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Posts de julho 2007

Livro em promoção é sempre bão

31 de julho de 2007 1

Rapidinho para dar um toque: uma das livrarias mais charmosas de Porto Alegre, a Bamboletras, localizada ali no centro comercial Nova Olaria, na Lima e Silva (o mesmo dos cinemas Guion) está completando 12 anos e preparou uma promoção legal nestes tempos bicudos. Uma feira de livros de inverno com títulos de três das principais editoras do país

Durante todo o mês de agosto, os livros das editoras Companhia das Letras, Conrad e 34 serão vendidos com 20% de desconto no preço de capa. A Companhia é, por exemplo, uma editora que firmou nome como uma das grandes casas publicadoras do país, têm em seu catálogo a obra de Nobéis como Orhan Pamuk, J.M. Coetzee, Nadine Gordimer, é a editora de Salman Rushdie, de Erico Verissimo, de um bando de gente. A 34 é uma editora de prestígio na área acadêmica, e tem publicado uma das coleções intelectuais mais relevantes do cenário atual, e a Conrad é editora de quadrinhos artísticos, literatura alternativa, rock e pop.

Não perca a chance.

Postado por Carlos André Moreira

Reinados de sangue

31 de julho de 2007 0


Mas eu odiava Alfredo. Odiava-o por ter me humilhado em Exanceaster quando me fizera usar manto de penitente e me arrastar de joelhos. E não pensava nele como meu rei. Ele era saxão do Oeste e eu era da Nortumbria e eu, Uhtred, achava que Wessex teria pouca chance de sobreviver enquanto ele fosse rei.
Ele acreditava que Deus iria protegê-lo dos dinamarqueses e eu acreditava que eles teriam de ser derrotados pelas espadas.

O texto acima é, por assim dizer, um prólogo de O Cavaleiro da Morte, o segundo volume da tetralogia As Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell. Aliás, arrisco dizer que esses prólogos são um dos motivos do sucesso do autor. Quem não fica ansioso por saber o fim da história depois de ler este primeiro parágrafo? Você aí, acha que não? Então confere o prólogo do primeiro livro, O Último Reino:

Esta é uma história de uma rixa de sangue. É a história de como tomarei de meu inimigo o que a lei diz que é meu. E é a história de uma mulher e de seu pai, um rei. Ele era meu rei, e tudo que tenho devo a ele (…) tudo veio de Alfredo, meu rei, que me odiava.

Viu?
O rei em questão é Alfredo, o único monarca inglês a ser chamado de %22o Grande%22, por seu povo. Crônicas Saxônicas mostra por que ele ganhou esse titulo. No sombrio século IX, os reinos anglo-saxões estiveram perigosamente próximos da extinção, sob a ameaça dos invasores nórdicos. Nortumbria, Ânglia Oriental e Mércia foram dominados. Apenas o  Wessex, de Alfredo, resistia. Mais do que resistir, Alfredo alimentava a ambiciosa idéia de unificar o país – sob o comando dele, óbvio. O que ele começou, seus descendentes consolidaram e transformaram na Inglaterra.

Cornwell repete a fórmula das Crônicas de Arthur, colocando um órfão para narrar a história. Uhtred é um garoto inglês de nove anos, filho do senhor de Bebbanburg, um povoado fortificado na Nortúmbria. Com a morte de seu pai, na luta contra o invasor, ele herda o título, mas acaba escravo de um dos líderes nórdicos, Ragnar, o Terrível. Criado pelos dinamarqueses, ele se torna um guerreiro pagão. Mas o destino o empurra de volta para seus conterrâneos e para o serviço do rei Alfredo.

Uhtred poderia ser irmão de Derfel Cadarn, o lorde guerreiro de Arthur, com a diferença de que não morre de amores pelo seu soberano. Ambos são órfãos, guerreiros, atrapalhados ao lidar com as mulheres e, por assim dizer, não primam pela inteligência.

As Crônicas Saxônicas falam de campos de batalha, da invasão dinamarquesa, de sua estrutura social e de seus famosos navios: os drakkar. Curiosidade: as famosas figuras de proa em forma de dragões sumiam quando eles subiam os rios ingleses apenas para negociar. Eram, então, pacíficos mercadores dinamarqueses. Quando em excursão de pilhagem, as carrancas eram colocadas e surgiam os temidos vikings.

Como nas Crônicas de Arthur, aqui também há o confronto entre o cristianismo e o paganismo. Uhtred, com sua fé pagã, não consegue entender o fervor católico de Alfredo, %22que vive rodeado de sacerdotes, e acredita mais nos anjos do que numa boa espada%22.

As Crônicas são uma saga de lealdades divididas, amores confrontados e desesperado heroísmo. Agora, é esperar pelo resto da série, Os Lordes do NorteA Canção da Espada.

Postado por Luiz Domingues

Serial Writer

31 de julho de 2007 0


Bernard Cornwell. Sinceramente, não sei de onde esse cara tira tempo para escrever tanto. E bem. E com sucesso. Eu que, entre o jornal e as obrigações diárias, mal e mal consigo, de vez em quando, colaborar com este blog, confesso que chego a ter inveja. Não do Cornwell, que aí já é megalomania, mas da maneira como ele organiza seu tempo para conseguir escrever tanto.

