Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts de maio 2007

Lamento o sumiço

31 de maio de 2007 0

A correria do jornal atropelou o blogue. Pane reparada, estamos de volta. Aguardem mais textos daqui a pouco.

Postado por Carlos André Moreira

Flip, flip Rolimã

30 de maio de 2007 0

Foi divulgada ontem a programação para a Festa Literária Internacional de Parati, na cidade histórica fluminense de mesmo nome. O evento começa a partir do dia 4 de julho e se estende até o dia 8, e contará com a presença de dois ganhadores do Prêmio Nobel (coincidentemente os dos da África do Sul) além de nomes destacados da prosa policial e uma homenagem a Nelson Rodrigues. O time de autores estrangeiros, 18 ao todo, ainda reúne gente como o roteirista mexicano Guilhermo Arriaga, parceiro de Alejandro Gonzales Iñarritu, o moçambicano Mia Couto, o argentino Alan Pauls. Os brasileiros, incluem Arnaldo Jabor, Fernando Morais, Ruy Castro, Paulo Lins e Paulo César Araújo (autor da polêmica biografia não-autorizada de Roberto Carlos).

Ao todo, serão 22 mesas de debates.Os ingressos estarão à venda
a partir de 4 de junho até 3 de julho, e serão limitados a dois convites por
mesa por pessoa (mediante apresentação do CPF). Os interessados podem comprar pela Internet, no site www.ingressorapido.com.br, ou pelos telefones: (11) 2163-2000 (São Paulo), (21) 2169-6600 (Rio de Janeiro), (41) 4063-6290 (Curitiba) ou (31) 4062-7244 (Belo Horizonte).

Vaiu abaixo, como a gente prometeu na página 5 do Segundo Caderno de hoje, a programação completa.

04/07 – quarta-feira – Abertura, com homenagem a Nelson Rodrigues e show Orquestra Imperial, banda que conta, entre outros, com os músicos Rodrigo Amarante, Thalma de Freitas e Moreno Veloso (é, aquele mesmo, o filho do Caetano).

05/07 – quinta-feira

10h – mesa Futuro do Presente com os novos escritores Fabrício Corsaletti, Verônica Stigger e Cecília Giannetti

11h45min – Uivos, encontro com Chacal e Lobão, e

17 – Sobre macacos e patos, com o romancista de crime e violência Jim Dodge e o britânico surrealista (e completamente doido) Will Self

19 – Tão Longe, tão perto, com o escocês William Boyd e com a indiana ganhadora do Booker Prizer Kiran Desai

06/07 – sexta-feira

10h – A vida como ela foi, a esperada mesa reunindo os biógrafos Ruy Castro, Fernando Morais e Paulo César Araújo (o autor da biografia censurada de Robero Carlos)

11h45min– Álbum de família, com Ahdah Soueif e Ana Maria Gonçalves

15h – Terras, com o moçambicano Mia Couto e Antônio Torres

17 – Crime e Castigo, com Dennis Lehane, autor policial de Sobre Meninos e Lobos e Sagrado, entre outros, e Guillermo Arriaga, roteirista mexicano de Babel.

19h – Panteras no porão, com o israelense Amós Oz, do recente De repente, nas profundezas do bosque, e a nobel Nadine Gordimer, de O engate.

07/07 – sábado

10h – Homenagem a Nelson Rodrigues, com Arnaldo Jabor, Leyla Perrone-Moysés e Nuno Ramos

11h45min – Dois lados do balcão, com Silviano Santiago e César Aira

15h – Perdoa-me por me traíres com a psicanalista Maria Rita Kehl e o romancista argentino Alan Pauls, autor do recém lançado O Passado.

17h – Narrativas de Conflito, com Robert Fisk e Lawrence Wright

19h – Diário de um ano ruim, leitura de trechos inéditos do novo romance, ainda não publicado do Nobel J.M. Coetzee

22h – Leitura dramática de Um beijo no asfalto, com direção de Bia Lessa

08/07 – domingo

10h – Sem dramas, com os dramaturgos Bosco Brasil e Mario Bortolotto

11h45min – No coração da selva, com o historiador Luiz Felipe de Alencastro

15h – Sobre meninos e lobos, com Paulo Lins e Ishmael Beah

17h – De Macondo a Mccondo com Ignacio Padilla e Rodrigo Fresán

19h – Literatura de estimação, seleção de trechos de livros prediletos dos
escritores

Postado por Carlos André Moreira

Acharam que eu tinha esquecido, né?

21 de maio de 2007 0

escritor Charles Kiefer/Júlio Cordeiro / ZH
É isso aí, gurizada, aposto que já pensavam que não teríamos nossa séria séria O que eles andam fazendo? Pois é, até eu achei (rere).

