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Posts de novembro 2007

Tradução e reação - 3

29 de novembro de 2007 4

Por ter uma estrutura mais direta, pragmática, com menos exceções e peculiaridades que os idiomas latinos, o inglês costuma ser alvo da idéia errada de que é uma língua mais fácil. Como é também a língua mais falada no mundo hoje, pode também dar a impressão de que traduzi-la é uma barbada, o que pode ser verdade para algum artigo curtinho do New York Times mas dificilmente se aplica a alguns dos mestres do idioma, entre eles o americano Edgar Allan Poe.

Escolhi Poe para mais uma etapa de nossa brincadeira comparativa de traduções (sim, ela vai para o ar todas as quintas, eu não posso é prometer um horário) porque falar de tradução no caso de Poe é praticamente inevitável. Muito do reconhecimento mundial que o autor de Os Assassinatos da Rua Morgue granjeou logo após sua morte ainda jovem, vítima do alcoolismo, se deve à tradução para o francês e à apreciação crítica dos contos do americano feita por Charles Baudelaire. Até hoje muitas edições de Poe, embora traduzam suas obras direto do inglês, seguem a ordem e as escolhas de Baudelaire ao traduzir e editar Les Contes du Grotesque et de lArabesque. É de um volume desses que tiro a história de hoje a ser comparada com outra edição, mais recente e ainda disponível nas livrarias. Num post que fala sobre similitudes e diferenças entre duas versões do mesmo texto, nada melhor do que examinar duas traduções de William Wilson, um dos contos nos quais Poe fantasia o tema do duplo.

O primeiro trecho, retiro-o de uma edição de 1981 de Histórias Extraordinárias, publicada pela Abril Cultural numa coleção de capa dura que se vendia a preços acessíveis e que até hoje é muito fácil de achar em sebos (o meu exemplar foi comprado em 1994 em uma banca de revistas que estava fazendo um saldo de volumes antigos dessa coleção, ali na Marechal Floriano, perto da esquina com a Salgado Filho). A tradução das histórias foi feita por um grupo coordenado por Brenno Silveira, e a versão do conto William Wilson vem assinada por Berenice Xavier:

Minhas primeiras impressões da vida de estudante ligam-se a uma vasta e extravagante casa do estilo elisabetano numa aldeia sombria  da Inglaterra, decorada de numerosas árvores gigantescas e nodosas e da qual todas as casas eram excessivamente antigas. Parecia, na verdade, um lugar de sonho, essa velha cidade venerável, bem própria para encantar o espírito. Neste momento, mesmo, sinto na imaginação o estremecimento do frescor de suas avenidas profundamente sombreadas, respiro as emanações de seus mil bosques e tremo ainda com uma indefinível volúpia à nota profunda e surda do sino, rompendo, a cada hora, com seu rugir súbito e moroso, a quietude da atmosfera sombria na qual se enterrava e adormecia o campanário gótico todo denteado.

Eu num dos comentários recentes eu justamente perguntava, sem ter resposta, qual o procedimento mais aceitável para um autor que procura traduzir umtexto do século 19. Ele deve soar como o português do século 19 ou como algo mais atual? Claro que em obras de gênio como as de Poe o processo talvez se torne mais fácil porque um de seus textos sempre terá algo a dizer para nossos contemporâneos, mas a questão do tom permanece. Vamos comparar o excerto acima com a tradução feita por Oscar Mendes para a coletânea Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa, publicada há uns três anos pela Nova Fronteira:

Minhas mais remotas recordações da vida escolar estão ligadas a uma grande e extravagante casa de estilo elisabetano numa nevoenta aldeia da Inglaterra, onde havia grande quantidade de árvores gigantescas e onde todas as casas eram extremamente antigas. Na verdade, aquela venerável e velha cidade era um lugar de sonho e repouso para o espírito. Neste instante mesmo, sinto na imaginação o arrepio refrescante de suas avenidas intensamente sombreadas, respiro a fragrância de seus mil bosquetes e estremeço ainda, com indefinível prazer, à lembrança do som cavo e profundo do sino da igreja quebrando a cada hora, com súbito e soturno estrondo, a placidez da atmosfera fusca em que se embebia e adormecia o gótico campanário ornado de gregas.

