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Um livro é para um filme

22 de janeiro de 2007 0

Já que estamos falando dessa imbricação entre livro e filme em Cassino Royale, vem à mente o mais recente lançamento de Ruy Castro, Um Filme é Para Sempre (Companhia das Letras, 440 páginas, R$ 52), não um livro que virou filme, mas o contrário, dezenas de filmes que viraram um livro.

Além de seu grande talento como biógrafo, frute de um esforço de reportagem respeitável a cada livro do gênero que publica, Ruy Castro é um escritor de prosa inspirada, e essa é a chave para o prazer com que se lê seus livros que não foram fruto da reportagem investigativa árida que deu origem a Estrela Solitária e O Anjo Pornográfico. Em Um Filme é Para Sempre, a exemplo do que já havia feito em meados dos anos 90 com Saudades do Século 20, Ruy Castro não é o repórter contando o que apurou, mas um elegante charlador dividindo com seus leitores informações que recolheu em mil e uma outras fontes, empacotou em sua prosa ao mesmo tempo refinada, inventiva e coloquial e serviu como um acepipe delicioso para dar mais gosto à conversa.

O livro reúne 60 crônicas que já haviam sido publicadas em diversos veículos de imprensa como Veja, Folha de São Paulo, Bravo!, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo – este último, o jornal que publicou a maioria dos textos.

São mesclas de crônica e crítica que navegam dos primórdios do cinema, enquanto a linguagem ainda estava se consolidando graças a nomes como Busby Berkeley, Mark Sandrich e os talentosos dançarinos/cantores/atores Irmãos Nicholas – dois elegantes bailarinos negros que só não tiveram a projeção devida em seu tempo (anos 30 e 40) justamente por serem negros.

Ruy Castro é um delicioso contador de histórias, e é também apaixonado por cinema, e por isso seus textos são, na maioria, declarações de admiração por todos aqueles que o ajudaram a construir seu mundo de referências. O que explica também a presença tímida do cinema contemporâneo, já que Castro é um entusiasta do grande cinema americano da primeira metade do século 20, de alguns filmes franceses da época em que Ruy e seus amigos os devoravam no Cine Payssandu e até de produções nacionais.

Há também uma defesa extensa e acalorada do musical como gênero e uma série de informações saborosas.Você sabia que a contagem regressiva só foi adotada como forma de antecipar o lançamento de uma nave ao espaço depois que o alemão Fritz Lang a inventou para o filme A Mulher na Lua, em 1930 (eu não sabia)? “Numa cena em que o foguete vai ser disparado, o roteiro previa uma contagem de 1 a 10. Mas Lang temeu que a cena não funcionasse, porque a platéia não podia saber quando a contagem terminaria. Então lhe ocorreu contar ao contrário, de 10 a zero — o countdown — e sua idéia foi adotada pela ciência“.

Ou sabia que, apesar da longa tradição inglesa e francesa na área da ficção científica, a idéia clássica do “robô” foi criada por um checo (essa eu sabia)? “Foi o escritor checo Karel Chapek (1890 – 1938), em sua peça R.U.R., de 1921 — os robôs da história seriam escravos mecânicos e o nome vinha da expressão robota, trabalho forçado, em checo. Chapek, a propósito, que alguns grafam Tchápek, teve nos anos 90 um volume de contos, Histórias Apócrifas, lançado pela Coleção Leste, da editora 34, mas acredito que a esta altura já esteja esgotado. Falo dele noutra ocasião.

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