Quem acompanhou o CUltura deste sábado, pôde ver uma entrevista realizada com o professor e tradutor Donaldo Schüler. Vai aqui, como prometido, o restante do papo.
Cultura - Em muitas traduções, o nome de Odisseu dava lugar à forma latina, Ulisses. O senhor manteve o nome original. Qual foi o motivo dessa decisão?
Schüler - O nome Odisseu, e isso está em vários lugares da Odisséia, deriva de um verbo correspondente ao verbo odiar. Então traduções para o inglês perdem o recurso dessa aproximação dos nomes, porque em inglês odiar é To Hate, bem diferente dessa raiz. Já nós podemos, por acaso, derivar Odisseu de odiar. Homero joga muito com as palavras, embora seja uma literatura popular, Homero preserva essa característica de uma exigência verbal contra toda a fluidez. Então você tem essa situação dialética que você tem em toda a literatura grega, inclusive a filosofia. Hoje a filosofia se tornou acadêmica, antes de Platão a consciência acadêmica não existia. A filosofia, a poesia, a epopéia se faziam na rua. Quem sabe nessa questão da pós-modernidade teríamos que readquirir uma sensibilidade de voltar para a rua, o que está se notando de alguma forma na filosofia, a juventude hoje está muito interessada pela filosofia, coisa que não acontecia nos anos 70, início dos 80, quando tínhamos uma preocupação com a semiótica e com o tecnicismo. A nossa reforma de ensino nos anos 1970 foi feita com o intuito de criar técnicos, eliminando as disciplinas de reflexão. O que se percebe na juventude hoje é uma volta para as humanidades. Os cursos de filosofia e letras hoje são procurados em muito maior número do que antes. E não é um fenômeno brasileiro. Tenho uma pessoa conhecida que voltou recentemente do norte da Europa e dizia que as humanidades hoje lá tem prestígio maior do que as ciências exatas. É um fenômeno surpreendente e nós n não estávamos preparados para essa situação. O grande número de novas traduções que temos de textos clássicos são também uma solicitação do leitor. Eu não teria feito essa tradução se ela não me fosse solicitada pela L&PM para uma edição de bolso, justamente, o que indica uma ressonância popular à qual as editoras estão sensíveis.
Cultura - Embora Homero e alguns outros como Sófocles e Platão nunca tenham deixado de ser traduzidos e discutidos, a bibliografia de clássicos da Antigüidade em português ainda tem muitas lacunas. A que o senhor atribui isso?
Donaldo - É um ponto do qual temos nos ocupado. Nós criamos, inclusive, sou um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e a fundamos em 1985, e muitas coisas já aconteceram a partir daí. Nós fizemos congressos em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, mesmo em Porto Alegre, com centenas de pessoas, a maioria jovens, de modo que está se criando um clima no Brasil. Mas também a editora comercial só publica livros que já tenham ressonância popular, caso contrário ela não se mantém como empreendimento. Agora, se a própria editora comercial começa a solicitar textos, você vê que há uma mudança generalizada. Não nos faltam hoje pessoas capazes para traduzir diretamente do grego, o que em um determinado momento, por descuido, não se fazia. Temos um grande número de especialistas em grego. E importa que essas pessoas sejam contatadas a serviço dessa ressonância que está acontecendo. Não se trata só de um fenômeno literário, mas toda uma colocação diante da vida. Os autores que tratam da pós-modernidade, por exemplo, Deleuze, Derrida, Foucault, estão todos preocupados com o mundo antigo. É preciso repensar esse mundo antigo, e é urgente que isso se faça e é muito importante que as pessoas que trabalham com isso e as próprias editoras estejam despertas para essa nova exigência. Porque a literatura nunca é uma situação individual. Se essa tradução não me fosse solicitada, eu não teria feito, não vou traduzir para deixar na gaveta, mas a própria solicitação mostra que há um interesse e que seria uma injustiça se a gente não atendesse a esse apelo.
Cultura - Entraria nesse fenômeno também o grande número de traduções diretas de outras literaturas que recentemente tem aportado no Brasil, como versões diretas do árabe, do russo e do japonês?
Schüler - Sim, mas agora veja: todos esses exemplos estão ligados à universidade. Há um descuido dos homens públicos do Brasil com respeito às universidades, elas não recebem a atenção devida. As universidades do primeiro mundo elas têm uma outra importância para o desenvolvimento, e aqui parece que nossos governantes entendem que a universidade é um peso econômico que não seria bom se não existisse. Então se relega as universidades públicas em favor de uma situação puramente privada, como se o governo não precisasse se preocupar com isso.
