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Antônio Filho de Paulo

15 de novembro de 2007 1

Uma das perguntas recorrentes que se ouve na redação quando se está escrevendo algo sobre literatura russa é “Como é que se escreve Tchekhov?” – referência ao mestre russo do conto Anton Pavlovitch Tchekhov. Uma circunstância difícil de reproduzir por escrito porque no próprio processo de contar o causo neste texto eu já escolhi uma grafia para que vocês soubessem do que estou falando. Mas vamos adiante.

Nossa opinião nesses casos em que o nome no nosso idioma não obedece a uma pronúncia diferente, apenas, mas a um alfabeto completamente diverso, costuma seguir a dos tradutores mais credenciados. É assim para o chinês, é assim para o árabe, é assim para o russo, mas não pensem que é uma tarefa fácil quando nem os próprios tradutores se entendem muito bem, e ao longo dos anos tivemos no Brasil – quem freqüenta sebos sabe – a grafia do nome oscilando entre Tchecov, Tschecov, Tchekov, Tchekhov, TcheckovChecov, Chekov, Chekhov, e ainda multipliquem esse número por dois se formos contar as mesmas grafias com um acento no E: Tchékhov, por exemplo. Muito dessa falta de padrão pode ser atribuída ao fato de que a tradução do russo entre nós foi, ao longo do século 20, indireta, ou seja, feita a partir de versões inglesas, francesas e às vezes espanholas. Mas não é a única explicação, como veremos agora.

Uma das mais respeitadas tradutoras do russo para o português, por exemplo, Tatiana Belinky, já traduziu Tchekhov para três edições diferentes, todas diretamente do russo. Numa delas, na antiga coleção Clássicos de Bolso da Ediouro, O Malfeitor e Outros Contos da Velha Rússia, sem data na edição que eu tenho aqui comigo, mas comprada nos anos 1990 num sebo, portanto deve ser algo antiga, a capa identifica o escritor como Tschecov. Poderia ser uma questão de padronização da editora, mas Belinky em seu artigo crítico à guisa de prefácio, como se dizia antigamente, usa a mesma grafia. O irônico é que nas últimas páginas do livro há uma relação de outras obras de literatura russa publicadas na mesma coleção, lista essa ilustrada com uma foto famosa em que estão juntos Tolstói, Górki e Tchekhov, e na legenda dessa foto, a grafia usada para identificar o escritor é aquela com a qual eu comecei esse texto, com T inicial, K no meio seguido de H.

Já o livro Lendo Tchekov, da autora Janet Malcolm, também editado pela Ediouro em 2005, é um estudo biográfico sobre a vida, o tempo e os lugares por onde o autor passou em sua vida (1860 – 1904). Ao fim do volume, a edição nacional compila 37 contos, a maioria mencionados no texto de Malcolm, também traduzidos diretamente por Belinky, e o autor, como dá para ver no título do livro, teve seu nome modificado de novo. O H do meio e o S depois do T inicial sumiram.

E por último, Belinky é a responsável pela tradução do recém lançado Um Homem Extraordinário e Outras Histórias, que acaba de ser publicado pela L&PM reunindo 18 contos em edição de bolso. A tradutora novamente apresenta o autor em um texto que abre o volume, e agora a grafia usada é Tchekhov. Que se diga que isso pelo menos sinaliza para uma chance de ordem nessa barafunda, já que Belinky opta agora pela grafia que também vem sendo usada pela maioria das edições recentes preparadas por outros outros respeitados tradutores como Paulo Bezerra e Bóris Schnáiderman, que verteram contos e peças do autor russo para editoras como a Cosac Naify e a 34.

E embora não traga o NOME do escritor, o vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras, o documento que registra a grafia oficial na nossa língua de todas as palavras do idioma – e que todos vocês podem consultar neste endereço –, registra o adjetivo tchekhoviano, sinalizando também uma escolha. Ah, sim, e se alguém ainda quer saber a resposta para a pergunta do início, aqui no jornal nosso padrão costuma ser, pelas razões que expliquei acima, Tchekhov.

Comentários (1)

  • Lari diz: 16 de novembro de 2007

    bóje moi! skolko narod! (ou era boje mói? esqueci…) ;)

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