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Posts de janeiro 2007

Agendando

31 de janeiro de 2007 2

Ok, quando eu comecei este espaço eu sabia que essa história de blog exige atualização diária e constante, mas também havia a possibilidade de ele ser coletivo, então meio que me perdi na jogada quando fiquei com ele praticamente sozinho. Agora, contudo, me organizei com minhas tarefas e estamos atualizando diariamente. Só que o horário em que isso é possível normalmente é este: fim de tarde e início de noite. Portanto, na hipótese de algum inexistente leitor estar criando o hábito de visitar este espaço, saiba que só tem coisa nova no fim do dia, salvo raras exceções.

Postado por Carlos André Moreira

Impressões de primeira leitura

31 de janeiro de 2007 0

Sem juízo de valor nesta afirmação, mas Sidney Sheldon sempre foi um autor muito popular entre mulheres (sem falar no fato de que muitas de suas histórias são protagonizadas por heroínas, no que eu poderia qualificar como efeito tostines: era popular entre mulheres porque sua personagem era mulher ou criava mulheres como protagonistas porque sabia que seu público era composto, na maioria, por mulheres?) Sheldon, muitas vezes, representava a versão mais requintada (e com exemplares mais caros) da chamada %22literatura de verão%22 do trio Júlia, Sabrina e Bianca: livros rápidos, empolgantes, românticos (os dele tinham mais sexo, muito mais sexo) e geralmente lidos na praia ou nas férias (ou nas férias na praia, tanto faz). E o que pôde ser comprovado assim que chegou aqui na redação a notícia da morte dele é que ele e sua obra repousavam como uma memória afetiva simpática nos corações e mentes de muitas de minhas colegas de redação. Pedi a algumas delas, mas que considero leitoras qualificadas e de comprovados dotes intelectuais, que me fizessem o favor de partilhar em breves linhas uma lembrança de suas leituras de Sidney Sheldon. A maioria não me respondeu, o que comprova que meu cacife anda baixo, mas reproduzo agora testemunhos que recebi de três colegas, que, inadvertidamente, meio sinalizam com uma comprovação de toda a teorização que eu fiz neste texto: a sensualidade como uma das características marcantes de Sheldon, sua presença como literatura de praia e seu caráter de livro que, ao ser lido com prazer, pode sedimentar um hábito e abrir caminhos para coisas mais profundas (a moça do segundo depoimento recentemente terminou uma pós-graduação em literatura portuguesa, o que comprova que seu prazer de leitura não se esgotou quando ela deixou os best-sellers pela literatura mais elaborada):

%22Num verão, peguei um exemplar de um livro de Sidney Sheldon do qual não lembro o nome. Tinha 12 anos, talvez não devesse estar lendo aquele livro, mas o peguei das estantes do apartamento da praia. Fiquei chocada quando deparei com um trecho em que uma oriental faz uma banana split com o pênis do seu amante. Com três bolas de sorvete. Naquele verão, não comi mais banana split. Só sundae.%22 (M.)

%22O primeiro livro %22adulto%22 que li foi a Outra Face. Isso aconteceu no verão de 1991, quando eu tinha lá os meus 13 anos. Do enredo, pouco me lembro, sei que não dormi antes de acabar o livro, fiquei acordada até quase de manhã, empolgada com a história. Lembro também que a linguagem era muito mais dinâmica e direta do que eu estava acostumada. O segundo do Sheldon que li foi o O Outro Lado da Meia-Noite, e até hoje lembro da cena em que a Catherine, depois de ser abandonada pelo namorado, descobre estar grávida e, sadicamente, espera o feto se desenvolver para fazer o aborto, usando o gancho de um cabide. Adorava a forma como ele descrevia as cenas, principalmente de sexo, costumavam ser ricas em detalhes. Eu me sentia muito adulta lendo esse tipo de livro, tanto que nessa mesma época, li vários outros títulos dele (e de outros autores de best-sellers do gênero). Foi um verão inesquecível%22. (P.)