Nosso entrevistado de hoje é o professor, escritor, tradutor e ensaísta Charles Kiefer, natural de Três de Maio e autor de um dos maiores best-sellers da literatura local, a novela Caminhando na Chuva (também o texto com o qual Kiefer estreou na literatura, em 1982, e que já vendeu mais de 100 mil exemplares desde então, em sucessivas reedições). Kiefer também coordena uma das duas mais conhecidas e prestigiadas oficinas de criação literária do Estado e já venceu três vezes o Jabuti: uma por O Pêndulo do Relógio, em 1985, e outras duas por Um Outro Olhar e Antologia Pessoal, livros de contos lançados nos anos 1990. Kiefer transitou por várias editoras ao longo de sua carreira, como WS, Artes e Ofícios e, mais freqüentemente, a Mercado Aberto. No ano passado, o escritor foi contratado pela Record, do centro do país, que relançou sua novela Quem Faz Gemer a Terra? – relato inspirado em um episódio real, escrito pela voz de um sem-terra acusado de degolar um PM durante um enfrentamento na Praça da Matriz, em Porto Alegre. Seu volue mais recente de material inédito foi Logo Tu Repousarás Também, coletânea de contos também da Record, e outros dois livros foram relançados pela nova editora, num processo que deve levar à reedição integral da obra ficcional de Kiefer: a novela policial O Escorpião da Sexta-feira e o belo e melancólico Valsa para Bruno Stein, que em breve vai ganhar versão cinematográfica com Walmor Chagas no papel-título.

Portanto, sem mais delongas. Diga lá, professor Kiefer, O que você anda fazendo?

Além das muitas aulas que estou dando, oficinas particulares, aulas na Escrita Criativa na graduação da PUC e aulas no mestrado em Teoria da Literatura, na PUC, estou escrevendo um novo romance, muito lentamente, por falta de tempo, e um novo livro de contos. Ainda não posso falar sobre o romance, mas posso falar sobre o personagem, que se chama Ariosto Ducchesi. Um advogado cinqüentão, que revê a sua vida, um sobrevivente. Egresso de Pau-d´Arco, venceu na vida em Porto Alegre. Do alto de uma cobertura bem situada, busca as explicações para essa sobrevivência. Dos contos, prefiro não falar ainda, estão muito embrionários e podem ser abortados.

Postado por Carlos André Moreira

Harry Potter - o melhor em 25 anos?

18 de maio de 2007 1

Harry Potter e a Pedra Filosofal, a primeira aventura do famoso bruxo adolescente, foi eleito o melhor livro dos últimos 25 anos pelos britânicos, em uma lista publicada hoje, segundo a Agência EFE.

Em comemoração aos seus 25 anos, a rede de livrarias Waterstone listou os 25 melhores livros do último quarto de século, que situa na segunda colocação o livro A Mulher do Viajante do Tempo, da americana Audrey Niffenegger. No terceiro e quarto lugares estão A Bússola de Ouro – Trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, e O canto do pássaro, de Sebastian Faulks, respectivamente.

A relação tem poucos autores britânicos, que estão representados em menos de 10 dos 25 livros eleitos. O Código da Vinci, de Dan Brown, ocupa a quinta posição, enquanto A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden, e A História Secreta, de Donna Tartt, estão em sexto, sétimo e oitavo lugares, respectivamente.

Completam a lista dos 10 melhores O Bandolim de Corelli, de Louis Bernières, e O Estranho Caso do Cachorro Morto, do escritor britânico Mark Haddon.

A Agência EFE não divulgou os critérios usados para a lista.

Postado por Sabrina d`Aquino

Refazendo a mais longa das marchas

16 de maio de 2007 0

Divulgação
Toda nação tem seu mito fundador. No caso da China comunista, este mito é o da Longa Marcha, para nós uma história equivalente à de Moisés comandando o êxodo do Egito. Qualquer chinês é capaz contá-la: como o Partido Comunista e seus Exércitos Vermelhos – cerca de 200 mil pessoas batendo em retirada – foram levados a deixar as suas bases no Sul, no início da década de 1930, pelo governo nacionalista dirigido por Chiang Kaishek; como, perseguidos, encurralados e acossados por seus inimigos, eles optaram pela única saída – ir para onde ninguém poderia segui-los, por sobre montanhas mais altas do que pássaros podiam voar, cruzando rios nos quais todos navios haviam sido incendiados, por trilhas remotas em pântanos e planícies; como Mao dirigiu os acontecimentos de vitória em vitória; como, após dois anos de uma incrível resistência, coragem e esperança, apesar de todos os percalços – e após marchar 102 mil quilômetros – o Exército Vermelho alcançou a infértil Planície Amarela, no noroeste da China. Apenas um quinto daqueles que partiram chegou – exausto, abatido, mas sem se entregar. Em menos de uma década, eles contra-atacaram, derrotaram Chiang Kaishek e lançaram a nova China em direção a uma revolução. Nas palavras do próprio Mao:

Alguma vez a História conheceu alguma longa marcha que se igualasse à nossa? Não, nunca. A Longa Marcha… anunciou ao mundo inteiro que o Exército Vermelho é um exército de heróis. A Longa Marcha semeou muitas sementes que irão brotar, dar folhas, florescer e dar frutos, e futuramente retribuir com uma colheita. Numa só frase, a Longa Marcha terminou com vitória para nós e com a derrota do inimigo.