Porque o Bernard Cornwell, vocês sabem. É considerado um dos maiores escritores históricos da atualidade, um perito em recontar o passado britânico (e só pra contrariar a crítica, escreveu a tetralogia As Crônicas de Starbuck, ambientada durante a Guerra da Secessão). Suas obras, que incluem duas trilogias – uma sobre o Rei Arthur e outra sobre a Guerra dos Cem Anos e a busca do Graal –, já venderam mais de 190 mil cópias no Brasil. O camarada já foi traduzido para mais de 16 idiomas. Normalmente, está no topo da lista dos mais vendidos.  

Cornwell nasceu em Londres e foi criado em Essex, por pais adotivos. Mora nos Estados Unidos desde 1979, quando se casou e desistiu de uma carreira como produtor de TV para se tornar escritor.

Além das narrativas envolventes, seus livros mostram o resultado de uma extensa e minuciosa pesquisa histórica. Tem uma enorme coleção de mapas antigos e gosta de pesquisar sobre conflitos famosos visitando os campos de batalha. Não é por acaso que os trechos de seus livros com narrativas de combates são apaixonantes. Ele também não cai na tentação, presente em outros autores, como seu conterrâneo Conn Iggulden, de modificar a História para desenvolver seu romance. Mas de Iggulden falaremos em outro momento (se o Moreira permitir [nota do editor: claro que eu permitiria, que idéia é essa?]).

Tudo isso é para lembrar que já estão nas livrarias dois novos livros do inglês: O Cavaleiro da Morte, segundo volume da tetralogia Crônicas Saxônicas, e A Presa de Sharpe, quinto livro publicado no Brasil da série As Aventuras de Sharpe. Sim, da série, porque Cornwell, quando não escreve trilogias ou tetralogias, se mete a escrever séries. Na verdade, só lembro de uma história publicada no Brasil que se resume a um livro: O Condenado. No caso do alferes Richard Sharpe, do exército britânico, ele já anda pela sua 20ª aventura contra os exércitos de Napoleão. Ganhou até série na TV. Já o Cavaleiro da Morte retoma a história de Alfredo, o Grande, o rei que libertou os britânicos dos invasores nórdicos e lançou as raízes do reino de Inglaterra.
Como, ao contrário do nosso autor aí, eu não tenho tempo para escrever tudo o que quero, vou deixar para comentar as duas obras no próximo post, em breve (certo, Moreira? [certo, Domingues]).

Postado por Luiz Domingues

O listão dos aprovados do New York Times

31 de julho de 2007 0

Dê uma volta pelas estantes ou mesas centrais na livraria do shopping e conte quantas capas têm inscrições do tipo %22Best-seller do New York Times%22 ou %22Primeiro lugar na lista de mais vendidos do New York Times%22 ou ainda algo parecido com %22O mais vendido da lista do New York Times durante 38 semanas%22. Vale pra tudo: receitas de sucesso de gurus do mundo empresarial, romances açucaradinhos, biografias, originais que inspiraram filmes, grandes reportagens etc. O último que recebi aqui no jornal foi Embriagada – A História de uma Adolescente Entregue ao Álcool, de Koren Zailckas. Não estou duvidando dos possíveis méritos – e a idéia aqui não é falar dos méritos, ou da falta deles, de quem freqüenta o Olimpo dos best-sellers, que é outra história – do sr. Zailckas (ou será sra. Zailckas? Perdão, srta. Zailckas! Acabo de ver na orelha. E ela, inclusive, é mais nova do que eu, bem feito!, nascida em 1980), porque mal folheei o dito, mas cabe a perguntinha: quem garante que todo e qualquer livro que se anuncia best-seller do New York Times realmente é best-seller do New York Times? Quero provas.

Imaginava que a relação dos mais vendidos ocupasse uma página inteira daquele jornalão, porque só assim pra dar conta de tanto livro maravilhoso, instigante, inovador e digno de Nobel. Como cabe tanto livro na tal lista é que eu não sei: são 10 títulos de ficção e 10 de não-ficção por semana, formato simplinho, como o das nossas divulgadas por aqui. Seria a lista do venerável New York Times o coração de mãe das listas de best-sellers mundo afora? Cabe mais um, entra! Eita povo que lê. Americano compra livro, imagino, como se fosse caixa de sucrilhos.

Postado por Larissa Roso

Um tempo longe da água

30 de julho de 2007 1

Cena do Gre-Nal do Século, em 1989/Valdir Friolin / ZHProcurem um livro chamado O Segundo Tempo, de Michel Laub, saiu no ano passado. Sério, procurem mesmo. É um livro lindo, uma sensível história de formação escrita com uma certa estrutura que Laub usou com sucesso em mais de uma obra: o narrador é um adulto que relembra em algum ponto indefinido no futuro uma experiência que teve no passado, e que pode ser ampla, como toda uma infância, uma adolescência e uma vida profissional em Longe da Água, seu romance anterior (saiu em 2004, ainda se acha por aí), como breve, restrita a um intervalo específico de tempo, como no citado O Segundo Tempo.

O narrador, gremista, relembra o dia em que foi assistir com o irmão menor ao chamado Gre-Nal do Século, o jogo no qual, em fevereiro de 1989, Grêmio e Inter decidiram uma vaga na final do Brasileiro. Na verdade foram dois Gre-Nais, mas para fins de concentração narrativa Laub foca apenas o jogo decisivo, realizado em um domingo. O protagonista, de 15 anos, decide levar seu irmão, de 11, ao estádio a pedido do pai, que pede ao mais vel ho que mantenha o mais novo fora de casa por um tempo.

