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Posts de setembro 2007

Soberanas e Cortesãs

29 de setembro de 2007 0

Cena do filme A Rainha Margot de Patrice Chereau/Divulgação
Se você leu o caderno Donna deste domingo, deve ter vindo aqui à procura do prometido trecho do livro resenhado por este que vos escreve. Amantes e Rainhas, da historiadora italiana Benedetta Craveri

O livro é um estudo de algumas biografias de mulheres que usaram de astúcia e sedução para se manter influentes e poderosas num mundo eminentemente masculino: a corte francesa do Ancien Régime (entre os séculos 16 e 18), um ambiente tão contrário às mulheres que vigorava em seu território a chamada %22lei Sálica%22, uma proibição de que mulheres da linhagem real fosse consideradas aptas a ocupar o trono (na mesma época Espanha, Escócia e Inglaterra, por exemplo, também monárquicas, não tinham leis semelhantes)

O livro analisa de Catarina de Médici, dada em 1533 em casamento ao duque de Orleans, Henrique, até a célebre Maria Antonieta, decapitada pela Revolução Francesa de 1793. E suas ferrenhas batalhas por influência com as favoritas reais, de Diana de Poitiers até Madame Du Barry, amante de Luís XV. Benedetta Craveri é neta do filósofo Benedetto Croce, professora de literatura francesa em Viterbo e em Nápoles e colaboradora freqüente do New York Review of Books. O livro, além de uma pesquisa histórica, é também uma crônica de estratégias de sobrevivência em meio aos massacres de status e reputações. E se lê agradavelmente, como se comprova do trecho abaixo, referente à rainha Margarida de Valois, a Rainha Margot celebrada em prosa por Stendhal, Dumas e no filme com a etérea e apaixonante Isabelle Adjani:

Aguardavam Margarida, como a própria Catarina de Médici admitia, tempos %22miseráveis%22. Numa França ensangüentada pelas guerras de religião, a rainha de Navarra era usada como peça estratégica tanto pelos católicos como pelos protestantes. Sucessivamente instrumento de mediação, refém preciosa, prisioneira perigosa, estorvo incômodo de que precisavam desembaraçar-se, Margarida, rainha de fé católica num país huguenote, sabia ter diante de si uma grande missão de paz a cumprir. Não lhe teriam faltado qualidades para tanto, porque era dotada de inteligência, cultura e eloqüência. Como escreveria Étienne Pasquier, era um dos grandes espíritos da época, %22dentre todas as grandes damas, a menos imperfeita%22. Mas a tarefa que lhe cabia era, objetivamente, impossível e, para mitigar o amargor das suas repetidas derrotas, a rainha de Navarra refugiou-se nas delícias da vida privada, cultivando o gosto pelas coisas belas, a curiosidade intelectual, o prazer dos sentidos.

Margarida amava o amor e não fazia mistério disso. A liberdade soberana com que dispunha de si se tornaria proverbial – vivre à la franche Margueritte [viver à maneira livre de Margarida] –, e o rol de suas aventuras só era superado pelo do seu marido. Terá havido, como já se chegou a sustentar, um acordo de liberdade recíproca entre os dois esposos? É pouco provável. A obrigação de fidelidade conjugal, naquela época, dizia respeito unicamente às mulheres. Do ponto de vista legal, a acusação de adultério – que, se provada, previa penas severíssimas – só podia ser feita às mulheres; os homens não necessitavam se rebaixar a pactos para tomar amantes, e até mesmo o mais tolerante dos maridos ter-se-ia aborrecido com uma conduta demasiado desenvolta de sua consorte. No início, é provável que Henrique tenha se limitado a suportar fleumaticamente uma situação sobre a qual não tinha controle. Confinado no Louvre, sem nenhuma autoridade sobre a mulher que, filha e irmã de seus carcereiros, e, como ele, dependente das decisões destes, orgulhava-se mais de ser princesa de Valois do que rainha de Navarra, Henrique se arranjava sozinho. No decorrer do longo aprisionamento, que se encerrou em fevereiro de 1576 com a sua fuga da corte da França, as únicas evasões de que podia usufruir eram as eróticas, e o rei de Navarra foi o primeiro a ostentar a sua infidelidade, compartilhando grosseiramente com o irmão mais moço da mulher, o duque de Alançon, de quem se tornara amigo, os favores de Charlotte de Sauves, uma das damas do séquito de Catarina. A rivalidade entre os dois cunhados fez as delícias da corte, a rainha-mãe ficou feliz em poder controlar filho e genro servindo-se de uma única espiã, e Margarida não viu razão para não se entregar às inclinações do seu coração, a partir do momento em que tudo em torno dela parecia convidá-la a fazê-lo.

