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Posts de fevereiro 2007

Livro online

28 de fevereiro de 2007 3


Se o download de música pela rede se tornou o grande pesadelo das gravadoras, ainda não se pode dizer que um processo semelhante está acontecendo com os livros. Em parte porque copiar um CD para o seu computador leva no máximo quatro minutos, e depois disso alguém pode ter acesso a ele com um desses E-mule da vida, que não deve levar mais do que uma hora instalando, e isso se a sua internet é uma droga. Embora o aparelho de escaneamento exista há tanto ou mais tempo do que a tecnologia de conversão de sons para o computador, ainda é um processo folha por folha, e não temos tantos abnegados por aí dispostos a pôr na rede as 900 páginas do último livro do Thomas Pynchon (se ainda fosse a Playboy da Flávia Alessandra, aposto que haveria mais voluntários).

Até por gozarem desse terreno ainda não conflagrado, editoras lá fora começaram a se mexer para que o panorama não fique completamente imprevisível, como no caso das músicas. Como já há mais de um site que funciona como uma espécie de google de livros, como o A9, o Google Book Search e o da Amazon, as editoras estão começando a colocar no ar ferramentas de busca que permitem a alguém procurar uma %22provinha%22 de um livro de seu catálogo.

A editora Random House, por exemplo, pôs esta semana em atividade no seu site oficial (www.randomhouse.com) apresentou em seu web site uma ferramenta de busca que torna disponível trechos de 5 mil títulos, entre obras novas e de catálogo. O que a pesquisa apresenta como resultado para cada livro é o equivalente a 10% do número total de páginas – ou seja, quase sempre é só a capa, a introdução e o primeiro capítulo. A casa promete adicionar durante os próximos três meses milhares de novos títulos. Ainda não é possível pesquisar em todo o catálogo nem fazer uma busca geral, só funciona quando aparece no site da editora em cima de uma das obras o selo %22browse & search%22 (só pra lembrar para quem não se deu conta, os livros estão em inglês, e portanto os trechos também). A Random House é a editora, entre outros, do prêmio Nobel do ano passado, Orhan Pamuk, da hiperglicosada autora de best-sellers Danielle Steel e do escritor de thrillers %22quero-ser-Dan-Brown%22 Steve Berry.

É a segunda iniciativa do gênero que parte de uma grande editora só neste mês. Na semana passada uma ferramenta semelhante já havia sido posta em funcionamento no site oficial da HarperCollins (www.harpercollins.com), a editora gringa das obras de Paulo Coelho e Isabel Allende. A HarperCollins também publica, entre outros, Jonathan Safran Foer e Joyce Carol Oates.

Postado por Carlos André Moreira

A Cidade no meio do caminho

27 de fevereiro de 2007 0


Poucos brasileiros já devem ter ouvido falar em Salônica, cidade grega fundada no século IV a.C., embora o nome talvez soe ligeiramente familiar. Seus antigos moradores foram celebrizados pelo apóstolo Paulo, em suas duas Epístolas aos Tessalonicenses – sim, Salônica é a Tessalônica do Novo Testamento –, mas não há muitos outros relatos no Brasil sobre a vida na cidade e sua trajetória nos séculos subseqüentes.

Salônica, de Mark Mazower, recém-publicado pela Companhia das Letras (592 páginas, R$ 68), é um relato da história desse lugar mítico, a meio caminho entre a Europa e o Oriente próximo. Foi uma das principais cidades do Império Bizantino, como depois, a partir de meados do século XV, viria a ser uma das jóias do Império Otomano, sobretudo por sua localização, no Golfo Térmico, uma das principais entradas para a região dos Bálcãs.

