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Posts de junho 2007

Donaldo

23 de junho de 2007 0

Quem acompanhou o CUltura deste sábado, pôde ver uma entrevista realizada com o professor e tradutor Donaldo Schüler. Vai aqui, como prometido, o restante do papo.

Cultura – Em muitas traduções, o nome de Odisseu dava lugar à forma latina, Ulisses. O senhor manteve o nome original. Qual foi o motivo dessa decisão?
Schüler
- O nome Odisseu, e isso está em vários lugares da Odisséia, deriva de um verbo correspondente ao verbo odiar. Então traduções para o inglês perdem o recurso dessa aproximação dos nomes, porque em inglês odiar é To Hate, bem diferente dessa raiz. Já nós podemos, por acaso, derivar Odisseu de odiar. Homero joga muito com as palavras, embora seja uma literatura popular, Homero preserva essa característica de uma exigência verbal contra toda a fluidez. Então você tem essa situação dialética que você tem em toda a literatura grega, inclusive a filosofia. Hoje a filosofia se tornou acadêmica, antes de Platão a consciência acadêmica não existia. A filosofia, a poesia, a epopéia se faziam na rua. Quem sabe nessa questão da pós-modernidade teríamos que readquirir uma sensibilidade de voltar para a rua, o que está se notando de alguma forma na filosofia, a juventude hoje está muito interessada pela filosofia, coisa que não acontecia nos anos 70, início dos 80, quando tínhamos uma preocupação com a semiótica e com o tecnicismo. A nossa reforma de ensino nos anos 1970 foi feita com o intuito de criar técnicos, eliminando as disciplinas de reflexão. O que se percebe na juventude hoje é uma volta para as humanidades. Os cursos de filosofia e letras hoje são procurados em muito maior número do que antes. E não é um fenômeno brasileiro. Tenho uma pessoa conhecida que voltou recentemente do norte da Europa e dizia que as humanidades hoje lá tem prestígio maior do que as ciências exatas. É um fenômeno surpreendente e nós n não estávamos preparados para essa situação. O grande número de novas traduções que temos de textos clássicos são também uma solicitação do leitor. Eu não teria feito essa tradução se ela não me fosse solicitada pela L&PM para uma edição de bolso, justamente, o que indica uma ressonância popular à qual as editoras estão sensíveis.

Cultura – Embora Homero e alguns outros como Sófocles e Platão nunca tenham deixado de ser traduzidos e discutidos, a bibliografia de clássicos da Antigüidade em português ainda tem muitas lacunas. A que o senhor atribui isso?
Donaldo –
É um ponto do qual temos nos ocupado. Nós criamos, inclusive, sou um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e a fundamos em 1985, e muitas coisas já aconteceram a partir daí. Nós fizemos congressos em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, mesmo em Porto Alegre, com centenas de pessoas, a maioria jovens, de modo que está se criando um clima no Brasil. Mas também a editora comercial só publica livros que já tenham ressonância popular, caso contrário ela não se mantém como empreendimento. Agora, se a própria editora comercial começa a solicitar textos, você vê que há uma mudança generalizada. Não nos faltam hoje pessoas capazes para traduzir diretamente do grego, o que em um determinado momento, por descuido, não se fazia. Temos um grande número de especialistas em grego. E importa que essas pessoas sejam contatadas a serviço dessa ressonância que está acontecendo. Não se trata só de um fenômeno literário, mas toda uma colocação diante da vida. Os autores que tratam da pós-modernidade, por exemplo, Deleuze, Derrida, Foucault, estão todos preocupados com o mundo antigo. É preciso repensar esse mundo antigo, e é urgente que isso se faça e é muito importante que as pessoas que trabalham com isso e as próprias editoras estejam despertas para essa nova exigência. Porque a literatura nunca é uma situação individual. Se essa tradução não me fosse solicitada, eu não teria feito, não vou traduzir para deixar na gaveta, mas a própria solicitação mostra que há um interesse e que seria uma injustiça se a gente não atendesse a esse apelo.

Cultura – Entraria nesse fenômeno também o grande número de traduções diretas de outras literaturas que recentemente tem aportado no Brasil, como versões diretas do árabe, do russo e do japonês?
Schüler
- Sim, mas agora veja: todos esses exemplos estão ligados à universidade. Há um descuido dos homens públicos do Brasil com respeito às universidades, elas não recebem a atenção devida. As universidades do primeiro mundo elas têm uma outra importância para o desenvolvimento, e aqui parece que nossos governantes entendem que a universidade é um peso econômico que não seria bom se não existisse. Então se relega as universidades públicas em favor de uma situação puramente privada, como se o governo não precisasse se preocupar com isso.

