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Águas lusas - e brasileiras

12 de maio de 2007 2

José Eduardo Agualusa na 2ª edição da Flip, em 2004. Foto: Divulgação

Por Priscilla Ferreira

Quem leu o caderno de Cultura deste sábado pôde acompanhar a entrevista que fiz com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que recentemente venceu, na Inglaterra, um prêmio dedicado obras traduzidas de escritores de língua estrangeira (claro, né, obra traduzida inglês/inglês seria brabo). Foi a primeira vez que a premiação, promovida pelo jornal The Independent, foi para um autor do continente africano – Agualusa também foi o segundo autor lusófono a receber o prêmio, o primeiro foi o inevitável José Saramago, com o maravilhoso livroO Ano da Morte de Ricardo Reis. Agualusa, com seu O Vendedor de Passados, que lá saiu com o título The Book of Chameleons, traduzido por Daniel Hahn – ao que consta, a mãe do rapaz é brasileira, o que deve ter facilitado a coisa.

Agualusa lança em breve seu As Mulheres de Meu Pai – que estou achando divertidíssimo –, romance que ele publica aqui no Brasil pela editora da qual é sócio, a Língua Geral, fundada para aproximar as literaturas portuguesas d’além, d’aquém e d’mais além mares. A editora foi lançada no final do ano passado, e eu já falei dela aqui algumas vezes. A propósito da editora, transcrevo abaixo a entrevista na íntegra, acrescida de dois trechos que não couberam na página de sábado e que versam exatamente sobre a Língua Geral e a visão que o escritor – nascido em Angola e que passa um tempo lá, um tempo em Portugal e um tempo aqui no Brasil – têm do papel dela na integração entre as literaturas lusófonas. Divirtam-se.

Embora passe longe da superficialidade, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, um dos grandes nomes da recente safra de autores lusófonos, está fazendo literatura para inglês ver. Literalmente. Agualusa acaba de receber o Prêmio de Ficção Estrangeira conferido anualmente pelo jornal inglês Independent – é o primeiro autor africano e o segundo de língua portuguesa a receber a premiação. O primeiro foi o Nobel José Saramago com o livro O Ano da Morte de Ricardo Reis. O angolano venceu com O Vendedor de Passados (Gryphus, 194 páginas, R$ 35), traduzido em inglês por Daniel Hahn.
O escritor que nasceu em Angola hoje se divide entre Luanda, Lisboa e Rio de Janeiro. Essa vivência no mundo lusófono se traduz na editora Língua Geral (criada por ele no final do ano passado junto com a portuguesa Conceição Lopes e a brasileira Fátima Otero), dedicada exclusivamente à publicação de autores de língua portuguesa.
Agualusa lança ainda este no mês Brasil o livro
As Mulheres do Meu Pai, pela sua editora. Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o autor discute literatura, a relação entre os países que lêem e escrevem em português e as chagas pós-coloniais do antigo imperialismo lusitano.

Cultura – À parte, obviamente, a qualidade literária de O Vendedor de Passados, o que é uma circunstância pessoal e intransferível de seu trabalho, como o senhor vê para a literatura de língua portuguesa, muitas vezes tida como periférica, essa sua vitória no 12º Prêmio de Ficção Estrangeira da National Portrait Gallery?
José Eduardo Agualusa –
Esse prêmio é particularmente importante porque na Inglaterra se traduz muito pouco, ao contrário da maioria dos países europeus ou mesmo aqui no Brasil, onde a maioria das obras publicadas vêm de fora. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, menos de 3% da ficção publicada vem de outras línguas, eles têm certa resistência a tudo que vem de fora do mundo anglófono. Foi uma surpresa muito grande, teve reflexos imediatos nas vendas na Inglaterra, e surgiram editoras em outros países interessadas no livro.

Cultura – Seu projeto na editora Língua Geral é o de aproximar as literaturas portuguesas. Há pouco, tivemos novas notícias do acordo ortográfico entre os países lusófonos. Alguns defendem que tal regramento seja um exagero. Outros o nomeiam como imprescindível. Como angolano que se divide entre Brasil, Luanda e Portugal, como o senhor vê o projeto?
Agualusa –
Sempre defendi o acordo ortográfico e nunca compreendi como é que países que falam e escrevem a mesma língua têm várias ortografias. Acho que isso vem prejudicando muito seriamente a afirmação da língua portuguesa a nível internacional. Muitas vezes, em grandes fóruns internacionais, quando se discute alguma coisa e é necessário uma língua de trabalho, as pessoas optam pelo espanhol. Uma única ortografia vai facilitar imensamente a circulação de livros entre os nosso países. Isso tem efeitos práticos e concretos, não é uma bizarria de poetas. Mas há um resistência a mudanças. Essa resistência foi acrescida em Portugal por haver muita gente no país que se julga dona da língua. Portugal não é dono da língua, o português é uma criação de todas as pessoas que falam a língua e é uma criação conjunta há muitos séculos, não é de hoje.