Como se pode ver, novamente temos o caso de uma cena que é a mesma mas tem uma série de sutis diferenças que quase a transformam em uma outra descrição da mesma cena. Por uma dessas ironias, a mim o segundo trecho, mais recente, parece um pouco mais rebuscado, mais antigo, um tom mais solene. Mas pode ser só impressão minha. Vamos agora conferir com o original:

My earliest recollections of a school-life, are connected with a large, rambling, Elizabethan house, in a misty-looking village of England, where were a vast number of gigantic and gnarled trees, and where all the houses were excessively ancient. In truth, it was a dream-like and spirit-soothing place, that venerable old town. At this moment, in fancy, I feel the refreshing chilliness of its deeply-shadowed avenues, inhale the fragrance of its thousand shrubberies, and thrill anew with undefinable delight, at the deep hollow note of the church-bell, breaking, each hour, with sullen and sudden roar, upon the stillness of the dusky atmosphere in which the fretted Gothic steeple lay imbedded and asleep.

E vocês, o que acharam?

Sex Bomb

29 de novembro de 2007 0

Ganhar um prêmio desses é f.../Kathy Willens / AP
Essa veio do serviço de notícias da AP. Mesmo falecido recentemente (eu ia escrever um texto específico sobre ele na época, trouxe uma sacola de livros para a redação, não tive tempo no dia, deixei aqui na minha mesa e me levaram a sacola, e portanto decidi que não faria o post), o escritor Norman Mailer (foto) continua ganhando prêmios – embora eu duvido que ele tivesse se candidatado a este se tivesse chance de opinar.

Mailer foi um dos ganhadores do troféu Bad Sex in Fiction Award (numa tradução livre, Prêmio do Sexo Ruim na Ficção), uma espécie de Framboesa de Ouro da literatura, concedido por um grupo de críticos ingleses da revista Literary Review a cada ano para o que consideram as cenas de sexo mais cruas, de mau gosto e constrangedoras dos romances e contos lançados ao longo do ano. O troféu, bem-humorado, representa uma mulher escondendo sua nudez com um livro aberto.

Mailer ganhou o prêmio principal pela cena em que narra a concepção de Adolf Hitler em seu último romance, O Castelo na Floresta, uma história familiar de Hitler contado pela voz de um demônio menor na hierarquia infernal – ainda preciso dar um jeito de ler esse livro, porque assim, o resumo, o assunto, contado dessa forma, sempre transforma o que provavelmente é uma tentativa de refletir sobre o mal em uma comédia de mau gosto. 

Mas voltando ao sexo ruim – bom, vocês me entenderam – o anúncio do prêmio foi feito esta segunda-feira em Londres, e foi precedido de uma homenagem dos juízes a Mailer, que, de acordo com eles, %22teria recebido o prêmio com bom humor%22 se estivesse vivo. Mailer não é um dos primeiros escritores respeitáveis da literatura em inglês a receber o prêmio, que já foi concedido a Tom Wolfe (em 2005) ou Christopher Hart (em 2001). Wolfe foi, a propósito, um dos poucos que não levaram a piada na boa e se recusaram a ir receber o troféu em pessoa.

Já estiveram indicados ao prêmio em anos anteriores Gabriel García Márquez, Ian McEwan (que também estava indicado este ano), John Updike, Thomas Pynchon. Os finalistas deste ano incluíam também Ali Smith, o ator da série Harry Potter David Thewlis (por um romance, claro, não por um filme) e Christopher Rush – com uma constrangedora descrição feita por Shakespeare de sua esposa Anne Hathaway, no romance Will. Vai só o inicinho do trecho escolhido, traduzido por mim mesmo:

Oh púbis glorioso! O triângulo definitivo, cujos ângulos escavam em direção ao inferno mas apontam para o paraíso. (daqui pra diante continua com uma enumeração de sinônimos e metáforas hilárias para o %22triângulo definitivo%22, mas que eu não traduzo para não ferir sucestibilidades).

Já do grande campeão, a cena de Norman Mailer em O Castelo na Floresta, vai também apenas uma palhinha:

Com sua boca ensaboada com a seiva dela, ele virou-se e abarcou o rosto dela com toda a paixão de seus próprios lábios e rosto, pronto para ao menos dar uma raspada dentro dela com o seu cão de caça, para levá-lo direto até a virtude dela.

Então tá…

Postado por Carlos André Moreira

Contos miúdos, ó pá

28 de novembro de 2007 0


O escritor com pouco vocabulário
Tinha um teclado de computador que em vez de teclas com letras tinha teclas com palavras. Essas teclas eram substituíveis.
Como o teclado só tinha capacidade para cerca de cinquenta teclas ele havia construído um enorme arquivo. Quando era necessário, isto é, quando queria escrever uma determinada palavra que não estava no seu teclado, ele ia buscar ao arquivo uma tecla-palavra e colocava-a no sítio.
Acusavam-no de ter falta de vocabulário, mas o que ele tinha era falta de espaço.

