Andei anteriormente falando umas coisas sobre %22leveza%22 por causa daquele filme sobre Vinicius de Moraes, mas há outras tantas, não tão leves, que não posso deixar de frisar.
O filme me deu a sensação de que ali estava reunida a confraria dos machos em torno do seu protótipo clássico. Claro que o filme pode ser visto de várias maneiras e um amigo me disse que é bom a gente ver esse filme para lembrar como era o Brasil daquele tempo. Cada um vê o que quer ou o que pode. Sim, o filme é bom como história da bossa nova, interessante como uma forma de levar um recital de poesia ao cinema. Mas há uma coisa ali que as mulheres e mesmo alguns da nossa desatenta espécie de machos certamente observaram. Em outros termos: as opiniões sobre a vida do poeta, sobre as conseqüências de suas desvairadas e dionisíacas paixões são vistas diferentemente pelos seus amigos machos e pelas mulheres, sobretudo suas filhas e mulheres.
Como Suzana, as demais filhas entrevistadas foram bem enfáticas a esse respeito. Não era nada fácil ser filha, quanto mais mulher de Vinicius. Para consumo posterior de biografia era muito meigo e folclórico. Mas ali no dia-a-dia, depois que passava o arrebatamento órfico, quando ele se entregava à bebida ou a novas paixões, complicava. Felizmente nenhuma dessas mulheres endoidou ou se matou, como ocorreu com algumas mulheres de Picasso. Mas este era um sádico, um minotauro devorador de fêmeas, ao passo que Vinicius, como assinalei no ensaio %22O canibalismo amoroso%22, exercitava a %22ternura canibal%22.
O trecho acima é de Tempo de Delicadeza, do poeta e cronista Affonso Romano de Sant%27Anna, um dos convidados desta jornada – a essa altura já deve ter ido embora de Passo Fundo, mas ele participou de debates aqui acompanhado da esposa e também poeta e escritora Marina Colasanti. Sant%27Anna diz que o título de seu livro, uma reunião de 47 crônicas publicadas em O Globo, Correio Braziliense e Estado de Minas, é ele próprio uma tomada de posição, uma fome de delicadeza necessária num período em que os jornais parecem só nos dar más notícias. A edição é da L&PM.
Postado por Carlos André Moreira







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