Cultura – O senhor já traçou uma linhagem que vai do moçambicano Mia Couto, com uma declarada influência de Luandino Vieira, que por sua vez teria se inspirado em Guimarães Rosa. O senhor mesmo já citou o brasileiro Rubem Fonseca como autor que o marcou. Apesar das dificuldades, o trânsito de idéias e obras entre os países que escrevem na língua portuguesa está acontecendo?
Agualusa –
Está acontecendo e vai ser cada vez maior porque a juventude hoje se serve muito da Internet. São centenas, milhares de blogs literários no Brasil. Nesses sites literários, você vai ver que a circulação é absoluta, você tem escritores de Angola, de Moçambique, do Brasil, de Portugal, e toda essa gente convivendo juntas no ciberespaço. Através das novas tecnologias, esse movimento vai ser imparável, quer dizer, não é possível impedir que isso aconteça, o intercâmbio vai ser cada vez maior. Assim como na música, acho que estamos a assistir o nascimento de um novo espaço da língua portuguesa, que vai ser feito pela sociedade civil, não vai ser feito pelos governos.

Cultura – No Brasil, discutimos se cabe celebrar a identidade negra no dia oficial da abolição da escravatura, 13 de maio, ou apenas na data que homenageia o líder rebelde escravo Zumbi, 20 de novembro. O que, dependendo dos argumentos, pode significar renegar as lutas que culminaram na abolição oficial ou submergir num oficialismo vazio. Como o senhor vê essa discussão?
Agualusa –
Acho que você tem que comemorar todos os dias essa alegria de construir o Brasil. Não há dúvida nenhuma de que os africanos e as pessoas de origem africana no Brasil contribuíram para a construção de uma entidade nacional. É absolutamente irrelevante para mim se é numa data ou noutra data. Se você for ao Exterior, aquilo que os estrangeiros conhecem é o sobretudo a marca africana no Brasil: o Carnaval, o samba, o candomblé, a capoeira.

Cultura – O senhor já disse que acredita que a chaga da escravidão no Brasil ainda não foi superada, assim como em muitos países africanos. Haveria uma maneira de se superar esses traumas coletivos nacionais? Angola e Brasil precisariam superar os mesmos problemas, por exemplo, nesse sentido?
Agualusa –
Ainda há marcas dessa injustiça histórica. Isso é muito claro no Brasil, em alguns aspectos até mais do que em Angola, sobretudo na distribuição do poder. O Brasil ainda é dominado em termos de poder político por descendentes de europeus. Isso é algo diante do qual qualquer estrangeiro que visita o Brasil fica atordoado e inquieto. É estranho o povo brasileiro estar habituado a isso. Mas é realmente muito estranho você olhar para o governo e não ver pessoas de ascendência africana. É feito com naturalidade, mas não pode ser feito com naturalidade, porque não é normal. É uma coisa que o Brasil tem que resolver. A maioria das pessoas são de origem africana, porque então essas pessoas não partilham do poder político? A mesma coisa com as populações indígenas, que estão totalmente afastadas do poder político. Alguma coisa está errada.

Cultura – Outra discussão momentosa é a das políticas de cotas e ações afirmativas, com defensores e detratores acalorados. O que mais se discute é justamente a existência e a natureza do racismo no Brasil. O senhor, com sua vivência no país, como vê esse tema? O brasileiro é racista?
Agualusa –
Entendo que é preciso fazer alguma coisa porque a situação é completamente errada. Mas tentar resolver o problema com uma lógica racial é errado. O Brasil tem uma coisa muito boa que é não ter paranóia racial. Tem injustiça racial, mas as pessoas não estão obcecadas com a questão de raça, como em Angola, por exemplo. Não creio que a melhor solução seja resolver com uma legislação racial. O racismo só acaba quando houver deixado de ter obsessão de raça. Agora, também é verdade que racismo tem muito a ver com distribuição de poder. Se você tem um país como o Brasil, em que uma elite branca domina a maioria da população, passa a haver uma equivalência, ainda que seja uma coisa mental, uma coisa que não é dita, mas está lá. Você é branco, então você pertence a elite. Essa coisa tem de ser resolvida e não acredito que seja através de cotas. Um mal sistema é o sistema americano: o exemplo americano é absolutamente perverso, absolutamente errado. Eu ficaria muito desgostoso se o Brasil olhasse para os EUA numa área em que está claramente um milhão de anos à frente. Os movimentos americanos mais adiantados estão a olhar para o exemplo brasileiro. O Brasil é um exemplo na aceitação da mestiçagem. É, na minha opinião, o país mais integrador do mundo, que mais facilmente integra, assimila. E as cotas podem prejudicar. Isso é um absurdo, é assumir que há raças, quando raças não há. O que é preciso é resolver o problema da pobreza e facilitar a entrada de pessoas menos favorecidas nas escolas. Não é tão difícil, Cuba fez, Cuba é um desastre no resto, mas fez. E se Cuba conseguiu resolver isso, porque o Brasil não resolve? Tem que dar educação a toda a gente. Eu não defendo Cuba, é uma ditadura terrível, mas no campo da educação resolveu. Se o Brasil investir seriamente em educação, logicamente dentro de dez, 15, 20 anos, vai ter essa situação resolvida, os afrodescendentes vão estar no poder também, vão ocupar os cargos a que têm direito. Agora não me parece que seja através de cotas. Cotas é legislar com base racial, é fazer o mesmo que fez o apartheid, que  separava as pessoas pela cor. Não há discriminação positiva, discriminação é discriminação, ponto. Acho insultuoso para quem tem acesso por mérito próprio e depois passa no futuro a ser olhado como uma pessoa que conseguiu fazer esse curso pela sua raça, quando não foi pela sua raça, foi pela sua competência.

