Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

O dia em que deu branco

29 de agosto de 2007 4

 Há um certo folclore a meu respeito de que eu sou um sujeito com boa memória – e às vezes até sou mesmo. Mas essa circunstância acabou por ser posta a prova de uma forma bem inesperada aqui na Jornada hoje.

Para ir um pouco adiante é preciso dar uma palhinha ao nosso distinto público de como é a rotina de nosso trabalho aqui no Circo da Cultura, nesta Passo Fundo que eu acho deliciosamente fria, e que a Larissa acha terrivelmente fria. A Jornada tem programação o dia inteiro, começando a partir das 8h30min. Portanto, de manhã, por volta de umas 9h30min, por aí, já estamos na Jornada, acompanhando as atividades matinais, entrevistas coletivas, cursos, os bate-papos com as escolas na tenda central. Lá por volta de meio-dia, mandamos algumas coisas que precisam ser editadas, como as nossas seções fixas, as primeiras fotos da manhã, uma ou outra nota. Às duas, provavelmente, nosso editor Ticiano Osório, conhecido como o %22tiranete das mãos sujas de sangue%22 já deve ter mandado pelo menos uns dois e-mails perguntando do resto do material, e a correria prossegue com telefonemas, entrevistas, assistindo a alguma coisa, rodando um pouco pelo circo em busca de material e tentando antecipar o que é possível dos textos grandes.

Lá por umas quatro da tarde os e-mails do Ticiano já ocupariam folgados uma tela inteira do servidor. E começam os problemas de conexão ou técnicos (este coió que vos fala apagou um texto inteiro por ter apertado num desses botões de teclado que desliga o computador automaticamente. O idiota que projetou isso provavelmente não usa o computador), os horários de entrevistas que colidem, a distribuição e redistribuição de tarefas, quem faz o quê, se eu, o Cléber Bertoncello ou a Larissa.

Hoje foi um dia mais ou menos assim: e às 18h30min eu tinha de falar com o Carlo Ginzburg esse sobre o qual escrevi aí antes. E mandar ainda o texto do Milton Hatoum que vocês vão ler amanhã, e mais outras duas coisas e o Ticiano mandando e-mail (já falei nisso?). Aí, quando eu finalmente consegui entrar no carro às 18h para ir em direção ao hotel San Silvestre, onde o Ginzburg (e nós também) está hospedado, a dor de cabeça era tanta que havia um vazio no meu cérebro. Por um breve instante, eu já não sabia nem o que diacho eu estava fazendo aqui.

Pense, eu me disse, pense. Por gosto ou dever de ofício já li três livros de Ginzburg, inclusive o Queijo e os Vermes, além de outras coisas que dialogam com seu trabalho. Mas naquele momento tudo havia sumido. Eu me peguei no carro indo para uma entrevista sem nada para perguntar. Vazio. Niente.

Chego ao hotel e o senhor Ginzburg desce, é gentil, afável, trocamos umas primeiras palavras discutindo em que idioma fazer a entrevista: eu não falo italiano, mas o Tadeu, nosso fotógrafo, fala, poderia ser intérprete, mas terminamos por conversar em inglês. Faço duas das perguntas mais idiotas e constrangedoras da minha carreira (a Larissa quis saber quais: %22o senhor já veio antes ao Rio Grande do Sul%22?, quando eu SABIA que ela já havia estado em Porto Alegre e %22o que ele estava achando de Passo Fundo?%22 quando ele provavelmente não estava achando nada por falta de tempo para sair dando banda). Finalmente, à medida que Ginzburg fala, ignorando a idiotice da abordagem inicial, vou me acalmando e tendo acesso a fios – rastros, o novo livro é O Fio e os Rastros, eis uma lembrança, algo em que se apegar - de informação boiando  na cabeça. Ele fala de uns nomes que me dizem algo, e a lembrança chega atrasada, mas chega. O papo vai fluindo e eu vou tendo a chance de salvar minha dignidade perante o entrevistado.

Quando a entrevista termina, já estou fluente o bastante para que o papo seja produtivo.

Ou assim espero. Vocês que lerem a matéria amanhã que me digam.

Agora dêem licença que eu vou ali ver se o Ticiano mandou mais um e-mail.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (4)

  • Carlos André Moreira diz: 30 de agosto de 2007

    Pior que era só o começo. Hoje de manhã cedo eu fiquei meia hora procurando minha carteira DENTRO DO QUARTO do hotel. Depois que finalmente achei, tinha feito uma desordem tão grande que fiquei outros 15 minutos procurando A CHAVE do quarto. Sério. Eu vou voltar de Passo Fundo babando na gravata (e eu nem uso gravata).

  • fernanda diz: 30 de agosto de 2007

    Esse esquecimento tem nome: saudade da namorada. Também pode ter outro nome: saudade da poluição.
    Está ótimo o blog e as reportagens no caderno da feira deixam um gostinho de quero +!

  • Carlos diz: 30 de agosto de 2007

    Muita Coca-Light dá nisso…

  • Carlos Ismael Moreira diz: 30 de agosto de 2007

    Oi, só pra lembrar, você já conversou comigo antes… sou seu irmão, baixinho, magro, narigudo, daqui a pouco você lembra. Por favor, anote esta frase e guarde no bolso da sua calça: “Minha colega Larissa Roso também está na Jornada (Passo fundo, literatura, lembra?). Não posso esquecê-la!

Envie seu Comentário