Postado por Carlos André Moreira

Sobre depoimentos e saudades

27 de setembro de 2007 0


Tem aparecido muito nos últimos meses no mercado editorial brasileiro um tipo bastante peculiar de obra literária: livros que misturam de algum modo memórias, crônica e nostalgia, normalmente para falar sobre alguma coisa que se aprendeu com a vida ao lado de alguém ou com a perda desse alguém. Uma tendência que engloba, por exemplo, O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion, lançado no ano passado pela Nova Fronteira, no qual a autora refletia sobre a dolorosa experiência de ter uma filha na UTI com infecção generalizada e menos de 60% de chances de sobrevivência na mesma época em que o marido de Didion, John, pai da criança, morreu de ataque cardíaco. Ela escreve:

%22A vida se transforma rapidamente.
A vida muda num instante.
Você se senta para jantar, e aquela vida que você conhecia acaba de repente.
A questão da autopiedade.

Estas foram as primeiras palavras que escrevi depois do ocorrido. No arquivo guardado em meu computador ( “Anotações sobre transformação.doc”) está registrada a data: 20 de maio de 2004 / 23h11. Devo ter aberto o arquivo e automaticamente clicado em salvar quando quando o fechei. Não fiz nenhuma alteração naquele arquivo em maio. Não fiz nenhuma alteração naquele arquivo desde que escrevi aquelas palavras em janeiro de 2004, um dia ou dois (ou três) após o acontecimento.

Durante muito tempo, não escrevi mais nada.
A vida muda num instante.
Num instante comum.

A uma certa altura, para ressaltar o que me parecia ser a coisa mais impressionante relacionada ao que aconteceu, pensei em adicionar as seguintes palavras: “Num instante comum.” Percebi imediatamente que não haveria necessidade de adicionar a palavra “comum”, porque não haveria como esquecê-la: esta palavra nunca saiu da minha cabeça.%22

Acho que é possível explicar o sucesso desse tipo de livro por uma necessidade imperiosa que as pessoas parecem estar sentindo de alguma delicadeza em suas vidas, num mundo algo brutal. Algo que nos leva de O Ano do Pensamento… a Marley e eu, por exemplo, e antes que alguém resolva me apredejar por pôr no mesmo saco um livro sobre a saudade de um marido e a doença de uma filha com a elegia por um labrador, lembro apenas que são duas obras que fazem uma certa arqueologia do afeto por meio dos escombros da memória – e isso independe do objeto desse afeto, sempre tratado em um texto que busca uma certa simplicidade direta na enunciação, uma certa cumplicidade com o leitor por meio de um tom coloquila, confessional, que não rejeita a emoção embora se entregue a ela com parcimônia. Uma tentativa de equilibrar sobriedade e comoção.

Pois há outro livro do gênero que acaba de aportar por aqui: Sobre Alice (Globo, 96 páginas, R$ 17), do jornalista da revista New Yorker Calvin Trillin, uma elegia à esposa do autor, Alice Trillin, também escritora, educadora e intelectual combativa em causas como apoio a vítimas de câncer. Vamos falar um pouco agora de Sobre Alice (esse título me sugere um parêntese: Nick Hornby recentemente escreveu em um dos textos de seu 31 Canções que aprendera a lição de evitar preposições em títulos para que não tivesse de responder perguntas que pareciam trazer um eco embutido, como acontecia na época em que ele dava entrevistas promocionais de Um Grande Garoto About a Boy (Sobre um Garoto) em inglês. Perguntas como What can you told us about About a Boy? (O que você pode nos dizer sobre Sobre um Garoto).