O texto acima é um miniconto do escritor português nascido em Luanda Gonçalo M. Tavares, ganhador do Prêmio Portugal Telecom deste ano com seu romance Jerusalém. O texto está incluído na coletânea Contos de Algibeira (128 páginas, R$ 20), da editora Casa Verde, que, desde sua fundação, vão lá bem uns três, quatro anos, já publicou quatro coletâneas de histórias curtas, duas delas dedicadas a histórias muito curtas, como a que vemos acima. Os dois livros anteriores, Contos de Bolso e Contos de Bolsa, fazem parte da série Liliput, dedicada a minicontos, à qual este mais recente também pertence.

A novidade deste terceiro volume, como denuncia o nome, de sabor para nós, brasileiros, algo antigo, é a presença de autores de Portugal na seleção, também enriquecida pelo acréscimo de autores de outros Estados do Brasil, como Fernando Bonassi, Lívia García-Roza, Marcelino Freire, Nelson de Oliveira. De Portugal, temos no livro além do premiado Gonçalo nomes como Carlos Seabra, Rui Zink e Rui Costa.

Dos nomes daqui, participantes das demais coletâneas da série, como Fabrício Carpinejar, Cíntia Moscovich, Altair Martins, entre outros. Ao todo, a coletâne reúne mais 107 autores.

A sessão de autógrafos do livro está marcada para este sábado, dia 1º, a partir das 18h30min, na Alameda dos Escritores do Shopping Total (Cristóvão Colombo, 545).

Postado por Carlos André Moreira

A literatura segundo Nejar

28 de novembro de 2007 0

Carlos Nejar/Caroline da Fé / CMPA
– Eu sou dos que se comprometem. Eu corro o risco da ousadia.

Essa é a frase com a qual o escritor, poeta e integrante da Academia Brasileira de Letras Carlos Nejar define o projeto do livro História da Literatura Brasileira, que o imortal autografa hoje às 20h numa solenidade para convidados, algo sobre o que vocês devem ter lido na capa de hoje do Segundo Caderno de Zero Hora. Fruto de uma década de trabalho, o livro é a visão pessoal de Nejar sobre a criação literária brasileira, e, ressalta ele, a única obra do gênero levada a cabo no Brasil por alguém que é ao mesmo tempo um autor literário, ao contrário dos esforços de José Verissimo, de SIlvio Romero, de Antônio Cândido.

José Verissimo fez uma história da literatura, mas só pincela alguns autores, Alfredo Bosi faz uma história concisa da literatura. Mesmo Antônio Cândido, é um professor que se debruça sobre a literatura. Ele se rende a esquemas estabelecidos. Luciana Picchio fez uma história muito concisa. Nelson Werneck tem uma abordagem mais social. Minha história é a primeira na qual um criador, um poeta, revê e revisa a trajetória de outros criadores, detém-se na criação.

Uma história da literatura desperta polêmica quanto mais pessoal e veemente for o julgamento de seu autor – no Brasil o caso clássico é o de Silvio Romero, que em sua história da literatura desdenhou o contemporâneo Machado de Assis. Nejar também assume as suas posições pessoais, e diz ele próprio que está pronto para ser desmentido pela história. Mas ele próprio não se contenta com alguns julgamentos já cristalizados. No livro, ele resgata aspectos positivos e achados de Coelho Neto, Rui Barbosa e Olavo Bilac – três nomes execrados a partir do Modernismo

Os modernistas liquidaram Olavo Bilac. Aos poucos, vai-se tendo dele uma visão diferente. Muitos observam que Olavo Bilac é um grande versejador, mas ele não é só isso, é um poeta. Ao contrário, quando ele segue Alberto de Oliveira na firmeza marmórea dos versos, é um poeta menor, mas quando se liberta da forma pela forma é um criador de linguagem. Coelho Neto foi esmagado pelos modernistas, mas também há coisas válidas. Se verificares o estilo de Euclides da Cunha, vais ver que o estilo dele é rebuscado como o de Coelho Neto, e se verificares Guimarães Rosa, ele também é rebuscado, às vezes. O que os diferencia é o gênio. O escritor de gênios arrasta tudo, e Rosa e Euclides tinham o gênio que Coelho Neto não tinha, por isso nele o rebuscamento parece ser ressaltado.