Cultura – Na Odisséia, bem como em outros épicos como a Eneida, o herói mantém a memória de um valor ou de um objetivo permanente que o guia na jornada, um centro, como o senhor diz. Que leitura podemos fazer disso hoje numa época em que esse centro não mais  existe e a noção é de desamparo?
Schüler
- Isso você nota desde o fim do século 19. Nós combatemos violentamente o centro, desde Nietzsche. É um processo total de descentramento: mata-se Deus, mata-se o Homem, mata-se o Autor. Mas não podemos fazer previsões. O que significa o Centro hoje? Nós somos levados, em todos os campos da ciência, a nos expressarmos sobre esse descentramento. O que exige mesmo uma mudança de perspectiva. Sempre pensamos através do centro, no momento em que há esse descentramento, evidentemente surge uma inquietação. Mas é  uma inquietação criativa, já que os momentos de crise são os mais produtivos. Acho que estamos em um momento muito bom nesse sentido.

Cultura – O senhor pretendia desde o início uma tradução popular que preservasse o caráter oral da composição. Foi difícil reproduzir no ritmo e na musicalidade do português os efeitos dessa oralidade do original?
Schüler –
Olha, na verdade o português é uma língua muito musical. O que acontece é que na língua grega antiga diferenciamos entre sílabas longas e breves, como nós também fazemos em /casa/, em que o primeiro A é mais longo que o segundo. Só que em português as sílabas longas sempre incidem nas acentuadas. Na língua grega antiga, essa sílaba longa poderia estar fora do acento tônico, o que dá essa impressão de canto. E o que se vai fazer? Prestar atenção nessa oralidade, o que é relativamente fácil no português, nós somos, a exemplo do grego antigo, uma língua vocálica. Trata-se apenas de uma questão de ouvido e de repoetizar o que é nosso.

Cultura – No livro Seis Propostas para o Próximo Milênio Ítalo Calvino elenca algumas características necessárias para a literatura a partir do ano 2000. Algumas delas, mais marcadamente a Rapidez, a Leveza e a Exatidão podem ser traçadas até o próprio Homero ou ainda antes. O caminho para o futuro é voltar à tradição
Donaldo –
Essas semelhanças mostram que estamos refletindo sobre as mesmas coisas com posições diferentes e estamos conscientes desse substrato que nos mantêm dentro da tradição. Isso também depende do trabalho que se faz com a tradição. A tradição pode ser opressiva, como diz o Stephen Dédalo no Ulisses de Joyce: %22A história é um pesadelo do qual estou tentando acordar%22. É um pesadelo se você se sente oprimido pela história. Se você reelabora a história ela é riquíssima. Você nem teria condições de pensar se não pensasse dentro de uma certa tradição.

Cultura – No que o senhor está trabalhando agora? Algum projeto próprio ou outra tradução?
Donaldo –
Um autor em cuja tradução estou trabalhando, já em fase de conclusão para lançar em pouco tempo, é o grego Diógenes, o Cínico,  um filósofo muito importante. Há uma tradição aristotélica e uma tradição platônica que colocam Diógenes como um filósofo inferior, marginal, secundário. Mas a recuperação do marginal é outra questão da pós-modernidade. Quando se forma uma tradição erudita, reprime-se a cultura popular como se a cultura popular fosse uma coisa inferior. Diógenes era identificado com o povo, ele abandona as riquezas, que deixam de significar sedução, atração. Ele se torna um homem que não tem nada, marginalizado, não identificado com as ambições épicas dos macedônios, de Alexandre o Grande. E ele pertence a uma tradição que vai passar por São Francisco de Assis e de certa literatura renascentista e que vai dar até na nossa literatura marginal. Estou traduzindo palavras atribuídas a Diógenes, a grande fonte são fragmentos coletados por Diógenes Láercio. Se o cínico Diógenes escrevia, seus escritos desapareceram, ficaram esses ditos, essa tradição popular anedótica, mas a anedota pode ser um elemento muito sério, ela tem grande importância para a psicanálise, por exemplo. E podemos, então, aproximar Diógenes de Sócrates, da ironia deste último. É um autor sobre o qual ainda precisamos pensar.

