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Posts de outubro 2007

De Cabul (1)

31 de outubro de 2007 0

Åsne Seierstad recebeu flores dos fãs na Feira. foto: Genaro Joner, ZH

Åsne Seierstad, linda e loira como a média das nativas da Noruega, mas com um bronzeado certamente arranjado longe dos fiordes nórdicos, foi um sucesso fazendo Feira. Acessível, simpática, falante e nada econômica nas respostas, participou de entrevistas coletivas, programas de TV, falou a jornais, revistas, rádios e sites e nunca perdeu o bom humor – nem com as dezenas de perguntas quase idênticas que se repetiram desde a manhã de ontem, quando chegou a Porto Alegre. À noite, foi uma das conferencistas do ciclo Fronteiras do Pensamento, ao lado do gaúcho Moacyr Scliar.

O Livreiro de Cabul, 3 milhões de exemplares vendidos em quase cem países, traduzido para 40 idiomas, foi o livro mais solicitado para dedicatórias nesta quarta, a partir das 20h30min. A fila imensa de leitores dava voltas em torno da Praça de Autógrafos. Na mesa, flores dos fãs e uma cuia de chimarrão, que a jornalista pediu para experimentar. Provou, mas não terminou. Deixou de lado quando a multidão apareceu – porque não gostou ou porque não teve tempo de ir até o fim do mate já frio.

Os vencedores

31 de outubro de 2007 1

 Um dos leitores participantes aí perguntou onde está o nome do vencedor das demais promoções até agora. Temos publicado apenas no jornal, mas me parece lógico que a gente o faça aqui também. Vou, quando colocar no ar as novas perguntas, já anunciar quem venceu. Vão abaixo as melhores respostas para as três perguntas anteriores:

Qual seria seu passatempo predileto para se distrair durante cem anos de solidão?
– Eu enlouqueceria bem devagarinho
Mila

Que castigo você daria para a Menina que Roubava Livros?
– Colocaria em seu caminho outra Menina que Roubava Livros, pois já diz o velho ditado: ladrão que rouba ladrão tem ficha limpa na biblioteca (ou algo do gênero). Problema seria elas formarem quadrilha…
Fernando Bittencourt

Que livro você compraria do Livreiro de Cabul?
O livro que eu compraria do livreiro de Cabul é Mulheres de Cabul da fotógrafa Harriet Logan. Mandaria embrulhar e daria de presente..pra ele!Quem sabe ele vendo as imagens e lendo os depoimentos tocantes do livro,percebesse a visão que o mundo tem,sobre a forma absurda de como tratam as mulheres
Sílvia Bier

Postado por Carlos André Moreira

Que gente curiosa

31 de outubro de 2007 6


Companheiros, segue nosso quiz literário-imaginativo nas páginas do blog Mundo Livro e do caderno especial da Feira. Quem acompanhou nosso trabalho no jornal (espero que estejam acompanhando – dá um trabalho danado fazer aquil), já deve ter visto que a pergunta de hoje é

Qual a relação de parentesco entre a Mãe Coragem e o Pai Goriot?

Sim, eu sei, estamos ficando sem perguntas legais, mas nos dêem um desconto. Escreva uma resposta com no máximo 300 caracteres, e publique nos comentários aí debaixo, como todos tem feito nesta promoção que já é um sucesso de público graças a nossos bons e amados leitores.

A resposta mais criativa ganha um exemplar do épico Beowulf (Artes & Ofícios, 232 páginas), contado em forma de romance por A.S. Franchini e Carmen Seganfredo. É um livro que segue a linha de outra obra dos autores, também responsáveis por livros que compliam As 100 melhores histórias… da mitologia, da bíblia, da mitologia nórdica. Seganfredo e Franchini também já haviam transformado em narrativa outro épico, o do Anel dos Nibelungos, retirado da tetralogia das óperas de Wagner. Acredito que agora o livro esteja saindo também para aproveitar a onda que em breve se fará sobre Beowulf com a adaptação cinematográfica que levará a história às telas em moldes semelhantes aos de O Expresso Polar: cenas filmadas com atores de verdade vão receber retoques de computação até se tornarem seqüências animadas. O roteiro é do mestre dos quadrinhos Neil Gaiman.