Mazower concentra-se no período que vai da tomada de Salônica pelos turcos (1430) ao segundo pós-guerra. Acompanha, assim, a queda de um dos mais importantes bastiões da cristandade no antigo império do Oriente e sua transformação em uma das cidades de maior diversidade religiosa e cultural da Idade Média. Sim, porque não apenas os turcos muçulmanos afluíram para a cidade após sua tomada pelos otomanos. Em pouco tempo, ela se tornaria também o refúgio dos judeus expulsos da Península Ibérica. Até 1912, pelo menos, quando afinal a cidade tornou-se grega de fato e boa parte da população muçulmana transferiu-se para a Turquia, essa situação permaneceria praticamente inalterada. Um choque maior viria na Segunda Guerra Mundial, com a deportação em massa dos judeus para os campos de concentração nazistas.

É um belo relato, que explica por que a Salônica atual, descrita por Mazower no prefácio do livro, parece tão fascinante, com suas catedrais – algumas das quais transformadas em mesquitas no período otomano –, muralhas e mercados. É, além de tudo, bem escrito, fazendo justiça à grandeza da cidade.

Postado por Fabiano Burkhardt

Nova Formação Econômica do Brasil

26 de fevereiro de 2007 1


Quase todos os cursos de Economia do país têm no currículo uma disciplina chamada Formação Econômica do Brasil, título do clássico de Celso Furtado agora publicado pela Companhia das Letras, em 34ª edição. É comum que um livro receba o nome de uma disciplina acadêmica, sobretudo em Ciências Econômicas – veja-se as dezenas de manuais de Micro e Macroeconomia nas livrarias –, mas o contrário não ocorre com tanta freqüência. Furtado foi um dos poucos a conseguir essa façanha, e com justiça.

Formação Econômica do Brasil, publicado pela primeira vez em 1959, faz parte daquela dezena de títulos que, pela originalidade do enfoque e pela profundidade das observações, são consideradas as grandes %22interpretações%22 do país – ao lado de Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freire, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Hollanda, e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Jr. Furtado pertence a uma geração posterior de %22intérpretes%22, na qual também se poderia incluir o Raymundo Faoro de Os Donos do Poder.

Sua presença nesse rol tão restrito se justifica pela aproximação entre análise econômica e história, mas não é esse seu principal mérito. De certa forma, Caio Prado Jr. já realizara essa síntese ao introduzir a perspectiva marxista na historiografia nacional. Furtado vai além, quase duas décadas mais tarde, ao explicar como o Brasil deixou para trás o passado agrícola e tornou-se uma potência industrial.

Toda a quinta – e última – parte de Formação foi dedicada a esclarecer essa transição. Sabe-se que ela ocorreu por volta dos anos 30, mas freqüentemente as análises ignoram o fato de que a industrialização começou bem antes, embora muito mais lentamente, e erram ao atribui-la a uma política coerente e decidida supostamente adotada durante a Era Vargas. Não houve nada parecido. Furtado demonstra que a política anticíclica (muito bem-sucedida, aliás) adotada pelo governo durante a Crise de 1929 foi mais uma resposta às pressões internas e ao contexto externo do que o resultado de um cuidadoso planejamento. Não foi porque alguém subitamente percebeu as desvantagens da dependência brasileira das exportações agrícolas que o Brasil se industrializou; mas o conjunto das decisões tomadas sob influência de setores da sociedade brasileira e das dificuldades do comércio internacional acabou por favorecer os investimentos na indústria.

A nova edição de Formação Econômica do Brasil não traz novidades em relação às anteriores, da Companhia Editora Nacional, disponíveis nos sebos. Falta, ainda, uma nota introdutória que dê conta da importância do autor e da obra para a compreensão do que é este país (ou de como chegou a sê-lo). De qualquer modo, a apresentação melhorou bastante, uma vez que afinal o antigo projeto gráfico foi abandonado – depois de quatro décadas de sutis alterações na capa do livro a cada nova tiragem. Ainda não é a edição definitiva (quem sabe na 35ª, quando Formação… estiver chegando aos 50 anos?), mas compensa os R$ 39,50 de investimento.