Cultura – Em Portugal, por onde o senhor também transita com freqüência, como se discute a questão do legado pós-colonial? A questão da escravidão é outra no país-metrópole?
Agualusa –
Essa questão não se coloca em Portugal, naturalmente. A que se coloca é a contribuição atual dos novos portugueses de origem africana. No fundo, o que se discute é a questão da identidade e a participação das pessoas no poder político, na cultura, na economia etc. Fala-se na integração dessas pessoas na sociedade e da contribuição dessas pessoas para a moderna cultura portuguesa. Se você for a Portugal hoje vai ver que, na música, uma boa parte dos jovens é de origem africana, e a música portuguesa está mudando completamente devido à contribuição dessas pessoas. Isso vai acontecer também na literatura, nas outras formas de arte.

Cultura – Seu projeto na editora Língua Geral é o de aproximar as literaturas portuguesas. Há pouco, tivemos novas notícias do acordo ortográfico entre os países lusófonos. Alguns defendem que tal regramento seja um exagero. Outros o nomeiam como imprescindível. Como angolano que se divide entre Brasil, Luanda e Portugal, como o senhor vê o projeto?
Agualusa –
Sempre defendi o acordo ortográfico e nunca compreendi como é que países que falam e escrevem a mesma língua têm várias ortografias. Acho que isso vem prejudicando muito seriamente a afirmação da língua portuguesa a nível internacional. Muitas vezes, em grandes fóruns internacionais, quando se discute alguma coisa e é necessário uma língua de trabalho, as pessoas optam pelo espanhol. Uma única ortografia vai facilitar imensamente a circulação de livros entre os nosso países. Isso tem efeitos práticos e concretos, não é uma bizarria de poetas. Mas há um resistência a mudanças. Essa resistência foi acrescida em Portugal por haver muita gente no país que se julga dona da língua. Portugal não é dono da língua, o português é uma criação de todas as pessoas que falam a língua e é uma criação conjunta há muitos séculos, não é de hoje.

Cultura – O senhor já traçou uma linhagem que vai do moçambicano Mia Couto, com uma declarada influência de Luandino Vieira, que por sua vez teria se inspirado em Guimarães Rosa. O senhor mesmo já citou o brasileiro Rubem Fonseca como autor que o marcou. Apesar das dificuldades, o trânsito de idéias e obras entre os países que escrevem na língua portuguesa está acontecendo?
Agualusa –
Está acontecendo e vai ser cada vez maior porque a juventude hoje se serve muito da Internet. São centenas, milhares de blogs literários no Brasil. Nesses sites literários, você vai ver que a circulação é absoluta, você tem escritores de Angola, de Moçambique, do Brasil, de Portugal, e toda essa gente convivendo juntas no ciberespaço. Através das novas tecnologias, esse movimento vai ser imparável, quer dizer, não é possível impedir que isso aconteça, o intercâmbio vai ser cada vez maior. Assim como na música, acho que estamos a assistir o nascimento de um novo espaço da língua portuguesa, que vai ser feito pela sociedade civil, não vai ser feito pelos governos.

por Priscilla Ferreira

Comentários (2)

  • Walter Menz diz: 12 de maio de 2007

    Não consegui encontrar a primeira parte da entrevista em clicrbs “A lógica racial é errada”. O Blog também não publicou esta parte. Mas, está no jornal de 12.05.2007. Ajudem, por favor.

  • Mundo Livro » Arquivo » As esperanças de Pepetela diz: 26 de fevereiro de 2013

    [...] lusófonos não brasileiros têm sido publicados por aqui. De Angola há também Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Ondjaki. Tem havido progressos na interação entre os universos literários de língua [...]

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