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Tradução e Reação - 5

14 de dezembro de 2007 3

Sim, sim, eu sei. Tinha prometido este post para quinta. Mas me atrapalhei porque de noite teve a cobertura do Açorianos e de tarde eu não estava na redação, por um motivo que vocês não acreditariam se eu contasse. Mas vai agora, para os que resolveram nos dar uma última chance nas primeiras horas de sexta-feira. Nosso jogo de tradução comparada de hoje é, como eu adiantei esta semana, dirigido ao clássico do jornalismo literário A Sangue Frio, do afetado e talentoso Truman Capote (foto ao lado). Primeiramente, agradeço à colaboração do grande camarada Marcelo Perrone, crítico de cinema do Segundo Caderno e um dos titulares do blog Primeira Fila, o Mundo Livro do cinema (brincadeirinha, Perrone). Perrone gentilmente me trouxe a edição antiga de A Sangue Frio, da Abril Cultural, datada de 1980, para que eu pudesse comparar com a recente edição da Companhia das Letras, publicada em 2004. Ele também trouxe a nova, que eu de qualquer modo já tinha, e pela sua gentileza, estou usando o exemplar dele e não o meu para este cotejo (bonito isso, não?)

Como eu disse, essa nova comparação traz um elemento diferente das que realizamos até agora por ser a primeira sobre um texto de não-ficção. Eu ia, como fiz na maioria das comparações, começar pelo primeiro parágrafo, tão bom quanto qualquer outro, mas resolvi ir um pouco mais adiante a acabei por topar com uma coisa muito estranha que agora partilho com vocês. Na cena que eu transcrevo abaixo – primeiramente usando a tradução mais antiga, da edição de 1980, assinada pelo jornalista e ícone do Pasquim e hoje comentarista da BBC Ivan Lessa –, os dois assassinos da família Clutter, Perry Smith e Richard “Dick” Hickock, estão às voltas com um método muito estranho para arranjar meias pretas a serem usadas no assalto, como máscaras. Sigam comigo e mais tarde comentarei por que, além de todas as mudanças de cadência e estilo que já estamos aprendendo a identificar em duas traduções diferentes, esse trecho em particular me intrigou tanto. Acompanhem o ponto negritado por mim:

Mais uma vez, o Chevrolet negro estacionava, agora em frente a um hospital católico nas imediações de Emporia. Debaixo de um espicaçar contínuo (“Teu mal é esse. Você acha que só tem um jeito certo: o jeito do Dick”), Dick cedera. Enquanto Perry esperava no carro, entrara no hospital para tentar comprar um par de meias pretas de freira. Esse método pouco ortodoxo de obtê-las fora idéia de Perry. Argumentara que as freiras na certa deviam ter estoque. Havia uma desvantagem porém: freiras, e tudo que a elas diz respeito, dão azar e Perry tinha respeito por superstições. (Outras eram o número treze, cabelos vermelhos, flores brancas, padres atravessando a estrada, sonhar com cobras.) Nada havia a fazer, no entanto. A pessoa supersticiosa muitas vezes acredita seriamente no destino. Assim era Perry. Aqui estava ele, enfronhado no assunto, não porque o quisesse, mas porque o destino assim decidira. Podia prová-lo — embora não o pretendesse, pelo menos perto de Dick, pois a prova obrigaria a confessar o motivo secreto de sua volta ao Kansas, uma quebra do livramento condicional, pela qual se decidira por motivos pouco relacionados com o “plano” de Dick ou sua carta intimando-o.

Marquei o número listado entre as supertições de Perry por um motivo muito simples: ou a inflação das últimas duas décadas se abateu com força sobre o livro ou os tradutores estão em desacordo quanto ao número. Na edição da Companhia, a versão para o português foi feita por Sérgio Flaksman, com uma apresentação assinada pelo próprio Ivan Lessa que traduziu aquela edição antiga que acabamos de ver. O mesmo trecho ficou assim:

O Chevrolet preto estava novamente estacionado, dessa vez em frente a um hospital católico nos arredores de Emporia. Espicaçado por alfinetadas constantes (“É o seu problema. Você acha que só existe um jeito de fazer as coisas — o jeito do Dick”), Dick tinha se rendido. Enquanto Perry esperava no carro, tinha entrado no hospital para tentar comprar um par de meias pretas de alguma freira. Esse sistema bem pouco ortodoxo para obter as meias tinha sido idéia de Perry; as freiras, dissera ele, por certo teriam um vasto estoque. Mas aquele método tinha um problema, é claro: freiras, e tudo o que era ligado a elas, davam azar, e Perry tinha grande respeito por suas superstições. (Outras coisas eram o número 15, cabelos ruivos, flores brancas, ver um padre atravessar a rua, sonhar com cobras.) Ainda assim, não havia outro jeito. Mesmo um supersticioso compulsivo às vezes acredita piamente no destino; era o caso de Perry. Ele estava ali, e tinha embarcado naquela aventura, não porque quisesse, mas porque o destino tinha providenciado tudo; e era uma coisa que ele poderia provar — embora não tivesse a intenção de fazê-lo, pelo menos ao alcance dos ouvidos de Dick, pois a prova envolveria confessar o motivo verdadeiro e secreto que o trouxera de volta ao Kansas, uma violação dos termos de sua condicional que ele decidira arriscar por uma razão que não tinha a ver com “golpe” de Dick ou a carta de convocação que este lhe escrevera.