Nascia o mito, e ele continua sendo o resistente emblema da China de hoje. Não conseguimos fugir dele. A Longa Marcha foi entronizada para a nação nas extravaganzas musicais O Leste é Vermelho e Ode à Longa Marcha, e filmes de batalhas ocorridas durante a Longa Marcha se transformaram em clássicos. Eles tomavam o idealismo, o otimismo e o heroísmo dos integrantes da Longa Marcha e os gravavam nas nossas mentes. O mito brilhou cada vez mais resplandecente com a ajuda de dois relatos adulatórios, ambos feitos, estranhamente, por americanos: Red Star over China [Estrela Vermelha sobre a China], de Edgar Snow, publicado em 1936, e Long March: The Untold Stories, de Harrison Salisbury, em 1985. Com a chancela do Partido Comunista Chinês, eles fizeram do mito algo praticamente impermeável.

%22Se você acha algo difícil, pense na Longa Marcha; se você se sente cansado, pense nos nossos ancestrais revolucionários%22. Foi injetada em nós a mensagem de que podemos atingir qualquer meta estipulada pelo Partido para nós porque nada se compara em dificuldade com aquilo que eles realizaram. Décadas depois da Longa Marcha histórica, fomos obrigados a passar por cada vez mais numerosas longas marchas – industrializar a China, alimentar a maior população do mundo, alcançar o Ocidente, reinventar a economia socialista, mandar homens para o espaço, se engajar no século XXI.

Poucos desafiaram ou até mesmo modestamente questionaram o mito. Simplesmente é parte de quem somos. Mas as perguntas permanecem. Foi o comunismo o ímã que atraiu os pobres em manadas para o Exército Vermelho? Como o Exército Vermelho supria a si mesmo de alimentos, armas e remédios? O que aconteceu com os quatro quintos dos integrantes que não chegaram até o final – foram mortos em batalhas, sucumbiram à fome e ao frio, desertaram, ou caíram vítimas de seus próprios camaradas? Foi Mao o grande estrategista que nunca perdeu uma batalha? Como Mao e o Exército Vermelho foram finalmente salvos? As pessoas começaram a fazer tais questionamentos, mas trata-se apenas de questões concretas. A Longa Marcha continua sendo como o sol no céu.

Livros sobre a Longa Marcha enchem metros de prateleiras, mas dificilmente colocam tais questões ou fornecem respostas. Em 2004, setenta anos após o seu início, lancei-me na mesma trilha para descobrir o quanto fosse possível sobre as verdades por trás do mito. Restam poucos documentos – tantos registros foram destruídos quando os Exércitos deslocavam-se. Alguns generais publicaram suas memórias, mas o material confiável é realmente esparso. Dos 40 mil sobreviventes originais, talvez 500 ainda estejam vivos, e estão agora com oitenta anos ou mais. A maior parte são pessoas comuns que foram deixadas para trás ou que conseguiram chegar até o fim, mas elas ainda têm muito a nos contar.

Antecipamos acima um trecho (inédito ainda em português) do prefácio de A Longa Marcha, da chinesa Sun Shuyun, uma reportagem que reconstitui e desmitifica, décadas depois, com o auxílio dos depoimentos de sobreviventes, o que foram os dois anos da fuga épica empreendida pelo exército vermelho liderado por Mao no início dos anos 1930. O livro vem se juntar a outros lançamentos recentes que abordam a história da China, como China: uma nova história, de John King Fairbank e Merle Goldman (edição da L&PM) e a gigantesca biografia Mao, do inglês Jon Halliday e de sua esposa Jung Chang (Companhia das Letras). O livro de Halliday e Chang (também autora do tocante relato Cisnes Selvagens, também publicado pela Companhia) já tangenciava essa visão menos heróica e mais crítica da Longa Marcha que Sun Shuyun também apresenta – e as duas autoras podem ser comparadas em outro aspecto: são ambas chinesas radicadas na Europa, de onde escrevem tentando mostrar uma China que escapa dos filtros e da censura de ferro do partido comunista chinês (afinal, uma organização totalitária que consegue bloquear o Google não é mero folclore). Situação análoga à de Xinran, também chinesa, também morando no Velho Continente e que há uns três anos teve publicado aqui no no Brasil As Boas Mulheres da China (Companhia das Letras), misto de reportagem e testemunho que retratava a situação das mulheres vivendo no país e sofrendo as contradições da paradoxal %22economia socialista de mercado%22 e a opressão da união de dois sistemas despóticos: o patriarcalismo tradicional da sociedade milenar e a despersonalização imposta pelo comunismo. O que me leva a perguntar: qual será a peculiaridade que faz das mulheres as principais vozes dissidentes que ecoam, ao menos aqui no Brasil.

