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O Crítico e o Geólogo

30 de agosto de 2007 1

Milton Hatoum em Passo Fundo/Adriana Franciosi / ZH

De um convidado da Jornada sobre outro convidado da Jornada:

Em Dois Irmãos, Milton Hatoum se utiliza de um narrador que constrói seu relato à moda antiga, como os velhos contadores de histórias da tradição oral. O que ele narra vem de sua própria experiência mas também do que lhe conta a mãe, Domingas, e o velho Halim, pai dos gêmeos, desempenhando aqui seu papel de patriarca, detentor da sabedoria a ser transmitida às novas gerações.

Nael, o narrador – cujo nome é o mesmo de seu bisavô, pai de Halim – narra de um ponto privilegiado. É filho dos gêmeos e da empregada, o que o coloca numa encruzilhada, nem dentro nem fora do olho do furacão. O local que habita e onde escreve, seu quartinho no quintal da casa, é a metáfora de seu lugar na família: nem à margem no centro. Daí que sua narrativa será também uma narrativa fronteiriça, caminhando em meio às luzes do que viu e às sombras do que não pôde ver, que tenta iluminar com os relatos da mãe e, sobretudo, de Halim, os quais, no entanto, sod a aparencia de esclarecimento, lhe oferecem apenas novas sombras insuspeitadas.

O trecho acima é de A Casa, a Memória, o Rio, ensaio do crítico e escritor Flávio Carneiro, um dos convidados desta jornada, que esteve no primeiro dia do evento e a quem o nosso colega Cléber Bertoncello entrevistou na edição impressa do Caderno da Jornada que saiu na terça-feira. O texto está incluído na coletânea de ensaios críticos O País do Presente (Rocco, 340 páginas), uma série de textos escritos sobre livros brasileiros lançados a partir do ano 2000. A idéia do livro é fazer um mapeamento da ficção brasileira nesta aurora do século 21, e nesse tipo de levantamento é impossível não incluir o amazonense Milton Hatoum, autor de três romances, os três premiados, e o mais recente multipremiado. Hatoum é tema de um artigo que está saindo neste caderno de quinta-feira, é um homem afável, de voz cadenciada, lenta, muito semelhante à voz de seus próprios romances, escritos em uma dicção clássica que busca dialogar com a tradição dos grandes %22romanções%22 do século 19, de nomes como Zola, Balzac ou Flaubert. Sao livros também que se ancoram na experiência da memória como veículo da trama e como matéria da própria ficção.

- O presente é fugaz, a celebração do instantâneo. A literatura exige lentidão e profundidade, e eu ainda acredito que a literatura seja uma forma de conhecimento do mundo. Ela não se alimenta do que há nos jornais, na tevê, ela não se alimenta das notícias do presente, e sim das notícias do passado.A literatura cava, escava o passado. Nesse sentido o escritor é uma espécie de geólogo da memória – comentou ele ontem em uma entrevista concedida no hotel San Silvestre a este que vos fala.

Postado por Carlos André Moreira

Comentários (1)

  • fernanda diz: 30 de agosto de 2007

    Eu adoro Hatoum… “Relato de um certo oriente” é o melhor, mas adoro todos os outros. Esse papo sobre geologia da memória eu queria ter presenciado.

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