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Harry, o fim

24 de julho de 2007 4

Bom, quem leu a capa de nosso Segundo Caderno de hoje pôde ver que acabou. Desde sexta-feira, está circulando ao redor do globo a sétima e última aventura de Harry Potter, Harry Potter and the Deathly Hallows, o livro com o qual J.K. Rowling encerra a saga do bruxo adolescente e seu aprendizado do mundo da magia – a tradução em português, Harry Potter e as Relíquias da Morte, chega ao Brasil em novembro. Harry passou seis anos em contato com o universo dos bruxos, seus encantos, sombras, leis, injustiças e o desafio que a ele coube de enfrentar as pretensões tirânicas de um bruxo maléfico, poderoso e de grande crueldade. O texto que escrevi para a capa do Segundo Caderno de hoje tinha a preocupação de analisar o livro mas também evitar a revelação de tramas e subtramas importantes desenvolvidas pela autora ao longo destes sete livros. Pois bem, este texto que você está lendo agora não tem essa preocupação, é uma crítica livre das amarras da suscetibilidade alheia. Ainda assim, resolvi ser magnânimo com aqueles para quem a revelação dos segredos seria um estraga-prazer. O texto abaixo, que pode revelar alguns segredos da história, foi escrito em uma letra que se confunde com a cor do fundo. Se você não quiser saber o que acontece no último Capítulo, você não saberá, tudo o que verá será um imenso espaço vazio. Agora, se você quiser realmente ler o texto e se sua curiosidade não conhece freios, selecione o texto com o cursor e as palavras estarão visíveis como se fossem os caminhos do Mapa do Maroto.

Ok, se você me seguiu até aqui, foi por sua conta e risco e você não pode dizer que não foi avisado. Primeiro, uma palavrinha para quem andou em outro planeta nos últimos seis anos: Harry Potter é uma série de ação e fantasia na qual um menino, ao completar 11 anos, recebe uma carta informando que é, na verdade, um bruxo, com poderes mágicos naturais, e que deverá naquele ano trocar os estudos no mundo dos humanos sem poderes (chamados “trouxas”) por um internato em um castelo na zona rural inglesa, onde será instruído no uso correto de suas habilidades de feitiçaria. À medida que vai conhecendo melhor seus colegas, Harry vai descobrindo que todos no mundo bruxo o conhecem e já ouviram falar dele: a razão é que ele foi o único ser vivo conhecido que sobreviveu ao ataque de uma maldição mortal que matou seu pai e sua mãe. O ataque foi empreendido por um bruxo ligado às artes das trevas, Voldemort, que havia tomado o poder no mundo mágico na ocasião do nascimento de Harry. O feitiço lançado contra o menino rebateu em um encantamento muito antigo empreendido pela mãe de Harry, que se sacrificou pelo filho, e a tentativa de aniquilar o bebê aparentemente matou o vilão e deixou Harry com uma cicatriz em forma de raio na testa. à medida que avança de um ano escolar para outro, Harry enfrenta perigos, mistérios e descobre que Voldemort não apenas havia sobrevivido como eventualmente volta à carga.

O livro, como já dissemos no texto que você leu na capa do Segundo Caderno, surpreende com algumas de suas resoluções, embora a maioria delas seja surpreendente talvez pelo imenso volume de informações e boataria produzida em centenas de sites e portais ao redor do mundo a respeito das saídas que restavam a miss Rowling para encerrar sua aventura. Nesse caldo imenso de hipóteses, ganharam destaque muitas das mais delirantes, deixando em segundo plano as mais simples e naturais, e foram exatamente essas que Rowling escolheu para a maioria das pontas soltas que haviam sido deixadas ao fim de Harry Potter e o Enigma do Príncipe. A mais óbvia delas é que Harry não morre, ao menos em definitivo, no fim – seria provavelmente um final mais dramático, mais condizente com épicos antigos (vide A Morte de Arthur ou A Canção de Rolando), mas não encaixaria muito bem numa aventura de ação voltada ao público jovem. Harry, Hermione e Ron sobrevivem o bastante para que um epílogo os mande 19 anos para o futuro, no fim da história, e os flagre após o fim da jornada, na plataforma do trem que leva a Hogwarts, com os respectivos filhos prontos a embarcar no trem no qual um dia eles próprios viajaram a caminho da escola. Por enquanto é o bastante para este ponto, mas voltaremos a ele.

