
Mas Rímini não a leu. Dobrou o envelope em dois e guardou-o no bolso, como faria sempre que Sofía lhe entregasse em mãos algo que escrevera, e Sofía o fitou com tristeza e decepção, como faria sempre que Rímini a privasse de seu prazer mais sublime: contemplar seu rosto enquanto lia o que havia escrito para ele, sem ele, longe dele, só para ele. Não leu diante dela a carta que ela lhe escrevera no Chile, nem a que ela lhe escreveu tempos depois na sala de espera do consultório do homeopata ("Estamos decididos, Rímini: vamos lidar como herpes até o final"), nem aquela em que ela pensou mais tarde, com todo o lábio inferior colonizado pela lagarta púrpura, quando o metrô que a levava a um dermatologista fanático por corticóides parou por vinte minutos entre duas estações ("Onde você está, meu amor? Diz que posso contar com você, mas onde está agora, quando preciso de você?"), nem a que ela começou a redigir mentalmente na casa de Frida na noite em que mestra e discípula se reconciliaram, abençoadas por um documentário inglês sobre a linguagem dos surdos ("Apóio a mão em meu coração e depois no seu: a Bruxa diz que duas pessoas como nós não podem se separar") e tampouco as dez linhas sedentas, completamente desesperadas, com a tinta azul de meia dúzia de palavras borrada pelas lágrimas, que Sofía jurava ter escrito quase quinze anos antes, depois de lhe contar que tinha ido para a cama com Rafael, que nunca lhe dera para ler e que, no entanto, fora guardada no mesmo porta-jóias onde ela guardava a mecha de cabelo de Rímini aos seis anos.
A foto que ilustra este texto e o trecho que dá início a ele têm uma relação direta. O trecho é do labiríntico e arrebatador O Passado, escrito pelo argentino Alan Pauls, lançado este ano pela Cosac Naify. Como dá para percebe já neste pequeno trecho, O Passado é, mais do que uma história de amor, uma obsessiva e minuciosa história de desamor. Rímini, jovem tradutor, vive por 12 anos, praticamente desde a saída da adolescência, com a apaixonada Sofía. Um dia, ambos se separam. Em um primeiro momento, a separação parece correr com aquele toque civilizado das pessoas adultas que costumam ser protagonistas em comédias de Woody Allen: ela o ajuda a escolher apartamento, separam as coisa amigavelmente, mobílias, pertences, quinquilharias, os restos de sua relação.
Ele, dotado de uma passividade enervante, lida com a separação entregando-se ao obsessivo trabalho de tradução e ao ainda mais obsessivo vício da cocaína, consumida à razão de um grama por dia, todos os dias. Inerme demais também para conduzir a separação, ele vai aos poucos fugindo de Sofía e de sua amizade sufocante – e ela, obcecada por ele, torna-se uma sombra autoritária em suavida, disposta a tornar o que resta dessa vida dele sem ela um verdadeiro inferno: Sofía liga, bate à porta, manda recados, insiste histericamente na necessidade de ambos se reunirem para separar as fotos que acumularam durante os 12 anos de vida juntos. Nesse processo, cada vez mais intenso, violento e perigoso, Sofía vai arruinando também os novos relacionamentos aos quais Rímini se entregou: entre eles com uma jovem modelo, Vera, e mais tarde com Carmen, uma colega de trabalho.
Já a foto é uma imagem da adaptação cinematográfica de O Passado, a mais recente película com a assinatura do diretor Hector Babenco. Argentino de nascimento, Babenco pensou inicialmente em transportar a trama para a São Paulo em que reside há anos, mas percebeu que o romance tinha uma atmosfera que não se deixava transplantar com sucesso para o Brasil, e acabou por filmar na mesma Buenos Aires na qual se passa o romance, com um elenco que inclui o mexicano Gael García Bernal. Não vou me estender muito sobre o filme, porque meu colega de jornal Marcelo Perrone já escreveu sobre ele tanto no jornal quanto no blog de cinema do Zero Hora.com, o Primeira Fila (passem lá). Mas essa relação estreita entre cinema e literatura (sobre a qual minha outra colega Patrícia Rocha escreverá mais em breve aqui mesmo no Mundo Livro) me deu a idéia de fazer uma breve enquete com alguns dos meus qualificados colegas de redação. Perguntei a alguns dos joranlistas do Segundo Caderno os cinco filmes que consideram as melhores adaptações para as telas de um livro de ficção. A idéia era justamente que as respostas viessem rápido e que fossem feitas no calor da hora, justamente para manter essa coisa instantânea e até superficial, mas sempre divertida, de elaborar "listas de cinco mais"".
Vão abaixo os resultados dos que me responderam, e eu vou atualizando aos poucos com os que ainda me devem sua lista particular. Ah, sim, e fica o desafio: faça nos comentários sua própria lista ou detone as nossas, afinal, lista também serve para isso.
Cláudia Laitano:
Um Amor de Swann, adaptação de Volker Schloendorff para a primeira parte de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust.
O Leopardo, de Lucchino Visconti, adaptado do livro de Giuseppe Tomaso di Lampedusa
Lavoura Arcaica, versão de Luiz Fernando Carvalho para o livro de Raduan Nassar
Morte em Veneza, de Visconti, tirado do clássico de Thomas Mann
O Processo, de Orson Welles.
Daniel Feix:
Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick, adaptação de William Burroughs
Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, versão para O Coração das Trevas, de Joseph Conrad.
Trinta Anos Esta Noite, de Louis Malle, adaptação de Fogo-Fátuo, de Drieu de La Rochelle.
Viver a Vida, de Jean-Luc Godard, adpatado do livro de Marcel Sacotte
Blow Up, de Antonioni, que toma a idéia do conto As Babas do Diabo, de Júlio Cortázar.
Marcelo Perrone
Vinhas da Ira, de John Ford, adaptando outro John: Steinbeck
Blade Runner, de Ridley Scott, adaptação do romance Sonham os Andróides com Carneiros Elétricos?, de Philip K. Dick.
2001, Uma Odisséia no Espaço de Stanley Kubrick, baseado no conto O Sentinela, de Arthur C. Clarke
Fahrenheit 451, de François Truffault, adaptado de Ray Bradbury
O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppolla, tirado do romance de Mario Puzo.
O que andam dizendo