Mas voltando ao livro: A Longa Marcha ainda não está nas livrarias, deve vir a público ali pelo fim deste primeiro semestre, pela recente editora gaúcha Arquipélago (que já publicou Terra Adentro, de Luís Sérgio Metz, Tau Golin e Luiz Osório, e A Vida que Ninguém Vê, de Eliane Brum).

A Longa Marcha é a primeira tradução da editora, fundada no ano passado, e quem está vertendo o texto para o português é a jornalista (ex-colega aqui da Zero) Caroline Chang – e, até onde eu sei, sem nenhum parentesco com a autora de Mao. A capa que você vê aí do lado, obviamente, é de uma edição estrangeira.

Postado por Carlos André Moreira

A Inveja é aquilo mesmo

15 de maio de 2007 0

Divulgação
Ando pesquisando aqui e ali para uma matéria que, se nada der errado, vocês lerão no caderno Donna do dia 27, e isso me deu o pretexto que eu precisava para vir aqui partilhar com vocês um trecho de um livro bastante bacana que estou destrinchando. Vejam o texto abaixo:

Definido em contraposição com a inveja, o ciúme só pode ser ciúme sexual, a experiência de ser o perdedor da competição no amor, ou de ceder de má vontade o parceiro sexual às atenções de um rival. Mas não equivaleria à inveja material esta peleja por indivíduos como bens sexuais? Afinal, os objetos de nossas atenções amorosas são em si corpos materiais, apesar de desejados de uma forma diferente dos bens de consumo. Se, porém, sentimos que a dignidade do amor romântico e suas transações está fora do mundo do mercado, então devemos nos censurar pela idéia de que o ciúme sexual sempre se arrisca a trazê-lo de volta a este reino. Rosnando intimimamente como cães de guarda quando outra pessoa parece ter intimidade demasiada com eles, nós efetivamente reduzimos nossos parceiros ao status de posse material, e o desejo, amor e preocupação legítimos que sentimos por eles tornam-se comodificados na troca.
Um filósofo do campo da estética, John Armstrong, afirma que o ciúme provém de uma aporia fundamental, ou contradição, na condição humana. Por um lado nós, do Ocidente, tendemos a acreditar na versão do sexo promulgada pela tradição cristã, de que a relação sexual só adquire significado e valor quando comprometida pelo capital do amor. (Seu argumento também resvala na metáfora financeira: %22a visão cristã aceita que investimos o sexo de significados moral e emocional, o que não está de acordo com outras atividades e pensamentos em que temos certeza de fazer este investimento.%22) O sexo sem amor é insatisfatório e definitivamente degradante porque estamos nos reduzindo a um tipo de função puramente animal. A visão alternativa, que exerce em nós uma influência simultânea a compensatória, diz que o sexo é simplesmente outra forma de prazer físico, semelhante a uma partida estrênua de badminton ou a apreciação de uma boa comida. Nesta última visão, qualquer que seja o potencial que ele tenha para a nossa degradação está precisamente no fato de o levarmos demasiado a sério. Por que, portanto, a fidelidade sexual deveria ser o parâmetro, ou mesmo um dos parâmetros, para se saber se o amor é genuíno? Armstrong sustenta que a maior parte das dificuldades que encontramos em um longo relacionamento monógamo surge da tensão destrutiva obtida desta moral polarizada. A primeira visão leva o ciúme muito a sério, como a reação honrada a uma situação em que o contrato de amor é rompido por um dos seus signatários, enquanto a última deseja que o ciúme seja abolido, de forma que grande parte de nossos impulsos físicos, embora não se negue a recompensa, possa ser seguramente separada da arena distinta do amor. Há apenas dois rumos possíveis no amor, pensa Armstrong: um é renunciar a qualquer oportunidade extracurricular para a satisfação sexual, enquanto o outro é entregar-se a ele mas mantendo-o oculto, pelo menos até que se tenha passado um intervalo de tempo decente, em seguida ao qual ele pode seguramente ser considerado coisa passageira.

O trecho é de Uma História das Emoções, ensaio cultural do jornalista e historiador Stuart Walton, obra recém publicada no Brasil e que, como o próprio nome promete, faz uma dissecação cultural e intelectual de 10 sensações basilares: Medo, Raiva, Desgosto, Tristeza, Ciúme, Desdém, Vergonha, Embaraço, Surpresa e Felicidade, todos mapeados desde seus sinais exteriores na face e no corpo (algo estudado por Darwin, que é, diga-se de passagem, o ponto de partida para o ensaio, que toma seis das emoções básicas de um estudo do pai da Evolução) até sua presença na filosofia, na arte, na literatura. Escrito, como vocês tiveram uma prova, com uma linguagem sólida em suas referências mas coloquial em seu ritmo e instigante em seu desenvolvimento, o livro não chega a ter a ambição (e em certo modo a realização) do recente Felicidade, uma História, de Darrin McMachon, que esgota a evolução histórica do conceito – a tese central de Uma História das Emoções é outra, a de que nos últimos 250 anos a sociedade humana mudou muito a noção de quais emoções podem e devem ser escondidas ou assumidas em público. Mas ainda é um estudo dos bons, daqueles que a gente lê com vontade de sublinhar determinadas passagens, discordar anotando nas margens e, sempre, refletindo em diferentes possiblidades de leitura a cada novo parágrafo.

