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Tradução e Reação - 6

28 de dezembro de 2007 1

Como não tivemos semana passada nossa atrasada brincadeira comparativa entre traduções de uma mesma obra, vou compensar esta semana com uma edição especial de ano novo abordando duas obras em vez de uma. Na primeira, hoje, voltamos agora a um idioma com o qual já trabalhamos, mas em uma forma na qual ainda não havíamos nos detido: o texto teatral. Na segunda, que devo atualizar hoje, senão domingo, sigo aproveitando o mote da literatura policial que iniciei alguns posts atrás. Mas não nos apressemos.

Quando Edmond Rostand encenou Cyrano de Bergerac pela primeira vez, em 1897, obteve sucesso imediato com a história, e o segredo pode ser resumido em apenas duas palavras: romantismo e fantasia. Na contramão do drama francês do período ou da tradição trágica do país, a obra se amparava em um personagem carismático e romântico. Em lugar da lama das grandes paixões, um romantismo amoroso que via na poesia a expressão máxima – e ao mesmo tempo o artifício mais enganador, já que a bela persoangem Roxanne se apaixona pelas palavras do feio e narigudo Cyrano, mas adequadas ao belo aspecto do colega de regimento estúpido. Há também o aspecto histórico. A França ainda se recuperava da Guerra Franco-Prussiana de 1870, que resultou na perda da região de Alsácia-Lorena. Cyrano era, portanto, um personagem que, mesmo na pobreza, acossado por dívidas, desaprovado pela chamada boa sociedade, ainda tinha a sagacidade de um satirista e a espada de um herói, “mantinha o seu penacho”, como o próprio diz. Uma atitude que obviamente cairia no gosto das platéias, sendo até hoje uma das peças mais montadas na França e fora dela — a última adaptação cinematográfica de vulto foi a estrelada por Gerard Depardieu nos anos 1990 (e cujo pôster ilustar esta página), mas até uma versão modernizada com Steve Martin e Daryl Hannah foi feita nos anos 1980. Ah, sim, e provavelmente também o sucesso se deva ao fato de a peça ser ótima tanto em termos de enredo quanto de qualidade literária. Imagino que a essa altura vocês estejam familiarizados com a história: O bravo Cyrano, dotado de um nariz descomunal, é apaixonado pela prima, Roxana, que, por sua vez, sem saber, pede ao próprio Cyrano que a aproxime do cadete Cristiano, recém-chegado colega de regimento do protagonista. Cyrano, embora desolado, assume a incumbência de aproximar os dois. Mas como Cristiano é um sujeito bonito porém imbecil, é Cyrano quem escreve para Roxana as cartas que ela pensa ser do jovem oficial.

A peça foi composta em versos que rimam em parelhas, com métrica dodecassílaba. Cyrano sempre foi considerado um dos papéis mais difíceis da dramaturgia francesa devido à grande extensão de suas falas. Ele está em cena em 90% do tempo e tem para si 1600 versos, um recorde. É inevitável pensar em todas essas especificidades ao examinar as duas traduções que veremos agora – e que são tão dessemelhantes que em vários momentos parecem duas peças diferentes. A primeira, de 1985, é da José Olympio Editora, com tradução livre de Ferreira Gullar, feita a pedido do diretor teatral Flávio Rangel para uma montagem específica – a imagem da capa é o Antônio Fagundes caracterizado como o personagem. Esse exemplar foi comprado em 1996, por aí, no sebo Beco dos Livros. E conta com a vantagem, que não tivemos até agora na série Tradução e Reação, de trazer um breve texto do tradutor sobre seu trabalho. Gullar escreve, por exemplo:

…Tudo isso decorre da atitude básica que tomei diante da tarefa que me foi solicitada por Flávio Rangel: realizar uma tradução que funcione teatralmente. Seria impossível conseguir esse resultado se me dispusesse a traduzir ipsis literis o texto de Rostand. De fato, a leitura atenta do original francês revela que muitas das falas surgiram, na forma em que estão, por necessidade de adequar-se o autor ao sistema de métrica e rima que escolhera. A peça escrita em prosa teria certamente diálogos bem diversos na maioria das situações vidias pelos personagens. Não seria, portanto, aconselhável, ao fazer a tradução – tendo que enfrentar em português dificuldades semelhantes às que o autor enfrentou em francês – que me submetesse à forma estrita do original.

