é uma coletânea parcial, e sim a reunião de toda a obra contística do uruguaio Onetti (1909 – 1994), autor de alguns romances clássicos da literatura latino-americanda, como Junta-cadáveres e A Vida Breve (ambos com edições recentes no Brasil pela Planeta)

Investigações circulares

07 de dezembro de 2006 3

Capa de O Homem dos Círculos Azuis/Divulgação
Atualmente, os grandes romances policiais de autores contemporâneos têm equilibrado o rigor de uma trama de crime com solução plausível e ao mesmo tempo original com o investimento em uma psicologia dos personagens. Seus detetives têm caráter menos monolítico, hesitações mais humanas, um universo interior mais bem construído – e muitos deles, ao mesmo tempo, abdicam do simples trabalho dedutivo em nome de uma caraterística que tangencia o mediúnico.

É o caso, por exemplo, do detetive Adamsberg, protagonista de O Homem dos Círculos Azuis (Companhia das Letras, 216 páginas, R$ 35) livro da autora francesa Fred Vargas recentemente lançado. É o primeiro livro com o detetive, que já foi protagonista por aqui de O Homem pelo Avesso e Fuja Logo e Demore para Voltar.

Adamsberg é um francês franzino, de baixa estatura, pele escura e uma lentidão exasperante. Como se refletissem o temperamento de seu protagonista, os livros que Vargas escreve são estranhos, lentos, escritos em um ritmo pesado, no qual submergimos como afogados. Adamsberg é excêntrico, cheio de manias, com problemas de trato social e tem dificuldade de seguir uma única linha de raciocínio, prefere deixar que os pensamentos se decantem em sua cabeça e uma hora a solução sobe à superfície, no meio de uma extrema clareza. Ele também diz ter a capacidade de ver a crueldade supurando no rosto das pessoas – o elemento sobrenatural a que eu me referi agora há pouco.

Os coadjuvantes de Adamsberg são também excêntricos, como seu auxiliar, um policial que cuida de cinco filhos e discute com eles à noite, entre um copo e outro, os casos que está analisando. Refletindo essa estranheza que acomete até o autor dos crimes, neste O Homem dos Círculos Azuis uma série de círculos em giz azul começa a aparecer nas ruas do 6eme. Arondissement, em Paris, sempre contendo em seu interior algum objeto único e estranho jogado no chão, como uma bolsa, isqueiros, latas de refrigerantes e outras coisas que o cara acha pela rua. Até que um dia, uma mulher morta aparece dentro de um dos círculos. Em O Homem do Avesso, as mortes em uma aldeia montanhesa remetem à ação de um lobisomem.

Esse flerte com o bizarro talvez seja uma característica dos autores policiais franceses, como Vargas e Jean-Christophe Gange, autor de Rios Vermelhos, o livro que deu origem ao filme com Jean Reno e Vincent Cassel.

O problema é que Vargas parece o tipo de escritora que confunde dar a um personagem certa profundidade com %22inventar uma mania estranha%22 para algum personagem. Em O Homem dos Círculos Azuis há uma oceanógrafa que, quando em terra, se dedica a seguir pessoas aleatoriamente. Há o auxiliar já citado. Em O Homem do Avesso há uma jovem que se acalma lendo um catálogo de ferramentas para serviços pesados. Como se pinçar uma característica bizarra e destacá-la fosse o suficiente para criar tipos com densidade interior. O próprio Adamsberg se aparenta nesse sentido com o Maigret de Georges Simenon, um detetive que não tem o maior apreço pelo trabalho de campo, que vive no mundo da lua e que, a certa altura, juntando elementos que num primeiro momento só fazem sentido para ele, resolve seus casos. Mas Maigret envelhece em seus livros com uma profundidade que a série de Vargas ainda não conseguiu impôr a seu protagonista.

Postado por Carlos André Moreira

O Policial apresenta suas armas

07 de dezembro de 2006 0

Essa é uma discussão meio velha, mas até aí, toda discussão em torno de literatura ultimamente parece mais do tempo em que o Marques de Sade era um coroinha virgem. Gênero de amplo apelo popular, o romance policial não costuma ser aceito na categoria “grandes livros” – com alguma razão – e às vezes nem é considerado literatura – aí sem razão nenhuma.

Teóricos mil já andaram apontando suas lupas para o policial como se se tratasse de um criminoso relaxado que entrou na festa bacana de smoking sem sequer se preocupar em limpar o sangue das mãos. Para alguns, é um romance que parte daquilo que os melhores romances não são: a possibilidade da ação transformadora no mundo. Nos melhores exemplares do gênero romanesco, a ação de um personagem sobre o mundo têm mais conseqüências nele do que no mundo em si, e na maioria das vezes conseqüências não muito agradáveis: vejamos o caso de Relações Perigosas, O Vermelho e o Negro, Madame Bovary, São Bernardo, Grande Sertão Veredas e A Marca Humana, para ficar com uma gama ampla de exemplos que abrangem diferentes autores, estilos e épocas. Já o romance policial é aquele no qual o protagonista, com sua ação, sempre desvenda o mistério e age no mundo. São romances que nos dão a ilusão de verdade e conhecimento – mesmo os mais recentes que, dentro da estrutura cara a estes tempos de pós-modernidade, jogam as regras no liquidificador.