O motivo é que o pai, pequeno burocrata de uma empresa no centro da cidade, está decidido a sair de casa para ficar com a amante, colega de trabalho, que está grávida dele. Vai, assim, deixar a mãe dos dois garotos, uma mulher sofrida e depressiva com uma tentativa de suicídio no histórico. É o protagonista sendo chamado a ser adulto, o que se reflete em três pontos fundamentais: o pai a exigir cumplicidade, a mãe a tentar colocar o filho ao seu lado por meio de chantagem emocional e o irmão, ainda pequeno, ainda carente de uma proteção que ele também está sendo chamado, silenciosamente, a oferecer. O narrador decide renegar as três exigências, e para pôr em execução seu plano desesperado o Gre-Nal é fundamental, a presença com o irmão, a realização de uma tarde de sonho infantil que poderia fornecer ao irmão uma memória boa à qual se apegar quando o mundo que ele conhece explodir na volta para casa.

Só que o Grêmio perdeu aquele Gre-Nal, o que vai levar a uma drástica mudança nos planos do jovem.

Dia desses debatia com outra pessoa as diferenças entre esse romance e o anterior, Longe da Água. Minha interlocutora achava Longe da Água melhor, mais forte em termos de texto e tratamento, o que eu não deixo de dar alguma razão, mas não toda. Longe da Água é mais consistente em sua prosa, naquela representação que serve para que uma obra desvende a todos nós por meio do que retrata, mas O Segundo Tempo parece mais forte em sua estrutura, na construção, na maneira como a história desenvolve um arco perfeito, sem sobras ou faltas, e parece começar e terminar naquele ponto exato e milimétrico em que deveria, sem mostrar de mais nem mostrar nada de menos.

Talvez Longe da Água seja realmente mais forte em alguns pontos, o que em parte é facilitado pela feliz escolha, digna de um Tales de Mileto, da água como elemento fundamental do romance. A água é o primeiro berço da humanidade e a razão da vida sobre a Terra. Poucas coisas são tão carregadas de simbolismo. O que faz de Longe da Água uma história de amor ao mesmo tempo simples e carregada de interpretações. A trama é quase linear: a história de um reencontro amoroso contada por um único narrador, um jovem editor gaúcho residente em São Paulo (Laub é gaúcho, nascido em Porto Alegre e também vive em São Paulo – a própria biografia como matéria de invenção é uma característica assumida do autor, mas não se deve confundir e achar que seus romances são todos experiências reais em decorrência disso). No início do relato, o protagonista é um homem de 30 anos convalescendo de algo que o leitor só descobrirá do que se trata no fim da trama. A partir daí, o nunca nomeado personagem narra sua juventude e os eventos se sucedem em ordem cronológica, numa reconstrução da personalidade arredia e introspectiva do protagonista.

Cada fato vivido vai ecoar na formação emocional do jovem: a infância e a adolescência vividas entre Porto Alegre e a praia de Albatroz, no litoral gaúcho; as dificuldades de interação na escola; a timidez que determina uma vida cercada de livros e a descoberta do amor na figura da ex-namorada do melhor amigo. Os capítulos narrados em primeira pessoa alternam-se entre o passado do protagonista e o que ele sabe da história dessa garota. A ligar os destinos de ambos, a presença forte e carismática do surfista Jaime, melhor amigo dele e primeira paixão dela.

Jaime morrerá no mar em um acidente, e Laura e o narrador encontrarão um no outro consolo para a perda. Ele se apaixonará por ela, mas ambos se afastarão abruptamente, deixando para o protagonista somente a lembrança de um beijo. A novela de Laub brinca com a estrutura clássica do romance de formação. As experiências de juventude envolvendo Laura e Jaime só vão completar o ciclo de amadurecimento do narrador depois que ele e a garota se reencontrarem, 10 anos depois – na Feira do Livro, em Porto Alegre (apropriado, já que falávamos de símbolos).

A água não é apenas título, também pontua o enredo, apresentando a intervalos significados de útero e de abismo, de proteção e de ameaça. Nela Jaime encontrará a morte. Nela Jaime ajudará o narrador a renascer para o convívio social incitando-o à prática do surfe. À beira d’água Jaime domina as recordações, e é simbólico que antes de reencontrar sua paixão perdida o narrador resolva mudar-se para São Paulo, a antítese do litoral. Como a fugir da lembrança e de uma culpa também ligada à água, em um mistério que só será revelado ao fim da narrativa.

Voltando à conversa que eu mencionei lá em cima: falei que para mim O Segundo Tempo se resolvia melhor, parecia ter uma estrutura mais enxuta e adequada, onde nada parecia faltar. Justifico agora: em Longe da Água, à medida que o livro se encaminha para o fim, pequenos defeitos turvam a superfície plácida da história – depois de exposta em minúcias na juventude, Laura volta à vida do narrador sem que quase nada se diga sobre sua personalidade. O próprio convívio entre ambos depois do reencontro é abreviado até o limite da secura – como se o autor não tivesse bem claro o que fazer com o casal depois de reuní-lo outra vez.

Isso não muda algumas coisas fundamentais. A primeira delas é que são ambas obras de grande apuro, tocantes, sem fugir da emoção e sem abolir a reflexão, romances no sentido aquele que está cada vez mais se perdendo, uma bora que busca o entendimento do mundo e do homem por meios que não são nem razão pura nem emoção pura. A segunda verdade fundamental que não se pode esquecer é que Michel Laub é um nome relevante dentre a chamada nova geração de escritores a produzir ficção no Brasil. Para o meu gosto particular, inclusive, é um dos melhores.