Mas Sobre Alice. Trillin foi sempre um escritor de artigos que exercitavam uma observação acurada do cotidiano com uma descrição de sua vida em família, com Alice e as duas filhas. Ou seja: Alice não era apenas a esposa de Trillin, era sua musa, seu tema e seu personagem em um grande número de textos eminentemente bem-humorados. E é esse humor um dos grandes diferenciais de Sobre Alice, um livro escrito para expiar a saudade do marido depois que Alice morreu após um casamento de 36 anos. Alice lutou anos contra um câncer que por fim a venceu. Trillin se revela evidentemente apaixonado pela sua esposa ausente, um amor bonito que ele relembra com uma dose de auto-ironia e de graça que resgata a obra de alguns perigosos riscos de pieguice ao longo do caminho. Confiram:

Conforme Roger Wilkins escreveu mais tarde, ela era linda demais. Mas não foi essa a primeira coisa que me impressionou nela; acho que me dei conta da beleza uns dois ou três segundos depois. A primeira impressão era de que ela parecia estar mais viva do que qualquer outra pessoa que eu vira antes. Parecia brilhar. Mal nos falamos naquela noite, não sei exatamente por quê. Mas, duas semanas depois, já tendo feito alguma investigação, tendo me liberado de outros compromissos e tendo encarado como boato o comentário vago de um conhecido sobre o fato de Alice estar praticamente noiva, dei um jeito de ir à outra festa onde sabia que iria encontrá-la. Eu não podia dizer que estava lá por acaso; nos assuntos do coração, mesmo quem depende da sorte precisa tomar algumas iniciativas calculadas. Naquela segunda festa, consegui conversar bastante com ela. Na verdade, acho que praticamente não calei a boca. Eu parecia um humorista iniciante que acabara de ser informado sobre a presença de um empresário do Tonight Show na platéia. Anos mais tarde, quando se lembrava daquela festa, Alice dizia: %22Você nunca mais foi tão engraçado quanto naquela noite%22.
%22Quer dizer que meu ponto alto foi em dezembro de 1963?, eu perguntava, vinte ou até trinta anos depois.
%22Lamento dizer que sim.%22

Postado por Carlos André Moreira

Os papéis do angolano

27 de setembro de 2007 0

Divulgação
Vim postar mais um breve comentário sobre as minhas últimas leituras. Dessa vez, o livro Os Papéis do Inglês (Companhia das Letras, 184 páginas, R$ 34), do angolano Ruy Duarte de Carvalho, creio que ainda pouco conhecido aqui no Brasil (eu ainda não tinha lido nada dele e confesso que fiquei feliz com essa descoberta, tanto que quero ler outros livros dele). Apesar de ter nascido em Portugal, o escritor passou a infância na província de Namibe, em Angola. Fez doutorado em antropologia em Paris e hoje é professor na Universidade de Luanda e na Universidade de Coimbra. Além de antropólogo e escritor, ele é artista plástico e cineasta.

Ok, agora vamos falar do livro, né? Resolvi apresentar rapidamente o autor porque a sua formação e experiência profissional é bagagem fundamental da sua atividade literária (essa afirmação não é minha, é de uma especialista em literatura africana, Rita Chaves). Bem, não é à toa que o personagem principal do romance Os Papéis do Inglês é um antropólogo… No final do século 20, um pesquisador sai atrás dos papéis de um tal caçador inglês que, em 1923, depois de matar um companheiro de profissão grego às margens do rio Kwando, na fronteira com a atual Zâmbia, e de tentar se entregar às autoridades portuguesas, volta ao acampamento e se mata.

São duas histórias paralelas: a do tal inglês, que teria deixado diversas anotações que poderiam explicar seu ato desesperado, e a do professor universitário, que se embrenha pelo interior africano em busca da verdade. Enquanto busca uma explicação, o pesquisador vai narrando suas aventuras e também criando uma possível versão para o inglês que se matou. Escrito de forma leve e envolvente (aqui vale destacar que o narrador conta a história para um alguém), nem mesmo as diversas citações tornam o texto enfadonho, pelo contrário, deixam-no mais instigante. É um daqueles livros que não se consegue parar antes de chegar ao fim – tal a curiosidade para entender até onde vai a trama intrincada.

