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Terra Zumbi

26 de julho de 2007 1

Reprodução
Muidinga e Tuahir param agora frente a um autocarro queimado. Discutem, discordando-se. O jovem lança o saco no chão, acordando poeira. O velho ralha.
– Estou-lhe a dizer, miúdo: vamos instalar casa aqui mesmo.
– Mas aqui? Num machimbombo* todo incendiado?
– Você não sabe nada, miúdo. O que já está queimado não volta a arder.
Muidinga não ganha convencimento. Olha a planície, tudo parece desmaiado. Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que já não dá vontade. Por isso ele não insiste. Roda à volta do machimbombo. O veículo se despistara, ficara meio atravessado na rodovia. A dianteira estava amassada de encontro a um imenso embondeiro. Muidinga se encosta ao tronco da árvore e pergunta:
– Mas na estrada não é mais perigoso, Tuahir? Não é melhor esconder no mato?
– Nada. Aqui podemos ver os passantes. Está-me compreender:
– Você sempre sabe, Tuahir.
– Não vale a pena queixar. Culpa é sua: não é você que quer procurar seus pais?
– Quero. Mas na estrada quem passa são os bandos.
– Os bandos se vierem, nós fingimos que estamos mortos. Faz conta falecemos junto com o machimbombo.
Entram no autocarro. O corredor e os bancos estão ainda cobertos de corpos carbonizados. Muidinga se recusa a entrar. O velho avança pelo corredor, vai espreitando os cantos da viatura.
– Estes arderam bem. Veja como todos ficaram pequenitos. Parece o fogo gosta de nos ver crianças.
Tuahir se instala no banco traseiro, onde o fogo não chegara. O miúdo continua receoso, hesitando entrar. O velho encoraja.
– Venha, são mortos limpos pelas chamas.
Muidinga vai avançando pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimônias para purificar o autocarro.
– Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos se ofendem se lhes mostramos nojo.
Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há teto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz:
– Sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Você não quer sombrear?
– Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui;
– E por quê? Cheiram-lhe mal?
O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Se escuta apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio.
– Lhe peço, Tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos.

* Machimbombo = Ônibus

Terra Sonâmbula é o nome de um dos romances mais conhecidos do escritor moçambicano Mia Couto – ele andou por Paraty neste mês – e provavelmente uma das coisas mais bonitas escritas em língua portuguesa nos últimos 15 anos. Na história, duas tramas correm paralelamente, dando um panorama lírico, doloroso e poético do Moçambique em guerra. Na primeira, de onde se extrai esse fragmento que vocês acompanharam, um homem e um menino vagam pela paisagem desolada do país em guerra até se abrigar em um ônibus queimado à beira da estrada. Ali, na maleta de um dos cadáveres, encontrado do lado de fora do carro, morto não pelo fogo como os que se amontoam dentro do ônibus, mas a tiros, o garoto Muidinga encontra um 11 cadernos com anotações manuscritas, um texto que Muidinga, o único da dupla que sabe ler, mais ou menos, vai decifrando mal e mal à luz do fogo. Esses cadernos contam a segunda história presente em Terra Sonâmbula, a de Kindzu, que narra sua vida em uma narrativa que vai, por um hábil recurso narrativo, tangencia de alguma forma a primeira história de Tuahir e Muidinga. E mais não digo para que ninguém ache que sabe do que o romance se trata e perca sua leitura prazerosa. Mia Couto não apenas conta, ele narra, cerca da magia da linguagem seu assunto. Como se pode ver apenas por esse débil fragmento acima, seu texto é a palavra ressignificada, a frase prosa com carga de poesia, imagens sensórias e visuais ajudando a formar o quadro no qual o leitor mergulha, é envolvido, tragado como seus personagens são tragados pela situação incontornável da guerra. Guerra que Mia Couto testemunhou (nos anos 1970, o escritor abandonou o curso de medicina e foi partidário da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), guerrilha marxista que lutava contra a ocupação colonial portuguesa. Depois da partida de Portugal e da independência, em 1975, Moçambique ainda teria de sangrar em um conflito interno que durou até 1992 – e é dessa guerra civil que fogem Tuahir e Muidinga no início do livro.

Também em 1992 Terra Sonâmbula foi publicado, e tinha uma edição anterior no Brasil (chegou até a sair em formato popular naquela coleção muito bacana de livros a 10 pilas, capa dura e papel bem leve, que foram publicados na década passada pela Record em parceria com a Altaya, vendiam em banca de jornal, lembra?). O romance agora ganhou uma nova edição pela Companhia das Letras (208 páginas, R$ 48), que aproveitou para lançar o livro na época em que seu autor andava por aí.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (1)

  • Claudia Pessoa diz: 21 de junho de 2008

    Olá Carlos,
    Sou professora e estava buscando aqui na net algum comentário a respeito de Terra Sonâmbula. Encontrei a sua postagem. Gostaria de utilizá-la em uma atividade com meus alunos. Você autoriza-me utilizá-la? Aguardo retorno!!
    Grata,
    Claudia Pessoa
    e-mail: freyja26@gmail.com

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