Postado por Fabiano Burkhardt

A estrela do Gantois

24 de fevereiro de 2007 1


Quem acompanhou o caderno Donna deste fim de semana na Zero Hora pôde ver um artigo assinado por este que vos escreve comentando o livro Mãe Menininha do Gantois – Uma Biografia, de autoria de Cida Nóbrega e Regina Echeverria, a história da mãe-de-santo mais pop do Brasil, figura que transitava diplomaticamente entre revolucionários e reacionários, entre contestadores e conservadores. A prova disso é que a mesma Menininha que tinha a admiração e o desvelo dos exilados do regime militar Gilberto Gil e Caetano Veloso também foi conselheira do czar da ditadura na Bahia, Antônio Carlos Magalhães.

O livro é a segunda colaboração da dupla, ambas já haviam lançado em 1997 Pierre Verger, um Retrato em Preto e Branco (nome semelhante ao da exposição de Verger que está aberta a visitação no Margs). Das duas autoras, Cida Nóbrega é psicóloga, foi tradutora do próprio Verger e até hoje é colaboradora da fundação que leva o nome do etnólogo e fotógrafo francês. Ela também já publicou um resgate da biografia de outra célebre mãe-de-santo da comunidade praticante do candomblé: Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora do Axé Opô Afonjá.

O próprio livro Mãe Menininha resgata a linhagem de ialorixás do terreiro do Gantois anteriores a Menininha, entre elas sua bisavó Maria Júlia, a fundadora do Ilê (casa, no idioma iorubá) e sua tia Pulquéria, ambas tão respeitadas e conhecidas pela comunidade do candomblé que antes de Menininha, e até alguns anos depois que ela assumiu o comando do Gantois, em 1922, o terreiro era conhecido como %22A Casa de Pulquéria%22, referência ao respeito que a ocupante anterior do trono havia adquirido. Esse, inclusive, é um dos grandes acertos da obra: apresentar Menininha incluída numa longa tradição de mulheres fortes, comandantes do terreiro, todas da mesma família – na linhagem do candomblé vigente no Gantois, os segredos dos rituais e o trono da casa são repassados apenas de mulher para mulher, de mãe para filha.

Ah, sim, esqueci de falar um pouco mais de Regina Echeverria, jornalista e autora de biografias de sucesso sobre figuras da música contemporânea brasileira: Furacão Elis (1985), Cazuza, Preciso Dizer que te Amo (2001) e o recente Gonzaguinha e Gonzagão, uma História Brasileira (2006). Regina também foi a responsável por colher o depoimento e redigir Só as Mães São Felizes (1997), história de Cazuza pelo ponto-de-vista de Lucinha Araújo, mãe do ex-líder do Barão Vermelho.

Para elaborar Mãe Menininha…, Regina e Cida colheram mais de 60 depoimentos e foram buscar subsídios em estudos acadêmicos e artigos de jornais sobre a personagem, seu tempo e sua religião O livro não se restringe a traçar as raízes do Terreiro do Gantois (o nome, ironicamente, se deve a um antigo proprietário do terreno em que mais tarde o Ilê se estabeleceria, um belga traficante de escravos). A obra também desenha a linhagem do próprio candomblé na Bahia, identifica o terreiro apontado por historiadores como o primeiro, fundado por um grupo de mulheres lideradas por uma sacerdotisa de origem nigeriana próximo à Igreja da Barroquinha, em Salvador. Seria desse Ilê que surgiria, como uma ramificação dissidente, o Gantois, fundado pela avó de Menininha em 1849.