Na casa de praia da minha família, nunca faltaram Agathas Christies e Sidneys Sheldons nas estantes para preencher as noites insones de quando eu era feliz e não sabia, passando três meses por ano lá. Mas só fui colocar as mãos num livro do segundo depois de ter sido fisgada por uma minissérie que passou na Globo naquele final de anos 1980. Era Se Houver Amanhã, e Tracy Whitney de repente virou a mulher que todas as meninas gostariam de ser quando crescessem. Ler o livro umas três vezes seguidas naquele verão serviu de cola para que duas cenas grudassem no meu cérebro até hoje: a Madolyn Smith sacudindo o longo e sedoso cabelo negro, com uma roupa colada e também negra, enquanto roubava diamantes em algum lugar do mundo, e antes, quando ela se prepara para fugir da prisão e acaba se jogando em uma represa, lago, sei lá, para salvar a filha do diretor do presídio. (M.) 

Postado por Carlos André Moreira

Literatura de entretenimento e formação do leitor

31 de janeiro de 2007 0

Sheldon em Porto Alegre, em 1990/Sílvio Ávila
A morte de Sidney Sheldon, vítima de complicações decorrentes de uma pneumonia, em Los Angeles, onde vivia, traz à mente uma velha discussão que data, particularmente no Brasil, de sua ascensão como autor de tramas de suspense e erotismo escritas em linguagem direta e acelerada, a se o consumo em fartas doses da literatura dita de entretenimento pode vir a ser importante na formação de um leitor.

Sheldon sempre se denominou – a exemplo de outros autores de best-sellers, alguns seus seguidores – um %22contador de histórias%22, uma postura que é ao mesmo tempo carta estética de intenções. Nos livros de Sheldon, a trama deve cativar, e o estilo e a linguagem devem ser signos praticamente transparentes, que não atrapalhem a condução da narrativa que se desdobra nas páginas. As frases são meros veículos, o que conta é a inventividade da história. Sheldon foi um mestre do que os manuais norte-americanos de literatura chamam de técnica %22cliffhanger%22: aquela maneira de montar uma história deixando sempre, ao fim de cada capítulo, um acontecimento ou gancho que desperte no leitor a curiosidade pelo denselace daquela situação. A palavra cliffhanger numa tradução literal seria %22o cara pendurado no penhasco%22 e se refere à estrutura das antigas séries cinematográficas que passavam nos cinemas em matiné, séries normalmente destinadas ao público infanto-juvenil, em capítulos exibidos semanalmente e de episódios de no máximo meia hora. Os heróis eram tirados muitas vezes da literatura popular e dos quadrinhos, e sempre havia aquela cena em que um carro, uma diliigência, até mesmo uma bicicleta, caía em um penhasco e deixava o herói pendurado num arbusto, açulando a dúvida dos espectadores sobre como ele iria sair daquela situação.

Sheldon foi um mestre nisso, e seu eco pode ser sentido ainda em tão diferentes escritores quanto Dan Brown, Scott Turow e mesmo em Brian Meltzer, jovem que escreve alterna uma bem-sucedida carreira de autor de best-seller com a de roteirista de quadrinhos de super-heróis. E seus livros, de modo geral, sempre foram execrados pela crítica pelo estilo pobre e pela autêntica repetição de fórmulas (afinal, literatura também é uma forma de arte, e arte é fugir de fórmulas). Mas é um fato inegável que Sheldon foi um escritor lido com voracidade por mais de uma geração de leitores classe-média, e por um tempo reinou sozinho como produtor da chamada %22literatura de consumo%22 – nos anos 80, Ken Follett não chegou a superá-lo; e nos 90, seu nome foi gradativamente dando espaço aos de novos escritores com propostas mais específicas de romance de entretenimento, como as tramas médicas de Robin Cook, a ficção científica de Michael Crichton e as sagas jurídicas de Scott Turow.