Postado por Priscilla Ferreira

Uma reflexão com Cecília

26 de setembro de 2007 1

Esta vai em homenagem a nossa setorista de moda, a Rainha de Sabá Paola Deodoro. Desde o ano passado se fala muito sobre os riscos do padrão de beleza atualmente em vigor, turbinado pelas imagens de ampla circulação de modelos, manequins, top models ou seja o como se chamam hoje – um debate que aumentou depois do fim do ano passado, quando duas entidades italianas proibiram nas passarelas, adolescentes abaixo de 16 anos e com um Índice de Massa Corporal menor que determinado número que eu não vou me lembrar agora. A última polêmica a respeito do assunto veio do bombástico Oliviero Toscani, o fotógrafo superstar responsável por diversas memoráveis campanhas da grife Benetton nos anos 90. Ele, com sua verdadeira vocação para o choque, na segunda-feira publicou um anúncio publicitário no jornal italiano La Republicca no qual a modelo mostrada em nu de corpo inteiro é uma jovem de idade indefinida que não deve pesar mais do que 30 quilos, o corpo devastado pela manifestação violenta da anorexia. Se tem alguém querendo ver e ler mais a respeito, vá no link da folha: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u330969.shtml

Há várias discussões que podem surgir desse episódio, inclusive a mais desconfiada: o anúncio é patrocinado por uma marca de roupas, a No-l-Ita, e sempre é algo que me soa estranho, para não dizer… intrigante, quando um dente de uma engrenagem publicitária resolve obter publicidade favorável criticando abertamente a própria publicidade, é como o cão mordendo o próprio rabo por ser… sei lá, parte de um cão que morde as pessoas. Me entendem? Tem uma frase do mestre da raça Millôr Fernandes que explica melhor isso: “Desconfie do idealista que lucra com seu ideal.”

Mas eu não tenho opiniões sobre coisas que realmente não entendo, e a moda é algo que eu não entendo nem na superfície nem em profundidade, eu não entendo sua necessidade, seus códigos, seus símbolos, então essas reflexões só boiaram na minha cabeça e bateram numa lembrança antiga de um poema de Cecília Meireles – e finalmente chegamos ao motivo deste post num blog de livros.Os versos que me vieram à cabeça são deste conhecido poema de Cecília Meireles, uma coleção poética de estereótipos femininos nas quais há mais material de leitura do que a simples superfície – a escolha das mulheres que a mulher no poema diz que “já foi”” não é aleatória: Margarida é a heroína do Fausto, de Goethe, a donzela desgraçada e enlouquecida pela paixão egoísta do herói do título, e Beatriz é a santificada musa que conduz Dante no Paraíso da Divina Comédia. E Maria e Madalena qualquer um que já ouviu uma aula de religião no colégio sabem quem são, não?

O poema em questão está no livro Mar Absoluto. A Nova Fronteira, no ano retrasado, começou uma reedição da obra poética de Cecília, trazendo de volta em novas edições seus livros Canções, Solombra, O Estudante Empírico e Romanceiro da Incofidência. Mar Absoluto ainda não está nesta leva. Mas está nos dois volumes da Poesia Completa da autora lançados em 2001 pela mesma editora. Mas os versos. Não parecem apropriados?

Mulher ao Espelho

Hoje, que seja esta ou aquela
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz,
já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal fez, essa cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto
se é tudo tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que vai me matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscam-se no espelho.

Palavra de Patrono

25 de setembro de 2007 1

Hohlfeldt no Bistrô do Margs é anunciado patrono/Ricardo Duarte / Agência clicRBS
Este repórter que vos escreve esteve na manhã desta terça-feira no misto de coletiva e café da manhã que marcou o anúncio do novo Patrono da Feira do Livro, que vai de 26 de outubro a 11 de novembro. Conforme vocês puderam ouvir por aí e ler aqui mesmo no Zerohora.com, o Patrono desta 53ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre foi o professor, crítico, jornalista e também homem público com atuação política Antônio Hohlfeldt.

Hohlfeldt cumpriu, com ginga de político, o ritual obrigatório a que é submetido todo novo patrono: entrevista para TV, gravação para rádio, passeio pela Praça para que os cinegrafistas possam fazer imagens, sentar no banco em que está a estátua de Mario Quintana para garantir novas imagens para os fotógrafos e aí, finalmente, ficou disponível para conversar com estes pobres seres rastejantes que são os repórteres de veículos impressos em coletivas – no caso específico eu e o repórter de Aplauso Fábio Prikladnicki (não tenho certeza se escrevi esse sobrenome certo).