Taí, gurizada. Como vocês puderam ler, no caso de alguém com um estilo tão afinado quanto Capote, ler duas traduções muitas vezes parece ler a versão de duas pessoas para o mesmo fato – a tradução de Flaksman parece buscar um tom mais coloquial, enquanto a de Lessa parece muitas vezes preferir a elegância e uma certa correção em vez disso. Quando tenta alguma experiência com a gíria, ressoa menos claro que Flaksman, como é o caso de “estar enfronhado no assunto”, que parece vago demais se comparado com o “embarcar na aventura” escolhido pelo tradutor da Companhia. Agora, o que realmente me deixou intrigado é o porquê da mudança do número TREZE na primeira tradução para 15, em algarismos e tudo, na segunda. Claro que não prejudica o entendimento do livro como um todo, claro que não faz lá tanta diferença no plano geral, mas essa troca muda a percepção que se tem desse trecho em particular.

Senão vejamos: Perry é apresentado no primeiro caso como um sujeito que tem respeito por superstições de um modo geral, e as supertições listadas a seguir são realmente genéricas, do tipo com que qualquer um já se defrontou: freiras, padres, cabelos ruivos (provavelmente red hair no original, que Lessa traduz por cabelo “vermelho”, obtendo um belo efeito na justaposição com as flores “brancas”). São as superstições do todo mundo, e portanto o 13, número universal de azar (a não ser para o Zagallo), casa perfeitamente com o clima. Já na tradução de Flaksman, o uso do pronome possessivo suas para se referir às superstições particulariza aquelas que são de Perry, o que transformaria o número 15 usado ali numa especificidadedo personagem. Ele tem as superstições dele, as manias dele, e nelas cabe, por algum motivo que resulta inexplicável, o tal 15.

A questão é que em A Sangue Frio NADA fica inexplicado, mesmo quando se refere a algum detalhe colateral. Capote esmiuçou essa investigação até onde pode, o que me leva a crer que se algum equívoco há, é na tradução nova, mas não tenho como afirmar sem ver o original em inglês. Alguém aí pode dizer que 13 ou 15, ok, não importa, até porque as duas traduções trabalham com esses números de modo que eles se encaixam perfeitamente no contexto, como eu comentei acima: o treze para as supertições gerais, o 15 para as do próprio Perry, individualizadas pelo “suas” que o tradutor usa. Concordo, só que em uma tradução, o que a gente precisa traduzir não é o que cabe na frase como a gente acha, e sim da forma mais aproximada à que o autor usou na língua original. E nesse caso, não tem como os dois, Lessa ou Flaksman, estarem certos. E não estão. Vamos à edição americana original para saber quem:

The black Chevrolet was again parked, this time in front a Catholic Hospital on the outskirts of Emporia. Under continued neeling (“That’s your trouble. You think there’s only one right way — Dick’s way”), Dick had surrended. While Perry waited in the car, he had gone into the hospital to try and buy a pair of block stockings from a nun. This rather unorthodox method of obtaining them had been Perry`s inspiration; nuns, he had argued, were certain to have a supply. The notion presented one draw-black, of course: nuns, and anything pertaining them. were bad lucky, and Perry was most respectful of his superstitions. (Some others were number 15, red hair, white flowers, priests crossing a road, snakes appearing in a dream.) Still, it couldn`t be helped. The compulsively superstitious person is also very often a serious believer in fate; that was the case with Perry. He was here, and embarked on the present errand, not because he wished to be but because fate had arranged the matter; he could prove it — though he had no intention of doing so, at least within Dick’s hearing, for the proof would involve his confessing the true and secret motive behind his return to Kansas, a piece of parole violation he hada decided upor for a reason quite unrelated to Dick’s “score” or Dick’s summoning letter.

Como vêem, em que pese sua notável tradução, Ivan Lessa decidiu transformar a superstição particular de Perry — o 15 —, em uma mais universal e inteligível para o leitor — o 13.

A janela de comentários é de vocês, como sempre.

Comentários (3)

  • Rafael Pimentel Müller diz: 24 de dezembro de 2007

    Nossa, a diferença das traduções dessa vez em particular é gritante. Concordo contigo, Carlos, os tradutores deveriam ter a preocupação primária de se aproximar o mais que puderem do original. O ideal seria ler tudo no original mesmo, mas…

    Abraçossssss

  • Marcelo Xavier diz: 14 de dezembro de 2007

    Afinal, é treze ou quinze? Acho que nenhum dos dois teriam dificuldade em diferenciar o “thirteen” do “fiftheen”.

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