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Um tempo longe da água

30 de julho de 2007 1

Cena do Gre-Nal do Século, em 1989/Valdir Friolin / ZHProcurem um livro chamado O Segundo Tempo, de Michel Laub, saiu no ano passado. Sério, procurem mesmo. É um livro lindo, uma sensível história de formação escrita com uma certa estrutura que Laub usou com sucesso em mais de uma obra: o narrador é um adulto que relembra em algum ponto indefinido no futuro uma experiência que teve no passado, e que pode ser ampla, como toda uma infância, uma adolescência e uma vida profissional em Longe da Água, seu romance anterior (saiu em 2004, ainda se acha por aí), como breve, restrita a um intervalo específico de tempo, como no citado O Segundo Tempo.

O narrador, gremista, relembra o dia em que foi assistir com o irmão menor ao chamado Gre-Nal do Século, o jogo no qual, em fevereiro de 1989, Grêmio e Inter decidiram uma vaga na final do Brasileiro. Na verdade foram dois Gre-Nais, mas para fins de concentração narrativa Laub foca apenas o jogo decisivo, realizado em um domingo. O protagonista, de 15 anos, decide levar seu irmão, de 11, ao estádio a pedido do pai, que pede ao mais vel ho que mantenha o mais novo fora de casa por um tempo.

O motivo é que o pai, pequeno burocrata de uma empresa no centro da cidade, está decidido a sair de casa para ficar com a amante, colega de trabalho, que está grávida dele. Vai, assim, deixar a mãe dos dois garotos, uma mulher sofrida e depressiva com uma tentativa de suicídio no histórico. É o protagonista sendo chamado a ser adulto, o que se reflete em três pontos fundamentais: o pai a exigir cumplicidade, a mãe a tentar colocar o filho ao seu lado por meio de chantagem emocional e o irmão, ainda pequeno, ainda carente de uma proteção que ele também está sendo chamado, silenciosamente, a oferecer. O narrador decide renegar as três exigências, e para pôr em execução seu plano desesperado o Gre-Nal é fundamental, a presença com o irmão, a realização de uma tarde de sonho infantil que poderia fornecer ao irmão uma memória boa à qual se apegar quando o mundo que ele conhece explodir na volta para casa.

Só que o Grêmio perdeu aquele Gre-Nal, o que vai levar a uma drástica mudança nos planos do jovem.

Dia desses debatia com outra pessoa as diferenças entre esse romance e o anterior, Longe da Água. Minha interlocutora achava Longe da Água melhor, mais forte em termos de texto e tratamento, o que eu não deixo de dar alguma razão, mas não toda. Longe da Água é mais consistente em sua prosa, naquela representação que serve para que uma obra desvende a todos nós por meio do que retrata, mas O Segundo Tempo parece mais forte em sua estrutura, na construção, na maneira como a história desenvolve um arco perfeito, sem sobras ou faltas, e parece começar e terminar naquele ponto exato e milimétrico em que deveria, sem mostrar de mais nem mostrar nada de menos.

Talvez Longe da Água seja realmente mais forte em alguns pontos, o que em parte é facilitado pela feliz escolha, digna de um Tales de Mileto, da água como elemento fundamental do romance. A água é o primeiro berço da humanidade e a razão da vida sobre a Terra. Poucas coisas são tão carregadas de simbolismo. O que faz de Longe da Água uma história de amor ao mesmo tempo simples e carregada de interpretações. A trama é quase linear: a história de um reencontro amoroso contada por um único narrador, um jovem editor gaúcho residente em São Paulo (Laub é gaúcho, nascido em Porto Alegre e também vive em São Paulo – a própria biografia como matéria de invenção é uma característica assumida do autor, mas não se deve confundir e achar que seus romances são todos experiências reais em decorrência disso). No início do relato, o protagonista é um homem de 30 anos convalescendo de algo que o leitor só descobrirá do que se trata no fim da trama. A partir daí, o nunca nomeado personagem narra sua juventude e os eventos se sucedem em ordem cronológica, numa reconstrução da personalidade arredia e introspectiva do protagonista.

Cada fato vivido vai ecoar na formação emocional do jovem: a infância e a adolescência vividas entre Porto Alegre e a praia de Albatroz, no litoral gaúcho; as dificuldades de interação na escola; a timidez que determina uma vida cercada de livros e a descoberta do amor na figura da ex-namorada do melhor amigo. Os capítulos narrados em primeira pessoa alternam-se entre o passado do protagonista e o que ele sabe da história dessa garota. A ligar os destinos de ambos, a presença forte e carismática do surfista Jaime, melhor amigo dele e primeira paixão dela.

Jaime morrerá no mar em um acidente, e Laura e o narrador encontrarão um no outro consolo para a perda. Ele se apaixonará por ela, mas ambos se afastarão abruptamente, deixando para o protagonista somente a lembrança de um beijo. A novela de Laub brinca com a estrutura clássica do romance de formação. As experiências de juventude envolvendo Laura e Jaime só vão completar o ciclo de amadurecimento do narrador depois que ele e a garota se reencontrarem, 10 anos depois – na Feira do Livro, em Porto Alegre (apropriado, já que falávamos de símbolos).

A água não é apenas título, também pontua o enredo, apresentando a intervalos significados de útero e de abismo, de proteção e de ameaça. Nela Jaime encontrará a morte. Nela Jaime ajudará o narrador a renascer para o convívio social incitando-o à prática do surfe. À beira d’água Jaime domina as recordações, e é simbólico que antes de reencontrar sua paixão perdida o narrador resolva mudar-se para São Paulo, a antítese do litoral. Como a fugir da lembrança e de uma culpa também ligada à água, em um mistério que só será revelado ao fim da narrativa.

Voltando à conversa que eu mencionei lá em cima: falei que para mim O Segundo Tempo se resolvia melhor, parecia ter uma estrutura mais enxuta e adequada, onde nada parecia faltar. Justifico agora: em Longe da Água, à medida que o livro se encaminha para o fim, pequenos defeitos turvam a superfície plácida da história – depois de exposta em minúcias na juventude, Laura volta à vida do narrador sem que quase nada se diga sobre sua personalidade. O próprio convívio entre ambos depois do reencontro é abreviado até o limite da secura – como se o autor não tivesse bem claro o que fazer com o casal depois de reuní-lo outra vez.

Isso não muda algumas coisas fundamentais. A primeira delas é que são ambas obras de grande apuro, tocantes, sem fugir da emoção e sem abolir a reflexão, romances no sentido aquele que está cada vez mais se perdendo, uma bora que busca o entendimento do mundo e do homem por meios que não são nem razão pura nem emoção pura. A segunda verdade fundamental que não se pode esquecer é que Michel Laub é um nome relevante dentre a chamada nova geração de escritores a produzir ficção no Brasil. Para o meu gosto particular, inclusive, é um dos melhores.

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » Da necessidade de agradecer diz: 11 de março de 2011

    [...] Dessa vez não farei nenhuma espécie de resenha, pra evitar o risco da confissão. O ilustre editor deste blog já escreveu sobre o título aqui. [...]

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