Terra Zumbi

26 de julho de 2007 1

Reprodução
Muidinga e Tuahir param agora frente a um autocarro queimado. Discutem, discordando-se. O jovem lança o saco no chão, acordando poeira. O velho ralha.
– Estou-lhe a dizer, miúdo: vamos instalar casa aqui mesmo.
– Mas aqui? Num machimbombo* todo incendiado?
– Você não sabe nada, miúdo. O que já está queimado não volta a arder.
Muidinga não ganha convencimento. Olha a planície, tudo parece desmaiado. Naquele território, tão despido de brilho, ter razão é algo que já não dá vontade. Por isso ele não insiste. Roda à volta do machimbombo. O veículo se despistara, ficara meio atravessado na rodovia. A dianteira estava amassada de encontro a um imenso embondeiro. Muidinga se encosta ao tronco da árvore e pergunta:
– Mas na estrada não é mais perigoso, Tuahir? Não é melhor esconder no mato?
– Nada. Aqui podemos ver os passantes. Está-me compreender:
– Você sempre sabe, Tuahir.
– Não vale a pena queixar. Culpa é sua: não é você que quer procurar seus pais?
– Quero. Mas na estrada quem passa são os bandos.
– Os bandos se vierem, nós fingimos que estamos mortos. Faz conta falecemos junto com o machimbombo.
Entram no autocarro. O corredor e os bancos estão ainda cobertos de corpos carbonizados. Muidinga se recusa a entrar. O velho avança pelo corredor, vai espreitando os cantos da viatura.
– Estes arderam bem. Veja como todos ficaram pequenitos. Parece o fogo gosta de nos ver crianças.
Tuahir se instala no banco traseiro, onde o fogo não chegara. O miúdo continua receoso, hesitando entrar. O velho encoraja.
– Venha, são mortos limpos pelas chamas.
Muidinga vai avançando pisando com mil cautelas. Aquele recinto está contaminado pela morte. Seriam precisas mil cerimônias para purificar o autocarro.
– Não faça essa cara, miúdo. Os falecidos se ofendem se lhes mostramos nojo.
Muidinga arruma o saco num banco. Senta-se e observa o recanto conservado. Há teto, assentos, encostos. O velho, impávido, já se deitou a repousar. De olhos fechados, espreguiça a voz:
– Sabe bem uma sombrinha assim. Não descanso desde que fugimos do campo. Você não quer sombrear?
– Tuahir, vamos tirar esses corpos daqui;
– E por quê? Cheiram-lhe mal?
O miúdo não responde logo. Está virado para a janela quebrada. O velho insiste que descanse. Desde que saíram do campo de deslocados eles não tinham tido pausa. Muidinga permanece de costas viradas. Se escuta apenas o seu respirar, quase resvalando em soluço. Então, ele repete a sussurrante súplica: que se limpe aquele refúgio.
– Lhe peço, Tio Tuahir. É que estou farto de viver entre mortos.

* Machimbombo = Ônibus

Terra Sonâmbula é o nome de um dos romances mais conhecidos do escritor moçambicano Mia Couto – ele andou por Paraty neste mês – e provavelmente uma das coisas mais bonitas escritas em língua portuguesa nos últimos 15 anos. Na história, duas tramas correm paralelamente, dando um panorama lírico, doloroso e poético do Moçambique em guerra. Na primeira, de onde se extrai esse fragmento que vocês acompanharam, um homem e um menino vagam pela paisagem desolada do país em guerra até se abrigar em um ônibus queimado à beira da estrada. Ali, na maleta de um dos cadáveres, encontrado do lado de fora do carro, morto não pelo fogo como os que se amontoam dentro do ônibus, mas a tiros, o garoto Muidinga encontra um 11 cadernos com anotações manuscritas, um texto que Muidinga, o único da dupla que sabe ler, mais ou menos, vai decifrando mal e mal à luz do fogo. Esses cadernos contam a segunda história presente em Terra Sonâmbula, a de Kindzu, que narra sua vida em uma narrativa que vai, por um hábil recurso narrativo, tangencia de alguma forma a primeira história de Tuahir e Muidinga. E mais não digo para que ninguém ache que sabe do que o romance se trata e perca sua leitura prazerosa. Mia Couto não apenas conta, ele narra, cerca da magia da linguagem seu assunto. Como se pode ver apenas por esse débil fragmento acima, seu texto é a palavra ressignificada, a frase prosa com carga de poesia, imagens sensórias e visuais ajudando a formar o quadro no qual o leitor mergulha, é envolvido, tragado como seus personagens são tragados pela situação incontornável da guerra. Guerra que Mia Couto testemunhou (nos anos 1970, o escritor abandonou o curso de medicina e foi partidário da FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique), guerrilha marxista que lutava contra a ocupação colonial portuguesa. Depois da partida de Portugal e da independência, em 1975, Moçambique ainda teria de sangrar em um conflito interno que durou até 1992 – e é dessa guerra civil que fogem Tuahir e Muidinga no início do livro.

Também em 1992 Terra Sonâmbula foi publicado, e tinha uma edição anterior no Brasil (chegou até a sair em formato popular naquela coleção muito bacana de livros a 10 pilas, capa dura e papel bem leve, que foram publicados na década passada pela Record em parceria com a Altaya, vendiam em banca de jornal, lembra?). O romance agora ganhou uma nova edição pela Companhia das Letras (208 páginas, R$ 48), que aproveitou para lançar o livro na época em que seu autor andava por aí.

