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Reinados de sangue

31 de julho de 2007 0


Mas eu odiava Alfredo. Odiava-o por ter me humilhado em Exanceaster quando me fizera usar manto de penitente e me arrastar de joelhos. E não pensava nele como meu rei. Ele era saxão do Oeste e eu era da Nortumbria e eu, Uhtred, achava que Wessex teria pouca chance de sobreviver enquanto ele fosse rei.
Ele acreditava que Deus iria protegê-lo dos dinamarqueses e eu acreditava que eles teriam de ser derrotados pelas espadas.

O texto acima é, por assim dizer, um prólogo de O Cavaleiro da Morte, o segundo volume da tetralogia As Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell. Aliás, arrisco dizer que esses prólogos são um dos motivos do sucesso do autor. Quem não fica ansioso por saber o fim da história depois de ler este primeiro parágrafo? Você aí, acha que não? Então confere o prólogo do primeiro livro, O Último Reino:

Esta é uma história de uma rixa de sangue. É a história de como tomarei de meu inimigo o que a lei diz que é meu. E é a história de uma mulher e de seu pai, um rei. Ele era meu rei, e tudo que tenho devo a ele (…) tudo veio de Alfredo, meu rei, que me odiava.

Viu?
O rei em questão é Alfredo, o único monarca inglês a ser chamado de %22o Grande%22, por seu povo. Crônicas Saxônicas mostra por que ele ganhou esse titulo. No sombrio século IX, os reinos anglo-saxões estiveram perigosamente próximos da extinção, sob a ameaça dos invasores nórdicos. Nortumbria, Ânglia Oriental e Mércia foram dominados. Apenas o  Wessex, de Alfredo, resistia. Mais do que resistir, Alfredo alimentava a ambiciosa idéia de unificar o país – sob o comando dele, óbvio. O que ele começou, seus descendentes consolidaram e transformaram na Inglaterra.

Cornwell repete a fórmula das Crônicas de Arthur, colocando um órfão para narrar a história. Uhtred é um garoto inglês de nove anos, filho do senhor de Bebbanburg, um povoado fortificado na Nortúmbria. Com a morte de seu pai, na luta contra o invasor, ele herda o título, mas acaba escravo de um dos líderes nórdicos, Ragnar, o Terrível. Criado pelos dinamarqueses, ele se torna um guerreiro pagão. Mas o destino o empurra de volta para seus conterrâneos e para o serviço do rei Alfredo.

Uhtred poderia ser irmão de Derfel Cadarn, o lorde guerreiro de Arthur, com a diferença de que não morre de amores pelo seu soberano. Ambos são órfãos, guerreiros, atrapalhados ao lidar com as mulheres e, por assim dizer, não primam pela inteligência.

As Crônicas Saxônicas falam de campos de batalha, da invasão dinamarquesa, de sua estrutura social e de seus famosos navios: os drakkar. Curiosidade: as famosas figuras de proa em forma de dragões sumiam quando eles subiam os rios ingleses apenas para negociar. Eram, então, pacíficos mercadores dinamarqueses. Quando em excursão de pilhagem, as carrancas eram colocadas e surgiam os temidos vikings.

Como nas Crônicas de Arthur, aqui também há o confronto entre o cristianismo e o paganismo. Uhtred, com sua fé pagã, não consegue entender o fervor católico de Alfredo, %22que vive rodeado de sacerdotes, e acredita mais nos anjos do que numa boa espada%22.

As Crônicas são uma saga de lealdades divididas, amores confrontados e desesperado heroísmo. Agora, é esperar pelo resto da série, Os Lordes do NorteA Canção da Espada.

Postado por Luiz Domingues

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