Nejar também busca, ao avaliar a poesia e a prosa, o conteúdo, os jogos de sentido, menos do que a forma. Tal postura o leva a desprezar tanto os postulados dos parnasianos, por exemplo, quanto dos concretistas, ambos movimentos literários em pólos opostos do tratamento da forma (uns buscavam a inspiração na forma do passado longínquos, os outros queriam a forma revolucionária própria para a modernidade, ainda que tivessem também raízes eruditas ancestrais). Para Nejar, a forma pela forma é estéril. A poesia está é no conteúdo.

Postado por Carlos André Moreira

Dlin dlón

27 de novembro de 2007 0

 

Peço licença ao acionista majoritário do blog pra falar um minutinho só de títulos infantis. Licença, Moreira!

Então.

Imagino que as crianças de hoje em dia estejam muito ocupadas com outras coisas e nem pensem mais nisso, mas um livro que acaba de ser lançado me lembrou de uma das brincadeiras preferidas em outros tempos. Toque a Campainha! é da Caramelo, tem 10 páginas, custa R$ 14,90 e — irresistível — vem com um botãozinho pra apertar e fazer barulho. Além de permitir que os pequenos matem a vontade de azucrinar os vizinhos buzinando e saindo correndo, o livro é educativo: fala dos opostos. Aaaah, que amor! Uma casa grande, uma casa pequena, uma casa velha, uma casa nova, uma casa barulhenta, uma casa silenciosa. Uma fofura.

Falando em buzinar, tem também o Toque a Buzina!, pelo mesmo preço. :)

Postado por Larissa Roso

Bucarson McKowisk

22 de novembro de 2007 2

Carson McCullers/Bettman / Corbis / Latinstock / Divulgação
ela morreu de alcoolismo
enrolada em um cobertor
numa cadeira no deque
de um vapor
no oceano

todos os seus livros de
uma solidão aterradora

todos os seus livros sobre
a crueldade do
amor não amado

foram tudo o que sobrou
dela

quando o viajante em férias

encontrou seu corpo

avisou o capitão

e ela foi rapidamente despachada
para algum outro lugar
no navio

enquanto tudo
continuava exatamente
do jeito
que ela havia escrito

O poema acima se chama Carson McCullers, e foi escrito pelo poeta da podreira americana Charles Bukowski (1920 – 1994) – um sujeito que, para além de todos os palavrões e bebedeiras, foi autor de livros e poemas de uma tristeza dilacerante, como se pode ver nos versos acima, traduzidos por este que vos escreve. Bukowski, amplamente conhecido no Brasil por sua prosa, teve a maior parte de sua produção direcionada para a poesia, uma produção ainda pouco disponível no Brasil.

Pois acabou de sair pela L&PM uma tradução de poemas de Bukowski em formato bolso: O Amor é um Cão dos Diabos, traduzido por Pedro Gonzaga – só para deixar claro, o poema que eu publiquei aqui no blog não está nesse livro. O que me levou a publicar esse poema neste post é que Bukowski era um confesso admirador dos livros da americana que dá título aos versos: Carson McCullers (1917 – 1967), de quem se pode dizer que as definições feitas por Bukowski são muito precisas. McCuller é uma escritora sobre o beco-sem-saída das pequenas cidades do Sul, os não-adaptados, os rudes, os tristes, os perdidos, uma narração cheia de sutilezas e atmosfera, criando com palavras aquela sensação nauseante de imobilidade e fatalismo. E a relação e motivo deste post é que, assim como Bukowski, ela também está com um livro recente na praça, uma nova edição, pela Companhia das Letras, de uma de suas obras mais conhecidas: o romance O Coração é um Caçador Solitário, traduzido por Sonia Moreira (não, não é minha parente).

Boa sugestão para leituras cruzadas… 

Postado por Carlos André Moreira

Tradução e Reação - 2

22 de novembro de 2007 9

Bem-vindos, crianças. Depois de algum tempo encarando uns trabalhos pedreiras no jornal impresso, consigo voltar aqui e continuar com nossa muito bem recebida brincadeira de tradução comparada – como eu prometi, teremos uma dessas por semana daqui por diante até quando eu conseguir providenciar material de comparação nas minhas estantes. Faço melhor, até, aceito dicas dos nossos bravos leitores sobre traduções da mesma obra para o português que possam ser comparadas. A janela de comentários é de vocês.

Como bem disse o leitor Rafael Pimentel Müller ao comentar a comparação anterior, é uma questão interessante saber qual a influência da tradução na fluência interna (in-fluência?) do texto que nos chega. Principalmente quando o autor do original é alguém que deu uma nova dimensão ao que se considera o estilo de um autor, como é o caso de nosso escritor analisado hoje: Gustave Flaubert (1821 – 1880).

