Minha idéia era fazer como os meus amigos do blog Primeira Fila, que pediram aos colegas umas listas dos 10 filmes do ano com uma breve justificativa e as publicaram do jeito que as receberam, como vocês podem ver no blog deles, endereço ao lado.
Mas como meu cacife é menor que o de meus companheiros, recebi de volta só UMA resposta a contento, e duas outras que... uma não era definitiva e outra só tinha oito livros. Como a resposta do Gabriel Brust é o único texto autônomo, vou publicá-la aqui. Mais tarde, coloco no ar a minha retrospectiva-monstro com os 50 livros de 2007. Abraços.
Retrospectiva, por Gabriel Brust
Quando o Moreira pediu ao pessoal aqui do Segundo Caderno que indicasse os 10 livros de 2007 que a gente mais gostou, minha resposta imediata – e de outros colegas também – foi de que possivelmente nenhum de nós tivesse lido 10 lançamentos. Quem não é setorista de livros – como o Moreira – acaba priorizando a %22lição de casa%22, os clássicos ou coisas não tão clássicas mas que devem ser lidas antes. Apesar disso, dei uma mexida nos arquivos cerebrais e me dei conta de que li mais coisas novas do que eu imaginava. Seguem aí 10 leituras que me chamaram a atenção neste ano e que foram além da %22lição de casa%22. Alerto de antemão que foi um ano em que me dediquei a textos curtos, contos, ensaios, mas, principalmente, crônicas _ esse gênero vagabundo que cada vez menos gente se interessa, mas que eu gosto muito.
De Veludo Cotelê e Jeans, de David Sedaris
Conjunto de crônicas autobiográficas do humorista norte-americano. Mostra um aspecto bastante humano da vida familiar na América, além da visão peculiar de um homossexual sobre o mundo. É para ser engraçado, mas às vezes soa extremamente melancólico.
Cartas a um Jovem Contestador, de Christopher Hitchens
Acho que a idéia do Moreira era priorizar a ficção [resposta do Moreira: não era, valia tudo], mas eu seria injusto se deixasse Hitchens de fora da lista. Foi o autor que mais me impressionou em 2007, embora a entrevista que fiz com ele não tenha rendido tanto. O livro traz conselhos, em forma de cartas a um aluno imaginário, para quem pretende ser um pensador livre.
Amor, Pobreza e Guerra, de Christopher Hitchens
Eu disse que foi o meu autor preferido de 2007, então aí vai um segundo. O livro é uma compilação de ensaios e artigos do britânico, muito bem escritos, mesmo que não se concorde com suas posições um tanto radicais sobre política e literatura.
Cuca Fundida, de Woody Allen
Sei que esse não tem nada de novo, mas desde o Que Loucura!, que li há alguns anos, eu queria ler mais Woody Allen. E esse ano caiu outro dele no meu colo. Além de fazer rir muito, o que mais chama a atenção é um personagem IDÊNTICO ao Ed Mort, de Luis Fernando Verissimo. Inclusive fazendo as mesmas piadas. Ok, eu sei que todo mundo já sabia que o Verissimo bebia ali na fonte, mas eu confesso que não esperava algo tão parecido.
Antes do Túnel (Uma História Pessoal do Bom Fim), de Juremir Machado da Silva
Comprei este na Feira do Livro. Fui aluno e orientando do Juremir Machado da Silva e gosto muito do estilo dele, seja como cronista, seja como romancista. Neste caso, ele fundiu dois formatos: romance com tes acadêmica. A tese é A Miséria do Cotidiano, antropológica, sobre o Bom Fim, publicada nos anos 1990. Neste livro, ele agrega ao trabalho acadêmico as suas memórias sobre o bairro e o amigo Ricardo Carle.
Em Busca do Borogodó Perdido, de Joaquim Ferreira dos Santos
Pouca gente conhece ele aqui no Estado, mas trata-se do maior cronista brasileiro da atualidade. Sempre gostei da coluna Gente Boa, que ele assina no O Globo, que traz notinhas sobre o cotidiano do Rio. Mas não costumava ler as crônicas mais longas, semanais. Em julho, participei de uma oficina ministrada por ele na Festa Literária Internacional de Paraty e pude conhecer melhor Joaquim e seu texto. O estilo do cara é impressionante, algo muito diferente da sobriedade que marca a crônica no Brasil. Joaquim experimenta o tempo todo, pensando sempre na forma. O resultado é uma crônica sonora, quase cantada ou rimada. A contrário da maioria dos cronistas, Joaquim com freqüência vai a campo. No Em Busca do Borogodó Perdido é possível ler, por exemplo, uma hilária descrição da festa de aniversário de Vera Fischer ou da uma entrevista a Marília Gabriela. Imperdível.
A Cabra Vadia, de Nelson Rodrigues
Outra coisa que eu fui descobrir imperdoavelmente apenas em 2007. Não Nelson Rodrigues, mas as crônicas dele. Chama a atenção o tamanho longo dos textos, contrariando a tese de que crônica deve ser curta. De resto, não há muito o que dizer. São geniais.
O Segundo Tempo, de Michel Laub
Outro sobre o qual não falarei muito, já que está na lista dos melhores do ano de todo mundo. Muito bem escrito.
De Cada Amor Tu Herdarás Só o Cinismo, Arthur Dapieve
Os méritos do romance não estão na técnica ou no estilo. É uma escrita convencional. Nem na história, mais convencional ainda, sobre um quarentão que se apaixona por uma adolescente. As referências ao mundo pop de então – citando REM o tempo todo – completariam a fórmula para um péssimo livro. O desafio é descobrir porque o livro é tão bom, apesar disso tudo. Provavelmente a contemporaneidade e a verossimilhança são elementos importantes, mas ainda não consegui descobrir exatamente porque gostei tanto.
Gran Cabaret Demenzial, de Veronica Stigger
Em princípio, o livro parece uma besteira completa. Aos poucos, revela que realmente é. Mas apenas se você encará-lo sob uma perspectiva tradicional. O livro é uma colagem de experimentos. Difícil dizer se é literatura. Mas é arte, sem dúvida.
Postado por Carlos André Moreira







Sempre que eu falo isso as pessoas tendem a me olhar com o ar compungido que dirigem a quem perdeu o controle pleno de suas faculdades mentais, mas acredito que os únicos grandes gêneros literários do século 20 que ainda apontam caminhos viáveis para o século 21 são justamente aqueles tratados com mais desdém: a Ficção Científica e o Romance Policial. A grande ficção científica é uma indagação sobre os destinos do homem em uma época em que a tecnologia parece oferecer respostas para tudo, menos para as mais velhas das perguntas: "de onde viemos", "para onde vamos", "quem somos nós" e "é bonito aqui" – ops, errei, esta última é do Didi Mocó. Já o Romance Policial é uma representação altamente estilizada da eterna busca do homem por um sentido que ordene o mundo ao seu redor. E talvez o fato de o herói do romance policial ser alguém que consegue estabelecer esse sentido seja um dos grandes segredos da popularidade do gênero – só para ficar em um exemplo, aqui no Brasil duas das principais editoras do país mantém coleções dedicadas aos romances de crime e mistério.





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