Sentado à mesa do bistrô do Margs tomando um café, Hohlfeldt deu vazão à sua palavra fácil de político misturada à ponderação de crítico, e eu resumo aqui alguns dos trechos dessa entrevista, que foi a base do artigo de capa do Segundo Caderno desta quarta.

Sobre os novos autores gaúchos
Temos hoje uma geração muito ativa, que inclui o Fabrício [Carpinejar], na poesia, o Daniel [Galera], na prosa. E falo desses dois e poderia falar de muitos mais, da própria Clarah [Averbuck], da Verônica Stigger. Ela inclusive é um caso curioso, ela é minha afilhada, eu fui ao lançamento, depois fui ler o livro dela [Gran Cabaret Demenzial] e é um livro estranho, ele desconcerta. Acho que agora eu estou menos preocupado em olhar para essa geração analisando a qualidade, pela ruptura estética que eles estão proponto. Eles são uma grande interrogação. Nem tudo isso que eles estão fazendo vai ficar, mas o importante é agora observar o que está sendo feito.

Sobre a repercussão dos gaúchos fora do Estado
Acho que na ausência de um mercado editorial aqui como já foi nos tempos da Globo os autores se obrigaram a buscar as editoras do centro do país. Não é um processo novo, é só mais intenso. Alguém como o Caio Fernando Abreu já havia obtido esse espaço fora daqui, assim como os escritores contemporâneos buscam hoje. Acho que o desafio atualmente é a gente romper essas fronteiras com o outro tipo de literatura que fazemos, o voltado para a história, a ficção que pensa a história não ecoa lá fora.

Sobre as listas de mais vendidos da Feira
Acho que faz parte que os mais vendidos sejam livros populares e não tão literários. Esta é uma feira de livros, não de literatura. Acho que temos de valorizar esse suporte que é o livro num período de tantos suportes novos – e sobre isso é engraçado lembrar: a teórica Lúcia Santaella tem um artigo que fala disso, a cada novo suporte que surge decreta-se a morte do anterior, mas nenhum deles desapareceu. O cinema ficou, o rádio, a TV, agora a internet, e, claro, o livro. Eles se complementam. Antes, nos anos 60, por exemplo, tivemos umas poucas experiências com poesia gravada em disco. Hoje há muitos audiolivros, com trechos de poesia, prosa, contos inteiros, é um movimento interessante e que nos exige que valorizemos mais o livro, também. Eu tenho expectativa de que mesmo um leitor de Paulo Coelho, atiçado por algo que leu ali, vá buscar outras coisas.

Postado por Carlos André Moreira

Antonio Hohlfeldt é o patrono da Feira do Livro

25 de setembro de 2007 0

Banco de Dados/Agência RBS
Acabou o suspense! Foi divulgado o nome do patrono da Feira do Livro de Porto Alegre de 2007: Antonio Hohlfeldt. A revelação ocorreu na manhã desta terça no bistrô do Museu de Artes do Rio Grande do Sul.

Jornalista, professor e crítico, nascido em Porto Alegre, em 1948, Hohlfeldt é conhecido pela atuação política. Foi vice-governador do Estado na gestão de Germano Rigotto. É colunista semanal às sextas-feiras no Jornal do Comércio. Lançou no ano passado o infantil A Aventura Aventurosa de Acanai Contra a Grande Cobra Sucuri na Terra sem Males.

A escolha do patrono foi feita em uma eleição com membros da comunidade cultural, ex-patronos, ex-diretores da Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) e titulares de universidades.

Também concorriam ao título Airton Ortiz, Carlos Urbim, Charles Kiefer, Fabrício Carpinejar, Jane Tutikian, Juremir Machado da Silva, Luís Augusto Fischer, Luiz Coronel e Paulo Flávio Ledur.

Hohlfeldt substituirá o atual patrono Alcy Cheuíche.

Postado por Guilherme Neves

Mirem-se no exemplo...