Ah, sim, mas o livro. Beowulf tem origem em um poema épico medieval datado de por volta de 700 a 1000 da Era Cristã. É considerado também a primeira obra literária épica da Europa Ocidental, e foi escrito no dialeto angl-saxão. A história narra as aventuras de Beowulf da tribo dos geats (estabelecida na Suécia). A primeira delas, que Beowulf busca por amor à glória e para se cobrir de virtude e de uma reputação de valentia, é oferecer ajuda à corte do rei Hrothgar, tomada de assalto pelo pavoroso demônio Grendel, fera, entidade, troll, mal encarnado que se apossou do reino. Beowulf mata o demônio, depois precisa enfrentar a mãe do monstro, a quem confronta numa caverna no fundo de um lago. Beowulf é também mostrado na velhice, já rei de seu país, quando precisa voltar ao combate para salvar seu povo de um dragão que busca vingança contra os geats por um servo haver roubado uma taça de seu tesouro (o dragão guardião de um tesouro também está presente no épico do Anel dos Nibelungos, com o gigante Fafnir enfrentando Siegfried na entrada de uma caverna onde esconde o anel do título). vai um trecho da adaptação em prosa (o original, vale lembrar de novo, é um poema em versos):

A noite verdadeira caíra sobre o pântano, acordando de vez todas as criaturas amantes das trevas. A comitiva liderada por Hrothgar, rei dos scyldings e Beowulf, príncipe dos geats, fez novo pouco em uma pequena clareira. Ali, o guia da expedição foi consultado sobre o trajeto a ser seguido e declarou que faltava muito pouco para chegarem ao lago onde diziam acoitar-se a fera procurada por todos.
– Posso sentir pelo cheiro – disse ele, com uma careta evidente de náusea.
De fato, em meio a tantos odores nauseabundos, surgira, aos poucos, um que sobrepujara a todos em matéria de insuportabilidade
– Por que, então, esperar mais? – disse o rei, pondo-se em pé. – Quanto mais cedo localizarmos este pélago amaldiçoado, mais cedo poderemos também levar a cabo nossa vingança.
Hrothgar, sem perceber, cumpria agora o mesmo papel que a mãe de Grendel levara a cabo alguns dias antes, ao buscar o palácio de Heorot para saciar sua sede de vingança.
Os demais guerreiros, no entanto, depois do primeiro confronto com as criaturas da charneca, haviam perdido quase que totalmente o medo e foi com o mesmo entusiasmo do rei que se puseram logo a postos para reencetar a busca. A eles bastava saber que ainda estavam vivos, e que a melhor maneira de estarem logo em casa seria desvencilharem-se de uma vez de sua missão. Pior do que perecer na missão, pensavam, era ficar a imaginar de que modo pereceriam.

Postado por Carlos André Moreira

Anos de Solidão e Leituras compartilhadas

30 de outubro de 2007 0

E já que estamos falando de Cem Anos de Solidão, hora de mencionarmos que a idéia para esse quiz que está no ar veio de ontem, da apresentação do professor Ruy Carlos Ostermann para o livro de mesmo nome, o clássico fabuloso (em mais de um sentido), de Gabriel García Márquez. Ostermann apresentou o romance, seu contexto e referências no projeto Leituras Compartilhadas, que faz parte da programação da Feira e que reunirá em todos os dias da Feira jornalistas, escritores e intelectuais para apresentar uma leitura enriquecida de algum livro.

Ruy Carlos Ostermann discorreu sobre a literatura de García Márquez tendo como base a edição espanhola recente organizada pela Real Academia Espanhola e com revisão e fixação do texto pelo próprio autor. Ostermann fez paralelos entre a magia no clássico de García Márquez e na literatura brasileira. O projeto Leituras compartilhadas ocorre todos os dias da Feira, às 19h, com entrada franca, no Centro Cultural CEEE Erico Veríssimo, sala O Retrato, ali na Rua da Praia. Segue abaixo a programação para os próximos dias:

Hoje, 30 de outubro
Maria de Nazareth Agra Hassen
apresenta A Vida Secreta dos Animais, de J.M. Coetzee.

Amanhã, dia 31 de outubro
Luiz Antônio Aguiar
apresenta Dom Casmurro, de Machado de Assis.

1º de novembro
Fabrício Carpinejar
e Celso Gutfreind apresentam O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry.

2 de novembro
Armindo Trevisan
apresenta as obras completas de Manuel Bandeira

3 de novembro
Carlos André Moreira (é, sou eu mesmo, mas não precisam ir se não quiserem) apresenta A Menina que Roubava Livros, de Markus Zusak.

4 de novembro
José Roberto Goldim
e Sergius Gonzaga apresentam o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.

