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Vermes, fios e títulos com dois substantivos

29 de agosto de 2007 0

Reprodução
Que um moleiro como Menocchio tivesse chegado a formular idéias tão diversas das correntes, sem nenhuma influência, pareceu improvável aos inquisidores. Perguntou-se às testemunhas se Menocchio %22falara sério ou brincando ou se imitara alguém%22; pediu-se a Menocchio que revelasse os nomes dos %22companheiros%22. Porém, em ambos os casos, a resposta foi negaiva. Menocchio, em particular, declarou resolutamente: %22Senhor, nunca encontrei alguém que tivesse essas opiniões. As minhas opiniões saíram da minha própria cabeça%22. Mas ao menos em parte estava mentindo. Em 1598, com Ottavio Montereale (que, como se pode lembrar, havia sido o responsável indireto pela intervenção do Santo Ofício) disse ter ouvido que %22esse tal Menocchio teria aprendido suas heresias com um tal Nicola, pintor de Porcia%22, quando este estivera em Montereale para pintar a casa de um senhor De Lazzari, cunhado de dom Ottavio.Ora, o nome de Nicola já aparecera no primeiro processo, provocando uma visível reação de embaraço em Menocchio. Antes, contara que o havia encontrado durante a quaresma e que o tinha ouvido dizer que de fato estava jejuando, mas %22por medo%22 (Menocchio, ao contrário, alimentava-se com %22um pouco de leite, queijo e alguns ovos%22, atitude que justificava pela fraqueza da sua constituição física). Pouco depois, contudo, começara a falar, como se divagasse, sobre um livro que Nicola poussía, desviando o assunto.

O fragmento acima é de O Queijo e os Vermes, livro publicado originalmente em 1976 e hoje a obra mais conhecida do historiador italiano Carlo Ginzburg. É o relato minucioso do julgamento de um moleiro que, no século 17, foi acusado por heresia no Norte da Itália por afirmar que a purefação era a origem do mundo. O livro tem reedição recente na coleção de bolso da Companhia das Letras.

Ginzburg, que faz a grande conferência desta quinta-feira na jornada, falará sobre Arte e Política e está com livro novo na praça, a coletânea de ensaios O Fio e os Rastros (pelo visto siggnore Ginzburg tem um fraco pelos títulos com dois substantivos). Ah, sim, o livro é uma reunião de artigos que discutem as relações entre as categorias de %22verdadeiro, falso e fictício%22 no estudo histórico. Se eu estivesse com o livro aqui, o trecho acima seria dele, mas como eu não sou tartaruga e não tenho como carregar tanto livro para cima e para baixo, esse ficou aí em Porto Alegre. Mas em compensação, temos uma declaração do próprio autor sobre sua obra, obtida há um tempo por e-mail pelo colega Gabriel Brust. Ah, e não esqueçam de ler amanhã a matéria que sai no caderno da Jornada. vai abaixo, Ginzburg por Ginzburg:

 Em meu novo livro eu foco no relacionamento entre o verdadeiro, o falso e o fictício através de uma série de estudos de caso. Em um grau mais geral, eu diria que estes historiadores de hoje em dia evitam a complexidade dessa relação tripla. Historiadores que se aproximam do pós-modernismo   frequentemente focam no verdadeiro e no fictício, e tendenciosamente borram a distinção entre eles. Eles tendem a ignorar o falso, porque falsidade inevitavelmente incrementa o problema do verdadeiro. Eu reivindico que somente dirigindo-se aos três termos e a suas relações nós poderemos tentar entender a complexidade do mundo em que vivemos. Quando eu digo %22nós%22, me refiro não apenas a historiadores, mas a todos.

Postado por Carlos André Moreira

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