Flaubert foi um artesão que elevou os parâmetros do que se considera o fazer literário a tal nível de perfeição e excelência que sua maestria no manejo de linguagem é hoje a principal característica associada a sua obra, suplantando até mesmo a forma precisa e refinada como ele mapeou o horizonte sentimental e psicológico de suas criaturas, em particular a mais apaixonante delas: Madame Bovary. Uma obra que vem sendo traduzida sistematicamente no Brasil desde pelo menos os anos 1930, há várias edições e versões variadas, e por isso vou me concentrar somente em três, uma mais antiga, uma de uma década atrás e uma bem recente, lançada pela editora Nova Alexandria e que traz uma deliciosa curiosidade histórica: o texto do processo  movido contra Flaubert pelo Advogado Imperial francês em 1856, acusando-o de ultraje à moral pública e religiosa e aos bons costumes. São quase 70 páginas com as alegações das duas partes e a sentença do tribunal que por fim terminou por absolver o escritor. É por essa tradução mais recente, feita por Fúlvia M.L. Moretto, que começamos, transcrevendo abaixo o trecho inicial da magistral descrição que abre o romance: a chegada à escola do tosco e roceiro garoto que mais tarde será o médico Charles Bovary, o marido traído de Emma:

Imóvel num canto, atrás da porta, de modo que mal o percebíamos, o novato era um rapaz do campo, de uns quinze anos, e mais alto do que qualquer um de nós. Tinha os cabelos cortados rentes na testa, como um chantre de aldeia, e um ar sensato e muito embaraçado. Embora não tivesse os ombros largos, seu paletó de lã verde com botões pretos devia incomodá-lo nas cavas e deixava perceber, pela abertura dos canhões, pulsos vermelhos acostumados a andar nus. Suas pernas, com meias azuis, saíam de uma calça amarelada, muito repuxada pelos suspensórios. Calçava sapatos grossos, mal engraxados, guarnecidos de pregos.

Agora vejamos como a mesma descrição do tímido e campônio Charles Bovary foi vertida para o português por Sérgio Duarte numa edição de Madame Bovary que saiu na Biblioteca Folha, série de livros que a Folha de São Paulo deu como brinde com suas edições dominicais no ano de 1998 (caramba, aquilo já faz 10 anos!). A tradução, contudo, foi feita por Duarte para a Ediouro, em sua coleção de clássicos, e depois renegociada para sair na biblioteca Folha. Nessa edição, o mesmo trecho fica assim:

De pé no canto da parede, por trás da porta, de modo que dificilmente podia ser visto inteiramente, estava o novato. Era um rapazinho do campo de uns quinze anos se tanto, mais alto que qualquer um de nós. Tinha o cabelo cortado rente sobre a fronte, como um padre da cidade, a expressão simpática e acanhada. Embora não tivesse os ombros largos, o paletó verde, de botões pretos, apertava-o nas costuras e deixava ver, pelas fendas, punhos vermelhos habituados ao contato do sol. As pernas, vestidas de meias azuis, saíam de calças amarelas já um tanto gastas. Calçava sapatos grossos, mal engraxados e ferrados nas solas.

Como vocês podem ver, há uma sensível diferença embora o essencial esteja ali. Mas o ritmo das frases às vezes é outro, alguns termos no plural viram singular e vice-versa, uma frase que no primeiro trecho era inteira é cortada ao meio por um ponto na segunda. Prestem atenção no termo que eu sublinhei e pus em negrito. Voltaremos a ele após passarmos pelo terceiro trecho, datado de 1971 (mais velho que eu), incluído na coleção Os Imortais da Literatura Universal da Abril Cultural, aquela coleção de capa dura vermelha com uns frisos dourados que muito ainda se acha em sebos e que todo mundo tem um parente mais antigo que tem em casa (na minha família era na casa do meu avô). A tradução, de Araújo Nabuco, era ainda mais antiga, feita para a Livraria Martins Editora, que cedeu a publicação para a coleção da Abril naquele ano. Mantive, a propósito, até a acentuação que está no livro. Vejamos como fica:

A um canto, atrás da porta, mal podíamos ver o novato. Era um rapaz do campo de quinze anos mais ou menos, mais alto que qualquer de nós, os cabelos rentes sôbre a testa, como um sacristão de aldeia, um aspecto compenetrado e acanhadíssimo. Embora não fôsse espadaúdo, a jaqueta verde de botões prêtos, muito apertada nas ombreiras, devia incomodá-lo. Pela abertura das mangas, viam-se dois punhos vermelhos, acostumados à nudez. As pernas, enfiadas em meias azuis, saíam-lhe dumas calças amareladas muito repuxadas pelos suspensórios. Calçava uns sapatos grosseiros, mal engraxados e reforçados com pregos.