5 de novembro
Nei Lisboa
apresenta Testemunha de Acusação, de Agatha Christie

6 de novembro
Luiz Paulo Faccioli
e Francisco Marshall apresentam O Caçador de Pipas, de Khaled Housseini, e O Livreiro de Cabul, de Asne Seiestad

7 de novembro
Cláudio Moreno
fala sobre A Odisséia, de Homero

8 de novembro
Paulo Neves
e Luís Augusto Fischer apresentam O Vermelho e o Negro, de Stendhal

9 de novembro
Cíntia Moscovich
apresenta Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

10 de novembro
Tatata Pimentel
fala sobre Madame Bovary, de Flaubert

11 de novembro
Eduardo Wolf
O apanhador no Campo de Centeio,de J.D. Salinger.

Postado por Carlos André Moreira

Mais Livros nesta Feira

30 de outubro de 2007 11


Bom, gente, vamos ao Quiz da Feira de hoje. A pergunta que você já deve ter visto no nosso caderno especial sobre a Feira do Livro de Porto Alegre é

Qual seria seu passatempo predileto para se distrair durante cem anos de solidão?

O esquema você já sabe: escreva uma resposta com no máximo 300 caracteres, e publique nos comentários deste blog.
A resposta mais criativa ganha um exemplar do relato de viagem Em Busca do Mundo Maia, de Airton Ortiz.

Ortiz se firmou na última década como um pioneiro de um gênero que é bastante consolidado no Exterior e que ainda engatinha por aqui: o do relato de viagens e aventuras. Este seu livro é qualificado por ele mesmo como %22uma viagem ao passado que levou ao futuro%22. Em Busca do Mundo Maia (Record, 248 páginas, R$ 32) relata uma expedição pelos locais em que floresceu a civilização pré-colombiana. A pesquisa e a viagem despertaram em Ortiz a noção, declarada no livro, de que os fatores que levaram ao colapso dos avançados Maias – que já tinham cidades, uma arquitetura monumental e observatórios astronômicos quando a Europa amargava a Idade Média – são as mesmas que põem em risco o mundo de hoje.

A maior parte dos estudos modernos data o declínio dos Maias (e não seu desaparecimento, como se supõe) 500 anos antes da chegada dos europeus, e portanto os conquistadores não tiveram nesse colapso o mesmo papel que teriam no caso de Incas ou Astecas. As razões para o fim dos Maias são, acredite, ecológicas. Com a monocultura do milho e o desmatamento da floresta para produção de gesso, o ambiente do império foi exaurido.

Em Busca do Mundo Maia já segue uma mudança de padrão na obra por Ortiz em seu livros. Autor de volumes que relatavam viagens a um único país ou localidade, como Pelos Caminhos do Tibete, Expresso para a Índia, Egito dos Faraós ou Travessia da Amazônia. Desde Na Trilha da Humanidade, de 2006, Ortiz estabeleceu uma nova maneira de estruturar seus livros. Ele não vai mais a um único país, mas segue um tema, cruzando fronteiras com ele. Para traçar a rota da civilização Maia, ele passou por Nicarágua, Honduras, Guatemala, Belize e México. vai um trechinho:

O tempo era a base da religião maia. Eles acreditavam que este mundo era apenas um entre uma sucessão interminável de mundos, cada um deles destinado a terminar com uma grande cataclismo, sendo em seguida sucedido por outro. Essa qualidade cíclica possibilitava prever o futuro conhecendo o passado, por isso dedicavam tanto tempo aos estudos. Quase todas as cidades eram construídas levando em consideração o movimento dos astros.
Em frente ao edifício existe uma estela com a efígie de seu construtor, o rei Ah Cacau (sempre ele), uma das mais bem preservadas de Tikal. Uma vez mais, ao contrário de Copán, as estelas em TIkal não são tão magnifícas nem tão belas, servindo mais para nos informar sobre a história da cidade do que para nos encantar com alguma beleza plástica. Pelo visto, os reis tikalenses davam mais importância ao tamanho do que ao refinamento de suas obras, provavavelmente conseqüência da tradição militar da cidade.

Postado por Carlos André Moreira

O Castelo na Estante

29 de outubro de 2007 15


Oi, pessoas. Continuamos nosso trabalho de cobertura da Feira com nossa brincadeira sober livros, para as quais estamos pedindo a participação de vocês. Nossa idéia é passar um livro a quem responder com mais criatividades às perguntas malucas que estaremos fazendo ao longo da Feira nas páginas do Caderno da Feira. Nossa pergunta de hoje é:

Que castigo você daria para a Menina que Roubava Livros?