Sidney Sheldon, portanto, foi um autor muito lido, vendeu alegados 300 milhões de exemplares, e sempre foi atacado pela crítica. E sempre suscitou discussão: era melhor que multidões lessem seus livros imaginativos mas pouco artísticos a não ler coisa alguma? Ou, no fim, quem lesse seus livros não se beneficiaria em absoluto porque o público de best-seller SÓ lê best-sellers, e portanto o %22hábito de leitura%22 que ele criava era algo que se retroalimentava e não deixava espaço para o pensamento mais elaborado? Diga-se que essa foi uma discussão que teve reprise a cada vez que um autor novo surgiu no cenário provocando barulho e vendendo muito, de Paulo Coelho a Dan Brown, e que, no fim, ainda não tem uma resposta definitiva. Há, inegavelmente, os que só lêem o que não lhes desafia nem lhes provoca incômodo. Há também quem, num processo de escalada, passe do best-seller para a grande tradição da literatura sem problemas, e é sobre isso o próximo post. Não continuo diretamente aqui porque há um limite para o quanto se pode escrever em um único texto neste blogue. Sigam comigo.

Postado por Carlos André Moreira

Poder, música, ciência e fé

30 de janeiro de 2007 2

É um fato: editoras lançam tantos livros que muitas vezes a badalação criada em torno dos principais nomes ofusca – quando não condena a um limbo imerecido – algumas obras que dão o azar de serem levadas pelo aluvião deste mercado editorial em que se publica desenfreadamente enquanto se reclama que ninguém compra.

Dito isto, chamo a atenção para um livro recente que aborda de maneira cativante, ainda que de forma indireta, temas que estão na pauta da discussão sobre arte até hoje, principalmente numa cidade pequena como Porto Alegre, em que todo mundo conhece todo mundo e todo mundo é cheio de dedos para não desagradar o próximo (com uma ou duas boas exceções). Uma Noite no Palácio da Razão, do ensaísta e jornalista James R. Gaines, recupera um desafio lançado pelo imperador prussiano Frederico, o Grande (1712 – 1786), ao compositor Johann Sebastian Bach (1685 – 1750), numa noite de 1747 – um episódio do qual Gaines tira, em suas próprias conclusões, o nascimento da atual Alemanha e um bom número de questões que ainda hoje rendem discussões: o embate entre arte e poder, a vantagem ou não da proximidade do artista com o poder, o quando a arte e a cultura foram truques usados pelos detentores do poder para formar de si uma imagem mais positiva no teatro da história.

Frederico era um imperador belicista, sedento de conquistas, mas também um homem que equilibrava essa gana de poder e os feitos numerosos obtidos por seus exércitos com uma admiração pela alta cultura francesa e pela vontade de se cercar de um círculo de intelectuais, poetas e músicos que servissem como lastro a uma reputação que ele próprio buscava, a de patrono das artes. O que, claro, diminuiria a implicância que muitos tinha contra ele, de ser um imperador alemão que quase não falava o idioma, considerado “estrangeiro” pelos próprios súditos.

No já citado ano de 1747, Bach era o equivalente de então ao que se chamaria de celebridade (embora fosse uma celebridade conhecida pelo que de fato o tornava célebre, seu talento musical, ao contrário das atuais celebridades que têm no fato de serem célebres sua única característica). Ele já era “o velho Bach”, o patriarca de uma dinastia musical, e seu próprio filho era um dos músicos mais requisitados da corte de Frederico da Prússia. O “velho Bach”, contudo, tinha, digamos, uma certa má-vontade com o rei, já que Bach era patrocinado pelo duque eleitor da Saxônia, que pouco tempo antes havia sido derrotado pelas tropas de Frederico. Bach também morava em Leipzig, e a longa viagem até Potsdam, a corte, não era exatamente sua idéia de diversão. Ainda assim, o velho aceitou o convite-convocação de Frederico para uma visita e rumou para a capital do reino, onde foi surpreendido com um desafio às raias do cruel: Frederico apresentou um tema dificílimo – o livro explica direitinho por que o tema é de execução dificílima, mas eu não vou entrar em detalhes porque não sou músico, sou tocador de violão – para que Bach compusesse, de improviso, durante sua visita, uma fuga em seis partes.