Ao contrário do que os mais compassivos poderiam imaginar com a morte de Dumbledore no número seis, Harry Potter ainda tem muito a sofrer neste sétimo livro antes de finalmente alcançar a paz, a redenção vitoriosa e a recompensa por seu heroísmo precoce. Harry começa o livro preso à odiosa casa dos Dursley, seus parentes humanos que o criaram após a morte de seus pais. Um encanto protetor lançado sobre o lugar permite que Harry esteja fora do alcance de Voldemort e seus seguidores enquanto puder chamar de lar a casa de seus familiares. Mas ele só funciona até o garoto atingir os 17 anos que lhe conferem a maioridade legal no mundo dos bruxos. Ao mesmo tempo, antes disso, Harry está proibido de usar magia fora da escola, o que o impede de usar seus poderes para deixar a casa e se esconder. Resta aos amigos de Harry, Ron, Hermíone e integrantes conhecidos da Ordem da Fênix, como Ninfadora Tonks, Olho-Tonto Moody e Remo Lupin, buscá-lo, mas ainda assim a área tem sido vigiada por Comensais da Morte, e eles podem ser interceptados ao voar para um lugar seguro. O que leva a um plano arriscado e quase suicida: seis aliados de Harry bebem a chamada poção polissuco, o preparado que permite a quem beber transformar-se temporariamente em outra pessoa, aumentando assim o número de Potters a ser transportados na noite inglesa e confundindo os aliados de Voldemort. O plano é desmascarado e uma brutal perseguição termina em morte e desespero, mas Harry se salva para continuar a procura por artefatos nos quais o vilão Voldemort teria escondido partes de sua alma – a explicação para que o bruxo das trevas tenha sobrevivido. Enquanto os objetos não forem destruídos, Voldemort também não será, e essa é a difícil missão que foi entregue a Harry pelo seu ídolo Dumbledore.

Fala-se tão detalhadamente dessa cena porque os sete Potters, a poção polissuco e a ação constante desse entrecho são a chave para o entendimento da obra como um todo. O sétimo livro, mais até do que qualquer um deles até agora, é sobre aparências, ilusões, percepções intuitivas que enganam o olhar ou que vêem além dele. A entrada de Harry e seus amigos no mundo dos adultos é o ingresso em uma realidade em que as aparências mentem ou não revelam tudo o que deveriam. Em que informações que se tinham como certas acerca de aliados e inimigos revelam-se equívocos ou omissões. Dumbledore, o ídolo e figura paterna, tem um passado obscuro e ligações nunca admitidas com as artes das trevas na juventude. Snape, o esquivo personagem que todos amaram odiar desde o início da história, responsável ao fim do sexto volume pela morte do próprio Dumbledore, também revela-se mais do que à primeira vista, transformando-se neste volume na personagem mais enigmática e mesmo complexa de toda a trama. Ainda que a complexidade de Rowling seja bruta, sem sutileza, abrupta, o que tira um pouco de sua eficácia, nota-se que o tema do “além das aparências” atravessa bem ou mal todos os personagens da história, e mesmo criaturas que a série pintou como odiosas o tempo todo, como Duda e tia Petúnia, revelam uma insuspeitada gama de segredos e mudanças de posturas. O que não deixa de também ser irônico ao se falar da importância da temática das aparências no livro quando o desenrolar da trama de Rowling, sua sucessão de episódios e mesmo situações descritas pela autora parecem elas próprias uma coletânea associativa da obra de diversos outros escritores de fantasia precedentes. O medalhão de Salazar Slytherin, uma das horcruxes finalmente encontradas, interfere na personalidade do grupo, como o anel de Tolkien. Harry se dirige sozinho ao local em que as forças de Voldemort cercam Hogwarts, como o sacrifício de Aslan em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, e mesmo a longa e custosa jornada de Harry, escondendo-se nas fímbrias do controle autoritário de Voldemort, lembra a difícil viagem de Frodo à terra de Sauron, também chamado de “Senhor do Escuro”, bem como Voldemort ostenta o título de “Lorde das Trevas”.