Um dos poucos senões é justamente a dificuldade que o livro tem para solucionar a contradição essencial de uma biografia de um líder ou sacerdote místico: uma obra minuciosamente documentada de fatos que em certos momentos têm sua explicação atribuída a coisas que não podem ser documentadas por serem matéria de crença. É o caso da disputa sucessória que leva Menininha ao trono do Gantois dois anos depois da morte de sua mãe, em 1920, na época sucessora provisória de Pulquéria, morta em 1918. A mãe de Menininha não chegou a ser consagrada ialorixá porque morreu antes dos três anos de luto que, ritualmente, o terreiro deve guardar quando morre a comandante da casa. Uma disputa entre parentes pela sucessão fez Menininha se afastar do Ilê, mantendo apenas os rituais obrigatórios que devia como participante da comunidade. Dois anos depois, ela é chamada para assumir o comando porque o orixá Oxóssi, incorporado em um dos integrantes da casa, assim o ordenou, dizendo que haveria mortes se sua ordem não fosse cumprida. Um dos depoimentos do livro diz que as mortes se confirmaram, três mulheres mortas das mesmas circustâncias misteriosas, %22como praga que dá em galinha%22, nas palavras da própria testemunha. E assim, Menininha volta ao lugar que é de seu %22destino%22, outra palavra que aparece bastante no livro.

Ok, ok. Entendem o que digo? É esse o momento em que se passa do jornalismo apurado com rigor para o registro da lenda perpetrada pela tradição oral – o que provoca um estranhamento não de todo positivo em quem está acompanhando a história.

Postado por Carlos André Moreira

A tentação da citação

23 de fevereiro de 2007 1

- Não toque outra vez, Sam.
Abrindo com uma citação: no clássico do faroeste O Homem que Matou o Fascínora, o repórter Maxwell Scott (interpretado por Carleton Young), ao entrevistar o senador Ransom Stoddard (vivido por James Stewart), é informado pelo próprio que sua participação nos eventos que culminaram na morte do bandoleiro Liberty Valance (Lee Marvin) é menos heróica do que o povo conta, e que o real autor da façanha foi o Tom Doniphon vivido por John Wayne. O jornalista responde com uma citação para sempre incluída entre as mais memoráveis do cinema: %22Aqui é o Oeste, senador. Quando a lenda se torna fato, imprima-se a lenda%22.

Pois em ensaio na última edição da revista The New Yorker, Louis Menand (ensaísta e crítico literário cujo trabalho em livro mais conhecido por aqui, acredito, seja The Metaphysical Club, uma história das idéias na América, vencedor do Prêmio Pulitzer), discorre sobre uma tendência semelhante: %22divulgue-se a citação%22, mesmo que ela não corresponda exatamente ao que foi dito ou que nunca tenha sido dito pelo suposto autor.

Menand enumera exemplos de citações que caíram na boca do povo e são repetidas à exaustão mas que, em sua versão conhecida popularmente, são atribuídas a quem nunca as disse ou tiveram partes suprimidas ou acrescentadas para gerar um efeito. Sherlock Holmes, por exemplo, não diz nos livros de Conan Doyle %22Elementar, meu caro Watson%22, isso é coisa dos filmes. Ninguém no filme Casablanca diz %22Toque outra vez, Sam%22, James Cagney nunca disse %22Seu rato sujo!%22 em nenhum de seus filmes e a famosa %22Não tem pão? Que comam Brioche%22 nunca foi dita por Maria Antonieta (algo, inclusive, já mencionado na recente biografia da rainha francesa – austríaca de nascimento – escrita pela historiadora Antonia Fraser e publicada aqui pela Record)

Ao desmistificar algumas dessas frases mal atribuídas, Menand também discorre sobre o mecanismo que leva uma frase a ser editada para provocar mais impacto, auditivo e literário, e como elas foram sendo atribuídas à pessoa errada por um processo subliminar de associação nem sempre rastreável – compreensivelmente, Menand não cita, talvez por não a conhecer, a frase %22O Brasil não é um país sério%22, atribuída a De Gaulle, mas que na verdade teria sido dita a ele, De Gaulle, por Carlos Alves de Souza, embaixador brasileiro em Paris.