25 de setembro de 2007 1


Se me permitem a piada interna, este post vai em homenagem à colega Larissa Roso, editora do caderno Meu Filho, autora do texto que vocês leram hoje sobre o livro de que estou falando neste post e… loira – ah, sim, e ela gostou do filme 300, baseado no gibi do Frank Miller, vocês não viram? Vão ver, é muito bom.

Primeiro segue abaixo um trecho de Jogo de Damas (L&PM, 176 páginas, R$ 28), livro do jornalista e colunista de ZH David Coimbra, que tem autógrafos amanhã às 19h na Livraria Cultura do Bourbon Shopping Country (Túlio de Rose, 80).

Os gregos preferiam as loiras. Por isso, as famosas cortesãs conhecidas como %22hetairas%22 esmeravam-se em manter seus cabelos sempre cuidadosamente tingidos de amarelo, uma vez que as gregas antigas, para infelicidade dos gregos antigos, nasciam na sua maioria morenas feio pés de oliveira.

As hetairas são a prova cabal das vicissitudes pelas quais passavam as mulheres na Grécia. Quer dizer: não em toda a Grécia. Na belicosa Lacedemônia, as espartanas participavam livremente da vida da comunidade e exerciam poderosa influência sobre filhos e maridos – Helena de Tróia, lembre-se, não era de Tróia, era de Esparta. Mandavam muito, as mulheres de Esparta. E eram duronas. As mães, quando os filhos saíam em campanhas militares, lhes recomendavam:

– Volte com seu escudo. Ou sobre ele.

Porque era impossível correr por extensões muito amplas, carregando o pesadíssimo escudo espartano, que protegia o soldado do joelho ao pescoço. A frase das mães, então, significava que os filhos não poderiam fugir do combates. Se não o vencessem, que morressem lutando.

De dar medo, as mães de Esparta.

Em Atenas é que as mulheres viviam reclusas, fornecendo inspiração para uma imortal composição de Chico Buarque. A tal ponto que muitas delas, mesmo mulheres da aristocracia, mesmo as que dispunham do cobiçado título de cidadãs, mesmo essas preferiam tornar-se hetairas.

Jogo de Damas, que tem ilustrações do artista gráfico e quadrinista gaúcho Edgar Vasques, começa como um ensaio, defendendo uma tese no mínimo controversa: a de que a invenção do chamado processo civilizatório foi capitaneada pelas mulheres e por seu sentido prático, e que aprisionou o espírito livre e libertário dos homens, sonhadores em busca da glória e da aventura enquanto as mulheres são obcecadas com a criação de um lar, e assim contribuíram para o estabelecimento da civilização humana, o abandono do sistema nômade, a ascensão do sedentarismo, do estabelecimento de aldeias e da agricultura.

A tese é controversa porque, embora seja defendida por alguns trabalhos científicos, não tem comprovação unânime, sem falar que muitos afirmam exatamente o contrário: muitas sociedades antigas seriam matriarcais, baseadas na relação entre a mulher e os ciclos da terra, e a civilização foi o equivalente a um golpe de estado masculino, que retirou o valor simbólico do %22mistério%22 e da %22magia da terra%22 e o jogou para as alturas da lógica, das ciências matemáticas, da filosofia, do pensamento especulativo que abstrai conceitos não necessariamente comprováveis empiricamente. Como o livro de David, embora amparado em leituras, não é minucioso ao citar fontes, fica claro que a intenção dele é outra: usar esse fiapo de tese para enumerar, através de exemplos escritos com o estilo que David tornou já característico, histórias sobre o homem e seu mundo usando mulheres e nomes famosos como mote. Depois da apresentação, sucedem-se histórias de mulheres que tiveram e exerceram poder ao longo da história humana, da Antigüidade (a crônica que eu citei aqui vai adiante com um relato sobre Aspásia, amante de Péricles durante a idade de Ouro ateniense) até o século 20, com figuras como a espiã Mata Hari, que atuou na II Guerra.