Bach trancou-se mortalmente insultado e, usando a técnica do contraponto (que, por sinal, seria a inspiração para a estrutura do famoso romance de Aldous Huxley), apresentou ao rei sua resposta, a Oferenda Musical, considerada uma obra-prima. O livro de Gaines reconstitui esse episódio, o embate entre poder e arte, a relação complicada de mecenato e patrocínio entre monarcas e nobres de um lado e artistas do outro, o tempo social e político em que a história se passa e o ambiente intelectual do período (que, afinal, era também o de Voltaire e do Iluminismo). Tudo isso em pouco mais de 300 páginas que se deixam ler sem percalços.

A tradução é de Antonio Braga, e a Record, infelizmente, cochilou na edição. A orelha que apresenta o livro diz que o fato que, em última análise, dá origem à obra, aconteceu em 1857 – 110 anos depois.

Um trecho a esmo

29 de janeiro de 2007 0

Capa do Livro/Divulgação
Francizco Gasset, ou Cabeza de Vaca, o impetuoso, é o autor do manuscrito encontrado nos arquivos do Museu Ultramarino da cidade de Santa Teresa do Bom Tempo. O documento, datado de 1546, atesta parte significativa da versão %27cosida%27 no início do século dezoito por missionários da Companhia de Jesus. Segundo a tese dos Jesuítas o manuscrito fora elaborado cautelosamente por Cabeza de Vaca com o intuito de facilitar a interpretação descuidada e até mesmo de induzir ao erro na avaliação de datas e na coincidência de fatos, julgados pelos próprios missionários, implausíveis e desconexos. Ressalvados pelos jesuítas o naufrágio ocorrido no ano de 1542 e a passagem enternecedora juntamente com os indígenas, as aventuras do explorador espanhol, em justíssimo tempo, devem ser conhecidas como quis Cabeza de Vaca, %22sin medidas%22, ou seja, excluindo-se a prudência demasiada de outrora, e sobretudo, restabelecendo-se %22fieles a la falta%22 a impetuosidade do espírito de Cabeza de Vaca, ainda que, para tanto, à guisa de explorador, tenhamos que levar a interprtetação e o julgamento dos fatos às últimas conseqüências. Até o fim, Cabeza de Vaca, o impetuoso, perseguira a largueza de horizontes.

Trecho do conto Longe da Terra, que figura na coletânea Fátima Fez os Pés para Mostrar na Choperia, do escritor Marcelo Mirisola – o psicopata mais talentoso da atual safra de autores brasileiros. O livro, o primeiro publicado por Mirisola, saiu em 1998, e é republicado agora pela Estação Liberdade oferecendo uma oportunidade não apenas de releitura, mas de leitura, tão somente, já que o autor que assina os contos deste livro não é mais o estreante do começo, é o mesmo que já apresentou nestes quase 10 anos obras desconcertantes como O Herói Devolvido, O Azul do Filho Morto e Joana a Contragosto. Como se vê por esse fragmento, Mirisola já cultivava sua voz pessoal, um estilo no qual o narrador parece discutir consigo mesmo, e no qual convivem dois registros que, antes de se anularem, se batem o tempo todo: um coloquialismo nervoso e desordenado, que mistura os tempos da narrativa e uma dicção empolada, tornada ainda mais estranha pelos cortes abruptos que o escritor opera em suas frases, sempre o mesmo ponto de vista mas a narrativa sendo atirada para todos os lados como uma bola de pingue-pongue ricocheteando nas paredes.

Postado por Carlos André Moreira

Morreu Ryszard Kapuscinski

24 de janeiro de 2007 0

Kapuscinski em foto da AFP/AFP
Em um post antigo lá nos primeiros meses do blog, eu falei no livro O Imperador, do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, que havia sido recentemente publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Pois dois novos fatos me fazem voltar a ele, o autor polonês mais traduzido mundo afora. O primeiro é que ele morreu ontem, em Varsóvia, na Polônia, onde vivia, aos 74 anos. A segunda é que sua morte coincide tristemente com o lançamento por aqui de seu livro Minhas Viagens com Heródoto. O escritor sofria de uma doença grave – e ainda não revelada.

