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A voz de um tempo

25 de julho de 2007 2

Reprodução
1 – O Líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Ninguém mais líder. Lenin pode ser esquecido. Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de fome punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: – 12 milhões. Era um maravilhoso canalha e, portanto, o líder puro.

2 – E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: – o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: – ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás de seu chefe abjeto.

3 – Mas, dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Führer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: nem o soldado alemão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hitler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guerra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trêmulo: – %22Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra.%22

4 – Sim, o que se sentia aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer %22travesti%22 do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um am os quase físico. uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de %22o Velho%22. Essa paixão era de um sublime ignóbil…

Essa crônica, intitulada Assim é um líder, continua ainda até o parágrafo 13 e é uma das reunidas no volume O Óbvio Ululante, nova edição da Agir (436 páginas, R$ 44,90), que agora assumiu a obra completa de Nelson Rodrigues, até bem pouco tempo publicado pela Companhia das Letras. Nos textos do volume, escritos para o jornal O Globo entre os anos de 1967 e 1968, Nelson exercita sua verve e sua incomparável qualidade de frasista para pensar sobre seus temas recorrentes, suas %22obsessões%22: o casamento, a família, o amor folhetinesco, derramado, %22imortal%22, a canalhice, a traição, a saudade algo antiga de tempos anteriores (algo que não deixa ser muito irônico, considerando que hoje muita gente tem saudade dos tempos dele), um reacionarismo que hoje parece até algo ingênuo, dado que nessa mesma crônica ele usa sua tese do %22canalha líder%22 para explicar por que achava Kennedy um falso-líder, era bonito, confiável e não-canalha (algo que a história e o tempo se apressaram em desmentir, para desgosto dos reacionários ingênuos ainda vivos – Nelson morreu antes disso).

O volume reúne algunds dos primeiros textos que poderiam se enquadrar na categoria das %22confissões%22, textos muito pessoais – até mesmo para o padrão coração aberto com que Nelson sempre construiu suas crônicas – nos quais o jornalista e dramaturgo usava como tema suas referências, pessoas que conhecia e episódios trágicos de sua própria vida. Em O Óbvio Ululante ele fala da morte de seu irmão mais velho e ídolo, Mario Filho, da origem de sua antipatia contra o religioso Dom Helder Câmara, na época uma das principais vozes contra os horrores da ditadura e contra a miséria no Brasil. Mas, na época, Nelson havia começado um relacionamento com uma jovem linda e bem nascida, muitos anos mais nova, e que foi o escândalo da sociedade carioca do período. Muito católica, a moça sofria com a situação e Nelson pediu que Dom Helder desse uma palavra de conforto à moça. O religioso recusou e ganhou em Nelson um inimigo para a vida toda.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (2)

  • Mauro Castro diz: 25 de julho de 2007

    Conheço alguns “reacionários ingênuos ainda vivos”. Pelo que sei, não nutriam simpatia pelos textos de Nelson Rodrigues. Aliás, os que conheço, não nutriam simpatia por literatura de qualquer tipo.

  • Cristiano Paulo Pitt diz: 25 de julho de 2007

    Um livro de fato fantástico. Muito melhor que as coletâneas de crônicas, doentias em excesso e com personagens repetidas e superficiais. Aqui, a opinião do jornalista se apresenta, marcante, contundente, genial.

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