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Tradução e Reação

15 de novembro de 2007 7

E já que eu falei no lançamento de O Homem Extraordinário e outras histórias, finalmente tenho a oportunidade de fazer uma brincadeira que já vinha pensando para partilhar com vocês aqui no blogue: comparar diferentes traduções de uma mesma obra, o que obviamente, é mais fácil de fazer com textos clássicos, já que livros mais recentes nem sempre têm duas edições por casas daqui, e quando têm nem sempre eu tenho as duas. Mas agora podemos fazer isso com esse novo lançamento, da L&PM.

Para quem não sabe porque eu estou falando tanto de Tchekhov, primeiro esclareço que ele foi médico, produziu mais de 500 histórias dentre as quais bem mais de uma centena são de legítimas obras-primas do gênero. As histórias de Tchekhov raramente desenvolvem grandes arcos, como é comum no conto norte-americano, por exemplo, e sim flagram instantes, iluminam cenas, registram breves flutuações numa situação cotidiana, muitas vezes eivada de melancolia e tristeza.

Tchekhov sempre foi muito popular e teve diversas edições no Brasil – eu mesmo tenho espalhados por aí outros dois exemplares diferentes com seleções de seus contos, que não pude usar para a consulta que pretendo fazer agora. Mas minha idéia é só comparar traduções de um mesmo trecho, até como forma de vermos como o que se chama de “estilo” de um autor, no caso de estrangeiros, muitas vezes pode ser resultado da interferência de um tradutor com suas escolhas, que sempre serão sutilmente diversas das de outro. Algumas vezes, as escolhas de um podem tornar algo mais ou menos compreensível do que a de outro. Peguemos o caso do conto O Sapateiro e a Força Maligna, incluído no volume de bolso esse da L&PM. Na tradução de Tatiana Belinky incluída em O Homem Extraordinário a história começa assim:

Era véspera de Natal. Mária havia muito tempo que roncava sobre a estufa, na lamparina o querosene já queimara todo, mas Fiódor Nílov ainda continuava trabalhando. Por ele, há muito tempo que já teria largado o trabalho e saído para a rua, mas o freguês da travessa Kolokólni, que lhe encomendara biqueiras duas semanas atrás, viera ontem, reclamara e ordenara que terminasse as botas sem falta agora, antes das matinas.
– Galé da Vida! – resmungava Fiódor, trabalhando – Uns há muito que já dormem, outros passeiam, mas tu, como um Caim qualquer, tens de ficar sentado, costurando para sabe o diabo quem…

Já na tradução de Boris Schnaiderman incluída na antologia Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa e publicada pela Editora Nova Fronteira, o mesmo trecho está assim:

Era véspera de Natal. Fazia tempo que Mária roncava sobre o fogão. Todo o querosene queimara-se na lamparina, mas Fiódor Nílov continuava sentado, trabalhando. Teria deixado há muito o trabalho e saído para a rua, mas o freguês do Beco dos Sinos, que lhe encomendara, duas semanas atrás, uns canos de bota, viera na véspera, discutira mandara concluir a encomenda, sem falta, ainda antes da Missa do Galo.
– Vida de forçado! – rosnou Fiódor, trabalhando – Uns estão dormindo faz muito tempo, outros estão passando, e você tem que ficar sentado aí, como Caim, cosendo couro, diabo sabe para quem…

Como vocês vêem, embora seja exatamente a mesma cena, algumas diferenças se fazem sentir – a maior delas para a minha brutal ignorância é que, a não ser que eu esteja errado, o que sempre é muito possível, “canos” de botas e “biqueiras” de botas são coisas diferentes, não?

Comentários (7)

  • Cássia diz: 23 de novembro de 2007

    Machado é tão bom, mas tão bom, que a fluidez do texto não é do século 19 ;-)

  • Tatiana Klix diz: 16 de novembro de 2007

    Fogão e estufa também, né?

  • Rafael Pimentel Müller diz: 18 de novembro de 2007

    Bah, muito legal este post. Sempre fiquei me perguntando qual a influência que a tradução tem no texto final. Realmente, há diferenças. Particularmente gostei mais do trecho por Boris Schnaiderman. Que bom que os textos de Saramago, por exemplo, temos a oportunidade de ler sem tradução.

    Abraçosss

  • Maria Valéria de Lima Schneider diz: 16 de novembro de 2007

    Também adorei a brincadeira. Mais uma vez, sanastes uma curiosidade minha, Carlos. Esperarei a próxima semana! Qual das duas traduções vcs mais apreciaram? Eu gostei da de Boris: me pareceu mais fluida, uma linguagem mais atual…

  • Lari diz: 16 de novembro de 2007

    adorei a brincadeira! tem mais? :)

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