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Katando Kaváfis

21 de novembro de 2007 0

O velho poeta
Uma das personagens fundamentais da tetralogia Quarteto de Alexandria, que saiu no ano passado em edição nacional com tradução do escritor Daniel Pelizzari, não dava as caras no romance a não ser indiretamente. Embora não fosse um dos personagens enredados na ciranda de amores e desejos que o autor Lawrence Durrell arma na sensual e quente cidade mediterrânea, o poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933) percorre as páginas dos quatro romances como uma presença sólida, discernível não apenas em algumas das reflexões levadas a cabo pelos personagens, mas citado nominalmente por sua identificação umbilical com a cidade em que viveu a maior parte de sua vida. Poucas vezes Kaváfis, ou Κωνσταντίνος Καβάφης, aparece com seu nome completo, o narrador prefere se referir a ele como %22o velho%22, %22o poeta%22 ou a combinação %22o velho poeta%22, como se pode ver no trecho abaixo, extraído do primeiro volume, Justine:

Então fui convencido a dar uma palestra sobre o poeta da cidade no Atelier des Beaux Arts – uma espécie de clube onde os artistas diletantes mais dedicados podiam se encontrar, alugar estúdios e assim por diante. Aceitei o convite porque o dinheiro me possibilitaria comprar um casaco novo para Melissa; aproximava-se o outono. Entretanto, para mim, aquilo era penoso. Posso dizer que me sentia cercado pelo velho, como se as ruas sombrias nos arredores da sala de conferências estivessem impregnadas com o perfume dos versos destilados daqueles amores miseráveis mas gratificantes que ele experimentara – amores que podem ter sido comprados com dinheiro, de duração muito breve, mas que ainda assim sobrevivem em seus versos _ capturando com dedicação e ternura sua existência fugaz, tornando indeléveis suas cores. Que impertinência falar sobre um ironista que, de forma tão natural e com instintos tão refinados, extraíra sua matéria-prima das ruas e dos bordéis de Alexandria! E mais, falar não para um público de comerciantes de miudezas e balconistas de armarinho – aqueles que escolheu para imortalizar –, mas para uma assembléia circunspecta de damas da sociedade, que encaravam a cultura representada pelo velho poeta como uma espécie de banco de sangue: estavam ali em busca de uma transfusão.

O que nem todo mundo que já leu essa nova versão do Quarteto… teve oportunidade foi de tomar contato com a poesia original de Kaváfis, uma chance que surge com o lançamento recente de Konstantínos Kaváfis: 60 Poemas. Uma coletânea de (dãããã!) 60 poemas de Kaváfis, traduzidos e selecionados por Trajano Vieira. no qual se pode notar a intensidade de Kaváfis, seu sublime apelo a um paganismo decadentista que o fazia dialogar com ao mesmo tempo que destoava do iluminista século 19. Os poemas quase todos dialogam com temas históricos e mitológicos das Antiga Grécia, como elegias a um mundo morto que refinado Kaváfis considerava abatido pelo dominante e rude cristianismo. Vai abaixo um dos poemas dessa seleção. Ah, um detalhe ainda mais interessante para os interessados na cultura grega: os poemas foram editados pela Ateliê Editorial no original em grego e na tradução. Óbvio que por questões de alfabeto diferente não vou colocar aqui a versão em grego:

O DOUTO… A APROXIMAÇÃO

Homens sabem o que ocorre.
O vindouro, sabem-no os deuses,
únicos detentores dos fachos, todos eles, plenos.
Do vindouro, o douto pressente
a aproximação. Horas a fio

de estudo circunspecto e, num átimo, um surto
na audição. Rumor de enigma
vem-lhe dos fenômenos, que o rondam.
O zelo impede que se desvie. Nesse ínterim, lá fora,
na rua, surda, nada escuta a chusma

Postado por Carlos André Moreira

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