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Luandas

23 de outubro de 2007 1

Aiué, Quinzinho, aiué.
Vais a enterrar, Quinzinho, vais quieto como nunca foste. Despedaçado pela máquina, Quinzinho, pela máquina que tu amavas, que tu tratavas com amor, desenhando as curvas sensuais das rodas, o alongado harmonioso das correias sem-fim.
A máquina. Quinzinho, a máquina que te cantava aos ouvidos a canção do trabalho sempre igual de todas as semanas e que tu sonhavas libertar por réguas, compassos, um poema negro sobre papel branco num estirador.
Aiué, Quinzinho, aiué.
Operário não pode sonhar, Quinzinho, não pode. A vida não é para sonhos. Tudo realidades vivas, cruéis. A luta com a vida.
Mas tu não eras operário, Quinzinho, tu eras um poeta. E os poetas não devem ser amarrados às máquinas.
Agora vais quieto, mais branco, no teu caixão pobre. Os teus amigos vão atrás, tristes, porque tu eras a alegria deles.
A tua mãe já não chora, Quinzinho, não chora porque é forte. Já viu morrer outros filhos. Nenhum morreu como tu. Despedaçado pela máquina que te escravizava e que tu amavas.
Eu também aqui no meio dos teus amigos. Mas não vou triste. Não. Porque uma morte como a tua constrói liberdades futuras. E haverá outros a quem as máquinas não despedaçarão, pois as máquinas serão escravas deles, que as hão-de idealizar, construir.
E os poetas como tu hão-de cantá-las porque elas serão um instrumento de libertação. Cantá-las no papel branco a tinta negra ainda antes de elas nascerem.
Por isso não vou triste, não. Não sou talvez o teu único amigo branco, mas os outros não tiveram coragem de te vir acompanhar. E são para  ti estas rosas vermelhas que trago. São a paga da tua estima por mim, a tua amizade que eu sentia quando tu e eu nos encontrávamos, à beira-mar, ou quando naqueles dias à noite atravessávamos os dois a baía das águas sem fim. A nossa baía de Luanda.

Já contei a vocês que o próximo caderno Cultura, no sábado, traz material antecipando alguns dos escritores estrangeiros de língua portuguesa que virão à Feira este ano, e isso me deu o mote para este post em particular, que não tem a ver com Feira mas tem a ver com a literatura em Língua Portuguesa feita fora do Brasil. O trecho acima é de Quinzinho, uma das 10 narrativas incluídas no volume A Cidade e a Infância, livro do escritor José Luandino Vieira que a Companhia das Letras está publicando agora (136 páginas, R$ 36). Luandino é português de nascimento, mas cresceu em Angola, uma identificação expressa no pseudônimo que adotou, uma homenagem à capital Luanda (o nome verdadeiro do autor é José Vieira Mateus da Graça). Luanda é também a homenageada neste livro, dedicado à cidade e aos companheiros de infância, os dois eixos temáticos expressos no título.

Como o Quinzinho do conto transcrito acima, outros personagens que circulam pelas páginas do livro são operários e trabalhadores, como Faustino, ascensorista de um elevador no conto que também leva seu nome. A impossibilidade da inocência depois que a infância passa e os personagens se vêem adultos em um país dominado e desigual também comparece, como A Fronteira de Asfalto, no qual uma garota branca e um rapaz negro são mantidos afastados um do outro, mais do que por imposição familiar, pela “fronteira de asfalto” do título, que separa a rica Luanda portuguesa dos bairros mais pobres.

Luandino foi um leitor atento do brasileiro Guimarães Rosa, um autor em quem se inspirou para o cuidado poético com a linguagem, a atenção à maneira de dizer, buscando um registro que não é o mero falar, a prosódio oral, mas a transcende, leva o texto a outros limites, a uma iluminada recriação do próprio idioma, ao registro único de vozes e ritmos próprios do português como é falado na ex-colônia. Primeiro livro do autor, publicado em 1960, esta é a segunda obra de Luandino editada pela Companhia das Letras, no ano passado já havia saído por aqui uma reedição de Luuanda (144 páginas, R$ 35,50), outra coletânea de contos, posteriores aos reunidos em A Cidade e a Infância, que junta textos escritos entre 1955 e 1957.

Na época da reedição de Luuanda, quem escreveu sobre o livro para o jornal foi nossa colega Priscilla Ferreira, profunda conhecedora da literatura que fala português com sotaques outros. Talvez alguns de vocês ainda se lembrem do artigo assinado por ela que saiu em 28 de novembro do ano passado no Segundo Caderno, mas peço licença abaixo para republicá-lo assim mesmo em homenagem à Priscilla, que está saindo do Segundo Caderno para integrar a equipe de especiais do Canal Rural, para infelicidade nossa.

Nova edição para um recluso polêmico
Priscilla Ferreira

Ganha nova edição no Brasil o premiado
Luuanda, do angolano José Luandino Vieira. O escritor foi notícia este ano [em 2006, óbvio] ao recusar o Prêmio Camões, uma das maiores distinções literárias em língua portuguesa, e os 100 mil euros oferecidos. Na ocasião, fez um breve comunicado alegando razões “pessoais e íntimas” para a recusa.
Luuanda, publicado pela primeira vez em 1963, reúne três contos que retratam a dura realidade dos moradores dos bairros pobres da capital de Angola – na época ainda colônia portuguesa. A fome e a miséria dos personagens contrastam com a riqueza da linguagem. Nas suas “estórias”, somos apresentados ao universo de “vavó” Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina. Conhecemos Dosreis, Xico Futa, Zuzé e Garrido Kam’tuta,que vive atormentado pelo papagaio que ganha as carícias que a fogosa Inácia lhe recusa. Assistimos também à briga entre “nga” Zefa e sua vizinha, disputando um ovo de galinha. Em todos os contos, permanece a esperança de dias melhores.
A história de Luandino está fortemente ligada à de Angola. Filho de colonizadores portugueses, foi morar no país aos três anos. Passou a infância e a juventude na periferia de Luanda. Ainda muito jovem,se engajou na luta pela independência da colônia. Por conta disso, foi preso duas vezes, em 1959 e em 1961. Na segunda, condenado a 14 anos de reclusão.
Boa parte da sua obra foi produzida na prisão. Inclusive os textos de
Luuanda, escritos à mão, entre 1961 e 1962, e entregues às escondidas para a sua esposa, que se encarregou de divulgá-los.  Em 1965, durante o regime salazarista, o livro foi premiado pela Sociedade Portuguesa de Escritores.  Mas o prêmio nunca foi entregue, e as conseqüências foram trágicas: a entidade foi fechada e os componentes do júri, presos. E o autor passou a sofrer uma perseguição ainda maior.
Luandino deixou o campo de concentração em 1972 e passou a viver em regime de residência vigiada em Lisboa. Após a independência de Angola, o escritor voltou ao país e chegou a ocupar cargos oficiais ligados à cultura, mas, por não concordar com os rumos políticos, foi definitivamente para Portugal, em 1992, onde vive recluso no sítio de um amigo.

Comentários (1)

  • Mundo Livro » Arquivo » As esperanças de Pepetela diz: 26 de fevereiro de 2013

    [...] vários autores lusófonos não brasileiros têm sido publicados por aqui. De Angola há também Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Ondjaki. Tem havido progressos na interação entre os universos [...]

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