Vejam como as coisas mudam de novo. E percebe-se que, apesar das divergências de interpretação, as duas traduções mais similares são a primeira e a terceira, pois traduzem determinadas expressões que o trabalho de Duarte prefere ignorar, substituindo por outra coisa, como o “muito gastas” para as calças, que nas duas outras são calças velhas e largas e também gastas, razão pela qual são repuxadas pelos suspensórios. A mesma palavra foi destacada outra vez por mim porque a comparação entre os três textos mostra que, na hora de traduzir a metáfora escolhida por Flaubert, cada tradutor preferiu escolher um posto diferente na estrutura da igreja: sacristão na terceira, padre na segunda – que como sabemos não são a mesma coisa – e “chantre” na primeira. Chantre é definido pelo Aurélio como: “Funcionário eclesiástico que dirige o coro”, o que vem a ser uma terceira coisa diferente das outras duas. Seria o caso de ir ao original francês e ver a palavra que o próprio Flaubert usou. Vamos lá, então, ao trecho original:

Resté dans l`angle, derrière la porte, si bien qu`on l`apercevait à peine, le nouveau était un gars de la campagne, d`une quinzaine d`années environ, et plus haut de taille qu aucun de nous tous Il avait les cheveux coupés droit sur le front comme un chantre de village, l`air raisonnable et fort embarrassé. Quoiqu`il ne fût pas large des épaules, son habit-veste de drap vert à boutons noirs devait le gêner aux entournures, et laissait voir, par la fente des parements des poignets rouges habitués à être nus. Ses jambes en bas bleus sortaient d un pantalon jaunâtre très-tiré par les bretelles Il était chaussé de souliers forts, mal cirés, garnis de clous.

Batata, Flaubert usa o chantre que, mesmo incluído em um dicionário de nosso idioma, é de origem francesa, então seria mais lógico que estivesse no original.

E para vocês? Qual a melhor versão? Comentários nos comentários – não diga.

Katando Kaváfis

21 de novembro de 2007 0

O velho poeta
Uma das personagens fundamentais da tetralogia Quarteto de Alexandria, que saiu no ano passado em edição nacional com tradução do escritor Daniel Pelizzari, não dava as caras no romance a não ser indiretamente. Embora não fosse um dos personagens enredados na ciranda de amores e desejos que o autor Lawrence Durrell arma na sensual e quente cidade mediterrânea, o poeta grego Konstantinos Kaváfis (1863 – 1933) percorre as páginas dos quatro romances como uma presença sólida, discernível não apenas em algumas das reflexões levadas a cabo pelos personagens, mas citado nominalmente por sua identificação umbilical com a cidade em que viveu a maior parte de sua vida. Poucas vezes Kaváfis, ou Κωνσταντίνος Καβάφης, aparece com seu nome completo, o narrador prefere se referir a ele como %22o velho%22, %22o poeta%22 ou a combinação %22o velho poeta%22, como se pode ver no trecho abaixo, extraído do primeiro volume, Justine:

Então fui convencido a dar uma palestra sobre o poeta da cidade no Atelier des Beaux Arts – uma espécie de clube onde os artistas diletantes mais dedicados podiam se encontrar, alugar estúdios e assim por diante. Aceitei o convite porque o dinheiro me possibilitaria comprar um casaco novo para Melissa; aproximava-se o outono. Entretanto, para mim, aquilo era penoso. Posso dizer que me sentia cercado pelo velho, como se as ruas sombrias nos arredores da sala de conferências estivessem impregnadas com o perfume dos versos destilados daqueles amores miseráveis mas gratificantes que ele experimentara – amores que podem ter sido comprados com dinheiro, de duração muito breve, mas que ainda assim sobrevivem em seus versos _ capturando com dedicação e ternura sua existência fugaz, tornando indeléveis suas cores. Que impertinência falar sobre um ironista que, de forma tão natural e com instintos tão refinados, extraíra sua matéria-prima das ruas e dos bordéis de Alexandria! E mais, falar não para um público de comerciantes de miudezas e balconistas de armarinho – aqueles que escolheu para imortalizar –, mas para uma assembléia circunspecta de damas da sociedade, que encaravam a cultura representada pelo velho poeta como uma espécie de banco de sangue: estavam ali em busca de uma transfusão.