Postado por Carlos André Moreira

Na onda da história

26 de julho de 2007 0

Tem um projeto bacana que vem sendo realizado em Porto Alegre mensalmente desde o início do ano, uma série de conferências com o nome Grandes Histórias na Cultura, encontros e debates com a participação de psicanalistas, escritores, críticos e professores que se reúnem para debater a obra narrativa de algum escritor usando como mote para a discussão uma ou mais histórias por ele escritas, sejam contos ou romances. A promoção é da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, e agora, dia 2 de agosto, o nome debatido será Machado de Assis.

Às 20h, na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country, na avenida Túlio de Rose, 80), com entrada franca, o crítico de cinema Enéas de Souza e o professor de literatura Flávio Loureiro Chaves, coordenador do programa de pós-graduação em Letras da Universidade de Caxias do Sul (UCS), discutem o melancólico romance Memorial de Aires e o conto A Causa Secreta. Memorial de Aires, em particular, é um dos escritos outonais de machado, e a figura do conselheiro Aires, diplomata viúvo que volta ao país após uma temporada servindo no Exterior para esperar a morte em sua terra natal. Aqui, como eu suas grandes obras, Machado evita a estrutura linear do enredo, fazendo do Memorial um apanhado de notas dispersas, datadas, um diário de um homem que acompanha com o olhar lúcido próprio de Machado sua lenta marcha rumo ao fim.

Te interessou? então agenda aí os demais encontros:

30 agostoEdgar Allan Poe

A carta roubada e William Wilson – Robson de Freitas Pereira

O coração delator – Pedro Gonzaga

 

27 setembro – Jorge Luis Borges

Primeiros ensaios e poemas – Luís Augusto Fischer

A superstição ética do leitor, O Cego e Ficções – Alfredo Jerusalinsky

 

25 outubro – Chico Buarque

Budapeste – Marieta Madeira Rodrigues e Antônio Sanseverino

 

29 novembro – Clarice Lispector

Água viva e Os Desastres de Sofia – Maria do Carmo Campos

A Paixão Segundo GH - Maria Cristina Poli    

Postado por Carlos André Moreira

A voz de um tempo

25 de julho de 2007 2

Reprodução
1 – O Líder é um canalha. Dirá alguém que estou generalizando. Exato: estou generalizando. Vejam, por exemplo, Stalin. Ninguém mais líder. Lenin pode ser esquecido. Stalin, não. Um dia, os camponeses insinuaram uma resistência. Stalin não teve nem dúvida, nem pena. Matou, de fome punitiva, 12 milhões de camponeses. Nem mais, nem menos: – 12 milhões. Era um maravilhoso canalha e, portanto, o líder puro.

2 – E não foi traído. Aí está o mistério que, realmente, não é mistério. É uma verdade historicamente demonstrada: – o canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas. Façam a seguinte experiência: – ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás de seu chefe abjeto.

3 – Mas, dizia eu que Stalin não foi traído, nem Hitler. O Führer, para morrer, teve de se matar. (Nem me falem do atentado dos generais grã-finos. Há uma só verdade: nem o soldado alemão, nem o operário, nem o jovem, nem o velho, traíram Hitler.) E, quanto a Stalin, ninguém mais amado. Só Hitler foi tão amado. Aqui mesmo, no Brasil. Bem me lembro, durante a guerra, dos nossos stalinistas. Na queda de Paris, um deles veio-me dizer, de olho rútilo e lábio trêmulo: – %22Hitler é muito mais revolucionário do que a Inglaterra.%22

4 – Sim, o que se sentia aqui, por Stalin, era uma dessas admirações hediondas. Eu via homens de voz grossa, barba cerrada, ênfase viril. Em cada um dos seus gestos, a masculinidade explodia. E, quando falavam de Stalin, eles se tornavam melífluos, como qualquer %22travesti%22 do João Caetano ou do Teatro República. O que se sentia, por trás desse arrebatamento stalinista, era um am os quase físico. uma espécie de pederastia idealizada, utópica, sagrada. Com as mandíbulas trêmulas, uma salivação efervescente, os fanáticos chamavam o Guia de %22o Velho%22. Essa paixão era de um sublime ignóbil…

Essa crônica, intitulada Assim é um líder, continua ainda até o parágrafo 13 e é uma das reunidas no volume O Óbvio Ululante, nova edição da Agir (436 páginas, R$ 44,90), que agora assumiu a obra completa de Nelson Rodrigues, até bem pouco tempo publicado pela Companhia das Letras. Nos textos do volume, escritos para o jornal O Globo entre os anos de 1967 e 1968, Nelson exercita sua verve e sua incomparável qualidade de frasista para pensar sobre seus temas recorrentes, suas %22obsessões%22: o casamento, a família, o amor folhetinesco, derramado, %22imortal%22, a canalhice, a traição, a saudade algo antiga de tempos anteriores (algo que não deixa ser muito irônico, considerando que hoje muita gente tem saudade dos tempos dele), um reacionarismo que hoje parece até algo ingênuo, dado que nessa mesma crônica ele usa sua tese do %22canalha líder%22 para explicar por que achava Kennedy um falso-líder, era bonito, confiável e não-canalha (algo que a história e o tempo se apressaram em desmentir, para desgosto dos reacionários ingênuos ainda vivos – Nelson morreu antes disso).