O esquema é o mesmo: inventem uma resposta com no máximo 300 caracteres na janela de comentários deste post (e deste mesmo, não adianta pôr comentário lá embaixo e depois reclamar). O autor da resposta mais criativas ganha um exemplar do livro O Castelo no Ar, de Diana Wynne Jones (Record, 306 páginas, R$ 42,90).

Wynne Jones é inglesa, e também autora de O Castelo Animado, que recentemente foi adaptado para o cinema em um longa-metragem de animação dirigido pelo mestre japonês Hayao Miyazaki.

Neste O Castelo no Ar, que não é uma continuação do outro, como o nome semelhante poderia fazer pensar, Wynne Jones bebe na fonte do conto fantástico árabe que maravilha o mundo desde as Mil e Uma Noites, misturando com o tipo de narrativa de aventuras comum nas fábulas e contos de fadas do ocidente. A história é centrada em Abdullah, jovem mercador de tapetes que passa muito tempo imaginando que é um príncipe raptado ao nascer e que foi adotado por um pobre mercador de tapetes, daí estar hoje onde está. Até que um dia aparece na tenda de Abdullah um homem que diz estar oferecendo, por um preço baixíssimo, um tapete mágico voador. Abdullah dorme em cima do tapete e,ao acordar, descobre-se em um grande palácio, onde se apaixona pela filha do Sultão, um amor que ele vai precisar defender em aventuras fantásticas para conseguir concretizar. Vai abaixo um trechinho:

Mais uma vez, Abdullah virou-se e deparou com o soldado o observando,mas dessa vez o outro homem não disse absolutamente nada. Abdullah tinha quase certeza de que ele estava apenas esperando o momento oportuno.
Naquele dia, enquanto seguiam caminhando, o terreno começou a subir. As veredas de um verde opulento deram lugar a trilhas arenosas ladeadas por arbustos secos e espinhentos. O soldado observou alegremente que enfiam pareciam estar chegando a algum lugar diferente. Abdullah apenas grunhiu. Ele estava determinado a não dar abertura ao soldado.

Portanto, continuem respondendo. Funciona ainda do mesmo jeito que o anterior. As respostas devem ser postadas até a meia-noite de hoje. Abraço.

Postado por Carlos André Moreira

Águas Lusas

28 de outubro de 2007 1

José Eduardo Agualusa/Divulgação
Quem leu hoje a página que publicamos na Zero Hora sobre a Feira do Livro deve ter topado com a entrevista com o escritor angolano José Eduardo Agualusa, um dos grandes nomes da ficção em protuguês contemporânea, autor do aclamado O Vendedor de Passados (faz parte da bibliografia obrigatória do mestrado em literatura portuguesa da UFRGS, por exemplo). Nascido em Angola, residente parte do ano em Portugal e parte do ano em São Paulo, Agualusa é, além de escritor, editor. Ele é um dos sócios da empreitada da Língua Geral, uma editora que se dedica apenas a livros de escritores cujo idioma de origem seja o português, aí incluídos brasileiros, angolanos, moçambicanos, caboverdianos, timorenses e por aí vai.

Agualusa participa hoje de um debate justamente sobre os rumos da literatura em português. E autografa seu mais recente livro, As Mulheres de Meu Pai, sobre o qual nossa colega Priscilla já escreveu aqui no blog, é só procurar por aí. Como espaço no jornalismo é sempre o grande dilema, vai abaixo a íntegra da entrevista que o sempre gentil Agualusa respondeu por e-mail a este que vos fala, e da qual só conseguimos publicar um pedaço no jornal de hoje:


Zero Hora _ Em O Vendedor de Passados, o senhor escreve sobre um homem que inventa genealogias. Em As Mulheres de Meu Pai, a busca da protagonista é também pela identidade do pai. É um diálogo de sua literatura com a própria questão da identidade, central para a cultura africana nas relações com seu passado de colônia?
José Eduardo Agualusa
_ É sobretudo o resultado da minha própria inquietação. Escrever, no início, era uma maneira de afirmar a minha identidade, e também de a questionar. Hoje estou mais tranqüilo, já não preciso de demonstrar nada, mas continuo sem respostas a muitas interrogações. Questões de identidade são recorrentes nas literaturas de países em fase afirmação, mas também, como acontece hoje em Portugal ou em Inglaterra, em países cuja composição étnica sofreu grandes alterações. Você tem atualmente grandes escritores ingleses de origem indiana ou africana e também eles se interrogam. Esta questão é um tanto difícil de compreender no Brasil, porque o Brasil é um país muito integrador. Ninguém aqui pensa na Clarice Lispector como sendo ucraniana ou no Rubem Fonseca como sendo português. Mas se a Clarice Lispector tivesse tido um passaporte britânico, ou um passaporte angolano, ela certamente teria experimentado um questionamento semelhante.