Depois dessa defesa do autor ao seu trabalho, resta-nos passar ao trecho, retirado da oitava cena do segundo ato, passada na mesa de uma taberna com Cyrano conversando com seu amigo Le Bret:

CYRANO
É uma questão de gosto e de princípio:
acho bonito exagerar assim!
LE BRET
Precisavas ser menos mosqueteiro!
CYRANO
Pois serei mosqueteiro até o fim!
LE BRET
E desprezar a glória e o dinheiro?!
CYRANO
Para manter-me independente, sim!
Ou queres que eu me arranje um protetor
para subir por ele como faz
a parasita, e sem nenhum valor
vencer na vida? Que vitória é essa?
Fazer cada poema dedicado
a um rico burguês, a um grã-senhor?
Não é isso o que eu quero… Obrigado!
Ou devo bajular cada ministro,
transformar-me em bufão condecorado?
Ou, diante de cada olhar sinistro
dos poderosos me prostrar curvado
e submisso? Gostarias disso?

Esse monólogo é maior, mais extenso, ele segue, mas como este post já está ficando imenso, vamos adiante. Como ficará mais claro ao comparar com a segunda tradução, Gullar opta por um esquema de rimas mais solto, não respeitando as parelhas do original, optando por às vezes rimas internas no próprio verso, como /submisso/ e /isso/, na última linha, ou, o mais comum, rimas alternadas, como /obrigado/, /condecorado/ e /curvado/, que rimam verso sim, verso não. Já a segunda edição é de 2003, publicada na encarnação mais recente da coleção de clássicos da literatura da Nova Cultural, com tradução de Fábio M. Alberti (Na verdade, conforme já apontou a tradutora Denise Bottmann nos comentários, o decano Ivo Barroso já denunciou esta versão como uma cópia da consagrada tradução de Carlos Porto Carreiro). Esta versão respeita o esquema de rimas parelhas do original, como podemos ver na transcrição abaixo, do mesmo trecho:

CYRANO
Mas – como princípio e como exemplo – enfim
Considero excelente exagerar assim.
LE BRET
Se amainasses um pouco essa altivez de raça.
A glória, as posições…
CYRANO (interrompendo-o)
Que queres que eu te faça?
Que vá ver um patrono em voga, um protetor
E – como hera servil que em busca de tutor
Lambe a casca do tronco em roda ao qual se torça –
Cresça por manha, em vez de me elevar por força?
Obrigado. Ofertar meus versos a um banqueiro,
Como é vulgar? Fazer do vil patomimeiro
na esperança de ver nos lábios de um ministro,
sorriso que não tenha uns longes de sinistro?
Almoçar cada dia um sapo – e não ter nojo,
Gastar o próprio ventre a caminhar de rojo?
Obrigado…

Como vocês podem ver, o segundo trecho é mais subordinado à necessidade formal e tem até uma pontuação diferente. Os pontos de exclamação que Gullar preserva somem no texto de Fabio Alberti. Gullar também, como já anuncia no texto prévio de que selecionei um texto, inventa versos de sua própria lavra para obter um ritmo adequado, como o caso do “mosqueteiro”, que também some na segunda versão. Logo na primeira linha vemos que Alberti precisou usar o “enfim” para rimar com o seguinte assim, mais ou menos igual ao que está no texto de Gullar. E, além de a maioria das idéias presentes em cada verso ser a mesma, estamos diante de duas composições completamente diversas, como se pode notar ao olhar o original, que transcrevo abaixo:

CYRANO
Mais pour le principe, et pour l’exemple aussi,
Je trouve qu’il est bon d’exagérer ainsi.
LE BRET
Si tu laissais un peu ton âme mousquetaire
La fortune et la gloire…
CYRANO
Et que faudrait-il faire ?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s’en fait un tuteur en lui léchant l’écorce,
Grimper par ruse au lieu de s’élever par force ?
Non, merci. Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers ? se changer en bouffon
Dans l’espoir vil de voir, aux lèvres d’un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre ?
Non, merci. Déjeuner, chaque jour, d’un crapaud ?
Avoir un ventre usé par la marche ? une peau
Qui plus vite, à l’endroit des genoux, devient sale ?
Exécuter des tours de souplesse dorsale ?…
Non, merci. !

Ah, sim, um último e curioso detalhe: o personagem: Savinien Cyrano de Bergerac existiu de verdade (1619 – 1655), foi contemporâneo de Molière, e escreveu um livro intitulado Viagem à Lua, que é citado na peça de Rostand quando o herói precisa atrasar os planos do vilão De Guiche para permitir a Roxana casar-se com o cadete Cristiano. E Viagem à Lua foi publicado este ano aqui no Brasil pela Globo, como vocês podem ver na imagem de capa aí do lado.

Comentários (1)

  • denise bottmann diz: 19 de abril de 2008

    essa tradução do cyrano de bergerac é uma das mais ridículas fraudes cometidas (e já admitidas) pela ed. nova cultural. “fábio m. alberti” na verdade usurpa o nome de carlos porto carreiro, em sua consagradíssima tradução de quase cem atrás.
    ivo barroso foi o primeiro a denunciar o plágio em 2003, na revista agulha.

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