Kapuscinski fez nome como correspondente da agência de notícias polonesa PAP, de 1959 a 1981, e, posteriormente, como colaborador de jornais importantes como o %22The New York Times%22 e %22Frankfurter Allgemeine Zeitung%22. Andarilho desde a juventude, viagou por diversas regiões pobres da África, da Ásia e das Américas, sempre cobrindo conflitos armados de origem étnica ou política, base também para seus livros, alguns deles figurando entre as grandes reportagens da atualidade. O Imperador, de 1978, era um retrato implacável dos excessos da corte do imperador etíope Hailé-Selassié. O monumental Imperium era um retrato minucioso da queda do regime soviético, e seu último livro publicado por aqui, Minhas Viagens com Heródoto, era um testemunho documental que ia da juventude passada na Polônia sob o jugo comunista (quando sua maior aspiração era atravessar a fronteira da Hungria, só para ver como era do outro lado), à descoberta do prazer das viagens, jornadas que fez tendo sempre em mente o exemplo do historiador grego Heródoto, considerado %22o pai da História%22 por ser o primeiro que se referia a fontes e entrevistas consultadas por ele mesmo, e não na tradição.

Postado por Carlos André Moreira

Um livro é para um filme

22 de janeiro de 2007 0

Já que estamos falando dessa imbricação entre livro e filme em Cassino Royale, vem à mente o mais recente lançamento de Ruy Castro, Um Filme é Para Sempre (Companhia das Letras, 440 páginas, R$ 52), não um livro que virou filme, mas o contrário, dezenas de filmes que viraram um livro.

Além de seu grande talento como biógrafo, frute de um esforço de reportagem respeitável a cada livro do gênero que publica, Ruy Castro é um escritor de prosa inspirada, e essa é a chave para o prazer com que se lê seus livros que não foram fruto da reportagem investigativa árida que deu origem a Estrela Solitária e O Anjo Pornográfico. Em Um Filme é Para Sempre, a exemplo do que já havia feito em meados dos anos 90 com Saudades do Século 20, Ruy Castro não é o repórter contando o que apurou, mas um elegante charlador dividindo com seus leitores informações que recolheu em mil e uma outras fontes, empacotou em sua prosa ao mesmo tempo refinada, inventiva e coloquial e serviu como um acepipe delicioso para dar mais gosto à conversa.

O livro reúne 60 crônicas que já haviam sido publicadas em diversos veículos de imprensa como Veja, Folha de São Paulo, Bravo!, Jornal do Brasil e O Estado de São Paulo – este último, o jornal que publicou a maioria dos textos.

São mesclas de crônica e crítica que navegam dos primórdios do cinema, enquanto a linguagem ainda estava se consolidando graças a nomes como Busby Berkeley, Mark Sandrich e os talentosos dançarinos/cantores/atores Irmãos Nicholas – dois elegantes bailarinos negros que só não tiveram a projeção devida em seu tempo (anos 30 e 40) justamente por serem negros.

Ruy Castro é um delicioso contador de histórias, e é também apaixonado por cinema, e por isso seus textos são, na maioria, declarações de admiração por todos aqueles que o ajudaram a construir seu mundo de referências. O que explica também a presença tímida do cinema contemporâneo, já que Castro é um entusiasta do grande cinema americano da primeira metade do século 20, de alguns filmes franceses da época em que Ruy e seus amigos os devoravam no Cine Payssandu e até de produções nacionais.

Há também uma defesa extensa e acalorada do musical como gênero e uma série de informações saborosas.Você sabia que a contagem regressiva só foi adotada como forma de antecipar o lançamento de uma nave ao espaço depois que o alemão Fritz Lang a inventou para o filme A Mulher na Lua, em 1930 (eu não sabia)? “Numa cena em que o foguete vai ser disparado, o roteiro previa uma contagem de 1 a 10. Mas Lang temeu que a cena não funcionasse, porque a platéia não podia saber quando a contagem terminaria. Então lhe ocorreu contar ao contrário, de 10 a zero — o countdown — e sua idéia foi adotada pela ciência“.

