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Tradução e Reação - 2

22 de novembro de 2007 9

Bem-vindos, crianças. Depois de algum tempo encarando uns trabalhos pedreiras no jornal impresso, consigo voltar aqui e continuar com nossa muito bem recebida brincadeira de tradução comparada – como eu prometi, teremos uma dessas por semana daqui por diante até quando eu conseguir providenciar material de comparação nas minhas estantes. Faço melhor, até, aceito dicas dos nossos bravos leitores sobre traduções da mesma obra para o português que possam ser comparadas. A janela de comentários é de vocês.

Como bem disse o leitor Rafael Pimentel Müller ao comentar a comparação anterior, é uma questão interessante saber qual a influência da tradução na fluência interna (in-fluência?) do texto que nos chega. Principalmente quando o autor do original é alguém que deu uma nova dimensão ao que se considera o estilo de um autor, como é o caso de nosso escritor analisado hoje: Gustave Flaubert (1821 – 1880).

Flaubert foi um artesão que elevou os parâmetros do que se considera o fazer literário a tal nível de perfeição e excelência que sua maestria no manejo de linguagem é hoje a principal característica associada a sua obra, suplantando até mesmo a forma precisa e refinada como ele mapeou o horizonte sentimental e psicológico de suas criaturas, em particular a mais apaixonante delas: Madame Bovary. Uma obra que vem sendo traduzida sistematicamente no Brasil desde pelo menos os anos 1930, há várias edições e versões variadas, e por isso vou me concentrar somente em três, uma mais antiga, uma de uma década atrás e uma bem recente, lançada pela editora Nova Alexandria e que traz uma deliciosa curiosidade histórica: o texto do processo  movido contra Flaubert pelo Advogado Imperial francês em 1856, acusando-o de ultraje à moral pública e religiosa e aos bons costumes. São quase 70 páginas com as alegações das duas partes e a sentença do tribunal que por fim terminou por absolver o escritor. É por essa tradução mais recente, feita por Fúlvia M.L. Moretto, que começamos, transcrevendo abaixo o trecho inicial da magistral descrição que abre o romance: a chegada à escola do tosco e roceiro garoto que mais tarde será o médico Charles Bovary, o marido traído de Emma:

Imóvel num canto, atrás da porta, de modo que mal o percebíamos, o novato era um rapaz do campo, de uns quinze anos, e mais alto do que qualquer um de nós. Tinha os cabelos cortados rentes na testa, como um chantre de aldeia, e um ar sensato e muito embaraçado. Embora não tivesse os ombros largos, seu paletó de lã verde com botões pretos devia incomodá-lo nas cavas e deixava perceber, pela abertura dos canhões, pulsos vermelhos acostumados a andar nus. Suas pernas, com meias azuis, saíam de uma calça amarelada, muito repuxada pelos suspensórios. Calçava sapatos grossos, mal engraxados, guarnecidos de pregos.

Agora vejamos como a mesma descrição do tímido e campônio Charles Bovary foi vertida para o português por Sérgio Duarte numa edição de Madame Bovary que saiu na Biblioteca Folha, série de livros que a Folha de São Paulo deu como brinde com suas edições dominicais no ano de 1998 (caramba, aquilo já faz 10 anos!). A tradução, contudo, foi feita por Duarte para a Ediouro, em sua coleção de clássicos, e depois renegociada para sair na biblioteca Folha. Nessa edição, o mesmo trecho fica assim:

De pé no canto da parede, por trás da porta, de modo que dificilmente podia ser visto inteiramente, estava o novato. Era um rapazinho do campo de uns quinze anos se tanto, mais alto que qualquer um de nós. Tinha o cabelo cortado rente sobre a fronte, como um padre da cidade, a expressão simpática e acanhada. Embora não tivesse os ombros largos, o paletó verde, de botões pretos, apertava-o nas costuras e deixava ver, pelas fendas, punhos vermelhos habituados ao contato do sol. As pernas, vestidas de meias azuis, saíam de calças amarelas já um tanto gastas. Calçava sapatos grossos, mal engraxados e ferrados nas solas.