Há outras interpretações. O teórico Ernest Mandel, por exemplo, que já foi levado a sério numa época em que o marxismo cego e dogmático era qualidade e não deficiência intelectual, elaborou em um estudo já clássico a distinção entre dois tipos de romances: o de integração e o de desintegração. No primeiro estariam aqueles romances que cultores e praticantes do gênero – como S.S. Van Dyne, por exemplo – chamavam de romance-jogo, romance-enigma e variações, uma brincadeira inteletual entre o autor e seu público na qual o assassinato não é um crime e sim um jogo e as pistas que o detetive amealha pelo caminho estão ali também para que o leitor as descubra e chegue à conclusão primeiro. É, segundo Mandel, um romance no qual a ação do detetive branco a serviço do capitalismo restitui metaforicamente a ordem num mundo no qual o criminoso, seja qual for sua motivação, é um corpo estranho à ordem do lugar.

Já o tal “romance de desintegração” é o da ultra-violência de policiais e detetives cínicos que trafegam num mundo corrupto, além de qualquer redenção e no qual o crime é visto como parte do decadentismo inevitável da sociedade capitalista, e sua ação não é imune a quedas e derrotas ao longo do processo. Sua capacidade de dedução é apenas um elemento de um gênero no qual uma pistola que não engasgue e punhos firmes numa briga são tão  importantes quanto.

Mas talvez o gênero policial não tenha seu espaço na grande literatura assegurado – a não ser no caso de obras que assumidamente usam o policial como pretexto mas o abandonam assim que possível – por ser, como o nome diz, um “gênero”. e um dos que tem a estrutura mais rígida e marcada: um crime, um agente decifrador, um criminoso e a elucidação. Fazer arte é transgredir normas, e, no policial, transgredir normas é matar o que faz do romance o que ele é.

Nos últimos anos, determinados autores têm conseguido imprimir a essa fórmula ao mesmo tempo arriscada e paradoxal alguns tons novos, investindo no que os primeiros autores do gênero apenas tangenciavam. Já que um personagem se repete de um livro para outro, o grande caminho para o bom policial é investir na construção desse personagem de histórias em história. E claramente nos últimos anos os melhores autores policiais têm se concentrado justamente nisso – algumas vezes com sucesso, outras confundindo veracidade do personagem com esquisitices. Vamos continuar falando disso no próximo post.

Mas não se escapa ninguém...

01 de dezembro de 2006 0

O escritor inglês Ian McEwan/AP
Ian McEwan é um dos autores mais aclamados dentre os autores de prosa contemporânea em língua inglesa. É também o autor de dois dos melhroes lançamentos dos últimos anos:os romances Sábado, publicado este ano no Brasil, e o anterior Reparação. Este último, inclusive, foi apontado recentemente em pesquisa do jornal britânico The Guardian como um dos três melhores romances publicados nos últimos 25 anos no Reino Unido e na Commonwealth (ficando atrás apenas de Desonra, de J.M. Coetzee).

Pois é justamente esse último e universalmente aclamado romance que está, agora, sendo usado como argumento para uma acusação de plágio levantada contra o autor – o detalhe é que já é a segunda vez que McEwan passa por essa saia justa. O bolo é que algumas partes da novela Reparação, passadas em um hospital de guerra, teriam sido, de acordo com os detratores do autor, copiados das memórias de guerra de Lucilla Andrews, uma autora best-seller de ficção romântica – mais ou menos como uma Danielle Steel britânica. Na primeira vez em que foi acusado de plágio, logo em seu romance de estréia (falaremos disso mais adiante), McEwan disse que sequer conhecia a obra do autor que teria plagiado. Agora o furo é mais embaixo. Lucilla Andrews é mencionada nos agradecimentos de Reparação, e o próprio McEwan já havia comentado que alguns elementos de suas memórias serviram como fonte de informação para sua própria reconstrução do período.

A autobiografia de Lucilla Andrews, No Time for Romance, de 1977, é uma descrição do período em que a autora, que morreu em outubro passado, aos 86 anos, passou como enfermeira no Hospital St. Thomas, em Londres, durante a Segunda Guerra.
 
O que levanta a acusação de picaretagem na acusação é justamente o fato de McEwan não haver escondido sua dívida com o livro e o fato do barulho estar sendo promovido pelo agente da autora após a morte desta. McEwan, em entrevista ao The Times, declarou que leu realmente o livro – de acordo com ele um como um documento histórico único – mas que é impossível para um romancista em algum momento da carreira não ser acusado de copiar uma ou outra coisa.

A primeira acusação de plágio feita a McEwan data de 1978, quando críticos disseram que o enredo de seu livro de estréia, O Jardim de Cimento, tinha mais do que meras semelhancas com Our Mothers House, romance de Julian Gloag publicada em 1963. O livro de McEwan conta a história de um grupo de crianças que esconde o cadáver de sua mãe em uma adega – na época, McEwan negou ter lido o livro, e nenhuma acusação formal de plágio foi formulada.

Postado por Carlos André Moreira