Cultura – O senhor lembrou das anedotas. Diógenes, para a maioria, é o personagem de uma delas: a do homem com a lanterna que procura um indivíduo honesto.
Schüler -
Sim, e veja a importância disso. Esse episódio mostra que Diógenes foi inclusive o inventor da performance. Se eu hoje vou para a Rua da Praia com uma lanterna e digo %22procuro um homem%22, eu sou artista. Veja a importância disso para a arte contemporânea.

Postado por Carlos André Moreira

Odisséia

22 de junho de 2007 0

Ódisseu ludibria o ciclope Polifemo na Odisséia/Reprodução
 %22Chegados ao navio, nossa primeira providência
foi arrastá-lo para as divinas águas salgadas.
Firmado ao mastro, içamos a vela. Embarcadas
as ovelhas, subimos. Estávamos tristes. Lágrimas
não paravam de correr. Para nosso bem, Circe,
de belos cabelos e de celeste canto, enviou
o vento que nos impelia. Ao ímpeto do aéreo
companheiro a vela da negra nau se enfunava.
Tudo preparado, cada um tomou o seu lugar.
Confiamos a rota ao sopro e ao piloto. O barco, de
vela desfraldada, cortou o mar o dia todo. Quando,
com o pôr-do-sol, obscureceram-se todas as vias,
alcançamos o extremo do Oceano de profundas
correntes. Lá fica uma cidade de homens raros, os
cimérios, envolta em névoa sombria. Hélio, de raios
luminosos, não logra contemplá-la quando percorre
o caminho que sobe ao céu estrelado nem quando,
ao declinar, baixa os olhos, lá do alto, para a terra.

Não percam no próximo Caderno de Cultura, neste sábado, uma entrevista com o tradutor e crítico catarinense mas radicado no Rio Grande do Sul Donaldo Schüler, que está lançando uma nova tradução integral da Odisséia, de Homero, que vocês puderam acompanhar pelo trechinho disposto acima. A passagem, que abre o Canto 11, da obra, no qual se narra a viagem de Odisseu e seus companheiros ao reino de Hades, a terra dos mortos, em busca de conselhos de Tirésias, o adivinho cego, para continuar sua jornada para casa. Donaldo fala sobre seu processo de tradução, traça caminhos para a interpretação do poema, sua relevância e suas leituras possíveis no mundo moderno.

Postado por Carlos André Moreira

Cidade Perdida

21 de junho de 2007 0

Divulgação
Nova York tinha toda a iridescência do início do mundo. As tropas, que retornavam para casa marchavam pela Quinta Avenida, e as garotas eram instintivamente atraídas para o leste e para o norte na sua direção – esta era a maior nação do mundo, e o clima era o de uma festa de gala. Enquanto eu pairava como um fantasma no Salão Vermelho do Plaza numa tarde de sábado, ia a garden-parties exuberantes e alcóolicas no Upper East Side ou bebericava com colegas de Princeton no Biltimore Bar, eu vivia assombrado pela minha outra vida – meu quarto triste no Bronx, meu metro quadrado do metrô, minha fixação na carta diária do Alabama – se chegasse uma hoje, o que diria? – meus ternos puídos, minha pobreza e meu amor. Enquanto meus amigos deslanchavam decentemente na vida, eu tinha empurrado o meu bote à força correnteza acima. A juventude dourada circulando em torno da jovem Constance Bennett no Club de Vingt, os colegas no Clube Yale-Princeton dando vivas à nossa primeira confraternização pós-guerra, a atmosfera das casas de milionários que às vezes freqüentava – essas coisas eram vazias para mim, embora as reconhecesse como um cenário admirável e lamentasse estar comprometido com outro romance. A mesa mais hilária de almoço ou o cabaré mais sonhador – era tudo igual; deles eu voltava ansiosamente para casa na avenida Claremont porque poderia haver uma carta esperando embaixo da porta. Um a um meus grandes sonhos de Nova York se corromperam.

