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A Pedra e a Rosa

24 de julho de 2007 0

Reprodução
 Gertrude Stein (1874 – 1946) é um nome para escritores e leitores refinados – e mesmo entre esses muitas vezes ela dá a impressão de ser mais comentada do que lida. Apesar da grande importância de sua biografia para a história das artes em geral, a figura desta intelectual americana costuma ser pouco conhecida pelo grande público. E suas obras, então, não circulam muito fora dos países de língua inglesa e francesa. Nascida em uma próspera família judia assentada em Pittsburg, Stein teve uma infância e uma educação que transitaram entre os Estados  Unidos e a França, e foram essas ligações com a Europa que a ajudaram a ser uma figura central do modernismo do século 20. Sua casa em Paris foi o centro de uma efervescência cultural e literária na capital francesa que Hemingway, um de seus convidados freqüentes, registraria em Paris é uma Festa. Ela foi a mulher responsável pelos encontros e trocas de idéias na fervilhante Paris de uma plêiade de grandes artistas e intelectuais, como Apollinaire, Picasso, Matisse, Ezra Pound, o já citado Hemingway e Scott Fitzgerald.

Pois o que não se fala o bastante de Gertrude Stein é que além de sua militância intelectual ela também escrevia, poesias e textos que professavam um credo modernista, libertário e passional que pautou muito das letras daquele período (assistam novamente ao filme de Phillip Kaufmann Henry e June e vocês verão do que eu estou falando). É dela por exemplo o famoso verso uma rosa é uma rosa é uma rosa, com o qual ela mais tarde admitiria que tentou dar ao vocábulo rosa o mesmo peso, concretude e relação com o mundo que havia nos tempos em que a linguagem era nova e o poeta, admirado dela, poderia usar uma palavra que ERA a coisa, em vez de sua simples representação – hoje, depois de anos de apropriações modernas e pós-modernas e de reflexões conceituais sobre a propriedade da linguagem isso se tornou até banal, mas imagine no início do Século 20 para se ter uma idéia. Era mais ou menos o que Picasso estava fazendo com suas pinturas de perspectiva não realista, explodindo a cena do ponto de vista do observador para fragmentá-la em vários ângulos mesclados em um só. Hoje se vê por toda parte, mas na época foi um escândalo.

Stein não é facilmente acessível ao leitor brasileiro também porque traduções de sua obra não freqüentam nossas prateleiras. A José Olympio acaba de dar sua colaboração para que isso mude ao menos um pouquinho. Dentro da coleção Sabor Literário, que reúne textos pouco conhecidos de autores consagrados, está saindo agora Paris França (154 páginas, R$ 27), um livrinho no qual a autora escreve justamente sobre essa metrópole que tanto conhecia e sobre a qual tanta influência exerceu. É quase o Paris é uma Festa pelo ponto de vista dela, digamos assim, embora ela espraie seu olhar sobre Paris como um todo: sua sociedade, seus caminhos, o temperamento de seus habitantes e mesmo reflexões que nada têm a ver com a cidade, apenas foram pautadas por ela. Seu estilo também está ali, presente na ausência ou colocação ousada de vírgulas, no acavalamento de frase sobre frase numa corrida fluvial até o ponto final. No despojamento da estrutura, buscando uma simplicidade sensória, mais próxima do que se fala e ao mesmo tempo mais distante, tentando reverter a familiaridade que o uso constante, cotidiano e desregrado atribuiu às palavras (a obsessão de Stein pela recuperação do sentido da palavra seria fundamental no que os concretistas brasileiros chamariam meio século mais tarde de %22função de oxigenar a linguagem%22 atribuída aos poetas, as %22antenas da raça%22, como dizia Pound, mas isso é outra história). Ah, sim, eu falava de Paris, França. Vai aí uma palhinha:

É engraçado com relação à arte e à literatura, a moda ser parte delas. Dois anos atrás, todos diziam que a França estava arruinada, que estava afundando e seria uma potência de segunda categoria etcétera etcétera. E eu disse mas não penso assim porque há anos desde a guerra que os chapéus não estavam tão variados e lindos e franceses quanto agora. Não só são encontrados nas boas lojas como há um bonito chapeuzinho francês em toda parte onde existir um verdadeiro chapeleiro.

Não acredito que quando a arte e a literatura características de um país estão ativas e frescas não acredito que este país esteja em seu declínio. Não existe nenuma pulsação mais segura quanto ao estado de uma nação do que seu característico produto artístico que nada tem a ver com sua vida material. E então quando os chapéus em Paris estão lindos e franceses e aparecem em toda parte a França está bem.

Portanto Paris era o lugar certo para aqueles entre nós destinados a criar a arte e a literatura do século vinte, muito naturalmente.

Postado por Carlos André Moreira

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