Ah, um último comentário: o ensaio é interessante e muito bem escrito, mas muito do que ele revela sobre citações mal atribuídas está disponível para os leitores atentos de língua portuguesa há anos, nas colunas de Ruy Castro e de Sérgio Augusto na imprensa brasileira.

Postado por Carlos André Moreira

Trancou de novo

23 de fevereiro de 2007 0


Não escrevi que essa ronha ainda ia longe? O juiz de Direito Maurício Chaves de Souza Lima, da 20 ª Vara Cível do Rio de Janeiro, determinou a %22interrupção da publicação, da distribuição e da comercialização%22 do livro Roberto Carlos em Detalhes, do jornalista Paulo César Araújo. A decisão deve ser cumprida em todo o território nacional em no máximo três dias. Não acatar a ordem pode acarretar um preju de R$ 50 mil por dia a livrarias, distribuidoras e à própria editora, valor da multa aplicada como punição

O argumento do juiz para proibir a obra (de novo, em janeiro a apreensão da obra havia sido determinada pelo Ministério Público, e em seis de fevereiro a medida havia sido revogada) ressuscita a eterna polêmica entre limites da liberdade de imprensa e o direito à privacidade. O juiz embasou sua decisão no artigo 5º, inciso X (linguajar jurídico torna impossível uma boa redação, não adianta) da Constituição, justamente aquele que versa sobre a inviolabilidade da privacidade do cidadão. É justamente o argumento com o qual Roberto Carlos sustensa a ação judicial que está movendo: ele diz que o jornalista revela sem seu consentimento detalhes de sua intimidade, como o acidente que o vitimou na infância, fazendo-o perder uma perna, e os seus casamentos. %22Se ele tivesse escrito só sobre a música eu não teria reclamado%22, declarou recentemente Roberto a bordo do cruzeiro aquele no qual realiza anualmente um show a bordo.

Embora em discussões do gênero muito se argumente que esse dispositivo deveria ser relativizado no caso de uma pessoa pública como Roberto Carlos, não há na lei nada que sustente essa argumentação, e, como se sabe, a Constituição é a lei maior do país. A decisão, como parecem ser todas quando se fala de Judiciário, é passível de recurso, garantia de que, sem querer ser repetitivo, essa ronha ainda vai longe.

Postado por Carlos André Moreira

Suíte Polêmica

22 de fevereiro de 2007 0


Ganhou edição recente no Brasil pela Companhia das Letras um livro cuja própria história parece saída de um filme de Roliúdi: Suíte Francesa (Companhia das Letras, 536 páginas, R$ 56,50) é um romance publicado pela escritora judia Irène Némirovsky, nascida em Kiev e mais tarde radicada em Paris com sua família. Conta a história de uma família francesa enfrentando os percalços da Segunda Guerra em sua nação ocupada pelos nazistas após a rápida e fulminante invasão alemã. Uma trama, como se vê, nada inédita no cinema e na própria literatura, de livros de segunda categoria até obras-primas da ficção mundial. O que torna Suíte Francesa um livro tão atípico é que essa história foi escrita em 1942, ou seja, durante o próprio período de ocupação, e não com o distanciamento histórico que marca a maior parte das obras sobre a II Guerra. O que torna a força de seu relato ainda mais surpreendente.

No mesmo ano de 1942, a propósito, Irène Némirovsky seria deportada para o campo de Auschwitz, onde morreria aos 39 anos. O livro, escrito a mão em finas e delicadas folhas de papel, ficou anos trancado em uma mala entregue pela escritora a uma de suas filhas antes de ser presa, e só foi redescoberto nos anos 2000, quando foi finalmente publicado e elogiado pela crítica do mundo todo como %22uma obra-prima resgatada do esquecimento%22 (palavras do Le Monde). História para um telefilme, não vos parece?