Postado por Carlos André Moreira

Escritores, avante

14 de maio de 2007 0

Essa é pra quem quer tirar da gaveta seus exerícios literários. Apressem o passo, gurizada, porque encerra-se dia 31 de maio o prazo de inscrições do 10º Concurso Nacional de Contos Josué Guimarães, parte já tradicional da programação da 12ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo – que este ano será realizada de 27 a 31 de agosto. O concurso é promovido pela Universidade de Passo Fundo (UPF), pela prefeitura da cidade e pela Secretaria Estadual de Cultura, por meio do Instituto Estadual do Livro (IEL). Além de um troféu e de publicação em uma antologia organizada pelo próprio IEL, o primeiro lugar ganha R$ 5 mil, e o segundo, R$ 3 mil para o 2º lugar, além dos troféus.
Cada inscrito deve apresentar três contos inéditos, em quatro quatro vias, formato A4, digitadas numa só face, e identificadas apenas com o pseudônimo do autor. As quatro vias devem ser postas dentro de um único envelope, com o título do concurso e o pseudônimo do autor. Nesse mesmo envelope, o concorrente deve colocar um outro envelope, menos, fechado, com seus dados de identificação: endereço completo, breve currículo e os títulos dos contos.
As inscrições são feitas nos locais ou pelo correio (a data de postagem deve ser até 31 de maio) – por e-mail não vale. Os locais de inscrição são 

* IEL – rua André Puente, 318, CEP 90035-150, Porto Alegre

* UPF – endereçado ao 10º Concurso de Contos Josué Guimarães, Centro Administrativo, Campus I, BR-285 km 171, bairro São José, CEP 99001-970, Passo Fundo.

Boa sorte, então, pessoal

Postado por Carlos André Moreira

Campos sem promessa

14 de maio de 2007 0

Divulgação
Com as duas moedas de prata, Wang Lung pagou por cem milhas de estrada e recebeu de troco do funcionário um punhado de tostões de cobre. Com alguns desses cobres, comprou de um vendedor, que meteu sua bandeja de mercadorias por um buraco do vagão tão logo o trem parou, quatro pãezinhos e uma tigela de arroz papa para a menina. Era mais do que haviam comido de uma vez em muitos dias, e, embora estivessem passando fome, quando tiveram a comida na boca, os meninos perderam o apetite e precisaram ser seduzidos para engolir. Mas o velho chupava com perseverança o pão entre as gengivas desdentadas.

– É preciso comer – dizia, muito simpático com todos os que se espremiam em volta dele, enquanto o vagão de fogo seguia chacoalhando aos solavancos. – Não quero saber se minha barriga tola ficou preguiçosa após esses dias todos sem muito o que fazer. Ela precisa ser alimentada. Não vou morrer porque ela não quer trabalhar. – E os homens riam de repente para o velhinho sorridente e murcho, cuja barba rala se espalhava por todo o queixo.

Mas Wang Lung não gastou todos os cobres em comida. Guardou o que pôde para comprar esteiras com que fazer um abrigo para sua família quando chegassem ao sul. Havia homens e mulheres no vagão de fogo que haviam estado no sul em outros anos. Alguns iam todos os anos às ricas cidades do sul para trabalhar e mendigar e assim poupar o dinheiro da comida. Wang Lung, quando se acostumou com a maravilha de estar onde estava e com o espanto de ver a terra passar pelos buracos no vagão, escutou o que esses homens diziam. Falavam com a força da sabedoria onde os outros são ignorantes.

– Primeiro, você precisa comprar seis esteiras – disse um homem de lábios grossos e caídos como os de um camelo. – São dois pence para uma esteira, se você for esperto e não agir como um caipira; do contrário, lhe cobrarão três pence, que é demais, como bem sei. Os homens das cidades do sul não me enganam, mesmo se forem ricos.

Esse é um trecho de A Boa Terra, romance no qual a norte-americana (filha de pastores presbiterianos e criada na China) traça um doloroso painel da vida dos trabalhadores chineses do campo, por meio da trajetória do Wang Lung de que se fala no trecho escolhido. No início um camponês pobre começando um casamento com uma serva, Wang Lung consegue, com as economias de boas colheitas, comprar uma grande quantidade de terras dos ex-mestres de sua esposa, apenas para perdê-la no curso de uma série de insucessos – e precisar migrar para a cidade, onde, a exemplo de outras famílias acossadas pelo êxodo rural no país, acabam por sobreviver pedindo esmolas. Em um tom que não abre mão da emoção, embora contido e elegante, Pearl S. Buck – ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura – foi a responsável, neste romance publicado em 1931 e sucesso imenso de público, por uma primeira onda de popularização da China na literatura ocidental, pela aflição dos camponeses que morriam de fome no maior, mais vasto e mais populoso país do mundo. Lançado originalmente no Brasil pela Globo, agora ganha nova edição pela Alfaguara, selo da Objetiva. 

