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Tradução e reação - 3

29 de novembro de 2007 4

Por ter uma estrutura mais direta, pragmática, com menos exceções e peculiaridades que os idiomas latinos, o inglês costuma ser alvo da idéia errada de que é uma língua mais fácil. Como é também a língua mais falada no mundo hoje, pode também dar a impressão de que traduzi-la é uma barbada, o que pode ser verdade para algum artigo curtinho do New York Times mas dificilmente se aplica a alguns dos mestres do idioma, entre eles o americano Edgar Allan Poe.

Escolhi Poe para mais uma etapa de nossa brincadeira comparativa de traduções (sim, ela vai para o ar todas as quintas, eu não posso é prometer um horário) porque falar de tradução no caso de Poe é praticamente inevitável. Muito do reconhecimento mundial que o autor de Os Assassinatos da Rua Morgue granjeou logo após sua morte ainda jovem, vítima do alcoolismo, se deve à tradução para o francês e à apreciação crítica dos contos do americano feita por Charles Baudelaire. Até hoje muitas edições de Poe, embora traduzam suas obras direto do inglês, seguem a ordem e as escolhas de Baudelaire ao traduzir e editar Les Contes du Grotesque et de lArabesque. É de um volume desses que tiro a história de hoje a ser comparada com outra edição, mais recente e ainda disponível nas livrarias. Num post que fala sobre similitudes e diferenças entre duas versões do mesmo texto, nada melhor do que examinar duas traduções de William Wilson, um dos contos nos quais Poe fantasia o tema do duplo.

O primeiro trecho, retiro-o de uma edição de 1981 de Histórias Extraordinárias, publicada pela Abril Cultural numa coleção de capa dura que se vendia a preços acessíveis e que até hoje é muito fácil de achar em sebos (o meu exemplar foi comprado em 1994 em uma banca de revistas que estava fazendo um saldo de volumes antigos dessa coleção, ali na Marechal Floriano, perto da esquina com a Salgado Filho). A tradução das histórias foi feita por um grupo coordenado por Brenno Silveira, e a versão do conto William Wilson vem assinada por Berenice Xavier:

Minhas primeiras impressões da vida de estudante ligam-se a uma vasta e extravagante casa do estilo elisabetano numa aldeia sombria  da Inglaterra, decorada de numerosas árvores gigantescas e nodosas e da qual todas as casas eram excessivamente antigas. Parecia, na verdade, um lugar de sonho, essa velha cidade venerável, bem própria para encantar o espírito. Neste momento, mesmo, sinto na imaginação o estremecimento do frescor de suas avenidas profundamente sombreadas, respiro as emanações de seus mil bosques e tremo ainda com uma indefinível volúpia à nota profunda e surda do sino, rompendo, a cada hora, com seu rugir súbito e moroso, a quietude da atmosfera sombria na qual se enterrava e adormecia o campanário gótico todo denteado.

Eu num dos comentários recentes eu justamente perguntava, sem ter resposta, qual o procedimento mais aceitável para um autor que procura traduzir umtexto do século 19. Ele deve soar como o português do século 19 ou como algo mais atual? Claro que em obras de gênio como as de Poe o processo talvez se torne mais fácil porque um de seus textos sempre terá algo a dizer para nossos contemporâneos, mas a questão do tom permanece. Vamos comparar o excerto acima com a tradução feita por Oscar Mendes para a coletânea Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa, publicada há uns três anos pela Nova Fronteira:

Minhas mais remotas recordações da vida escolar estão ligadas a uma grande e extravagante casa de estilo elisabetano numa nevoenta aldeia da Inglaterra, onde havia grande quantidade de árvores gigantescas e onde todas as casas eram extremamente antigas. Na verdade, aquela venerável e velha cidade era um lugar de sonho e repouso para o espírito. Neste instante mesmo, sinto na imaginação o arrepio refrescante de suas avenidas intensamente sombreadas, respiro a fragrância de seus mil bosquetes e estremeço ainda, com indefinível prazer, à lembrança do som cavo e profundo do sino da igreja quebrando a cada hora, com súbito e soturno estrondo, a placidez da atmosfera fusca em que se embebia e adormecia o gótico campanário ornado de gregas.

Como se pode ver, novamente temos o caso de uma cena que é a mesma mas tem uma série de sutis diferenças que quase a transformam em uma outra descrição da mesma cena. Por uma dessas ironias, a mim o segundo trecho, mais recente, parece um pouco mais rebuscado, mais antigo, um tom mais solene. Mas pode ser só impressão minha. Vamos agora conferir com o original:

My earliest recollections of a school-life, are connected with a large, rambling, Elizabethan house, in a misty-looking village of England, where were a vast number of gigantic and gnarled trees, and where all the houses were excessively ancient. In truth, it was a dream-like and spirit-soothing place, that venerable old town. At this moment, in fancy, I feel the refreshing chilliness of its deeply-shadowed avenues, inhale the fragrance of its thousand shrubberies, and thrill anew with undefinable delight, at the deep hollow note of the church-bell, breaking, each hour, with sullen and sudden roar, upon the stillness of the dusky atmosphere in which the fretted Gothic steeple lay imbedded and asleep.

E vocês, o que acharam?

Comentários (4)

  • Larissa Roso diz: 29 de novembro de 2007

    fico com a primeira, sem dúvida. “bosquetes” e “atmosfera fusca”… passo.

  • Marcelo Xavier diz: 30 de novembro de 2007

    Isso me lembra da primeira tradução que eu li de “A Metamorfose”, que dizia que Gregor se escondia embaixo de um sofá. Na tradução do Modesto Carone, da Brasiliense, ele traduziu como “canapé”. Bem, existe uma diferença considerável…

  • Rafael Pimentel Müller diz: 3 de dezembro de 2007

    Também fico com a segunda. Nossa, como é possível a tradução modificar de tal modo, trocando objetos e até mesmo alterando a atmosfera do texto original?

    Abraçosssss

  • Marcelo Xavier diz: 6 de dezembro de 2007

    Atmosfera fusca ficou muito cool, me lembra quando eu li Viajante Solitário numa edição portuguesa…

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