Postado por Carlos André Moreira

Pequeno Mundo Livro

24 de setembro de 2007 0

Eu sei que as nossas crianças pequenas passam muito mais tempo em frente à TV do que a nossa própria geração. Sei que há programas educativos bem bacanas. Sei que temos menos tempo para estar com elas, nossas crianças. Mas nada disso desafia o encanto que os livros provocam nelas. Pode apostar. Pode experimentar. Neste último sábado chuvoso, levei minha filha para conhecer a irmãzinha de uma amiga dela que havia nascido. As duas, minha filha de três anos e a amiguinha, de dois e meio, sentaram-se no sofá e, livros na mão, contavam histórias uma para outra. Experimente o mundo livro.

Postado por Milena Fischer

É o lítio da Tropa

24 de setembro de 2007 0

Elite da Tropa
Tem sido o assunto do mês: o vazamento das cópias piratas do filme Tropa de Elite, que, visto e revisto por centenas, vendido em camelôs, passado pela rede, já virou, antes de ser lançado, um dos raros filmes-evento do cinema brasileiro atual (afinal, não é sempre que as produções no Brasil são sequer filmes, quanto mais eventos).

Para aproveitar o debate provocado pelo filme, que vem sendo aclamado como grande obra e já comparado ao ótimo Cidade de Deus (não posso dizer, não vi, perguntem para o Roger na semana que vem, ele vai ao Rio ver a exibição de imprensa do filme), posto por aqui, já que acredito que nem todos leram da primeira vez, o artigo publicado em 2006 no Caderno de Cultura de Zero Hora no qual Humberto Trezzi fala sobre o livro Elite da Tropa, romance à-clef que mais tarde daria origem ao filme e que, escorado agora na popularidade do mesmo, está ganhando nova edição (a capa que você vê aí do lado traz um frame da produção).

Falcões com Farda

HUMBERTO TREZZI
Em tudo baseado em fatos reais, com nomes trocados, alerta o livro já no prefácio.
Melhor que não fosse, pensa o leitor, ao percorrer as primeiras folhas. Elite da Tropa (Editora Objetiva, 315 páginas, R$ 37,90) é um soco no estômago da classe média, aquela sentada na poltrona em frente à TV, a clamar por rigor contra a malta de favelados que atrapalha a tranqüilidade do seu domingo. É uma espécie de radiografia da mais mortífera unidade da PM do Rio, o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope).
Os policiais descritos no livro seqüestram e exterminam, não prendem. Torturam, não interrogam. Chegam ao requinte de executar colegas que traíram a confiança do batalhão ou abriram firma de cobrança de propina por contra própria. Corrupção, aliás, é um dos raros crimes que os personagens da obra, narrada em primeira pessoa, não admitem ter cometido e juram que sua tropa não pratica.
O policial-narrador que guia o leitor ao longo do submundo policial fluminense é
uma espécie de alter ego dos capitães PM André Batista e Rodrigo Pimentel (este, já na reserva), que serviram no Bope.O material é peneirado pelo antropólogo Luiz Eduardo Soares, que tem se especializado em reunir e divulgar relatos do
mundo cão desde que deixou a chefia da Secretaria da Segurança fluminense e buscou exílio, no início da década, em função de denúncias semelhantes às descritas em Elite da Tropa.
As 315 páginas do livro destilam sangue, suor e abusos.Numa página, o narrador descreve cinco horas de afogamentos a que os policiais submetem um bandido.Noutra, lembra como a munição acaba justamente na hora de fuzilar um assaltante já rendido.
Tudo isso poderia passar incólume, como suposta ficção, se os autores não tivessem ingressado no movediço terreno da política. Um dos capítulos mais polêmicos é o que fala de um suposto complô organizado no início dos anos 90 por oficiais do Bope para assassinar o então governador do Rio, Leonel Brizola, porque ele ordenara que a PM deixasse de subir os morros no combate ao tráfico.
O governador tentava evitar chacinas e violações de direitos humanos, mas parte dos PMs considerou sua autoridade diminuída com a ordem governamental.
Muita gente exige agora que os narradores forneçam %22nomes aos bois%22. Os autores, capitães André Batista e Rodrigo Pimentel, pensaram que poderiam falar tudo, se escudando na troca de nomes dos personagens.Usaram um truque que deu certo com o repórter Valério Meinel, premiado pelo livro Avestruz, Águia e Cocaína, que descreve (com nomes trocados) o universo dos barões do jogo do bicho carioca. Batista e Pimentel esqueceram um detalhe: para os militares, não existe ex-militar. PMs os autores são e continuarão pelo resto das vida, à mercê de vendetas administrativas da corporação (no caso de Batista).
Com o agravante de que Batista continua na ativa, embora não mais no Bope. Ele passou a semana sob ameaça de prisão, pois publicou o livro sem autorização do Comando-geral da PM. De acordo com o regulamento da corporação, qualquer militar é proibido de se expressar publicamente, sem ser autorizado. Seus chefes querem saber por que o capitão participou de um livro que expõe a polícia de forma vexatória.
Batista está proibido de se manifestar,mas Pimentel fala pelos dois.
– Sei que a polícia ficou exposta, que roupa suja se lava em casa. Mas se não tivéssemos feito isso, continuaria tudo como está, sem o conhecimento da sociedade – desabafa.