 

Postado por Carlos André Moreira

Atendendo a pedidos

14 de maio de 2007 0

 Devido a uma solicitação do nosso leitor Walter Menz, editei o post com a entrevista do Agualusa para incluir na íntegra a entrevista feita pela Priscilla com ele e publicada no Cultura. Abraços a todos. Ah, sim, por falta de respostas, por enquanto, nossa série %22O que eles estão fazendo fica para a próxima segunda-feira%22.

Postado por Carlos André Moreira

Águas lusas - e brasileiras

12 de maio de 2007 2

José Eduardo Agualusa na 2ª edição da Flip, em 2004. Foto: Divulgação

Por Priscilla Ferreira

Quem leu o caderno de Cultura deste sábado pôde acompanhar a entrevista que fiz com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, que recentemente venceu, na Inglaterra, um prêmio dedicado obras traduzidas de escritores de língua estrangeira (claro, né, obra traduzida inglês/inglês seria brabo). Foi a primeira vez que a premiação, promovida pelo jornal The Independent, foi para um autor do continente africano – Agualusa também foi o segundo autor lusófono a receber o prêmio, o primeiro foi o inevitável José Saramago, com o maravilhoso livroO Ano da Morte de Ricardo Reis. Agualusa, com seu O Vendedor de Passados, que lá saiu com o título The Book of Chameleons, traduzido por Daniel Hahn – ao que consta, a mãe do rapaz é brasileira, o que deve ter facilitado a coisa.

Agualusa lança em breve seu As Mulheres de Meu Pai – que estou achando divertidíssimo –, romance que ele publica aqui no Brasil pela editora da qual é sócio, a Língua Geral, fundada para aproximar as literaturas portuguesas d’além, d’aquém e d’mais além mares. A editora foi lançada no final do ano passado, e eu já falei dela aqui algumas vezes. A propósito da editora, transcrevo abaixo a entrevista na íntegra, acrescida de dois trechos que não couberam na página de sábado e que versam exatamente sobre a Língua Geral e a visão que o escritor – nascido em Angola e que passa um tempo lá, um tempo em Portugal e um tempo aqui no Brasil – têm do papel dela na integração entre as literaturas lusófonas. Divirtam-se.

Embora passe longe da superficialidade, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, um dos grandes nomes da recente safra de autores lusófonos, está fazendo literatura para inglês ver. Literalmente. Agualusa acaba de receber o Prêmio de Ficção Estrangeira conferido anualmente pelo jornal inglês Independent – é o primeiro autor africano e o segundo de língua portuguesa a receber a premiação. O primeiro foi o Nobel José Saramago com o livro O Ano da Morte de Ricardo Reis. O angolano venceu com O Vendedor de Passados (Gryphus, 194 páginas, R$ 35), traduzido em inglês por Daniel Hahn.
O escritor que nasceu em Angola hoje se divide entre Luanda, Lisboa e Rio de Janeiro. Essa vivência no mundo lusófono se traduz na editora Língua Geral (criada por ele no final do ano passado junto com a portuguesa Conceição Lopes e a brasileira Fátima Otero), dedicada exclusivamente à publicação de autores de língua portuguesa.
Agualusa lança ainda este no mês Brasil o livro
As Mulheres do Meu Pai, pela sua editora. Na entrevista a seguir, concedida por telefone, o autor discute literatura, a relação entre os países que lêem e escrevem em português e as chagas pós-coloniais do antigo imperialismo lusitano.

Cultura – À parte, obviamente, a qualidade literária de O Vendedor de Passados, o que é uma circunstância pessoal e intransferível de seu trabalho, como o senhor vê para a literatura de língua portuguesa, muitas vezes tida como periférica, essa sua vitória no 12º Prêmio de Ficção Estrangeira da National Portrait Gallery?
José Eduardo Agualusa –
Esse prêmio é particularmente importante porque na Inglaterra se traduz muito pouco, ao contrário da maioria dos países europeus ou mesmo aqui no Brasil, onde a maioria das obras publicadas vêm de fora. Na Inglaterra e nos Estados Unidos, menos de 3% da ficção publicada vem de outras línguas, eles têm certa resistência a tudo que vem de fora do mundo anglófono. Foi uma surpresa muito grande, teve reflexos imediatos nas vendas na Inglaterra, e surgiram editoras em outros países interessadas no livro.