O que nem todo mundo que já leu essa nova versão do Quarteto… teve oportunidade foi de tomar contato com a poesia original de Kaváfis, uma chance que surge com o lançamento recente de Konstantínos Kaváfis: 60 Poemas. Uma coletânea de (dãããã!) 60 poemas de Kaváfis, traduzidos e selecionados por Trajano Vieira. no qual se pode notar a intensidade de Kaváfis, seu sublime apelo a um paganismo decadentista que o fazia dialogar com ao mesmo tempo que destoava do iluminista século 19. Os poemas quase todos dialogam com temas históricos e mitológicos das Antiga Grécia, como elegias a um mundo morto que refinado Kaváfis considerava abatido pelo dominante e rude cristianismo. Vai abaixo um dos poemas dessa seleção. Ah, um detalhe ainda mais interessante para os interessados na cultura grega: os poemas foram editados pela Ateliê Editorial no original em grego e na tradução. Óbvio que por questões de alfabeto diferente não vou colocar aqui a versão em grego:

O DOUTO… A APROXIMAÇÃO

Homens sabem o que ocorre.
O vindouro, sabem-no os deuses,
únicos detentores dos fachos, todos eles, plenos.
Do vindouro, o douto pressente
a aproximação. Horas a fio

de estudo circunspecto e, num átimo, um surto
na audição. Rumor de enigma
vem-lhe dos fenômenos, que o rondam.
O zelo impede que se desvie. Nesse ínterim, lá fora,
na rua, surda, nada escuta a chusma

Postado por Carlos André Moreira

Tradução e Reação

15 de novembro de 2007 7

E já que eu falei no lançamento de O Homem Extraordinário e outras histórias, finalmente tenho a oportunidade de fazer uma brincadeira que já vinha pensando para partilhar com vocês aqui no blogue: comparar diferentes traduções de uma mesma obra, o que obviamente, é mais fácil de fazer com textos clássicos, já que livros mais recentes nem sempre têm duas edições por casas daqui, e quando têm nem sempre eu tenho as duas. Mas agora podemos fazer isso com esse novo lançamento, da L&PM.

Para quem não sabe porque eu estou falando tanto de Tchekhov, primeiro esclareço que ele foi médico, produziu mais de 500 histórias dentre as quais bem mais de uma centena são de legítimas obras-primas do gênero. As histórias de Tchekhov raramente desenvolvem grandes arcos, como é comum no conto norte-americano, por exemplo, e sim flagram instantes, iluminam cenas, registram breves flutuações numa situação cotidiana, muitas vezes eivada de melancolia e tristeza.

Tchekhov sempre foi muito popular e teve diversas edições no Brasil – eu mesmo tenho espalhados por aí outros dois exemplares diferentes com seleções de seus contos, que não pude usar para a consulta que pretendo fazer agora. Mas minha idéia é só comparar traduções de um mesmo trecho, até como forma de vermos como o que se chama de “estilo” de um autor, no caso de estrangeiros, muitas vezes pode ser resultado da interferência de um tradutor com suas escolhas, que sempre serão sutilmente diversas das de outro. Algumas vezes, as escolhas de um podem tornar algo mais ou menos compreensível do que a de outro. Peguemos o caso do conto O Sapateiro e a Força Maligna, incluído no volume de bolso esse da L&PM. Na tradução de Tatiana Belinky incluída em O Homem Extraordinário a história começa assim:

Era véspera de Natal. Mária havia muito tempo que roncava sobre a estufa, na lamparina o querosene já queimara todo, mas Fiódor Nílov ainda continuava trabalhando. Por ele, há muito tempo que já teria largado o trabalho e saído para a rua, mas o freguês da travessa Kolokólni, que lhe encomendara biqueiras duas semanas atrás, viera ontem, reclamara e ordenara que terminasse as botas sem falta agora, antes das matinas.
– Galé da Vida! – resmungava Fiódor, trabalhando – Uns há muito que já dormem, outros passeiam, mas tu, como um Caim qualquer, tens de ficar sentado, costurando para sabe o diabo quem…

Já na tradução de Boris Schnaiderman incluída na antologia Os Melhores Contos Fantásticos, organizada por Flávio Moreira da Costa e publicada pela Editora Nova Fronteira, o mesmo trecho está assim:

Era véspera de Natal. Fazia tempo que Mária roncava sobre o fogão. Todo o querosene queimara-se na lamparina, mas Fiódor Nílov continuava sentado, trabalhando. Teria deixado há muito o trabalho e saído para a rua, mas o freguês do Beco dos Sinos, que lhe encomendara, duas semanas atrás, uns canos de bota, viera na véspera, discutira mandara concluir a encomenda, sem falta, ainda antes da Missa do Galo.
– Vida de forçado! – rosnou Fiódor, trabalhando – Uns estão dormindo faz muito tempo, outros estão passando, e você tem que ficar sentado aí, como Caim, cosendo couro, diabo sabe para quem…

Como vocês vêem, embora seja exatamente a mesma cena, algumas diferenças se fazem sentir – a maior delas para a minha brutal ignorância é que, a não ser que eu esteja errado, o que sempre é muito possível, “canos” de botas e “biqueiras” de botas são coisas diferentes, não?