ZH _ Outro de seus personagens em As Mulheres de Meu Pai é um homem que se divide entre o sentimento de ser português mas ser, na Europa, tratado como africano. Os preconceitos que edificaram a colonização permanecem mesmo após três décadas de independência?
Agualusa
_ Angola é um país muito curioso, com grandes contradições, terríveis fraturas. No plano racial, por exemplo, é muito diferente do Brasil. Antes da independência o poder estava, como no Brasil, nas mãos de uma minoria branca. Depois passou para as mãos da maioria negra. A população negra ganhou prestígio e dignidade. Numa primeira fase assistiu-se a um furor nacionalista, com os angolanos de origem européia a renegarem as suas origens, e a darem aos seus filhos nomes em idiomas indígenas. Alguns escritores assumiram pseudônimos em línguas indígenas, é o caso do Pepetela ou do Ondjaki, o que era também uma reivindicação identitária. Essa fase passou. Agora existem várias correntes, algumas em conflito aberto. Há quem prefira dar ênfase às suas origens urbanas. Quem prefira realçar as raízes rurais. Este meu último romance também fala destas contradições. Tento fazê-lo com algum humor. Não sou nacionalista. Acredito que o nacionalismo é uma doença, que conduz quase sempre a manifestações racistas e xenófobas. Prefiro acreditar, como um dos personagens, no potencial revolucionário da mestiçagem.

ZH _ As Mulheres de Meu Pai aborda essa classe nova de portugueses descendentes de africanos. A busca da personagem principal por uma identidade pode ser vista também como o retrato simbólico desses %22novos portugueses%22 em busca de um lugar na sociedade e na economia do país?
Agualusa _
Naturalmente. Como lhe disse esse é um fenômeno novo em Portugal, e está a gerar movimentos de reflexão. Primeiro na música, mas também já na literatura. A Lídia Jorge ou o Francisco José Viegas, e mais recentemente o António Lobo Antunes, também se interessaram por este tema. E há pelo menos um escritor português de origem africana, o Joaquim Arenas, que fez o mesmo num romance chamado A Verdade de Xindo Luz. Em Inglaterra é um tema muito atual.

ZH _ Passado um ano do lançamento da Língua Geral, qual sua avaliação desta primeira fase dessa empreitada editorial? O panorama da interação entre as literaturas de língua portuguesa na Europa, na América e na África é diferente hoje se comparado ao início do projeto, já que a intenção da editora é justamente ampliar essa troca?
Agualusa _
Sim, é diferente. Hoje há no Brasil muito mais interesse pelas literaturas de África. Acho que nós contribuímos um pouco para que isso acontecesse. Veja bem, na última FLIP, a delegação mais forte era a africana, com cinco escritores, e dois Prêmios Nobel. Este aumento de interesse é ótimo, mas obriga-nos a trabalhar mais. Temos de ser mais competitivos.

ZH _ Gonçalo M. Tavares e Mia Couto venceram este ano os dois prêmios literários que mais pagam a escritores importantes no Brasil. É também um sinal desta projeção que a literatura portuguesa feita pelos não-brasileiros vem recebendo no Brasil?
Agualusa _
Sem dúvida alguma. O Brasil está finalmente a descobrir que a nossa língua é muito vasta. Acho isto uma novidade absoluta, este interesse do Brasil pelo espaço da língua portuguesa. Creio que é também um sinal de amadurecimento, o Brasil começa a situar-se no mundo e compreende que só o pode fazer à testa desse bloco que fala a mesma língua e partilha elementos importantes da sua cultura.