O volume reúne algunds dos primeiros textos que poderiam se enquadrar na categoria das %22confissões%22, textos muito pessoais – até mesmo para o padrão coração aberto com que Nelson sempre construiu suas crônicas – nos quais o jornalista e dramaturgo usava como tema suas referências, pessoas que conhecia e episódios trágicos de sua própria vida. Em O Óbvio Ululante ele fala da morte de seu irmão mais velho e ídolo, Mario Filho, da origem de sua antipatia contra o religioso Dom Helder Câmara, na época uma das principais vozes contra os horrores da ditadura e contra a miséria no Brasil. Mas, na época, Nelson havia começado um relacionamento com uma jovem linda e bem nascida, muitos anos mais nova, e que foi o escândalo da sociedade carioca do período. Muito católica, a moça sofria com a situação e Nelson pediu que Dom Helder desse uma palavra de conforto à moça. O religioso recusou e ganhou em Nelson um inimigo para a vida toda.

Postado por Carlos André Moreira

A Pedra e a Rosa

24 de julho de 2007 0

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 Gertrude Stein (1874 – 1946) é um nome para escritores e leitores refinados – e mesmo entre esses muitas vezes ela dá a impressão de ser mais comentada do que lida. Apesar da grande importância de sua biografia para a história das artes em geral, a figura desta intelectual americana costuma ser pouco conhecida pelo grande público. E suas obras, então, não circulam muito fora dos países de língua inglesa e francesa. Nascida em uma próspera família judia assentada em Pittsburg, Stein teve uma infância e uma educação que transitaram entre os Estados  Unidos e a França, e foram essas ligações com a Europa que a ajudaram a ser uma figura central do modernismo do século 20. Sua casa em Paris foi o centro de uma efervescência cultural e literária na capital francesa que Hemingway, um de seus convidados freqüentes, registraria em Paris é uma Festa. Ela foi a mulher responsável pelos encontros e trocas de idéias na fervilhante Paris de uma plêiade de grandes artistas e intelectuais, como Apollinaire, Picasso, Matisse, Ezra Pound, o já citado Hemingway e Scott Fitzgerald.

Pois o que não se fala o bastante de Gertrude Stein é que além de sua militância intelectual ela também escrevia, poesias e textos que professavam um credo modernista, libertário e passional que pautou muito das letras daquele período (assistam novamente ao filme de Phillip Kaufmann Henry e June e vocês verão do que eu estou falando). É dela por exemplo o famoso verso uma rosa é uma rosa é uma rosa, com o qual ela mais tarde admitiria que tentou dar ao vocábulo rosa o mesmo peso, concretude e relação com o mundo que havia nos tempos em que a linguagem era nova e o poeta, admirado dela, poderia usar uma palavra que ERA a coisa, em vez de sua simples representação – hoje, depois de anos de apropriações modernas e pós-modernas e de reflexões conceituais sobre a propriedade da linguagem isso se tornou até banal, mas imagine no início do Século 20 para se ter uma idéia. Era mais ou menos o que Picasso estava fazendo com suas pinturas de perspectiva não realista, explodindo a cena do ponto de vista do observador para fragmentá-la em vários ângulos mesclados em um só. Hoje se vê por toda parte, mas na época foi um escândalo.

Stein não é facilmente acessível ao leitor brasileiro também porque traduções de sua obra não freqüentam nossas prateleiras. A José Olympio acaba de dar sua colaboração para que isso mude ao menos um pouquinho. Dentro da coleção Sabor Literário, que reúne textos pouco conhecidos de autores consagrados, está saindo agora Paris França (154 páginas, R$ 27), um livrinho no qual a autora escreve justamente sobre essa metrópole que tanto conhecia e sobre a qual tanta influência exerceu. É quase o Paris é uma Festa pelo ponto de vista dela, digamos assim, embora ela espraie seu olhar sobre Paris como um todo: sua sociedade, seus caminhos, o temperamento de seus habitantes e mesmo reflexões que nada têm a ver com a cidade, apenas foram pautadas por ela. Seu estilo também está ali, presente na ausência ou colocação ousada de vírgulas, no acavalamento de frase sobre frase numa corrida fluvial até o ponto final. No despojamento da estrutura, buscando uma simplicidade sensória, mais próxima do que se fala e ao mesmo tempo mais distante, tentando reverter a familiaridade que o uso constante, cotidiano e desregrado atribuiu às palavras (a obsessão de Stein pela recuperação do sentido da palavra seria fundamental no que os concretistas brasileiros chamariam meio século mais tarde de %22função de oxigenar a linguagem%22 atribuída aos poetas, as %22antenas da raça%22, como dizia Pound, mas isso é outra história). Ah, sim, eu falava de Paris, França. Vai aí uma palhinha:

É engraçado com relação à arte e à literatura, a moda ser parte delas. Dois anos atrás, todos diziam que a França estava arruinada, que estava afundando e seria uma potência de segunda categoria etcétera etcétera. E eu disse mas não penso assim porque há anos desde a guerra que os chapéus não estavam tão variados e lindos e franceses quanto agora. Não só são encontrados nas boas lojas como há um bonito chapeuzinho francês em toda parte onde existir um verdadeiro chapeleiro.

Não acredito que quando a arte e a literatura características de um país estão ativas e frescas não acredito que este país esteja em seu declínio. Não existe nenuma pulsação mais segura quanto ao estado de uma nação do que seu característico produto artístico que nada tem a ver com sua vida material. E então quando os chapéus em Paris estão lindos e franceses e aparecem em toda parte a França está bem.