O trecho acima é de Crack-Up (L&PM, 376 páginas, R$ 21), coletânea de crônicas, fragmentos, pedaços de escrita e narração de F. Scott Fitzgerald recolhidos e editados dentre dezenas de cadernos pelo crítico e amigo Edmund Wilson. Uma obra que se junta a outros lançamentos que abordam o universo do instável e sensível Fitzgerald, que viveu os turbulentos anos 20 e 30 do século passado com charme, sensibilidade e uma dose de paixão e loucura personifica em sua própria personalidade e na da esposa Zelda, que terminou seus dias internadas no manicômio. A própria L&PM que está lançando este volume em sua coleção de bolso (tradução de Rosaura Eichenberg) já publicou recentemente O Último Magnata e O Diamante do Tamanho do Ritz e Outros Contos. O conto que dá título a esse volume, a propósito, também está em 24 Contos de F.Scott Fitzgerald, publicação recente da Companhia das Letras. A mesma companhia também publicou Querido Scott, Querida Zelda, reunião de algumas cartas trocadas entre ele e a já mencionada Zelda e que flagram a progressão do relacionamento de ambos, da aceitação coquete que ela fazia da corte dele até a consumação da paixão e o progressivo afastamento provocado pela internação dela.

Fitzgerald é o criador de um universo peculiar de gente bonita e elegante da qual ele próprio fez parte, uma %22juventude dourada%22 que precisou enfrentar o trauma da II Guerra, que viveu o nascimento do moderno capitalismo corporativo da América, o otimismo de uma era de maravilhas. E ele foi, como poucos, um cronista desse período pelo ponto de vista dessa fatia da população americana, sua elite econômica.

É um pouco desse caos criativo e sentimental que desaguaria em obras como Este Lado do Paraíso e O Grande Gatsby que está flagrado em Crack-Up. Estão ali anotações para descrições que mais tarde podem ser reconhecidas nos livros, apontamentos, idéias para histórias realizadas ou não, cartas para gente como o próprio Edmund Wilson e John dos Passos e textos desses amigos sobre ele, incluindo algumas cartas de Zelda.

Confesso que eu, particularmente, me deliciei com a série de frases retiradas do caderno de notas de Fitzgerald, frases soltas que reúnem idéias, exercícios de descrições e sensibilidades e até mesmo aforismos de graça encantadora, próximos da poesia, como De repente, o quarto soou como um relógio ou Uma garota que podia mandar telegramas manchados de lágrimas.

Postado por Carlos André Moreira

Aos olhos da filha do Canibal

05 de junho de 2007 2

Cecília Roth no filme Aos Olhos de Uma Mulher/Divulgação
Às vezes sou tomada pela intuição da profundidade, pela sensação de que somos mais do que o mero momento presente e do que a carne efêmera. Dessa visão singular, que assalta você nos momentos mais absurdos (enquanto você torra uma fatia de pão para o desjejum, enquanto espera na fila para pagar os impostos municipais), os iluminados de todas as épocas extraíram o impulso necessário para inventar suas religiões. Como sou incrédula, para mim essa emoção do Além se confunde com um desejo de beleza, tão agudo e concreto quanto o ataque de fome de um bulímico. Estou falando de coisas vulgares e cotidianas, pois o que pode haver de mais trivial e rasteiro do que esse afã de ser e não morrer? Não deve ter existido um único ser humano, desde o início dos tempos, que não experimentasse alguma vez essa miragem de formosura, essa necessidade de permanência. Até os idiotas têm inquietações transcendentes e em algum momento aspiram à eternidade. A metafísica é a mais comum das paixões rasas.

Talvez você não tenha ouvido falar ainda da espanhola Rosa Montero – mas devia, por uma questão de justiça. Montero é uma autora que transita por gêneros e os subverte, com um olhar enviesado, agudo, uma melancolia feroz que atravessa toda sua obra e que ainda assim não a torna uma leitura pesada e modorrenta. Rosa Montero é clara, límpida, e suas tramas apenas usam determinados temas como ponto de partida para contar histórias nas quais outras histórias ocupam espaço central na narrativa – digamos que o tempo em que narrativas simples bastavam já passou, e ela sabe disso, e portanto suas histórias parecem à primeira vista enquadrar-se num determinado modelo para depois subvertê-lo e usar a própria literatura como tema e fôrma.

É o caso de A História do Rei Transparente, publicado aqui no ano passado pela Ediouro, que tinha as novelas medievais de cavalaria como molde mas era na verdade um triste e melancólico romance sobre brutalidade e inocência (e no qual a tal história do rei transparente era uma narrativa dentro da própria trama que tinha função fundamental em seu desenrolar).