Cultura - Na Odisséia, bem como em outros épicos como a Eneida, o herói mantém a memória de um valor ou de um objetivo permanente que o guia na jornada, um centro, como o senhor diz. Que leitura podemos fazer disso hoje numa época em que esse centro não mais existe e a noção é de desamparo?
Schüler - Isso você nota desde o fim do século 19. Nós combatemos violentamente o centro, desde Nietzsche. É um processo total de descentramento: mata-se Deus, mata-se o Homem, mata-se o Autor. Mas não podemos fazer previsões. O que significa o Centro hoje? Nós somos levados, em todos os campos da ciência, a nos expressarmos sobre esse descentramento. O que exige mesmo uma mudança de perspectiva. Sempre pensamos através do centro, no momento em que há esse descentramento, evidentemente surge uma inquietação. Mas é uma inquietação criativa, já que os momentos de crise são os mais produtivos. Acho que estamos em um momento muito bom nesse sentido.
Cultura - O senhor pretendia desde o início uma tradução popular que preservasse o caráter oral da composição. Foi difícil reproduzir no ritmo e na musicalidade do português os efeitos dessa oralidade do original?
Schüler - Olha, na verdade o português é uma língua muito musical. O que acontece é que na língua grega antiga diferenciamos entre sílabas longas e breves, como nós também fazemos em /casa/, em que o primeiro A é mais longo que o segundo. Só que em português as sílabas longas sempre incidem nas acentuadas. Na língua grega antiga, essa sílaba longa poderia estar fora do acento tônico, o que dá essa impressão de canto. E o que se vai fazer? Prestar atenção nessa oralidade, o que é relativamente fácil no português, nós somos, a exemplo do grego antigo, uma língua vocálica. Trata-se apenas de uma questão de ouvido e de repoetizar o que é nosso.
Cultura - No livro Seis Propostas para o Próximo Milênio Ítalo Calvino elenca algumas características necessárias para a literatura a partir do ano 2000. Algumas delas, mais marcadamente a Rapidez, a Leveza e a Exatidão podem ser traçadas até o próprio Homero ou ainda antes. O caminho para o futuro é voltar à tradição
Donaldo - Essas semelhanças mostram que estamos refletindo sobre as mesmas coisas com posições diferentes e estamos conscientes desse substrato que nos mantêm dentro da tradição. Isso também depende do trabalho que se faz com a tradição. A tradição pode ser opressiva, como diz o Stephen Dédalo no Ulisses de Joyce: %22A história é um pesadelo do qual estou tentando acordar%22. É um pesadelo se você se sente oprimido pela história. Se você reelabora a história ela é riquíssima. Você nem teria condições de pensar se não pensasse dentro de uma certa tradição.
Cultura - No que o senhor está trabalhando agora? Algum projeto próprio ou outra tradução?
Donaldo - Um autor em cuja tradução estou trabalhando, já em fase de conclusão para lançar em pouco tempo, é o grego Diógenes, o Cínico, um filósofo muito importante. Há uma tradição aristotélica e uma tradição platônica que colocam Diógenes como um filósofo inferior, marginal, secundário. Mas a recuperação do marginal é outra questão da pós-modernidade. Quando se forma uma tradição erudita, reprime-se a cultura popular como se a cultura popular fosse uma coisa inferior. Diógenes era identificado com o povo, ele abandona as riquezas, que deixam de significar sedução, atração. Ele se torna um homem que não tem nada, marginalizado, não identificado com as ambições épicas dos macedônios, de Alexandre o Grande. E ele pertence a uma tradição que vai passar por São Francisco de Assis e de certa literatura renascentista e que vai dar até na nossa literatura marginal. Estou traduzindo palavras atribuídas a Diógenes, a grande fonte são fragmentos coletados por Diógenes Láercio. Se o cínico Diógenes escrevia, seus escritos desapareceram, ficaram esses ditos, essa tradição popular anedótica, mas a anedota pode ser um elemento muito sério, ela tem grande importância para a psicanálise, por exemplo. E podemos, então, aproximar Diógenes de Sócrates, da ironia deste último. É um autor sobre o qual ainda precisamos pensar.
Cultura - O senhor lembrou das anedotas. Diógenes, para a maioria, é o personagem de uma delas: a do homem com a lanterna que procura um indivíduo honesto.
Schüler - Sim, e veja a importância disso. Esse episódio mostra que Diógenes foi inclusive o inventor da performance. Se eu hoje vou para a Rua da Praia com uma lanterna e digo %22procuro um homem%22, eu sou artista. Veja a importância disso para a arte contemporânea.
Postado por Carlos André Moreira









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