Ou sabia que, apesar da longa tradição inglesa e francesa na área da ficção científica, a idéia clássica do “robô” foi criada por um checo (essa eu sabia)? “Foi o escritor checo Karel Chapek (1890 – 1938), em sua peça R.U.R., de 1921 — os robôs da história seriam escravos mecânicos e o nome vinha da expressão robota, trabalho forçado, em checo. Chapek, a propósito, que alguns grafam Tchápek, teve nos anos 90 um volume de contos, Histórias Apócrifas, lançado pela Coleção Leste, da editora 34, mas acredito que a esta altura já esteja esgotado. Falo dele noutra ocasião.

O nome dele é... bem, você sabe

22 de janeiro de 2007 4

Agora que o filme já fez milhões de bilheteria e consolidou o orelhudo brucutu Daniel Craig como o novo James Bond, pode ser o momento de dar uma conferida didática em quantas mudanças são necessárias no momento de adaptar a trama de um livro (ainda que repleta de ação) para o período curto de um longa-metragem.

Aproveitando a onda em volta da nova produção da série de filmes do 007, a Record lança no Brasil uma nova tradução do filme que foi levado às telas, Cassino Royale (ou melhor, que foi em parte levado às telas, já que as alterações são significativas e eficientes, como veremos daqui a pouco). A edição anterior de Cassino Royale por aqui era da gaúcha L&PM.

Assim como o filme está sendo apresentado como a origem do agente, antes das marcas consolidadas que hoje são sinônimo da série, como as traquitanas tecnológicas, o supervilão com um plano normalmente ridículo para dominar o mundo e o martini, mexido, mas não batido, o livro é também o primeiro da série, ou seja, aquele no qual o autor, Ian Fleming, estava apenas exercitando a fórmula que mais tarde reprisaria nas aventuras do agente britânico.

No livro Cassino Royale (Record, 210 páginas, R$ 29,90), Bond, exatamente como no filme, é um jovem recém-promovido, impetuoso, muitas vezes descuidado, um agente em formação que cai nas mãos do inimigo em uma cena de tortura particularmente violenta (e reproduzida a contento no filme com algumas alterações, não substanciais). Um espião russo chamado Le Chiffre, um gordo cruel e impiedoso que chora sangue devido a um ferimento que afetou seu canal lacrimal, é um espião russo que precisa ser tirado do jogo (real e metaforicamente), algo que só será possível se Bond derrotá-lo numa rodada de Bacarat nas mesas do Cassino Royale, em Royale-Les-Eaux, em Montecarlo – algo, que a exemplo do filme, com muitas tribulações, Bond realmente acabará fazendo, apenas para descobrir que a conspiração que buscava debelar estendia-se inesperadamente muito além de Le Chiffre.

Na atualização para o filme, necessária numa época em que espiões russos mais devem ter medo de seu presidente do que propriamente meter medo em alguém, os roteiristas de Cassino Royale (um deles o oscarizado diretor de Crash, Paul Haggis) foram felizes em retirar de cena o espião “do outro lado”, cria da maniqueísta Guerra Fria, e transformar Le Chiffre em um banqueiro internacional de terroristas, um personagem fruto desta complexa realidade pós-11 de setembro. Uma alteração que dá mais substância às ações do personagem, ele próprio em perigo depois de perder graças a uma intervenção de Bond milhões depositados por revolucionários milicianos africanos – milhões obtidos do tráfico internacional de diamantes, o que estabelece um sutil e surreal ponto de contato entre Cassino Royale, Diamante de Sangue e outro filme que passou há pouco tempo nos cinema nacionais, O Senhor das Armas.

O estilo de Fleming é aquela escrita funcional de best-sellers: ênfase na descrição, frases em ordem direta sucedendo-se umas às outras e o máximo de elaboração formal são metáforas cruas e vez por outra, referindo-se normalmente a objetos concretos, não abstratos.. É uma prosa quase de relatório, um estilo que se ajusta ao tipo de romance ao qual os livros de Bond se filiam.