Agora, no novo lançamento de Rosa Montero no Brasil (ela é também autora de A Louca da Casa, provavelmente seu livro mais conhecido por estas plagas), A FIlha do Canibal (Ediouro, 336 páginas), outra história, um conto de carochinha que também dá título ao romance, também ocupa papel central na compreensão da história de Lúcia, escritora que certo dia recebe um telefonema informando que seu marido foi seqüestrado. Se o modelo d%27O Rei Transparente era o romance de cavalaria, aqui o gênero com o qual Montero arma sua história é o policial. Desesperada e sem o dinheiro para o resgate, mas dona de um cinismo bem-humorado que a transforma numa narradora ao estilo dos romances noir, Lúcia sai em busca de pistas do marido desaparecido em um aeroporto e, na aventura, encontra a ajuda de dois homens: um deles é um vizinho, ex-anarquista, ex-revolucionário idoso; o outro é um jovem com ares aventureiros. Em um primeiro momento, a busca de Lúcia pelo marido é também a busca por si própria. À medida que a narrativa evolui, contudo, seu centro desloca-se para as paixões conflitantes despertadas na protagonista pela presença daqueles dois homens, companheiros de jornada, cada um deles protetor e gentil a seu modo, suprindo cada qual carências que a personagem havia se acostumado a ignorar.

O livro foi transformado em filme lá por 2003, pelas mãos do cineasta mexicano Antonio Serrano, o mesmo do desencontrado Sexo, Pudor e Lágrimas, com o nome de Aos Olhos de uma Mulher (a distribuidora brasileira levou medo de que o título original evocasse filmes de terror vagabundo e resolveu colocar esse nome que evoca dramas românticos vagabundos) e com a argentina Cecília Roth no papel principal.

Postado por Carlos André Moreira

Terça Insana

04 de junho de 2007 0

Divulgação
Eu costumava freqüentar sempre os mesmos lugares, e, por maior que fosse a cidade, o itinerário acabava se reduzindo a um ou dois cinemas, um ou dois cafés no fim da tarde, é que eu sempre fora uma pessoa previsível e passava todo dia pelas mesmas ruas, pela mesma banca de jornal, sempre em silêncio, sem cumprimentar nem me despedir de ninguém, sem desfrutrar das vantagens de ser agradável, simpático, o mundo dos agradáveis e simpáticos que cumprimentavam esfuziantes o verdureiro, a mocinha da padaria, a mulher da banca de jornal, todos os dias, bom dia, como vai? como vai a família? e fulano, está bem? Ah, fulano está ótimo, e o senhor, como vai? como vão a esposa e as crianças?, ah, as crianças estão ótimas, só Gigi ou Lili ou Vivi é que está um pouco cansada, foi passar uns dias em Maiorca ou em Ibiza ou no sul da Espanha, eu poderia dizer tanta coisa, deixar uma boa impressão, se educado, mas acabava indo embora sem dizer nada, tudo culpa das metrópoles, do declínio da cultura ocidental, do anonimato dos grandes centros urbanos, da solidão do homem público, que apesar de todo o seu anonimato e solidão insistia em cultivar amigos e chope depois do trabalho.

Não se engane. O trecho acima – que à primeira vista não chega a impressionar pelo tom forçadamente blasé que é comum a muito da literatura feita atualmente – é de Toda Terça, da jovem autora Carola Saavedra, que vem sendo apontada como uma das novas e promissoras vozes da ficção contemporânea e que já lançou, pela editora 7Letras, o livro de contos Do Lado de Fora. Embora em detalhes algumas passagens pareçam o mais do mesmo da cartilha de todo jovem escritor contemporâneo, o tapete do conjunto de Toda Terça revela um cuidado pouco comum com a ourivesaria da trama. O primeiro romance da autora traz um cruzamento de tramas que se imbricam no tempo e no espaço, abordam o universo de Javier, imigrante lation-americano que vive seus dias de cinismo literário em meio aos personagens da cena urbana de Frankfurt. Uma trama que se cruza com a da estudante de antropolgia Ulrike, jovem alemã que se torna sua amante e que será o catalisador do contato de Javier com outros personagens da trama, como os quatro amigos com quem ela divide o apartamento – apartamento que ele próprio ocupará quando for morar com a alemã. Sem aparente conexão com a trama de Javier, vemos também, no Rio de Janeiro, as intensas sessões de psicanálise de Laura, que em catárticas e às vezes cômicas confissões no divá da analista exorciza seus amores com um homem casado e um rapaz que conheceu numa sessão de cinema – a questão é que as tramas não estão tão desconectadas como parecem, e ao final do mosaico de cacos e retalhos tecido por Carola, percebe-se que o quebra-cabeça deve ser montado tanto com o que os personagens nos disseram quanto – e mais importante – com o que eles nos esconderam.