Antônio Filho de Paulo

15 de novembro de 2007 1

Uma das perguntas recorrentes que se ouve na redação quando se está escrevendo algo sobre literatura russa é “Como é que se escreve Tchekhov?” – referência ao mestre russo do conto Anton Pavlovitch Tchekhov. Uma circunstância difícil de reproduzir por escrito porque no próprio processo de contar o causo neste texto eu já escolhi uma grafia para que vocês soubessem do que estou falando. Mas vamos adiante.

Nossa opinião nesses casos em que o nome no nosso idioma não obedece a uma pronúncia diferente, apenas, mas a um alfabeto completamente diverso, costuma seguir a dos tradutores mais credenciados. É assim para o chinês, é assim para o árabe, é assim para o russo, mas não pensem que é uma tarefa fácil quando nem os próprios tradutores se entendem muito bem, e ao longo dos anos tivemos no Brasil – quem freqüenta sebos sabe – a grafia do nome oscilando entre Tchecov, Tschecov, Tchekov, Tchekhov, TcheckovChecov, Chekov, Chekhov, e ainda multipliquem esse número por dois se formos contar as mesmas grafias com um acento no E: Tchékhov, por exemplo. Muito dessa falta de padrão pode ser atribuída ao fato de que a tradução do russo entre nós foi, ao longo do século 20, indireta, ou seja, feita a partir de versões inglesas, francesas e às vezes espanholas. Mas não é a única explicação, como veremos agora.

Uma das mais respeitadas tradutoras do russo para o português, por exemplo, Tatiana Belinky, já traduziu Tchekhov para três edições diferentes, todas diretamente do russo. Numa delas, na antiga coleção Clássicos de Bolso da Ediouro, O Malfeitor e Outros Contos da Velha Rússia, sem data na edição que eu tenho aqui comigo, mas comprada nos anos 1990 num sebo, portanto deve ser algo antiga, a capa identifica o escritor como Tschecov. Poderia ser uma questão de padronização da editora, mas Belinky em seu artigo crítico à guisa de prefácio, como se dizia antigamente, usa a mesma grafia. O irônico é que nas últimas páginas do livro há uma relação de outras obras de literatura russa publicadas na mesma coleção, lista essa ilustrada com uma foto famosa em que estão juntos Tolstói, Górki e Tchekhov, e na legenda dessa foto, a grafia usada para identificar o escritor é aquela com a qual eu comecei esse texto, com T inicial, K no meio seguido de H.

Já o livro Lendo Tchekov, da autora Janet Malcolm, também editado pela Ediouro em 2005, é um estudo biográfico sobre a vida, o tempo e os lugares por onde o autor passou em sua vida (1860 – 1904). Ao fim do volume, a edição nacional compila 37 contos, a maioria mencionados no texto de Malcolm, também traduzidos diretamente por Belinky, e o autor, como dá para ver no título do livro, teve seu nome modificado de novo. O H do meio e o S depois do T inicial sumiram.

E por último, Belinky é a responsável pela tradução do recém lançado Um Homem Extraordinário e Outras Histórias, que acaba de ser publicado pela L&PM reunindo 18 contos em edição de bolso. A tradutora novamente apresenta o autor em um texto que abre o volume, e agora a grafia usada é Tchekhov. Que se diga que isso pelo menos sinaliza para uma chance de ordem nessa barafunda, já que Belinky opta agora pela grafia que também vem sendo usada pela maioria das edições recentes preparadas por outros outros respeitados tradutores como Paulo Bezerra e Bóris Schnáiderman, que verteram contos e peças do autor russo para editoras como a Cosac Naify e a 34.

E embora não traga o NOME do escritor, o vocabulário ortográfico da Academia Brasileira de Letras, o documento que registra a grafia oficial na nossa língua de todas as palavras do idioma – e que todos vocês podem consultar neste endereço –, registra o adjetivo tchekhoviano, sinalizando também uma escolha. Ah, sim, e se alguém ainda quer saber a resposta para a pergunta do início, aqui no jornal nosso padrão costuma ser, pelas razões que expliquei acima, Tchekhov.