Portanto Paris era o lugar certo para aqueles entre nós destinados a criar a arte e a literatura do século vinte, muito naturalmente.

Postado por Carlos André Moreira

Harry, o fim

24 de julho de 2007 4

Bom, quem leu a capa de nosso Segundo Caderno de hoje pôde ver que acabou. Desde sexta-feira, está circulando ao redor do globo a sétima e última aventura de Harry Potter, Harry Potter and the Deathly Hallows, o livro com o qual J.K. Rowling encerra a saga do bruxo adolescente e seu aprendizado do mundo da magia – a tradução em português, Harry Potter e as Relíquias da Morte, chega ao Brasil em novembro. Harry passou seis anos em contato com o universo dos bruxos, seus encantos, sombras, leis, injustiças e o desafio que a ele coube de enfrentar as pretensões tirânicas de um bruxo maléfico, poderoso e de grande crueldade. O texto que escrevi para a capa do Segundo Caderno de hoje tinha a preocupação de analisar o livro mas também evitar a revelação de tramas e subtramas importantes desenvolvidas pela autora ao longo destes sete livros. Pois bem, este texto que você está lendo agora não tem essa preocupação, é uma crítica livre das amarras da suscetibilidade alheia. Ainda assim, resolvi ser magnânimo com aqueles para quem a revelação dos segredos seria um estraga-prazer. O texto abaixo, que pode revelar alguns segredos da história, foi escrito em uma letra que se confunde com a cor do fundo. Se você não quiser saber o que acontece no último Capítulo, você não saberá, tudo o que verá será um imenso espaço vazio. Agora, se você quiser realmente ler o texto e se sua curiosidade não conhece freios, selecione o texto com o cursor e as palavras estarão visíveis como se fossem os caminhos do Mapa do Maroto.

Ok, se você me seguiu até aqui, foi por sua conta e risco e você não pode dizer que não foi avisado. Primeiro, uma palavrinha para quem andou em outro planeta nos últimos seis anos: Harry Potter é uma série de ação e fantasia na qual um menino, ao completar 11 anos, recebe uma carta informando que é, na verdade, um bruxo, com poderes mágicos naturais, e que deverá naquele ano trocar os estudos no mundo dos humanos sem poderes (chamados “trouxas”) por um internato em um castelo na zona rural inglesa, onde será instruído no uso correto de suas habilidades de feitiçaria. À medida que vai conhecendo melhor seus colegas, Harry vai descobrindo que todos no mundo bruxo o conhecem e já ouviram falar dele: a razão é que ele foi o único ser vivo conhecido que sobreviveu ao ataque de uma maldição mortal que matou seu pai e sua mãe. O ataque foi empreendido por um bruxo ligado às artes das trevas, Voldemort, que havia tomado o poder no mundo mágico na ocasião do nascimento de Harry. O feitiço lançado contra o menino rebateu em um encantamento muito antigo empreendido pela mãe de Harry, que se sacrificou pelo filho, e a tentativa de aniquilar o bebê aparentemente matou o vilão e deixou Harry com uma cicatriz em forma de raio na testa. à medida que avança de um ano escolar para outro, Harry enfrenta perigos, mistérios e descobre que Voldemort não apenas havia sobrevivido como eventualmente volta à carga.

O livro, como já dissemos no texto que você leu na capa do Segundo Caderno, surpreende com algumas de suas resoluções, embora a maioria delas seja surpreendente talvez pelo imenso volume de informações e boataria produzida em centenas de sites e portais ao redor do mundo a respeito das saídas que restavam a miss Rowling para encerrar sua aventura. Nesse caldo imenso de hipóteses, ganharam destaque muitas das mais delirantes, deixando em segundo plano as mais simples e naturais, e foram exatamente essas que Rowling escolheu para a maioria das pontas soltas que haviam sido deixadas ao fim de Harry Potter e o Enigma do Príncipe. A mais óbvia delas é que Harry não morre, ao menos em definitivo, no fim – seria provavelmente um final mais dramático, mais condizente com épicos antigos (vide A Morte de Arthur ou A Canção de Rolando), mas não encaixaria muito bem numa aventura de ação voltada ao público jovem. Harry, Hermione e Ron sobrevivem o bastante para que um epílogo os mande 19 anos para o futuro, no fim da história, e os flagre após o fim da jornada, na plataforma do trem que leva a Hogwarts, com os respectivos filhos prontos a embarcar no trem no qual um dia eles próprios viajaram a caminho da escola. Por enquanto é o bastante para este ponto, mas voltaremos a ele.

