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Literatura de entretenimento e formação do leitor

31 de janeiro de 2007 0

Sheldon em Porto Alegre, em 1990/Sílvio Ávila
A morte de Sidney Sheldon, vítima de complicações decorrentes de uma pneumonia, em Los Angeles, onde vivia, traz à mente uma velha discussão que data, particularmente no Brasil, de sua ascensão como autor de tramas de suspense e erotismo escritas em linguagem direta e acelerada, a se o consumo em fartas doses da literatura dita de entretenimento pode vir a ser importante na formação de um leitor.

Sheldon sempre se denominou – a exemplo de outros autores de best-sellers, alguns seus seguidores – um %22contador de histórias%22, uma postura que é ao mesmo tempo carta estética de intenções. Nos livros de Sheldon, a trama deve cativar, e o estilo e a linguagem devem ser signos praticamente transparentes, que não atrapalhem a condução da narrativa que se desdobra nas páginas. As frases são meros veículos, o que conta é a inventividade da história. Sheldon foi um mestre do que os manuais norte-americanos de literatura chamam de técnica %22cliffhanger%22: aquela maneira de montar uma história deixando sempre, ao fim de cada capítulo, um acontecimento ou gancho que desperte no leitor a curiosidade pelo denselace daquela situação. A palavra cliffhanger numa tradução literal seria %22o cara pendurado no penhasco%22 e se refere à estrutura das antigas séries cinematográficas que passavam nos cinemas em matiné, séries normalmente destinadas ao público infanto-juvenil, em capítulos exibidos semanalmente e de episódios de no máximo meia hora. Os heróis eram tirados muitas vezes da literatura popular e dos quadrinhos, e sempre havia aquela cena em que um carro, uma diliigência, até mesmo uma bicicleta, caía em um penhasco e deixava o herói pendurado num arbusto, açulando a dúvida dos espectadores sobre como ele iria sair daquela situação.

Sheldon foi um mestre nisso, e seu eco pode ser sentido ainda em tão diferentes escritores quanto Dan Brown, Scott Turow e mesmo em Brian Meltzer, jovem que escreve alterna uma bem-sucedida carreira de autor de best-seller com a de roteirista de quadrinhos de super-heróis. E seus livros, de modo geral, sempre foram execrados pela crítica pelo estilo pobre e pela autêntica repetição de fórmulas (afinal, literatura também é uma forma de arte, e arte é fugir de fórmulas). Mas é um fato inegável que Sheldon foi um escritor lido com voracidade por mais de uma geração de leitores classe-média, e por um tempo reinou sozinho como produtor da chamada %22literatura de consumo%22 – nos anos 80, Ken Follett não chegou a superá-lo; e nos 90, seu nome foi gradativamente dando espaço aos de novos escritores com propostas mais específicas de romance de entretenimento, como as tramas médicas de Robin Cook, a ficção científica de Michael Crichton e as sagas jurídicas de Scott Turow.

Sidney Sheldon, portanto, foi um autor muito lido, vendeu alegados 300 milhões de exemplares, e sempre foi atacado pela crítica. E sempre suscitou discussão: era melhor que multidões lessem seus livros imaginativos mas pouco artísticos a não ler coisa alguma? Ou, no fim, quem lesse seus livros não se beneficiaria em absoluto porque o público de best-seller SÓ lê best-sellers, e portanto o %22hábito de leitura%22 que ele criava era algo que se retroalimentava e não deixava espaço para o pensamento mais elaborado? Diga-se que essa foi uma discussão que teve reprise a cada vez que um autor novo surgiu no cenário provocando barulho e vendendo muito, de Paulo Coelho a Dan Brown, e que, no fim, ainda não tem uma resposta definitiva. Há, inegavelmente, os que só lêem o que não lhes desafia nem lhes provoca incômodo. Há também quem, num processo de escalada, passe do best-seller para a grande tradição da literatura sem problemas, e é sobre isso o próximo post. Não continuo diretamente aqui porque há um limite para o quanto se pode escrever em um único texto neste blogue. Sigam comigo.

Postado por Carlos André Moreira

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