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Terça Insana

04 de junho de 2007 0

Divulgação
Eu costumava freqüentar sempre os mesmos lugares, e, por maior que fosse a cidade, o itinerário acabava se reduzindo a um ou dois cinemas, um ou dois cafés no fim da tarde, é que eu sempre fora uma pessoa previsível e passava todo dia pelas mesmas ruas, pela mesma banca de jornal, sempre em silêncio, sem cumprimentar nem me despedir de ninguém, sem desfrutrar das vantagens de ser agradável, simpático, o mundo dos agradáveis e simpáticos que cumprimentavam esfuziantes o verdureiro, a mocinha da padaria, a mulher da banca de jornal, todos os dias, bom dia, como vai? como vai a família? e fulano, está bem? Ah, fulano está ótimo, e o senhor, como vai? como vão a esposa e as crianças?, ah, as crianças estão ótimas, só Gigi ou Lili ou Vivi é que está um pouco cansada, foi passar uns dias em Maiorca ou em Ibiza ou no sul da Espanha, eu poderia dizer tanta coisa, deixar uma boa impressão, se educado, mas acabava indo embora sem dizer nada, tudo culpa das metrópoles, do declínio da cultura ocidental, do anonimato dos grandes centros urbanos, da solidão do homem público, que apesar de todo o seu anonimato e solidão insistia em cultivar amigos e chope depois do trabalho.

Não se engane. O trecho acima – que à primeira vista não chega a impressionar pelo tom forçadamente blasé que é comum a muito da literatura feita atualmente – é de Toda Terça, da jovem autora Carola Saavedra, que vem sendo apontada como uma das novas e promissoras vozes da ficção contemporânea e que já lançou, pela editora 7Letras, o livro de contos Do Lado de Fora. Embora em detalhes algumas passagens pareçam o mais do mesmo da cartilha de todo jovem escritor contemporâneo, o tapete do conjunto de Toda Terça revela um cuidado pouco comum com a ourivesaria da trama. O primeiro romance da autora traz um cruzamento de tramas que se imbricam no tempo e no espaço, abordam o universo de Javier, imigrante lation-americano que vive seus dias de cinismo literário em meio aos personagens da cena urbana de Frankfurt. Uma trama que se cruza com a da estudante de antropolgia Ulrike, jovem alemã que se torna sua amante e que será o catalisador do contato de Javier com outros personagens da trama, como os quatro amigos com quem ela divide o apartamento – apartamento que ele próprio ocupará quando for morar com a alemã. Sem aparente conexão com a trama de Javier, vemos também, no Rio de Janeiro, as intensas sessões de psicanálise de Laura, que em catárticas e às vezes cômicas confissões no divá da analista exorciza seus amores com um homem casado e um rapaz que conheceu numa sessão de cinema – a questão é que as tramas não estão tão desconectadas como parecem, e ao final do mosaico de cacos e retalhos tecido por Carola, percebe-se que o quebra-cabeça deve ser montado tanto com o que os personagens nos disseram quanto – e mais importante – com o que eles nos esconderam.

Postado por Carlos André Moreira

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