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Lições de Mestre

03 de outubro de 2007 2

Faraco no Encontros com o Professor, out/2006/Carlos Carvalho / DivulgaçãoSou muito exigente comigo mesmo na hora de escrever ficção. Um conto meu geralmente tem umas oito páginas, que eu reescrevo, no mínimo, umas 40 vezes. Faço a primeira versão a mão, depois passo para o computador e só então começo a retocar. Suprimo algumas coisas, arrumo frases muito compridas, acrescento coisas que percebo estarem faltando. Em seguida, imprimo outra vez aqueles retoques, e assim vou continuando a retrabalhar o texto. Faço isso também com as crônicas que publico no jornal Zero Hora. O leitor leva um minuto para lê-las, mas como eu escrevo para o jornal de 15 em 15 dias, certamente passo 14 dias trabalhando nelas. Gosto de trabalhar até ficar absolutamente satisfeito – não no sentido de achar o texto necessariamente bom, mas de saber que cheguei ao meu último limite, quer dizer, melhor não posso fazer. Tenho um conto que se chama Um Dia de Glória. É um conto absolutamente comum, nem é bom, um conto razoável apenas. Comecei a escrevê-lo quando minha filha mais velha tinha seis meses, mas não consegui encontrar o final. Estava em algum lugar da minha cabeça aquele desfecho, mas eu não achava. Enquanto isso, fazia outras coisas, mas sempre que retomava esse conto encontrava-me diante da mesma dificuldade. Só vim a terminá-lo quando minha filha já estava fazendo residência médica. Faço rascunho até de e-mail e de cartão de Natal. Atualmente, estou me correspondendo com o crítico de arte Jacob Klintowitz, que reside em São Paulo. Devo ter enviado umas cinco ou seis mensagens para ele até agora, e de todas elas fiz rascunho. A intenção principal por trás desse cuidado todo é que quero ser bem compreendido, então preciso me exprimir da forma mais clara possível. Parei de escrever contos há alguns anos. Às vezes, penso que fiquei sem escrever contos (…) como uma forma de me preparar para escrever Lágrimas na Chuva. O fato de este livro ter sido bem recebido me impede de escrever a continuação. Acho que seria uma espécie de anticlímax depois da leitura de Lágrimas na Chuva. Tenho uns sete capítulos escritos, mas fiquei por ali. Não sei se vale a pena.

 O trecho acima é de uma entrevista concedida pelo escritor Sergio Faraco ao professor Ruy Carlos Ostermann em outubro de 2006 e que consta do livro Encontros com o Professor: Cultura Brasileira em Entrevista, volume 2, que Ostermann e alguns dos entrevistados autografam nesta quinta no StúdioClio (José do Patrocínio, 698), às 19h30min. É uma coletânea com algumas das mais destacadas entrevistas realizadas pelo jornalista Ruy Carlos Ostermann no projeto Encontros com o Professor, realizado há três anos periodicamente no próprio StúdioClio. Uma obra que, como o professor Ruy ao conduzir uma entrevista, abre o espaço para que o entrevistado seja o centro do programa. Ruy Ostermann é autor dos breves perfis dos 14 entrevistados, de uma introdução refletindo sobre o clima intimista dos encontros, propícios a revelações e confissões dada a cumplicidade estabelecida entre entrevistador e entrevistado. Depois disso, a palavra é toda dos entrevistados, o livro suprime as perguntas e intervenções do entrevistador e alinhava o discurso do entrevistado em um depoimento subdividido em temas.

Também constam do volume (Tomo Editorial, 130 páginas, R$ 25) os escritores Moacyr Scliar, Armindo Trevisan, José Antônio Pinheiro Machado e o também cartunista Ziraldo. Da área da música, Renato Borghetti, Bebeto Alves e a dupla responsável pelo espetáculo Tangos & Tragédias, Hique Gomez e Nico Nicolaiewsky. Completam o elenco de entrevistados os jornalistas Paulo Gasparotto, Luiz Carlos Merten e Tânia Carvalho, o escultor Xico Stockinger, o cineasta Jorge Furtado e a presidente da Fundação Theatro São Pedro, dona Eva Sopher. São bate-papos marcados pela espontaneidade. Além de Faraco compartilhando seu fazer literário e as experiências na União Soviética que renderam o belo Lágrimas na Chuva, temos Ziraldo falando da infância em Caratinga, de sua família, da sua paixão por coletes. Ou, por exemplo, Borghettinho contando que, autodidata, se tornou o primeiro integrante da família a se dedicar à música.

Uma última curiosidade: a entrevista foi realizada em 2006, e portanto nessa época o contato entre Faraco e o crítico citado no trecho, Jacob Klintowitz provavelmente visava à produção do livro Antologia de Contistas Bissextos, também da L&PM, lançado no mês passado, reunindo narrativas curtas de gente que se dedica esporadicamente ao gênero. 

Comentários (2)

  • Carlos Alberto Viegas diz: 6 de outubro de 2007

    Por favor Zero Hora: como é que eu faço para adquirir os Livros do Prof. Ruy Carlos Ostermann?

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