ZH _ Em sua recente passagem por Passo Fundo, o moçambicano Mia Couto afirmou que a mais poderosa vertente da literatura portuguesa atual está sendo produzida nos países africanos do idioma. Nomes como o seu, do próprio Mia, de Ondjaki, de Luandino Vieira, comprovam essa afirmação? É a vez do continente africano ocupar um lugar de maior relevância na produção em língua portuguesa?
Agualusa _
Creio que o Mia estaria nesse dia muito otimista. É verdade que os países africanos, e em especial Angola e Moçambique, têm enorme potencial literário. São países com uma grande diversidade étnica e lingüística, ou seja, com uma grande riqueza de culturas, e que saíram recentemente de conflitos prolongados. Não é difícil encontrar grandes temas, enredos interessantes, porque cada pessoa que se encontra na rua tem alguma história para contar. O fato da língua portuguesa conviver no dia a dia com outras línguas contribui para o seu enriquecimento. Finalmente cada um destes países são universos por explorar. É fascinante. Faltam-nos, porém, escritores. Um escritor demora gerações a formar. Implica um investimento continuado na educação básica, na criação de redes de bibliotecas públicas, no apoio à edição, etc.. Nos nossos países, infelizmente, não houve esse investimento. Gonçalo Tavares nasceu em Angola e se não tivesse abandonado o país muito jovem, com os pais, seria hoje angolano. Mas seria escritor? Seria o grande escritor que é? Isso já não tenho a certeza, porque não teria tido aceso aos livros que entretanto leu. Vai levar ainda muitos anos até que nos nossos países se desenvolvam literaturas fortes.

Postado por Carlos André Moreira

Trabalhe a cachola e ganhe um livro

27 de outubro de 2007 8

Divulgação
Como vocês devem ter notado, eu espero, no Caderno da Feira do Livro publicado nesta edição de sábado de Zero Hora, temos uma enormidade de material relativo à Feira do Livro, que se iniciou ontem com a tradicional cerimônia das badaladas do Xerife no Cais do Porto e depois atravessando a rua em direção à Praça da Alfândega.

Pois outra coisa legal que temos neste caderno da Feira é uma promoção que dará um livro a quem responder às perguntas malucas que estaremos fazendo ao longo da Feira nas páginas do Caderno da Feira. Como vocês leram na edição de hoje, nossa primeira pergunta é:

Que livro você compraria do Livreiro de Cabul?

Ponham a cabeça para funcionar e inventem uma resposta com no máximo 300 caracteres na janela de comentários deste post (e deste mesmo, não adianta pôr comentário lá embaixo e depois reclamar). O autor da resposta mais criativas ganha um exemplar do livro O diário Perdido de Don Juan (Suma de Letras, 336 páginas, R$ 42,90).

O livro, escrito pelo norte-americano Douglas Carlton Abrams, é mais uma releitura da história do sedutor Don Juan Tenório, o personagem libertino e libertário que já foi retratado por artistas de alto calibre como o dramaturgo Molière, o compositor Wolfgang Amadeus Mozart e os escritores George Bernard Shaw w José Saramago. Neste livro de Abrams, ambientado na Espanha do século 16, então a grande superpotência do período, don Juan, criado pelas freiras de um convento onde foi abandonado, sonha em se tornar padre até se apaixonar por uma das irmãs. Começa aí – e no escândalo que a descoberta do relacionamento provoca – a carreira do sedutor que dá as costas à Igreja e zomba da divindade. Como o título deixa claro, também, este é um Don Juan mostrado em situação diferente de seu habitual, e portanto o tal diário perdido é uma confissão de que até o mais famoso sedutor pode provar do próprio veneno ao se apaixonar por uma das mulheres que corteja. Vai um trechinho:

Os dois ardíamos de desejo, mas fui devagar, o objetivo era prolongar o delírio. A pele de Fátima tinha gosto de sal e da raspa de limão que ela deve ter usado para se perfumar. O aroma era tão estimulante quanto um refresco de um vendedor de rua. Lentamente desabotoei sua blusa, parando depois de cada botão para que ela tomasse ar. Timidamente ela revelou seus pequenos seios, e fiquei olhando nos seus olhos e então sorri. Ela relaxou, deixou a blusa cair e ergui a minha mão, como se a estivesse todando através do nada. Ela estremeceu. Eu podia sentir seu calor mesmo antes de tocar sua pele. Comedimento é a força que define um verdadeiro caballero, já que qualquer grosseirão pode dar uma estocada, mas apenas um espadachim habilidoso pode demorar-se.

Interessou? Então vai ali no sistema de comentários e deixa a resposta, com um e-mail VÁLIDO para a gente poder entrar em contato contigo. Só valem 300 caracteres, portanto, se um comentário só não servir para tua resposta, diminui. Respostas que continuarem em mais de uma janela serão desconsideraras. Abraço.

Postado por Carlos André Moreira

Petiscos Literários - parte 2

26 de outubro de 2007 0

A escritora Isabel Allende, radicada nos Estados Unidos, tempera com sedução a relação entre comida e literatura, sobretudo no livro Afrodite. %22Como definir um afrodisíaco? Digamos que se trata de qualquer substância ou atividade que desperta o desejo amoroso. (…) Os afrodisíacos são uma ponte entre a gula e a luxúria%22, escreveu Isabel. Para degustar desse tempero, aproveite abaixo uma receita de sopa afrodisíaca, uma criação da Casa das Sopas, em Gramado.

