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Um trecho a esmo

29 de janeiro de 2007 0

Capa do Livro/Divulgação
Francizco Gasset, ou Cabeza de Vaca, o impetuoso, é o autor do manuscrito encontrado nos arquivos do Museu Ultramarino da cidade de Santa Teresa do Bom Tempo. O documento, datado de 1546, atesta parte significativa da versão %27cosida%27 no início do século dezoito por missionários da Companhia de Jesus. Segundo a tese dos Jesuítas o manuscrito fora elaborado cautelosamente por Cabeza de Vaca com o intuito de facilitar a interpretação descuidada e até mesmo de induzir ao erro na avaliação de datas e na coincidência de fatos, julgados pelos próprios missionários, implausíveis e desconexos. Ressalvados pelos jesuítas o naufrágio ocorrido no ano de 1542 e a passagem enternecedora juntamente com os indígenas, as aventuras do explorador espanhol, em justíssimo tempo, devem ser conhecidas como quis Cabeza de Vaca, %22sin medidas%22, ou seja, excluindo-se a prudência demasiada de outrora, e sobretudo, restabelecendo-se %22fieles a la falta%22 a impetuosidade do espírito de Cabeza de Vaca, ainda que, para tanto, à guisa de explorador, tenhamos que levar a interprtetação e o julgamento dos fatos às últimas conseqüências. Até o fim, Cabeza de Vaca, o impetuoso, perseguira a largueza de horizontes.

Trecho do conto Longe da Terra, que figura na coletânea Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, do escritor Marcelo Mirisola – o psicopata mais talentoso da atual safra de autores brasileiros. O livro, o primeiro publicado por Mirisola, saiu em 1998, e é republicado agora pela Estação Liberdade oferecendo uma oportunidade não apenas de releitura, mas de leitura, tão somente, já que o autor que assina os contos deste livro não é mais o estreante do começo, é o mesmo que já apresentou nestes quase 10 anos obras desconcertantes como O Herói Devolvido, O Azul do Filho Morto e Joana a Contragosto. Como se vê por esse fragmento, Mirisola já cultivava sua voz pessoal, um estilo no qual o narrador parece discutir consigo mesmo, e no qual convivem dois registros que, antes de se anularem, se batem o tempo todo: um coloquialismo nervoso e desordenado, que mistura os tempos da narrativa e uma dicção empolada, tornada ainda mais estranha pelos cortes abruptos que o escritor opera em suas frases, sempre o mesmo ponto de vista mas a narrativa sendo atirada para todos os lados como uma bola de pingue-pongue ricocheteando nas paredes.

Postado por Carlos André Moreira

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