Cultura – Seu projeto na editora Língua Geral é o de aproximar as literaturas portuguesas. Há pouco, tivemos novas notícias do acordo ortográfico entre os países lusófonos. Alguns defendem que tal regramento seja um exagero. Outros o nomeiam como imprescindível. Como angolano que se divide entre Brasil, Luanda e Portugal, como o senhor vê o projeto?
Agualusa –
Sempre defendi o acordo ortográfico e nunca compreendi como é que países que falam e escrevem a mesma língua têm várias ortografias. Acho que isso vem prejudicando muito seriamente a afirmação da língua portuguesa a nível internacional. Muitas vezes, em grandes fóruns internacionais, quando se discute alguma coisa e é necessário uma língua de trabalho, as pessoas optam pelo espanhol. Uma única ortografia vai facilitar imensamente a circulação de livros entre os nosso países. Isso tem efeitos práticos e concretos, não é uma bizarria de poetas. Mas há um resistência a mudanças. Essa resistência foi acrescida em Portugal por haver muita gente no país que se julga dona da língua. Portugal não é dono da língua, o português é uma criação de todas as pessoas que falam a língua e é uma criação conjunta há muitos séculos, não é de hoje.

Cultura – O senhor já traçou uma linhagem que vai do moçambicano Mia Couto, com uma declarada influência de Luandino Vieira, que por sua vez teria se inspirado em Guimarães Rosa. O senhor mesmo já citou o brasileiro Rubem Fonseca como autor que o marcou. Apesar das dificuldades, o trânsito de idéias e obras entre os países que escrevem na língua portuguesa está acontecendo?
Agualusa –
Está acontecendo e vai ser cada vez maior porque a juventude hoje se serve muito da Internet. São centenas, milhares de blogs literários no Brasil. Nesses sites literários, você vai ver que a circulação é absoluta, você tem escritores de Angola, de Moçambique, do Brasil, de Portugal, e toda essa gente convivendo juntas no ciberespaço. Através das novas tecnologias, esse movimento vai ser imparável, quer dizer, não é possível impedir que isso aconteça, o intercâmbio vai ser cada vez maior. Assim como na música, acho que estamos a assistir o nascimento de um novo espaço da língua portuguesa, que vai ser feito pela sociedade civil, não vai ser feito pelos governos.

Cultura – No Brasil, discutimos se cabe celebrar a identidade negra no dia oficial da abolição da escravatura, 13 de maio, ou apenas na data que homenageia o líder rebelde escravo Zumbi, 20 de novembro. O que, dependendo dos argumentos, pode significar renegar as lutas que culminaram na abolição oficial ou submergir num oficialismo vazio. Como o senhor vê essa discussão?
Agualusa –
Acho que você tem que comemorar todos os dias essa alegria de construir o Brasil. Não há dúvida nenhuma de que os africanos e as pessoas de origem africana no Brasil contribuíram para a construção de uma entidade nacional. É absolutamente irrelevante para mim se é numa data ou noutra data. Se você for ao Exterior, aquilo que os estrangeiros conhecem é o sobretudo a marca africana no Brasil: o Carnaval, o samba, o candomblé, a capoeira.

Cultura – O senhor já disse que acredita que a chaga da escravidão no Brasil ainda não foi superada, assim como em muitos países africanos. Haveria uma maneira de se superar esses traumas coletivos nacionais? Angola e Brasil precisariam superar os mesmos problemas, por exemplo, nesse sentido?
Agualusa –
Ainda há marcas dessa injustiça histórica. Isso é muito claro no Brasil, em alguns aspectos até mais do que em Angola, sobretudo na distribuição do poder. O Brasil ainda é dominado em termos de poder político por descendentes de europeus. Isso é algo diante do qual qualquer estrangeiro que visita o Brasil fica atordoado e inquieto. É estranho o povo brasileiro estar habituado a isso. Mas é realmente muito estranho você olhar para o governo e não ver pessoas de ascendência africana. É feito com naturalidade, mas não pode ser feito com naturalidade, porque não é normal. É uma coisa que o Brasil tem que resolver. A maioria das pessoas são de origem africana, porque então essas pessoas não partilham do poder político? A mesma coisa com as populações indígenas, que estão totalmente afastadas do poder político. Alguma coisa está errada.