A questão do olhar e do que é visto é também um tema recorrente nesta história em que Harry usa mais do que nunca sua capa de invisibilidade. As próprias Horcruxes que Harry deveria encontrar em mais de um momento parecem ser coisas que estiveram às vistas de todos – tanto como as tais Relíquias da Morte do título, que, ao contrário do que se esperava quando o nome do livro foi divulgado, não são os artefatos perdidos com a alma de Voldemort, e sim três objetos que figuram em uma antiga lenda (O conto dos Três Irmãos) e que confeririam a seu possuidor a capacidade de conquistar a morte. O caos instalado pelo ataque fulminante de Voldemort, que toma o poder outra vez no Ministério da Magia, transforma Harry, Ron e Hermione em exilados percorrendo o país de ponta a ponta, se escondendo das forças do mal. No meio disso, as tensões e mal-entendidos entre Harry e seus grandes amigos podem ser em um primeiro momento mais perigosas do que a perseguição movida pelos asseclas de Voldemort no ministério (e aqui temos de volta para uma participação especial a grotesca Dollores Umbridge de A Ordem da Fênix). Harry agora é o líder relutante de um trio inexperiente empreendendo uma tarefa impossível, e ele deve até mesmo escolher se continua atrás das Horcruxes ou se dedica suas forças a encontrar as tais “relíquias da morte” que poderiam mudar o rumo da guerra mágica. Decisões difíceis são exigidas do “garoto que sobreviveu”, aquele tido como “O eleito”.

O que nos leva ao epílogo, que Rowling nos dá a conhecer quando toda a ação já foi consumada e o perigo representado por Voldemort foi debelado. Após passar por uma jornada excruciante de dores, perseguições, perdas, tudo em nome de uma tarefa que nunca quis assumir e de uma notoriedade que preferia não ter, dada a maneira como a conseguiu, qual a melhor recompensa que o herói vencedor poderia ter? Harry não é um jovem guerreiro em busca de uma morte gloriosa, é um garoto que nunca quis para si as expectativas que os outros sempre tiveram a respeito dele.

Triunfante, Harry não tem a morte épica de um herói, a não ser em tom de farsa ou artifício narrativo. Ele está destinado a ter família e filhos, a vida normal de um sujeito comum. Uma vida sem aventuras perigosas – a garantia de que está tudo bem.

Comentários (4)

  • Ricardo diz: 24 de julho de 2007

    Muito bom o comentário… Diz muito sobre o livro tão esperado mas na verdade não conta a históris em si. Parabéns

  • Ana Munari Pelisoli diz: 24 de julho de 2007

    Realmente bom teu comentário, e vai me ajudar no trabalho que estou fazendo sobre fanfics. Faço doutorado em Teoria da Literatura e minha tese é sobre Harry Potter, como já o foi minha dissertação de mestrado.

  • Adriana Emerim Borges diz: 24 de julho de 2007

    Parabéns!Tanto pela análise, quanto pela estratégia utiizada em respeito aos leitores(o que, na verdade, acabou por aguçar ainda mais nossa curiosidade, tanto que não resisti.)O paralelo entre a narrativa de Rowling e a de Tolkien ainda dá muito pano pra manga, não achas?

  • Aí vem mais Potter | Mundo Livro diz: 23 de junho de 2011

    [...] li a saga Harry Potter (até já escrevi a respeito do último capítulo da série aqui mesmo no blog). Mas não tenho essa paixão toda para ir participar de uma gincana na internet em busca de novas [...]

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