Agora, passado certo tempo, outro ingrediente cinematográfico foi adicionado à receita. O jornal inglês The Guardian traz um artigo no qual a escritora Miriam Anissimov, biógrafa de Primo Levi (autor de Se não Agora, Quando?) veio a público para divulgar que a edição em inglês de 2004, publicada pela editora British Chatto & Windus, suprimiu um parágrafo da narrativa que denunciaria que, apesar de ser ela própria judia e vítima dos campos de concentração, Irène Némirovsky era uma aristocrata anti-semita.

A polêmica tem provocado acalorados debates sobre as relações entre o caráter privado de um autor e o alcance artístico de sua obra, uma questão que é sempre delicada quando se fala em nazismo, holocausto e Segunda Guerra, e que já atingiu, de uma maneira ou de outra, Louis-Ferdinand Cèline, Wagner e até mesmo Nietzsche.

Assinimov defende que nos trechos suprimidos, os personagens judeus são construídos com todos os clichês maléficos que na época se usava: amor ao dinheiro, covardia, dissimulação. Também escreveu uma carta ao Marechal Petáin, comandante da Repúlbica da Vichy, o estado colaboracionista francês, para tentar escapar das garras dos nazistas, dizendo, apesar de judia, alguém que não tinha simpatia pelo conjunto de seu povo. Defensores e admiradores de Némirovsky lembram que as cicunstâncias eram extremas, que ela estava escrevendo em plena ocupação e, quanto a carta de Petáin, escrita quando ela já havia sido proibida de escrever, seu marido havia sido proibido de trabalhar, e já havia rumores de que ambos seriam deportados para um campo de concentração, era a última tentativa de sobrevivência de uma mulher desesperada que escreveria qualquer coisa para salvaguardar sua própria vida.

O que provoca outra discussão: até que ponto se deve catar numa obra de ficção a ética particular de seu autor? M

O artigo completo do Guardian está aqui.

Postado por Carlos André Moreira

Estranha biografia

22 de fevereiro de 2007 0

“Sou agora o que você lembrar, o que você me disser. Sua memória será minha única forma de existir, até que eu me transforme em um pequeno ponto final, que desconhece o parágrafo que havia antes.”

O livro de estréia da mineira Christiane Tassis, Sobre a Neblina (Língua Geral, 192 páginas, R$ 39 – outro título da coleção Ponta-de-Lança) começa com o fotógrafo Henrique pedindo para uma ex-namorada escrever sua biografia. Ele alega que pode morrer a qualquer momento, ou perder sua memória de uma hora para outra, está com tumor no cérebro.

Lúcia, a jornalista que recebe o estranho pedido, bem que tenta resistir, mas não consegue e aceita o desafio. Junto com o apelo, Henrique lhe entrega uma lista com nomes e telefones de ex-namoradas, ou como ele chama, de “ex-histórias”. O fotógrafo quer que ela vá atrás delas para resgatar seu passado e refazer sua trajetória.

Na primeira entrevista, a jornalista percebe que a tarefa não é tão fácil quanto imaginava, ainda mais que ela também faz parte dessa história e o seu passado também é revisto. As respostas não estão prontas. São muitas as lacunas, muitas as verdades, muitos henriques.

O livro trata exatamente dessa dificuldade de recriar o passado. A narradora nos apresenta suas tentativas de escrever essa biografia, além de listas, diários e outros devaneios.