Trechos:

Hino macabro
Nos exercícios diários, os soldados do Bope aprendem a entoar seus cantos de guerra:
%22Homem de preto, qual é sua missão / É invadir favela, deixar corpo no chão // Você sabe quem eu sou? Sou o maldito cão de guerra / sou treinado pra matar, mesmo que custe minha vida / a missão será cumprida, seja ela onde for / espalhando a violência, a morte e o terror%22.

O sono justo do governador
O verbo é trabalhar. Quando o subordinado chama o comandante pelo rádio e pergunta: %27Posso trabalhar o meliante?%27, está pedindo autorização para fazê-lo cantar. Da mesma forma que o governador autoriza o secretário da segurança e lhe diz: %27Faça o que for necessário para resolver o problema%27. O governador dorme o sono dos justos, o secretário descansa em berço esplêndido, o comandante repousa como um cristão e o soldado, lá na ponta, suja as mãos de sangue.

Aula de tortura
Água é ótimo condutor de energia. A idéia foi um desenvolvimento mais ou menos natural das torturas tradicionais com saco plástico e água: sufocamento e afogamento. Todo policial do Bope sai do quartel com seu saquinho plástico,peça que já foi integrada ao kit básico. O saco serve para pôr na cabeça do marginal, apertando bem na base, que fica amarrada no pescoço. O sujeito sufoca, vomita e desmaia. É o momento de afrouxar. É nojento, mas eficaz.

Máquina de corrupção
Os pontos especiais de arrecadação variam conforme as características do bairro. Saunas, boates e casas de massagem são os exemplos mais comuns… também clínicas de aborto, estacionamentos irregulares, postos fixos de camelôs… A polícia vive do que é ilegal. Nós, do Bope, não achávamos a menor graça. Sentíamos nojo disso tudo. Enquanto arriscávamos a vida na guerra noturna, a máquina da corrupção dos convencionais medíocres girava, girava, engordando a poliçada, cada vez mais rechonchuda, panças arredondadas, espírito amolecido pela gorjeta, a alma literalmente vendida ao diabo.

Postado por Carlos André Moreira

Uma oficina

24 de setembro de 2007 0

Continuando nesta micro-agenda dos eventos e cursos literários relacionados a esta semana, vai lá outra dica:

Jane Tutikian, escritora, professora e um dos nomes indicados ao patronato da Feira do Livro este ano (o resultado sai amanhã, a propósito) e o editor, tradutor e escritor Pedro Gonzaga ministram a partir desta quarta-feira, dia 26, uma oficina de criação literária centrada na produção de contos. A oficina é estruturada em um módulo com 12 encontros, e o trabalho tem ênfase na produção e na compreensão teórica do conto, o gênero que, segundo Júlio Cortázar, era preciso vencer por nocaute. O programa inclui exercícios para explorar as possibilidades de construção da voz narradora, o uso do tempo e do espaço na narrativa, o desenvolvimento de personagens, diálogos e os recursos estilísticos da narração.

A oficina começa às 18h30min desta quarta-feira, dia 26, no Café do Porto, na Padre Chagas, em Porto Alegre – aquele setor granfa da boemia porto-alegrense. Para inscrições e informações, falem com o próprio Pedro na Editora Leitura XXI (51 3221-2310) ou no celular: (51) 98056864. Ah, sim, tem também o e-mail oficinadoporto@yahoo.com.br

Postado por Carlos André Moreira