Ao contrário do que os mais compassivos poderiam imaginar com a morte de Dumbledore no número seis, Harry Potter ainda tem muito a sofrer neste sétimo livro antes de finalmente alcançar a paz, a redenção vitoriosa e a recompensa por seu heroísmo precoce. Harry começa o livro preso à odiosa casa dos Dursley, seus parentes humanos que o criaram após a morte de seus pais. Um encanto protetor lançado sobre o lugar permite que Harry esteja fora do alcance de Voldemort e seus seguidores enquanto puder chamar de lar a casa de seus familiares. Mas ele só funciona até o garoto atingir os 17 anos que lhe conferem a maioridade legal no mundo dos bruxos. Ao mesmo tempo, antes disso, Harry está proibido de usar magia fora da escola, o que o impede de usar seus poderes para deixar a casa e se esconder. Resta aos amigos de Harry, Ron, Hermíone e integrantes conhecidos da Ordem da Fênix, como Ninfadora Tonks, Olho-Tonto Moody e Remo Lupin, buscá-lo, mas ainda assim a área tem sido vigiada por Comensais da Morte, e eles podem ser interceptados ao voar para um lugar seguro. O que leva a um plano arriscado e quase suicida: seis aliados de Harry bebem a chamada poção polissuco, o preparado que permite a quem beber transformar-se temporariamente em outra pessoa, aumentando assim o número de Potters a ser transportados na noite inglesa e confundindo os aliados de Voldemort. O plano é desmascarado e uma brutal perseguição termina em morte e desespero, mas Harry se salva para continuar a procura por artefatos nos quais o vilão Voldemort teria escondido partes de sua alma – a explicação para que o bruxo das trevas tenha sobrevivido. Enquanto os objetos não forem destruídos, Voldemort também não será, e essa é a difícil missão que foi entregue a Harry pelo seu ídolo Dumbledore.

Fala-se tão detalhadamente dessa cena porque os sete Potters, a poção polissuco e a ação constante desse entrecho são a chave para o entendimento da obra como um todo. O sétimo livro, mais até do que qualquer um deles até agora, é sobre aparências, ilusões, percepções intuitivas que enganam o olhar ou que vêem além dele. A entrada de Harry e seus amigos no mundo dos adultos é o ingresso em uma realidade em que as aparências mentem ou não revelam tudo o que deveriam. Em que informações que se tinham como certas acerca de aliados e inimigos revelam-se equívocos ou omissões. Dumbledore, o ídolo e figura paterna, tem um passado obscuro e ligações nunca admitidas com as artes das trevas na juventude. Snape, o esquivo personagem que todos amaram odiar desde o início da história, responsável ao fim do sexto volume pela morte do próprio Dumbledore, também revela-se mais do que à primeira vista, transformando-se neste volume na personagem mais enigmática e mesmo complexa de toda a trama. Ainda que a complexidade de Rowling seja bruta, sem sutileza, abrupta, o que tira um pouco de sua eficácia, nota-se que o tema do “além das aparências” atravessa bem ou mal todos os personagens da história, e mesmo criaturas que a série pintou como odiosas o tempo todo, como Duda e tia Petúnia, revelam uma insuspeitada gama de segredos e mudanças de posturas. O que não deixa de também ser irônico ao se falar da importância da temática das aparências no livro quando o desenrolar da trama de Rowling, sua sucessão de episódios e mesmo situações descritas pela autora parecem elas próprias uma coletânea associativa da obra de diversos outros escritores de fantasia precedentes. O medalhão de Salazar Slytherin, uma das horcruxes finalmente encontradas, interfere na personalidade do grupo, como o anel de Tolkien. Harry se dirige sozinho ao local em que as forças de Voldemort cercam Hogwarts, como o sacrifício de Aslan em O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, e mesmo a longa e custosa jornada de Harry, escondendo-se nas fímbrias do controle autoritário de Voldemort, lembra a difícil viagem de Frodo à terra de Sauron, também chamado de “Senhor do Escuro”, bem como Voldemort ostenta o título de “Lorde das Trevas”.

A questão do olhar e do que é visto é também um tema recorrente nesta história em que Harry usa mais do que nunca sua capa de invisibilidade. As próprias Horcruxes que Harry deveria encontrar em mais de um momento parecem ser coisas que estiveram às vistas de todos – tanto como as tais Relíquias da Morte do título, que, ao contrário do que se esperava quando o nome do livro foi divulgado, não são os artefatos perdidos com a alma de Voldemort, e sim três objetos que figuram em uma antiga lenda (O conto dos Três Irmãos) e que confeririam a seu possuidor a capacidade de conquistar a morte. O caos instalado pelo ataque fulminante de Voldemort, que toma o poder outra vez no Ministério da Magia, transforma Harry, Ron e Hermione em exilados percorrendo o país de ponta a ponta, se escondendo das forças do mal. No meio disso, as tensões e mal-entendidos entre Harry e seus grandes amigos podem ser em um primeiro momento mais perigosas do que a perseguição movida pelos asseclas de Voldemort no ministério (e aqui temos de volta para uma participação especial a grotesca Dollores Umbridge de A Ordem da Fênix). Harry agora é o líder relutante de um trio inexperiente empreendendo uma tarefa impossível, e ele deve até mesmo escolher se continua atrás das Horcruxes ou se dedica suas forças a encontrar as tais “relíquias da morte” que poderiam mudar o rumo da guerra mágica. Decisões difíceis são exigidas do “garoto que sobreviveu”, aquele tido como “O eleito”.

O que nos leva ao epílogo, que Rowling nos dá a conhecer quando toda a ação já foi consumada e o perigo representado por Voldemort foi debelado. Após passar por uma jornada excruciante de dores, perseguições, perdas, tudo em nome de uma tarefa que nunca quis assumir e de uma notoriedade que preferia não ter, dada a maneira como a conseguiu, qual a melhor recompensa que o herói vencedor poderia ter? Harry não é um jovem guerreiro em busca de uma morte gloriosa, é um garoto que nunca quis para si as expectativas que os outros sempre tiveram a respeito dele.

Triunfante, Harry não tem a morte épica de um herói, a não ser em tom de farsa ou artifício narrativo. Ele está destinado a ter família e filhos, a vida normal de um sujeito comum. Uma vida sem aventuras perigosas – a garantia de que está tudo bem.