Mais um trecho do livro (página 19):
Eu também já tive um tumor, quando era criança. Encravado no meu ombro direito. Perguntei ao médico o que era um tumor e ele me explicou que era um carocinho, do tamanho de um grão-de-feijão. Mas era benigno.
Ninguém pode imaginar a alegria que senti quando soube que tinha um tumor benigno. Acreditava que, se era benigno, só podia ser para o meu bem. Um caroço, um botãozinho que eu poderia acionar quando estivesse em apuros. E cada vez que alguma coisa dava certo, uma nota boa na escola, uma vitória na natação ou no campeonato de pique-bandeira, eu sabia: era o benigno irradiando.
Um dia o tumor simplesmente desapareceu. “Foi absorvido”, disseram. Chorei. Pedi explicações. Queria meu tumor de volta. Já estava acostumada a ele, fazia com que me sentisse especial.
“Não sei o que será”, disse Henrique, de volta ao seu tumor. “Não sei o que serei”.
Olhei para ele, sem saber o que dizer. Já não era o mesmo homem. Era estranho. Eu não sabia mais quem era, nem por que gostei tanto dele.
“Pode ser que eu perca a memória, na melhor das hipóteses”, ele disse.
Felizmente o garçom aparece. Vieira ainda era o mesmo. O mesmo sorriso e o mesmo cardápio. Abaixei os olhos, olhando as entradas, os pratos principais, as bebidas, as sobremesas. Poderia ficar horas assim.

Texto de Priscilla Ferreira

Portuguesa em Primeira-mão

21 de fevereiro de 2007 0


O primeiro livro da escritora portuguesa Patrícia Reis, 35 anos, publicado no Brasil é o romance Amor em Segunda Mão (Língua Geral, 224 páginas. R$39). A jornalista estreou na literatura em 2004, com a novela Cruz das Almas. No ano passado, publicou em Portugal também o livro Beija-me.

O livro Amor em Segunda Mão faz parte de uma das coleções de lançamento da editora Língua Geral. Criada no final de outubro do ano passado, é a primeira dedicada exclusivamente a autores lusófonos. Inicialmente, foram editados oito títulos, divididos em duas coleções: a Mama África, com intuito de resgatar contos tradicionais africanos, recriados por escritores e ilustradores do continente, e a Ponta-de-Lança, visavando privilegiar autores novos ou ainda pouco conhecidos do público – os nomes foram indicados pelo mineiro Luiz Rufatto e pelo angolano José Eduardo Agualusa (um dos sócios da editora, junto com a produtora cultural portuguesa Conceição %27Connie%27 Lopes e a empresária brasileira Fátima Otero). Para começar, foram publicados dois autores brasileiros e duas portuguesas, incluindo aqui, a jornalista Patrícia Reis.

O Amor em Segunda Mão traz 11 personagens-narradores, com os destinos interligados. São histórias que se entrelaçam, se misturam. A narrativa se divide em três momentos: o presente, seis meses depois e dois anos anos antes. Nas duas primeiras partes, cada um apresenta seu ponto de vista, em primeira pessoa, numa linguagem que se aproxima da fala. Parece que cada personagem nos conta um pouco de si. É como se estivessem dialogando conosco, leitores. E através desse diálogo, vamos entendendo o enredo, conhecendo a trama, montando um quebra-cabeça.

Na terceira parte do livro, o foco muda e a história fica centrada em Júlia. Muda também a narração – deixa de ser em primeira pessoa e passa a ser em terceira. Confesso que fiquei um pouco decepcionada com essa mudança, estava gostando do jogo proposto no início do livro, da história através de pequenos depoimentos. Não que eu ache que a obra seja prejudicada por essa mudança, mas é como se essa volta no tempo explicasse os acontecimentos do presente. 

Vá lá, leia o livro e tire suas próprias conclusões. Se deixe levar por Júlia, Miguel. Bia, Tomás. Vera, Francisco, Laura, Lourenço, Joana, Hugo, Diogo. Escute (ou leia) o que eles têm a dizer.

Postado por Priscilla Ferreira

Saramago, Memórias e Cães

20 de fevereiro de 2007 5

Saramago em uma palestra em São Paulo em 1999/Dado Galdieri/AP
José Saramago completou 84 anos em novembro do ano passado. Para comemorar, lançou um livro autobiográfico chamado As Pequenas Memórias (Companhia das Letras, 138 páginas, R$ 30), que ele próprio define como %22as memórias pequenas de quando fui pequeno, simplesmente%22. O prêmio Nobel de Literatura optou por revisitar sua infância e adolescência em Lisboa e na pequena aldeia de Azinhaga – onde nasceu e residiu apenas um ano e meio, mas regressava nas férias escolares, para visitar a casa dos avós.