Ingredientes
* 200g de mandioquinha
* 200g de paleta sem osso
* 1 colher (sopa) de ervas de Provence
* 2 colheres (sopa) de vinho tinto
* 16 ovos de codorna
* 3 dentes de alho
* 4 cebolas picadas
* 1 pitada de sal
* 2 litros de água
* 1 tablete de caldo de carne

Modo de preparar
1. Tempere a carne com sal.
2. Doure em uma panela com alho, cebola e pouco óleo.
3. Adicione um pouco de água, até formar um molho escuro.
4. Retire a carne e corte em tirinhas.
5. Coloque o alho e a cebola no liqüidificador até formar um creme escuro.
6. Junte o creme, a carne, a mandioquinha, a água, as ervas e o caldo de carne e deixe ferver.
7. Com o fogo baixo, junte o vinho e os ovos de codorna.


***

Quem não lembra da Tia Anastácia é porque não leu, muito menos viu na televisão o Sítio do Pica-Pau Amarelo. A cozinheira inventada pelo Monteiro Lobato já fritou bolinhos de chuva para o dragão de São Jorge para salvar Narizinho, Pedrinho e Emília. Se deu água na boca, abaixo tem uma receita de bolinhos de chuva com goiabada.

Ingredientes
* 3 xícaras de farinha de trigo
* 1 ovo
* 2 colheres (sopa) de manteiga
* 2 colheres (sopa) de açúcar
* 1 colher (chá) de sal
* raspas de 1 limão
* 1 colher (sopa) de fermento em pó
* 1 xícara de leite
* goiabada
* óleo

Para polvilhar
* açúcar
* canela

Modo de preparar
1. Corte a goiabada em pedaços pequenos.
2. Em uma tigela grande, coloque a farinha de trigo, o sal, o açúcar, o fermento, a manteiga e as raspas de limão e misture.
2. Junte o ovo e o leite, aos poucos, mexendo com uma colher de pau.
3. Quando estiver bem misturado, coloque os pedacinhos de goiabada e misture mais um pouco.
4. A massa estará um pouco grudenta.
5. Coloque um pouco de massa para fritar em óleo não muito quente.
6. Quando o bolinho estiver frito, deve ser colocado sobre um papel-toalha para enxugar um pouco da gordura.
7. Misture açúcar com canela e jogue por cima dos bolinhos.

Postado por Marcelo Mugnol

Os filmes e os livros

25 de outubro de 2007 3

Gael García Bernal é o Rímini do filme de Babenco/Divulgação
Mas Rímini não a leu. Dobrou o envelope em dois e guardou-o no bolso, como faria sempre que Sofía lhe entregasse em mãos algo que escrevera, e Sofía o fitou com tristeza e decepção, como faria sempre que Rímini a privasse de seu prazer mais sublime: contemplar seu rosto enquanto lia o que havia escrito para ele, sem ele, longe dele, só para ele. Não leu diante dela a carta que ela lhe escrevera no Chile, nem a que ela lhe escreveu tempos depois na sala de espera do consultório do homeopata (Estamos decididos, Rímini: vamos lidar como herpes até o final”), nem aquela em que ela pensou mais tarde, com todo o lábio inferior colonizado pela lagarta púrpura, quando o metrô que a levava a um dermatologista fanático por corticóides parou por vinte minutos entre duas estações (“Onde você está, meu amor? Diz que posso contar com você, mas onde está agora, quando preciso de você?”), nem a que ela começou a redigir mentalmente na casa de Frida na noite em que mestra e discípula se reconciliaram, abençoadas por um documentário inglês sobre a linguagem dos surdos (“Apóio a mão em meu coração e depois no seu: a Bruxa diz que duas pessoas como nós não podem se separar”) e tampouco as dez linhas sedentas, completamente desesperadas, com a tinta azul de meia dúzia de palavras borrada pelas lágrimas, que Sofía jurava ter escrito quase quinze anos antes, depois de lhe contar que tinha ido para a cama com Rafael, que nunca lhe dera para ler e que, no entanto, fora guardada no mesmo porta-jóias onde ela guardava a mecha de cabelo de Rímini aos seis anos.