Postado por Carlos André Moreira

E não tem mais jorNADA, negro amor...

04 de junho de 2007 0

Ok, para quem estava a fim de se inscrever para as oficinas e palestras da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, cumpre-me o dever de informar que não tem mais inscrição – este ano a reserva de vagas foi feita apenas pela Internet, e, num recorde para os próprios padrões céleres da Jornada (em 2005 esgotou tudo em 40 minutos), os ingressos se esgotaram em 28 minutos.

Isso mesmo, você leu certo, em menos de meia hora acabou tudo. O que pode acontecer agora é que a inscrição não seja confirmada no período de 24 horas e algumas vagas voltem ao quadro de inscrições – e assim, possam ser oferecidas de novo. Qualquer coisa, manteremos vocês informados no jornal e aqui no site.

Postado por Carlos André Moreira

Marcação cerrada

04 de junho de 2007 0


Pois aquela turma que adora histórias de médicos, hospitais e conspirações envolvendo remédios, pesquisadores, grandes corporações, pode bater palmas. Robin Cook, o rei dos chamados livros de %22suspense médico%22, está de volta. Marcador (Record, 560 páginas, R$ 50) sua nova obra, traz de volta o casal-herói-detetive Laurie Montgomery e Jack Stapleton, do Instituto Médico Legal de Nova York. Apesar de ser um thriller, Cook aposta mesmo é na ação. Ao contrário do que fazem mestres do suspense criminal, como Agatha Cristie, ele mostra ao leitor, desde cedo, quem são os culpados. Os únicos a ignorar o que está acontecendo são mesmo os pobres dos heróis.

Cook também aproveita para desfilar seus conhecimentos médicos. Afinal, foi oftalmologista, doutorado em Harvard, antes de virar escritor de best-sellers. Para quem gosta – ou para estudantes de biologia -, é prato cheio. Confiram aí um trecho:

No interior do óvulo recém-fertilizado, o pronúcleo masculino e o pronúcleo feminino seguiram um em direção ao outro. Depois da dissolução de suas membranas, o material nuclear se fundiu para formar os 46 cromossomos de uma célula somática humana. O óvulo tinha se transformado num zigoto. Num giro de 24 horas, ele vai se dividir num processo chamado segmentação mitótica, o primeiro passo de uma seqüência programada de eventos que em vinte dias daria início à formação do embrião. Uma nova vida tinha começado.%27

Inspirado, não?

Marcador aborda a questão da medicina genômica, ou seja, o estudo do fluxo de informações fornecido por uma célula. O título do livro se refere à gíria médica para indicar um marcador genético, indicador de uma anomalia no portador. No caso, doenças hereditárias graves. Cook também aproveita para criticar os planos de assistência médica, dos quais é inimigo declarado.

Mas vamos ao enredo:
Sean McGillin, 28 anos, fracturou uma perna quando patinava. Vinte e quatro horas após ser operado, morre. O mesmo acontece a Darlene Morgan, de 36 anos, operada por uma ruptura de ligamentos no joelho. Vinte e quatro horas depois após ser operada, é dada como morta.

É então que os médicos Laurie Montgomery e Jack Stapleton começam a seguir esta trilha mortífera em busca de respostas. Apesar da resistência institucional por parte dos seus chefes e do hospital onde morreram as vítimas, Laurie prossegue a investigação. Ela suspeita que as mortes estão relacionadas, sugerindo o envolvimento de um assassino em série.
Vocês já adivinharam não é? Por trás das mortes, está uma empresa de saúde que, através dos marcadores genéticos, descobre quais de seus clientes estão propensos a desenvolver doenças como câncer de mama, cujo tratamento custaria muito, no futuro. Então, bingo! Contrata uma equipe de matadores para eliminá-los discretamente, antes que o balancete da companhia seja prejudicado.

Morda-se de inveja, Dan Brown! Uma história dessas, nem você imaginaria.

Postado por Luiz Domingues