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Poder, música, ciência e fé

30 de janeiro de 2007 2

É um fato: editoras lançam tantos livros que muitas vezes a badalação criada em torno dos principais nomes ofusca – quando não condena a um limbo imerecido – algumas obras que dão o azar de serem levadas pelo aluvião deste mercado editorial em que se publica desenfreadamente enquanto se reclama que ninguém compra.

Dito isto, chamo a atenção para um livro recente que aborda de maneira cativante, ainda que de forma indireta, temas que estão na pauta da discussão sobre arte até hoje, principalmente numa cidade pequena como Porto Alegre, em que todo mundo conhece todo mundo e todo mundo é cheio de dedos para não desagradar o próximo (com uma ou duas boas exceções). Uma Noite no Palácio da Razão, do ensaísta e jornalista James R. Gaines, recupera um desafio lançado pelo imperador prussiano Frederico, o Grande (1712 – 1786), ao compositor Johann Sebastian Bach (1685 – 1750), numa noite de 1747 – um episódio do qual Gaines tira, em suas próprias conclusões, o nascimento da atual Alemanha e um bom número de questões que ainda hoje rendem discussões: o embate entre arte e poder, a vantagem ou não da proximidade do artista com o poder, o quando a arte e a cultura foram truques usados pelos detentores do poder para formar de si uma imagem mais positiva no teatro da história.

Frederico era um imperador belicista, sedento de conquistas, mas também um homem que equilibrava essa gana de poder e os feitos numerosos obtidos por seus exércitos com uma admiração pela alta cultura francesa e pela vontade de se cercar de um círculo de intelectuais, poetas e músicos que servissem como lastro a uma reputação que ele próprio buscava, a de patrono das artes. O que, claro, diminuiria a implicância que muitos tinha contra ele, de ser um imperador alemão que quase não falava o idioma, considerado “estrangeiro” pelos próprios súditos.

No já citado ano de 1747, Bach era o equivalente de então ao que se chamaria de celebridade (embora fosse uma celebridade conhecida pelo que de fato o tornava célebre, seu talento musical, ao contrário das atuais celebridades que têm no fato de serem célebres sua única característica). Ele já era “o velho Bach”, o patriarca de uma dinastia musical, e seu próprio filho era um dos músicos mais requisitados da corte de Frederico da Prússia. O “velho Bach”, contudo, tinha, digamos, uma certa má-vontade com o rei, já que Bach era patrocinado pelo duque eleitor da Saxônia, que pouco tempo antes havia sido derrotado pelas tropas de Frederico. Bach também morava em Leipzig, e a longa viagem até Potsdam, a corte, não era exatamente sua idéia de diversão. Ainda assim, o velho aceitou o convite-convocação de Frederico para uma visita e rumou para a capital do reino, onde foi surpreendido com um desafio às raias do cruel: Frederico apresentou um tema dificílimo – o livro explica direitinho por que o tema é de execução dificílima, mas eu não vou entrar em detalhes porque não sou músico, sou tocador de violão – para que Bach compusesse, de improviso, durante sua visita, uma fuga em seis partes.

Bach trancou-se mortalmente insultado e, usando a técnica do contraponto (que, por sinal, seria a inspiração para a estrutura do famoso romance de Aldous Huxley), apresentou ao rei sua resposta, a Oferenda Musical, considerada uma obra-prima. O livro de Gaines reconstitui esse episódio, o embate entre poder e arte, a relação complicada de mecenato e patrocínio entre monarcas e nobres de um lado e artistas do outro, o tempo social e político em que a história se passa e o ambiente intelectual do período (que, afinal, era também o de Voltaire e do Iluminismo). Tudo isso em pouco mais de 300 páginas que se deixam ler sem percalços.

A tradução é de Antonio Braga, e a Record, infelizmente, cochilou na edição. A orelha que apresenta o livro diz que o fato que, em última análise, dá origem à obra, aconteceu em 1857 – 110 anos depois.

Comentários (2)

  • Milton Ribeiro diz: 13 de abril de 2011

    Excelente, CAM!

    Talvez eu seja mais íntimo de Bach — sou o dono o blog PQP Bach, caso não saibas — , mas a tua resenha é engraçada como o livro de Gaines. Gostei muito de ler nosso modesto contraponto. E isso aqui é uma pérola a ser roubada:

    “É um fato: editoras lançam tantos livros que muitas vezes a badalação criada em torno dos principais nomes ofusca – quando não condena a um limbo imerecido – algumas obras que dão o azar de serem levadas pelo aluvião deste mercado editorial em que se publica desenfreadamente enquanto se reclama que ninguém compra”.

    É.

    Abraço.

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