A foto que ilustra este texto e o trecho que dá início a ele têm uma relação direta. O trecho é do labiríntico e arrebatador O Passado, escrito pelo argentino Alan Pauls, lançado este ano pela Cosac Naify. Como dá para percebe já neste pequeno trecho, O Passado é, mais do que uma história de amor, uma obsessiva e minuciosa história de desamor. Rímini, jovem tradutor, vive por 12 anos, praticamente desde a saída da adolescência, com a apaixonada Sofía. Um dia, ambos se separam. Em um primeiro momento, a separação parece correr com aquele toque civilizado das pessoas adultas que costumam ser protagonistas em comédias de Woody Allen: ela o ajuda a escolher apartamento, separam as coisa amigavelmente, mobílias, pertences, quinquilharias, os restos de sua relação.

Ele, dotado de uma passividade enervante, lida com a separação entregando-se ao obsessivo trabalho de tradução e ao ainda mais obsessivo vício da cocaína, consumida à razão de um grama por dia, todos os dias. Inerme demais também para conduzir a separação, ele vai aos poucos fugindo de Sofía e de sua amizade sufocante – e ela, obcecada por ele, torna-se uma sombra autoritária em suavida, disposta a tornar o que resta dessa vida dele sem ela um verdadeiro inferno: Sofía liga, bate à porta, manda recados, insiste histericamente na necessidade de ambos se reunirem para separar as fotos que acumularam durante os 12 anos de vida juntos. Nesse processo, cada vez mais intenso, violento e perigoso, Sofía vai arruinando também os novos relacionamentos aos quais Rímini se entregou: entre eles com uma jovem modelo, Vera, e mais tarde com Carmen, uma colega de trabalho.

Já a foto é uma imagem da adaptação cinematográfica de O Passado, a mais recente película com a assinatura do diretor Hector Babenco. Argentino de nascimento, Babenco pensou inicialmente em transportar a trama para a São Paulo em que reside há anos, mas percebeu que o romance tinha uma atmosfera que não se deixava transplantar com sucesso para o Brasil, e acabou por filmar na mesma Buenos Aires na qual se passa o romance, com um elenco que inclui o mexicano Gael García Bernal. Não vou me estender muito sobre o filme, porque meu colega de jornal Marcelo Perrone já escreveu sobre ele tanto no jornal quanto no blog de cinema do Zero Hora.com, o Primeira Fila (passem lá). Mas essa relação estreita entre cinema e literatura (sobre a qual minha outra colega Patrícia Rocha escreverá mais em breve aqui mesmo no Mundo Livro) me deu a idéia de fazer uma breve enquete com alguns dos meus qualificados colegas de redação. Perguntei a alguns dos joranlistas do Segundo Caderno os cinco filmes que consideram as melhores adaptações para as telas de um livro de ficção. A idéia era justamente que as respostas viessem rápido e que fossem feitas no calor da hora, justamente para manter essa coisa instantânea e até superficial, mas sempre divertida, de elaborar “listas de cinco mais””.

Vão abaixo os resultados dos que me responderam, e eu vou atualizando aos poucos com os que ainda me devem sua lista particular. Ah, sim, e fica o desafio: faça nos comentários sua própria lista ou detone as nossas, afinal, lista também serve para isso.

Cláudia Laitano:
Um Amor de Swann, adaptação de Volker Schloendorff para a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.
O Leopardo, de Lucchino Visconti, adaptado do livro de Giuseppe Tomaso di Lampedusa
Lavoura Arcaica, versão de Luiz Fernando Carvalho para o livro de Raduan Nassar
Morte em Veneza, de Visconti, tirado do clássico de Thomas Mann
O Processo, de Orson Welles.

Daniel Feix:
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, adaptação de William Burroughs
Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, versão para O Coração das Trevas, de Joseph Conrad.
Trinta Anos Esta Noite, de Louis Malle, adaptação de Fogo-Fátuo, de Drieu de La Rochelle.
Viver a Vida, de Jean-Luc Godard, adpatado do livro de Marcel Sacotte
Blow Up, de Antonioni, que toma a idéia do conto As Babas do Diabo, de Júlio Cortázar.

Marcelo Perrone
Vinhas da Ira, de John Ford, adaptando outro John: Steinbeck
Blade Runner, de Ridley Scott, adaptação do romance Sonham os Andróides com Carneiros Elétricos?, de Philip K. Dick.
2001, Uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick, baseado no conto O Sentinela, de Arthur C. Clarke
Fahrenheit 451, de François Truffault, adaptado de Ray Bradbury
O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppolla, tirado do romance de Mario Puzo.