Cultura – Outra discussão momentosa é a das políticas de cotas e ações afirmativas, com defensores e detratores acalorados. O que mais se discute é justamente a existência e a natureza do racismo no Brasil. O senhor, com sua vivência no país, como vê esse tema? O brasileiro é racista?
Agualusa –
Entendo que é preciso fazer alguma coisa porque a situação é completamente errada. Mas tentar resolver o problema com uma lógica racial é errado. O Brasil tem uma coisa muito boa que é não ter paranóia racial. Tem injustiça racial, mas as pessoas não estão obcecadas com a questão de raça, como em Angola, por exemplo. Não creio que a melhor solução seja resolver com uma legislação racial. O racismo só acaba quando houver deixado de ter obsessão de raça. Agora, também é verdade que racismo tem muito a ver com distribuição de poder. Se você tem um país como o Brasil, em que uma elite branca domina a maioria da população, passa a haver uma equivalência, ainda que seja uma coisa mental, uma coisa que não é dita, mas está lá. Você é branco, então você pertence a elite. Essa coisa tem de ser resolvida e não acredito que seja através de cotas. Um mal sistema é o sistema americano: o exemplo americano é absolutamente perverso, absolutamente errado. Eu ficaria muito desgostoso se o Brasil olhasse para os EUA numa área em que está claramente um milhão de anos à frente. Os movimentos americanos mais adiantados estão a olhar para o exemplo brasileiro. O Brasil é um exemplo na aceitação da mestiçagem. É, na minha opinião, o país mais integrador do mundo, que mais facilmente integra, assimila. E as cotas podem prejudicar. Isso é um absurdo, é assumir que há raças, quando raças não há. O que é preciso é resolver o problema da pobreza e facilitar a entrada de pessoas menos favorecidas nas escolas. Não é tão difícil, Cuba fez, Cuba é um desastre no resto, mas fez. E se Cuba conseguiu resolver isso, porque o Brasil não resolve? Tem que dar educação a toda a gente. Eu não defendo Cuba, é uma ditadura terrível, mas no campo da educação resolveu. Se o Brasil investir seriamente em educação, logicamente dentro de dez, 15, 20 anos, vai ter essa situação resolvida, os afrodescendentes vão estar no poder também, vão ocupar os cargos a que têm direito. Agora não me parece que seja através de cotas. Cotas é legislar com base racial, é fazer o mesmo que fez o apartheid, que  separava as pessoas pela cor. Não há discriminação positiva, discriminação é discriminação, ponto. Acho insultuoso para quem tem acesso por mérito próprio e depois passa no futuro a ser olhado como uma pessoa que conseguiu fazer esse curso pela sua raça, quando não foi pela sua raça, foi pela sua competência.

Cultura – Em Portugal, por onde o senhor também transita com freqüência, como se discute a questão do legado pós-colonial? A questão da escravidão é outra no país-metrópole?
Agualusa –
Essa questão não se coloca em Portugal, naturalmente. A que se coloca é a contribuição atual dos novos portugueses de origem africana. No fundo, o que se discute é a questão da identidade e a participação das pessoas no poder político, na cultura, na economia etc. Fala-se na integração dessas pessoas na sociedade e da contribuição dessas pessoas para a moderna cultura portuguesa. Se você for a Portugal hoje vai ver que, na música, uma boa parte dos jovens é de origem africana, e a música portuguesa está mudando completamente devido à contribuição dessas pessoas. Isso vai acontecer também na literatura, nas outras formas de arte.

Cultura – Seu projeto na editora Língua Geral é o de aproximar as literaturas portuguesas. Há pouco, tivemos novas notícias do acordo ortográfico entre os países lusófonos. Alguns defendem que tal regramento seja um exagero. Outros o nomeiam como imprescindível. Como angolano que se divide entre Brasil, Luanda e Portugal, como o senhor vê o projeto?
Agualusa –
Sempre defendi o acordo ortográfico e nunca compreendi como é que países que falam e escrevem a mesma língua têm várias ortografias. Acho que isso vem prejudicando muito seriamente a afirmação da língua portuguesa a nível internacional. Muitas vezes, em grandes fóruns internacionais, quando se discute alguma coisa e é necessário uma língua de trabalho, as pessoas optam pelo espanhol. Uma única ortografia vai facilitar imensamente a circulação de livros entre os nosso países. Isso tem efeitos práticos e concretos, não é uma bizarria de poetas. Mas há um resistência a mudanças. Essa resistência foi acrescida em Portugal por haver muita gente no país que se julga dona da língua. Portugal não é dono da língua, o português é uma criação de todas as pessoas que falam a língua e é uma criação conjunta há muitos séculos, não é de hoje.

Cultura – O senhor já traçou uma linhagem que vai do moçambicano Mia Couto, com uma declarada influência de Luandino Vieira, que por sua vez teria se inspirado em Guimarães Rosa. O senhor mesmo já citou o brasileiro Rubem Fonseca como autor que o marcou. Apesar das dificuldades, o trânsito de idéias e obras entre os países que escrevem na língua portuguesa está acontecendo?
Agualusa –
Está acontecendo e vai ser cada vez maior porque a juventude hoje se serve muito da Internet. São centenas, milhares de blogs literários no Brasil. Nesses sites literários, você vai ver que a circulação é absoluta, você tem escritores de Angola, de Moçambique, do Brasil, de Portugal, e toda essa gente convivendo juntas no ciberespaço. Através das novas tecnologias, esse movimento vai ser imparável, quer dizer, não é possível impedir que isso aconteça, o intercâmbio vai ser cada vez maior. Assim como na música, acho que estamos a assistir o nascimento de um novo espaço da língua portuguesa, que vai ser feito pela sociedade civil, não vai ser feito pelos governos.

por Priscilla Ferreira