O livro é dedicado a sua esposa Pilar Del Rio %22que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar%22 – ela é 28 anos mais nova que ele. O casal se conheceu em 1986, depois que a jornalista espanhola leu O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984). Na época, a moça quis conhecer o autor e com ele refazer alguns caminhos do heterônimo pessoano por Lisboa. Marcou o encontro e foram. Do tal passeio resultou o casamento que dura até hoje.

Mas, voltando a falar do livro… Saramago não confessa ter pertencido à Mocidade Portuguesa, como foi dito na imprensa, ao contrário, mostra que desde a infância não simpatizava com muito com a didatura. Em entrevista à revista portuguesa Visão (www.visaoonline.pt), ele contesta as comparações com o alemão Günter Grass (que confessou no livro Descascando a Cebola ter pertencido à juventude hitlerista):

%22Dei uma entrevista a um jornal brasileiro, O Estado de S. Paulo, e falaram-me nisso. Eu respondi que parece que chegou a altura de eu próprio fazer a minha confissão. E contei que estive nas juventudes salazaristas, que se chamavam Mocidade Portuguesa, que era automático, que todos tinham que estar lá. E acrescentei: a única coisa que eu consegui foi nunca usar o fardamento. Rematei, dizendo que aquela foi a minha primeira vitória contra o fascismo. Então não é que o jornal tomou a sério esta coisa e, em perguntas suplementares que me mandou, tomou a minha pertença à Mocidade Portuguesa, onde inevitavelmente todos estávamos, como algo similar àquilo que aconteceu com o Günter Grass? A imprensa é um perigo. Sobretudo quando não entende aquilo que se lhe diz. E foi o que aconteceu.%22

Na pág. 131 do livro, o autor conta como ele e alguns %22rebeldes%22 conseguiram escapar de usar o fardamento:
%22…mandado com os colegas ao Liceu de Camões, onde se faria a distribuição das fardas verdes e castanhas da Mocidade Portuguesa, arranjei maneira de nunca sair do fim da fila que se prolongou até à rua, e ainda lá estava quando um graduado (assim lhe chamavam) veio avisar que se tinham acabado os fardamentos. Houve, nas semanas seguintes mais umas quantas distribuições de barretes, camisas e calções, mas eu, com alguns outros, sempre fui de civil às formaturas, contrariadíssimo nas marchas, inabilíssimo no manejo de arma, perigosíssimo no tiro ao alvo. Meu destino não era aquele.%22

Quem espera encontrar o mesmo estilo narrativo do autor, pode se decepcionar. A ironia segue presente em várias passagens, mas o texto por vezes fica truncado e não tão charmoso. Eu, particularmente, tive dificuldades em me situar naquela Lisboa do texto, tantos são os endereços que ele cita. Sua família mudava constantemente de casa e as suas memórias estão intimamente ligadas a essas ruas. São muitas referências que, para os liboetas, deve ficar mais fácil, acredito eu. 

Para terminar meu comentário, destaco uma uma coisa que, pra mim, foi uma revelação: Saramago sente pavor de cães. Por que estranhei esse temor? É que em seus livros me deparei com alguns caninos memoráveis (o Achado, de A Caverna, o cão que acompanha as personagens de A Jangada de Pedra, o cachorro que acompanha os dois casais no final d%27A História do Cerco de Lisboa, o cão que acompanhou os cegos no Ensaio Sobre a Cegueira, a cadela Ugoliona, d%27 O Ano da Morte de Ricardo Reis e outros, pois, certamente, esqueci de alguns pelo caminho). Se não me engano, já li uma vez um ensaio que falava sobre a imagem do cão na sua obra. E ele afirma que é fascinado por cavalos.

Postado por Priscilla Ferreira