Como vocês podem ver, há uma sensível diferença embora o essencial esteja ali. Mas o ritmo das frases às vezes é outro, alguns termos no plural viram singular e vice-versa, uma frase que no primeiro trecho era inteira é cortada ao meio por um ponto na segunda. Prestem atenção no termo que eu sublinhei e pus em negrito. Voltaremos a ele após passarmos pelo terceiro trecho, datado de 1971 (mais velho que eu), incluído na coleção Os Imortais da Literatura Universal da Abril Cultural, aquela coleção de capa dura vermelha com uns frisos dourados que muito ainda se acha em sebos e que todo mundo tem um parente mais antigo que tem em casa (na minha família era na casa do meu avô). A tradução, de Araújo Nabuco, era ainda mais antiga, feita para a Livraria Martins Editora, que cedeu a publicação para a coleção da Abril naquele ano. Mantive, a propósito, até a acentuação que está no livro. Vejamos como fica:

A um canto, atrás da porta, mal podíamos ver o novato. Era um rapaz do campo de quinze anos mais ou menos, mais alto que qualquer de nós, os cabelos rentes sôbre a testa, como um sacristão de aldeia, um aspecto compenetrado e acanhadíssimo. Embora não fôsse espadaúdo, a jaqueta verde de botões prêtos, muito apertada nas ombreiras, devia incomodá-lo. Pela abertura das mangas, viam-se dois punhos vermelhos, acostumados à nudez. As pernas, enfiadas em meias azuis, saíam-lhe dumas calças amareladas muito repuxadas pelos suspensórios. Calçava uns sapatos grosseiros, mal engraxados e reforçados com pregos.

Vejam como as coisas mudam de novo. E percebe-se que, apesar das divergências de interpretação, as duas traduções mais similares são a primeira e a terceira, pois traduzem determinadas expressões que o trabalho de Duarte prefere ignorar, substituindo por outra coisa, como o “muito gastas” para as calças, que nas duas outras são calças velhas e largas e também gastas, razão pela qual são repuxadas pelos suspensórios. A mesma palavra foi destacada outra vez por mim porque a comparação entre os três textos mostra que, na hora de traduzir a metáfora escolhida por Flaubert, cada tradutor preferiu escolher um posto diferente na estrutura da igreja: sacristão na terceira, padre na segunda – que como sabemos não são a mesma coisa – e “chantre” na primeira. Chantre é definido pelo Aurélio como: “Funcionário eclesiástico que dirige o coro”, o que vem a ser uma terceira coisa diferente das outras duas. Seria o caso de ir ao original francês e ver a palavra que o próprio Flaubert usou. Vamos lá, então, ao trecho original:

Resté dans l`angle, derrière la porte, si bien qu`on l`apercevait à peine, le nouveau était un gars de la campagne, d`une quinzaine d`années environ, et plus haut de taille qu aucun de nous tous Il avait les cheveux coupés droit sur le front comme un chantre de village, l`air raisonnable et fort embarrassé. Quoiqu`il ne fût pas large des épaules, son habit-veste de drap vert à boutons noirs devait le gêner aux entournures, et laissait voir, par la fente des parements des poignets rouges habitués à être nus. Ses jambes en bas bleus sortaient d un pantalon jaunâtre très-tiré par les bretelles Il était chaussé de souliers forts, mal cirés, garnis de clous.

Batata, Flaubert usa o chantre que, mesmo incluído em um dicionário de nosso idioma, é de origem francesa, então seria mais lógico que estivesse no original.

E para vocês? Qual a melhor versão? Comentários nos comentários – não diga.

Comentários (9)

  • Larissa diz: 22 de novembro de 2007

    num mundo ideal, leríamos só os originais! ;)

  • Larissa diz: 22 de novembro de 2007

    traduzir é fazer um novo livro… falando em tradutores, comecei “o passado”. beijo

  • Maria Valéria de Lima Schneider diz: 22 de novembro de 2007

    Olá, Carlos. Gostei, mais uma vez, da “brincadeira”. Puxa, estou em dúvida cruel, mas, evitando passar por esse “stress”, escolherei igualmente a primeira e a terceira. Quando me decidir, lhe falo. Sugestão: Pergunte ao Pó. Abraços! Larissa: concordo contigo.

  • denise bottmann diz: 19 de abril de 2008

    essa tradução do araújo nabuco foi publicada no maior plágio descarado, literalmente, pela l&pm e pela edit. nova cultural, atribuind-a a um certo “enrico corvisieri”.
    é um descalabro. e sabe o que a l&pm disse, diante do desmascaramento do plágio? “ah, o contrato de publicação dessa edição está terminando agora em janeiro de 2008″. durante 5 anos, a l&pm editou e reeditou na maior cara de pau a tradução do araújo nabuco atribuindo a outro nome! que cara de pau!

  • Rafael Pimentel Müller diz: 26 de novembro de 2007

    Fico com a segunda tradução, apesar de dar um valor especial à primeira que manteve a palavra “chantre”. Até que ponto o tradutor toma liberdade de um texto original? Sem dúvida traduzir

  • carlos orellana diz: 7 de dezembro de 2007

    Outra obra essencial de Flaubert é Bouvard e Pécuchet, obra incompleta que revela os desafios de dois homens que tentam compreender o mundo numa jornada de infortúnios e de ilusões. Guia prático quem quer ler Flaubert e o Realismo, além de Madame Bovary.

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