Sítio Sebáceo

17 de janeiro de 2007 1

Fica aqui a dica do portal Estante Virtual (www.estantevirtual.com.br). No ar desde 2005, o Estante é um grande banco de dados que interliga o cadastro virtual de 400 sebos espalhados por 100 cidades brasileiras – tem até um de Portugal. 

Daqui do Rio Grande do Sul, estão lá os catálogos de sebos bacanas de Porto Alegre, como a Mosaico, a Martins Livreiro, a Carpe Diem, além de livrarias de Tramandaí, Capão da Canoa, Canoas, Santa Rosa, Santa Cruz, Viamão, entre outras cidades gaúchas.

É possível encontrar no portal um acervo de 6 milhões de títulos. Como o próprio site se assume, é um %22google dos sebos%22. Fica a sugestão para quem anda atrás daquele título esgotado ou de uma edição mais barata para aquele livro fundamental e que tá custando mais de 50 pilas nas megastores da vida.

Postado por Carlos André Moreira

Begley aqui e lá

13 de janeiro de 2007 0

Capa de Naufrágio/Divulgação
Nascido na Polônia, mas com todos os méritos um autor norte-americano, o veterano Louis Begley tem lançado no Brasil outro de seus romances ao mesmo tempo em que sai nos Estados Unidos sua mais recente narrativa longa. Para quem não ligou o nome à pessoa, Begley é autor dos dois livros com o personagem Schmidt, transposto para o cinema com Jack Nicholson no papel principal – embora a riqueza que o personagem apresenta nos romances Sobre Schimidt e Schmidt Libertado tenha se perdido na tela grande.

Mas Begley é autor de uma obra consistente que não se resume apenas a Schmidt, especialmente O Olhar de Max e Despedida em Veneza. Agora sai por aqui outro de sus romances que vão nessa linha, a de mapear a angústia das relações modernas usando pitadas distorcidas de gêneros consagrados. Assim como o desenvolvimento errático de Schmidt flutua entre a melancolia e a comédia amarga, seu novo romance publicado no Brasil, Naufrágio (Companhia das Letras, 240 páginas, R$ 42,50), flerta com o thriller misturado a sexo e ao personagem mais ou menos recorrente na ficção americana atual: o escritor, personagem que serve como desculpa para que autores como John Updike, Philip Roth, Paul Auster e outros com menor cancha teçam suas próprias opiniões sobre o mundo, a literatura e o mercado literário.

O personagem principal de Naufrágio é também ele um escritor, John North, em visita à França para uma série de entrevistas promocionais de seu romance mais recente. Seguem-se as perguntas e respostas padrão, retratadas com humor e um sarcasmo que eu particularmente acho engraçado, mas não sei se tem um apelo tão grande para o leitor que não é crítico, escritor ou profissional ligado a esse mercado de alguma forma. Fica aqui a minha dúvida e abro espaço para manifestações. Agora, voltando: North concede uma entrevista a uma charmosa jornalista francesa da Vogue, Léa Morini, e do papo surge a identificação, da identificação o flerte, do flerte uma aventura sexual consumada. O problema é que North é casado e não tem a intenção de se divorciar da esposa, uma médica e pesquisadora conceituada. A aventura, contudo, o deixa nas mãos de Léa, e o caso de uma noite se transforma em armadilha.

Nada, como se vê, que não se tenha visto antes. O que salva o livro de seu mais-do-mesmo é o domínio narrativo e técnico de Begley, capaz de alternar na história em primeira pessoa a elegância e o desespero de North, encalacrado na teia chantagista de Léa.

Já nos Estados Unidos, Begley publicou este mês seu romance mais recente em inglês: Masters of Honor, um relato sobre três jovens amigos estudantes de Harvard. Tem dividido opiniões. Alguns, como o crítico do New York Times Michiko Kakutani (imagino que seja uma crítica, com esse nome), reclamam que o novo livro não parece o melhor de Begley, não tem suas melhores qualidades e parece tert emulado as piores da autora Mary McCarthy. Também deve ser lançado em breve por aqui pela Companhia.

Postado por Carlos André Moreira